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SPINOZA
Vida, época, filosofia e obras de Benedito Espinosa - Parte I
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Página de Filosofia Moderna |
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Época. Spinoza nasceu em uma família judia, a 24 de novembro de 1632, em Amsterdã, Holanda.(o mesmo ano do nascimento de Locke-1632-1704) e veio a falecer em Haia, em 1677. Seu nome hebreu era Baruch, significando abençoado, e em suas obras publicadas em Latim, Benedictus. Viveu dentro da chamada "Idade de Ouro" da história da Holanda, era de grandeza econômica, política, e cultural, apoiada na expansão comercial, durante a qual a pequena nação do Atlântico Norte ombreou com as mais poderosas e influentes nações da Europa. A qualidade de vida tinha um padrão geral de bem estar marcado pela simplicidade e uma proximidade de nível entre as classes e respeito entre as pessoas que não existiam nos demais países europeus, e isto é importante ressaltar para compreender que Spinoza, seguindo sua própria filosofia, viveu simplesmente, o que na rica Holanda daquela época não significava pobreza e muito menos indigência. Nessa época, além do próprio Spinoza, o filósofo René Descartes viveu e escreveu suas obras na Holanda, por duas décadas. A Idade de Ouro produziu cientistas como o físico Christian Huygens, o matemático Simon Stevin e os microscopistas Antonie van Leeuwenhoek e Jan Swammerdam; na literatura Joost van den Vondel e na pintura De Vermeer, Ruysdael e principalmente Rembrandt van Rijn. E apesar de tanta grandeza, a Idade de Ouro foi também um período de guerras. As províncias unidas dos países baixos, atualmente Bélgica e Holanda, rebelaram-se contra o domínio espanhol e seguiram-se anos de confronto com a Espanha, em que se destacaram como chefes militares holandeses os príncipes de Orange. A Família. A fanília de Spinoza, como o seu nome indica, é originaria da cidade castelhana de Spinoza dos Monteros, na região da cordilheira cantábrica, norte da Espanha. Deixou a Espanha quando o célebre decreto da Alhambra do ano 1492, dos Reis Católicos Fernando e Isabel, proibiu aos judeus a residência no país. Quem não queria o desterro devia aceitar a fé católica. Portugal ofereceu asilo aos emigrados judeus e uma grande parte destes, inclusive a família Spinoza, se estabeleceu lá no mesmo ano de 1492. Mas em 1498, por desejar o monarca português, Dom Manuel o Venturoso, a mão da princesa espanhola, os reis católicos impuseram como condição que Portugal também expulsasse os judeus ou os fizesse batizar. Em conseqüência a família Spinoza se converte forçadamente ao catolicismo em 1498. O pai de Spinoza, Miguel de Spinoza, nasceu cerca de um século depois, na pequena cidade portuguesa de Vidigueira, na cercania de Beja.A condição de cristãos novos no final do século XVI era extremamente perigosa, devido à caprichosa investigação que fazia a Santa Inquisição sobre a autenticidade de sua vida católica. Por esta razão, ou por razão de negócios, a família Spinoza, quando Miguel de Spinoza , o pai do filósofo, era ainda criança, foi conduzida por seu chefe, Isaac de Spinoza, avô do filósofo, de Vidigueira para o importante porto de Nantes, no estuário do rio Loire, noroeste da França. Em Nantes, devido ao Édito de tolerância religiosa de Henrique IV, promulgado em 1598, havia uma colônia marrana bem aceita pelos habitantes predominantemente protestantes. Mas esta não durou muito tempo, pois em 1615 todos os marranos foram expulsos. De lá o velho Isaac de Spinoza se trasladou a Roterdã, onde morre em 1627. Miguel de Spinoza e seu tio Manuel foram para Amsterdã. Talvez porque não fosse prudente ser católico em um país que era oficialmente calvinista e que estava em guerra contra a católica Espanha, Miguel e o tio abraçam o judaísmo, este último assumindo o nome de Abraão de Spinoza, embora continuasse sua atividade comercial sob o nome cristão de Manuel Rodrigues. Miguel de Spinoza se casou três vezes. Sua primeira
mulher, Raquel, morreu em 1627 deixando-lhe uma filha chamada Rebeca. No ano seguinte,
se casa com Ana Débora, mãe de Spinoza e de mais três filhos, Miriam, Isaac, e Gabriel.
Sabemos pouco da mãe de Spinoza, senão que padecia de tuberculose e que morreu em 5 de
novembro de 1638, quando Baruch tinha seis anos de idade. Casou pela terceira vez com
sua prima Ester de Spinoza, de Lisboa, e esta é quem cuida da educação de seus filhos.
Ester morreu em 1652, dois anos antes que seu esposo, que falece o 28 de março de 1654. Estudos . A educação recebida por Baruch é a de um jovem judeu de família de posses e isto incluía o estudo fundamental do hebreu, e o conhecimento minucioso da Bíblia Sagrada. Supõe-se que Spinoza estivesse entre os primeiros a freqüentar a escola "Árvore da vida", criada em Amsterdã em 1637 para iniciar no judaísmo aos jovens da comunidade. Em 1638 essa Escola foi confiada a Manasseh ben Israel , um rabino sefardin de cultura humanista, que influiria muito sobre a formação de Spinoza. O ensino que ministravam os rabinos estava dividido em sete classes, que abarcavam desde os fundamentos do idioma até as culminâncias do Talmud; de modo que as últimas classes só se ministravam aos maiores de treze anos que desejassem tornar-se rabinos. Os que não tinham vocação religiosa, como foi o caso de Baruch, podiam aperfeiçoar sua educação religiosa, filosófica e mística na "A academia da coroa da lei" (Kether Thora), criada em 1643 por outro rabino, Morteira, um radical ortodoxo Askenazi, cujo espírito radical terminou por dominar tanto na escola talmúdica "Árvore da vida" como na "Academia da coroa da Lei" que Spinoza também freqüentou. Os estudos superiores compreendiam a obra do filósofo judeu-espanhol Jasdai Crescas e vários ensaios que ensejavam debates, entre eles os "Diálogos do amor" do filósofo renascentista judeu, León Hebreu. Este, do platonismo renovado pelo Renascimento, faz a combinação do conceito de uma razão universal com a teoria das idéias de Platão da qual extrai uma concepção do mundo baseada no amor como força cósmica, e de onde Spinoza desenvolverá sua teoria da razão infinita e das essências.É igualmente importante a cultura que Spinoza adquiriu com o ex-padre jesuíta Francis van den Enden, estudioso da filosofia clássica, poeta e dramaturgo, e que abriu uma escola para crianças em Amsterdã. Spinoza foi professor em sua escola e com ele aprendeu ciências naturais (física, mecânica, química, astronomia e fisiologia), latim, grego, e a filosofia de Descartes, alem da filosofia neo-escolástica. Van den Enden fazia seus discípulos representarem as comedias latinas. A ele, com certeza, Spinoza deve seu conhecimento profundo do latim, língua em que escreveu sua obra. Van den Enden tinha uma filha, Clara Maria, nascida em 1644 a qual, ainda menina, falava tão bem o latim que, com freqüência, substituía ao pai em suas aulas. Parece que Spinoza a apreciava muito pela sua inteligência e precoce erudição e, mais tarde, segundo seu biógrafo Colerus, se enamorou dela e até quis desposá-la. Clara Maria porém se casou com um condiscípulo de Spinoza, o médico Dirck Kerckrinck, de Hamburgo, que, de acordo com o mesmo Colerus, havia conquistado seu favor com um valioso presente e que se converteu ao catolicismo a seu pedido. Como matemático Spinoza realizou observações e cálculos sobre o arco-íris, e ocupou-se do cálculo de probabilidades, recém descoberto por Johan de Witt e outros. A caminho da maturidade seu interesse intelectual conduziu-o a uma cultura científica e médica que em todos os terrenos o coloca à altura de seu tempo. Como parte dos estudos de física, tal como todos os sábios de então, inclusive Leibniz e Christian Huygens, polia ele mesmo suas lentes. Sabe-se que suas lentes eram de grande perfeição, seja pela precisão de seu cálculo matemático, seja por sua habilidade manual, e é provável que tenha aceito pedidos de amigos para prepará-las. No ano de 1650 falece Guilherme II, Conde de Nassau e Príncipe de Orange, chefe dos Estados Gerais e também Descartes que, tendo deixado a Holanda para viver na corte da Rainha Cristina, falece aquele ano na Suécia. Em 1654 faleceu Miguel de Spinoza. Ceticismo de Spinoza . O jovem Spinoza, aos vinte anos de idade, começa a levantar suspeitas quanto ao que ensinava e discutia de religião. Seu ceticismo manifesto não é estranho aos jovens das famílias de cristãos novos reconvertidos ao judaísmo. Nem é difícil entender a origem desse ceticismo no próprio espírito marrano. Entre os que foram para Amsterdã, muitos desejavam voltar a ser livremente judeus, porém outros vacilaram em aceitar a fé judaica, continuando católicos. Outros ainda, desejam voltar ao judaísmo, mas não encontram lá a mesma tradição judaica de Portugal e Espanha, a grande tradição do judaísmo sefardim, representada por Maimónides. Um exemplo é o caso de Uriel da Costa, membro de uma família de cristãos-novos rigorosamente católicos, e que chega em Amsterdã, por volta de 1612. Havia recebido já os hábitos sacerdotais quando se converte ao judaísmo de seus ancestrais. Porém o judaísmo ashkenasi holandês, sistemático e fanaticamente ortodoxo, não o satisfaz, e vive um drama que o leva ao suicídio. Em geral a comunidade portuguesa de Amsterdã, unida pelo idioma e a procedência, se considera a si mesma como uma nação; está constituída por um mundo de altos comerciantes para quem a religião não é um problema fundamental. Si aderem ao judaísmo é porque em um Estado fundado pelos calvinistas se sentem mais seguros assim que sendo católicos, e não têm necessidade de se fazerem calvinistas.O estudo da Bíblia levou Spinoza às obras dos comentadores judeus e entre estes aprendeu a estimar, em primeiro lugar, a Abraham ibn Ezra quem deve ter-lhe despertado as primeiras dúvidas sobre a unidade do Pentateuco, o que pode tê-lo movido ao exame crítico das Escrituras. Também Gersonides, ao assinalar as discrepâncias da cronologia bíblica. Em Maimónides, que reúne, como escolástico judeu, a Bíblia e a concepção aristotélica do mundo, encontra talvez Spinoza sua maior inspiração humanista e anti-ortodoxa. No grupo de autores judeus que Spinoza chegou a estudar na comunidade de Amsterdã, pertence também Abraham Herrera, que em seu "Porta do céu" une em forma original a mística do neoplatonismo com as especulações da Cabala. Outra grande influência sobre Spinoza é a do médico Juan (Daniel) de Prado, que com ele será expulso da comunidade; este exerce sobre Spinoza uma influencia maior e mais imediata. Aceita um naturalismo puro enquanto nega a verdade da Escritura e do Deus nela revelado, para substitui-lo por um Deus-Natureza que se manifesta nas leis naturais. Para o ceticismo de Spinoza contribuíram igualmente as disputas dentro da própria comunidade judaica de Amsterdã, dividida na oposição pessoal dos dois rabinos principais, os citados Manasseh ben Israel e Saúl Levi Morteira. O primeiro, sefardim nascido em Lisboa, é humanista, e o segundo, Morteira, nascido em Veneza, é aschkenasi, um fanático radical. A oposição dos dois rabinos determina conflitos dramáticos. Manasseh ben Israel busca uma sínteses do judaísmo com o humanismo e goza de mais alto conceito entre os intelectuais holandeses. Morteira, ao contrário, quer um judaísmo voluntariamente segregado, a forma religiosa estreita dos judeus orientais ou aschkenasis, dominada pela Cabala, a teologia emanatista medieval, carregada de profundo sentido místico penetrado de superstições pueris. Seu livro "Providência de Deus com Israel" (ou "Esperança de Israel"), devido à orientação fanática anticristã, não teve permissão para publicação mas cópias circularam na comunidade e, graças a ele, Morteira triunfa sobre seu adversário: o espírito do judaísmo aschkenasi domina na comunidade judaica de Amsterdã, uma fórmula religiosa do século XV em desacordo com o espírito científico do século XVII. Os judeus que, portadores da tradição humanista portuguesa, eram socialmente integrados e viviam em palácios, viram-se constrangidos por uma religião de gueto, potencialmente criadora de profundos conflitos. O que a todos comentaristas de Spinoza parece, é que, em um mundo de tantas tendências variadas e algo contraditórias, ele teve que buscar uma solução própria. Não seguiu a Morteira, como toda a comunidade, pela senda do judaísmo aschkenasi, nem tão-pouco aceitou a linha de Manasseh. Expulsão da Comunidade Judaica. Spinoza logo incorreu na desaprovação das autoridades da sinagoga, por suas afirmações junto aos rabinos, como a de que não havia nada na Bíblia afirmando que Deus não possuía um corpo físico, que os anjos realmente existissem como espíritos sem corpo, ou que a alma humana fosse imortal fora do corpo. Porém, depois daquelas afirmações, o acusaram de ateísmo ante a comunidade e foi instaurada a correspondente devassa. Spinoza foi convidado a comparecer ante Morteira, e frente à ameaça de excomunhão, teve uma atitude arrogante. Declarou que já havia desejado romper com a Sinagoga, mas evitara fazê-lo para não provocar um escândalo. Frente à acusação, dirigiu aos rabinos um escrito em que reafirma suas convicções. Deve ser desta ocasião, em 1655, a preparação por Spinoza do seu Tractatus de Deo et homine et jusque felicitate, em que se defende explicando seus pontos de vista. A congregação não teve alternativa senão aplicar-lhe a excomunhão. O texto da excomunhão de Spinoza, publicado o 27 de julho de 1656, diz ao final: "Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste nenhum favor, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia nada escrito ou transcrito por ele". Até que ponto havia chegado a rejeição a Spinoza pelos fanáticos da comunidade mostra o atentado que o vitimou: uma noite, alguém tentou apunhalá-lo no caminho de sua casa, quando voltava da Sinagoga. Conseguiu esquivar-se ao golpe do punhal que apenas rasgou sua casaca.A vida de Spinoza fatalmente sofreria uma mudança quando ele se afastou do judaísmo. Estava então, juntamente com seu irmão Gabriel, à frente do negócio deixado por seu pai quando este faleceu em 1654. Tratava-se de um comercio de importação e exportação, uma tradição de negócio que vinha de Portugal, onde as transações ultramarinas estavam quase inteiramente em mãos dos marranos portugueses. Essa prática comercial envolvia vultosas operações bancárias e importantes contratos de seguros entre os judeus. Porém o negócio de Miguel d'Spinoza havia decaído muito nos últimos anos de sua vida, correspondentes ao período em que a guerra entre Inglaterra e Holanda havia prejudicado o comercio com o exterior. Esta dificuldade e principalmente o peso de sua condenação levaram Spinoza a renunciar à profissão mercantil. Seus biógrafos acreditam que se dedicou à medicina, pois em seus escritos mostra profundos conhecimentos médicos, e sua biblioteca contem todas as obras de medicina teórica e prática necessárias ao médico em aquela época. Até uma carta de Leibniz está dirigida ao "Médecin tres célebre et philosophe tres profonde". Com estes estudos médicos, estão relacionados seguramente seus conhecimentos químicos. Quando aconselha De Vries no planejamento de seus estudos de medicina, lhe recomenda que estudasse primeiro anatomia e depois química. Seus estudos químicos são os que lhe permitem manter com o grande químico Roberto Boyle uma correspondência científica, baseada em experimentos próprios, acerca da natureza do salitre. Além do negócio, seu pai deixou um legado que foi objeto de contenda entre Spinoza e uma meia irmã. Os parentes tentaram então excluir a Spinoza da herança, pretextando, tal vez, sua apostasia, pois segundo a lei judaica é permitido deserdar ao que ha desertado do judaísmo. Para defender seus interesses frente aos credores de seu pai, se lhe designou um tutor o 23 de março de 1656. (Em Holanda a maioridade de começava então aos 25 anos). Embora tenha ganho a causa na justiça, Spinoza deixou para ela praticamente tudo. Quando teve lugar a repartição de bens, solo se ficou com uma cama e sua correspondente cortina para seu uso pessoal. Com essa injustiça, o distanciamento de sua família foi definitivo. Os colegiantes. Depois de sua voluntária ruptura com o judaísmo, Spinoza se liga a uma irmandade ecumênica leiga, de pessoas das mais diversas comunidades religiosas que se reuniam para ler e interpretar a Bíblia. Sequer a condição de ser cristão era exigida. Conhecidas como os colegiantes, faziam da Bíblia o centro de sua vida religiosa, e certamente estimaram muito a entrada de Spinoza, por seus profundos conhecimentos bíblicos.O primeiro de seus amigos do círculo dos colegiantes foi o rico comerciante Jarig Jelles, o qual havia abandonado seu negócio em mãos de um gerente de confiança a fim de viver em retiro silencioso para meditar. Jelles empregava fundos em mandar traduzir obras filosóficas, entre as quais as obras de Descartes, de quem era admirador. Fez traduzir o pensamento estóico de Séneca e inclusive a Homero e ao Corão. Deve ter se alegrado em receber Spinoza no grupo, pois seus pensamentos se afinavam, tanto quanto ao interesse pela filosofia de Descartes quanto por suas posições religiosas em comum. Fixou uma pensão para que Spinoza pudesse ocupar-se exclusivamente de escrever e financiou a publicação de seus livros e, após a morte do filósofo, mandou cuidadosamente, junto com outros amigos de Spinoza, editar em latim e holandês suas obras. O outro amigo, colegiante como Jelles, foi Pedro Balling, também comerciante e cujos negócios o levavam por toda Península Ibérica, donde a possível base de sua amizade com Spinoza ser o fato de poder conversar com o filósofo na língua materna de sua família. Inteligente e conhecer do grego e do latim, foi quem traduziu para o holandês os primeiros escritos de Spinoza. Um terceiro amigo, mais jovem e também colegiante, foi o citado Simón de Vries. Filho de um próspero comerciante pretendia ser médico contando para isto com a orientação de Spinoza. Juntamente com os demais amigos, de Vries funda, em Amsterdã, uma agremiação para estudar e discutir a filosofia de Spinoza, com a assistência do próprio filósofo. Era mais moço que Spinoza, porém falece em l 667. De Vries ofereceu a Spinoza a soma de dois mil guldens para que pudesse viver mais folgadamente, mas o filósofo recusou a oferta, alegando que em absoluto necessitava daquela quantia, que poderia inclusive levá-lo a distrair-se de seu trabalho e de suas pesquisas. De Vries, que veio a falecer solteiro, também quis fazer de Spinoza seu único herdeiro, quando o filósofo exigiu dele que deixasse sua fortuna para seu irmão Isaac de Vries, seu herdeiro legal, que vivia em Schiedam. Vries obedeceu, porém com a condição de que Isaac pagasse a Spinoza uma pensão vitalícia. Cumprindo essa condição, Isaac de Vries fixou a pensão em quinhentos guldens, porém Spinoza o fez reduzi-la a apenas trezentos. Alguns colegiantes amigos de Spinoza foram políticos importantes. Conrado van Beuningen, foi prefeito de Amsterdã e embaixador na França e na Suécia. Mandou publicar as obras do filósofo alemão Jacobo Boehme e aceitou a concepção de Deus postulada por Spinoza. Outro foi Conrado Burgh, ministro das finanças. Um terceiro político foi Nicolás Tulp, cunhado de Burgh, médico e também prefeito de Amsterdã, famoso pelo retrato feito por Rembrandt de uma de suas aulas de anatomia; e também ainda outro prefeito de Amsterdã, conhecido por seus trabalhos de óptica, Juan Hudde, com quem Spinoza manteve correspondência filosófica sobre o problema da unidade de Deus. Por último, pertenceu ao mesmo círculo Juan Rieuwertsz, o editor da maior parte dos livres-pensadores que procuravam editores holandeses, e que editou toda a obra de Spinoza. Rubem Queiroz Cobra Aberta em 26/06/98 |