Boas Maneiras e a Filosofia

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Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

Porque Boas Maneiras é parte da Filosofia. A Ética, considerada classicamente uma das divisões da Filosofia; é, hierarquicamente, a primeira disciplina filosófica quando o agir humano é considerado. O comportamento ético é aquele digno dos atributos transcendentais da natureza humana, ou seja, o comportamento que é condizente com sua racionalidade. A Ética se vincula à Antropologia Filosófica, que trata dos valores humanos e do compromisso do indivíduo e da sociedade com esses valores.

Abaixo da Ética, está a Moral, mas neste nível eu coloco também a “Civilidade”. A primeira diz respeito à liberdade, à justiça. A segunda prescreve o que se deve fazer em prol da convivência produtiva e prazerosa entre os cidadãos.

Aristóteles. Encontramos em Aristóteles que o homem é um ser racional e o uso de sua racionalidade lhe faz entender que ele transcende a pura animalidade e que o seu comportamento deve espelhar essa transcendência. A atuação própria do ser humano, e portanto a sua excelência moral, reside na “vida ativa do seu elemento racional” diz ele (Liv. I; Cap. 7 da Ética a Nicômaco). Ainda segundo ele, uma preocupação moral importante é a de encontrar o razoável, o que é racional, entre a falta e o excesso em todas as ações. Obedecer a esses ditames corresponde, em linhas gerais, a praticar as virtudes nomeadas por Platão, a Temperança, a Fortaleza, a Sabedoria e a Justiça.

Mas o próprio Aristóteles lamenta que falte à humanidade o cumprimento desse dever e diz em sua Ética “A humanidade em massa se assemelha totalmente aos escravos, preferindo uma vida comparável à dos animais”.

Os tomistas (seguidores de São Tomás de Aquino e de Aristóteles) mantêm que o indivíduo pode escolher racionalmente o melhor comportamento para uma dada circunstância e praticá-lo, e que é dever ético seguir a razão em busca da perfeição.

Civilidade. Passei a considerar Civilidade uma disciplina que, derivada da Ética, estuda e propõe princípios que regerão o convívio social do homem, para que seja uma convivência responsável e aprazível a partir de sentimentos de respeito e prazer em conviver. Como dito acima, coloco Civilidade no mesmo patamar da Moral. Ambas criam seus princípios a partir dos princípios gerais da Ética, e estão filiadas a ela.

Uma vez que pertencem à Ética, ambas, tanto a Moral quanto a Civilidade, têm em comum dizer o que é certo ou errado no comportamento das pessoas. Mas os seus campos são diferentes, porque o certo e o errado em relação a sentimentos não é a mesma coisa que o certo e o errado quanto à propriedade e à justiça no campo moral. Enquanto a Moral tem o seu código de Leis a serem obedecidas, Civilidade tem apenas princípios que a Ética aprova mas a eles não obriga. O homem que obedece as leis morais é uma “pessoa virtuosa” e o que obedece aos princípios da Civilidade é uma “pessoa educada”, preocupada em viver bem e fazer os outros felizes.

Civilidade é, portanto, o emprego dos princípios da Ética em um campo diferente da conduta moral, podemos dizer que é um campo “a moral”, o que significa “não pertencente à Moral”, nem a contraria. Por isso, chamar Civilidade ou Boas Maneiras de Moral Menor, como faz David Hume, não me parece satisfatório, porque não chega a dar a essas disciplinas a autonomia que evidentemente têm em relação à Moral, sem deixarem de pertencer à Ética.

A Civilidade alcança boa parte dos seus objetivos por meio de Boas Maneiras e das outras disciplinas a ela vinculadas, principalmente a Etiqueta, disciplina que atribuo à área das Artes, porque indica técnicas e condições para a eficácia no reconhecimento social.

A abrangência do termo Civilidade é vasta, e o seu significado às vezes confuso. Por isso acho necessário tentar dirimir alguns equívocos.

Acredito que o maior problema com o significado do termo Civilidade é ser frequentemente confundido com Moral Social. Contribui para tanto o fato de que um preceito de Civilidade, quando é muito desrespeitado, pode ser transformado em Lei, passando sua obediência a ser obrigação moral de todos os cidadãos. Por exemplo: – Votar é um princípio de civilidade a ser respeitado conscientemente e de boa vontade por todo bom cidadão. Mas, se este negligencia votar, o voto pode tornar-se obrigatório por Lei, e então passará para a esfera da obrigação Moral, e deixará de ser meritório. Abster-se de votar passa a ser uma falta contra a Moral Social que poderá ser castigada, não propriamente devido ao indivíduo não votar, mas por deixar de cumprir uma Lei. A transformação de princípios de civilidade em determinações legais da Moral Social é tão maior quanto menos educada é a população. Vários outros exemplos existem de princípios de civilidade que passaram a ser cláusulas da Lei, como a consideração com as pessoas idosas ou portadoras de deficiências, o preconceito contra minorias, o bullying, a agressão às mulheres e o assedio delas no transporte coletivo, etc. Quanto maior o desrespeito aos princípios da Civilidade, maior o número das leis necessárias para evitar que a sociedade se torne selvagem.

Razão e Paixão. O porquê de as pessoas se sentirem inclinadas a comportamentos que possam enobrecê-las, como praticar o respeito ao outro, e porque a sociedade louva os que seguem essa inclinação tornou-se uma questão para alguns filósofos. A divergência entre eles surgiu da argumentação dos empiristas de que esses comportamentos não seriam racionais e pertenceriam, antes, a uma Psicologia dos Sentimentos. Então, antes de nos ocuparmos do lugar da disciplina Boas Maneiras na Filosofia, temos que encarar primeiramente essa questão controversa entre razão e paixão.

Oposição de Hume e de Hutcheston a Aristóteles. Na Época Moderna, os filósofos empiristas-utilitaristas contestaram a Ética racional, argumentando que era evidente que sua base era a emoção e os sentimentos.

Francis Hutcheson (1694-1746), filósofo escocês de origem irlandesa, autor de De naturali homini socialitate (“Da sociabilidade natural do homem”), de 1730, sustenta que existe um sentido moral (sensibilidade natural, instintual, faculdade moral inata) e que uma ação pode ser agradável ou desagradável a esse sentido e, portanto, o juízo moral não pode estar baseado na razão mas depende dessa sensibilidade moral do sujeito. Isto levou-o a afirmar que a melhor ação é aquela que resulta em maior felicidade para o maior número possível de pessoas, aforismo que se tornou o moto básico da corrente utilitarista.

David Hume (1711-1776), acima citado, talvez o único filósofo moderno a ocupar-se especificamente de Boas Maneiras, sustentava, assim como Hutcheson, que a razão não pode ser a base da moralidade. Ele mantém, como seus predecessores, Boas Maneiras como parte da Moral, porém de uma “moral menor”. Segundo sua concepção, que é também utilitarista, Boas Maneiras, e inclusive as regras de Etiqueta, foram criadas para reduzir o conflito entre pessoas e tornar a vida mais fácil.

A conciliação das duas correntes. Hume e Hutcheson, dois poderosos pensadores modernos – principalmente o primeiro –, não poderiam ser postos de lado por divergirem de Aristóteles quanto à racionalidade. Os três estão certos, se consideramos o homem como um ser não apenas racional, mas dotado de outros predicados, incluída a sentimentalidade. Essa postulação, eu penso, concilia as duas correntes.

Para entender qual o papel da sentimentalidade, comecemos pela descoberta feita por um biólogo suíço que estudava passarinhos, e depois passou a estudar crianças, Jean-Piaget.

Matrizes associativas. Piaget mostrou que o próprio pensamento lógico, fundamento da razão, dependia de estruturas biológicas hereditárias, que se ampliavam nos primeiros anos de vida da criança. Seu ponto de vista é precisamente este de que a organização perceptual é fisicamente inata, sendo inerente a matrizes associativas genéticas que promovem o pensamento, e cujo núcleo primitivo amadurece pela assimilação de experiências.

Sentimentos e Emoções. As descobertas da neurofisiologia na primeira metade da década de 1980 confirmaram as descobertas de Piaget como válidas para todo o sistema associativo, ou seja que as ligações entre os neurônios – unidos pelas suas sinapses, é que nos dão a associação entre conceitos, e nos levam de uma ideia a outra, permitindo a articulação do pensamento. A mais, constataram um outro fato de igual importância: a presença de uma química especial na fisiologia dessas ligações. E eu cogito – em em meus livros Emotional Man e Filosofia do Espírito (*) – que essa química presente no processo associativo, própria de cada tipo de configuração associativa, é que dá ao sistema a capacidade de gerar os sentimentos que fundamentam nossas emoções em sintonia com nossos pensamentos.

Como consequência, todo conhecimento leva a um sentimento que fundamenta uma emoção, a qual, não sendo intensa e paralisante, conduz a uma ação ou a um raciocínio, aos quais a Vontade pode impor que sejam racionais, e portanto éticos. Cabe à Ética a análise desses impulsos emocionais naturais, enraizados em matrizes genéticas de poder, geradoras da emoção natural de amor próprio e do egoísmo. Sem ela os comportamentos do homem seriam sempre primitivos, cruéis ou apaixonados por todos os vícios.

Então, por sua racionalidade o homem descobre o valor do comportamento ético, capaz de distingui-lo como um ente especial, e além do seu próprio valor, também o valor dos demais. Este conhecimento é assimilado em seu sistema associativo, e leva-o a uma emoção de natureza diferente da primitiva, a emoção de auto estima e de respeito à auto estima do outro.

Isto considerado, torna-se bastante óbvio que, apesar de conflitantes, os pensamentos de Hume, Hutcheston e Aristóteles, são convergentes. Os dois primeiros reconhecem apenas impulsos naturais egoístas, nascidos do núcleo de uma matriz instintual genética com o seu viés utilitário e indigno que leva à depravação, enquanto Aristóteles – por advertir que o homem é um ser racional e deve viver de acordo com as regras da razão, e lamentar que a humanidade em peso prefira uma vida comparável à dos animais – fala de uma emoção de autoestima que provem da mesma matriz primitiva porém após esta ser enriquecida por uma educação conforme o pensamento ético.

A auto estima do outro é respeitada quando ele é reconhecido em tudo aquilo a que empresta valor e fundamenta sua própria autoestima.

Boas Maneiras é parte da Filosofia. A minha primeira abordagem a respeito de que Boas Maneiras constitui uma área do conhecimento, e forma, consequentemente, uma disciplina, foi em meu livro Boas Maneiras, Etiqueta e Cerimonial: suas definições e seu lugar na Filosofia (**). Porém é uma disciplina prática, ou seja, coloca em exercício certos princípios recebidos de uma disciplina teórica, a Civilidade.

Após o que está dito acima, podemos considerar, de modo prático, o agir bem que se inscreve na área das Boas Maneiras como motivado por um sentimento de auto estima alimentado por comportamentos considerados enobrecedores.

Como visto, não é aquele modo rigoroso de agir que pede a Filosofia Moral (que trata do que é justo, que decide e aponta o que é condenável e o que é perdoável), porém compreende o estudo e a prática das manifestações de respeito social e dos modos de ampliar e dar qualidade a essas manifestações por meio de certos procedimentos e observâncias.

Me parece então que posso definir Boas Maneiras como a disciplina cujo objeto é a racionalidade, a maturidade e a dignidade nas expressões de respeito e estimulação ao sentimento de autoestima próprio e do outro na vida particular e no trato social. Seu método é a proposição de normas racionais e de consenso social para esse reconhecimento e estimulação.

Ao seguir as normas de Boas Maneiras o sujeito não é movido por um dever moral, ou por interesses. Como tais atitudes são voluntárias, encontramos seu motor no prazer em abraçar uma atitude digna da condição humana conforme ensina a Ética (superação dos instintos primitivos do homem), e seguir os preceitos apontados pela Civilidade (cooperação e mútuo entendimento, amizade, generosidade e respeito como condição de vida social prazerosa e feliz, nos vários episódios possíveis do relacionamento social tais como os modos respeitosos de saudar, à necessidade de retribuir provas de consideração, ao comportamento em lugares públicos e no clube,às precedências por idade e situação social, ao dever de agradecer serviços gratuitos recebidos, etc.

Portanto, não é porque tem seu fundamento em sentimentos que Boas Maneiras haverá de perder sua origem no pensamento ético-racional. O conhecimento gera sentimentos e quando os gera bons – consideradores e altruístas –, afasta os maus – egoístas e utilitários.

Relação entre as Disciplinas. O quadro mostra a hierarquia entre as disciplina vinculadas a Boas Maneiras, e a subordinação desta a Civilidade, que está por sua vez subordinada à Ética. As disciplinas vinculadas estão brevemente definidas na página Cerimonial, Protocolo, Etiqueta e Boas Maneiras – Definições.

O que não é Boas Maneiras.

O Chic (ou chique) – que se mascara de Boas Maneiras e Etiqueta – é uma perversão, por não derivar dos princípios da Civilidade ou da Ética.

Certos comportamentos utilitários, não éticos, nada têm a ver com Boas Maneiras, como, por exemplo, usar a Psicologia para bem conviver com alguém; praticar a consideração por um imperativo religioso, dividir as tarefas da casa para sua boa administração, e outras formas de utilitarismo.

Sinônimos de Boas Maneiras.

São, em geral, tidos por sinônimos de Boa Maneiras : polidez, boa educação, bom tom, “modos” e “bons modos”, como em “faltam-lhe modos!”; graciosidade; cavalheirismo; galanteio; urbanidade, etc.

Pedagogia.

Erasmo. A Enciclopédia Larousse (1926) informa, sob o verbete Civilité, que Erasmo de Roterdã, notável intelectual holandês do século XVI, se preocupava em fazer que seus educandos assimilassem desde criança normas fundamentais de Boas Maneiras. Ele escreveu, para o jovem príncipe Henrique de Borgonha, filho de Adolfo, príncipe de Veere, na Holanda, o De civilitate morum puerilium (Da civilidade dos costumes das crianças), um pequeno livro de Boas Maneiras publicado em 1530, muito procurado e lido na Época Moderna. Está dividido em sete capítulos: Da descência e da Indescência das atitudes; Da vestimenta, Da maneira de se comportar numa igreja, Das refeições, Dos encontros, e Dos jogos. Essa obra foi, segundo a Larousse, imitada ainda no século XVI por Mathurin Cordier (1479-1564), professor no Collège de la Marche, em Paris, autor de Colloquiorum scholasticorum libri quatuor ad pueros… publicado em 1564, e no século XVIII, por Jean-Baptiste de La Salle (1651-1719), reformador educacional e considerado pai da pedagogia moderna, fundador da ordem dos irmãos das Escolas Cristãs (Lassalistas) e autor de Les Regles de la bienseance et de la civilité chretienne publicado em Rou

Um estudo para todos. Ter boas maneiras, ou observar as normas de Boas Maneiras, não é privilégio de ricos.Na verdade esses nem sabem o que é tal disciplina, porque o que conhecem é o que é chic. O quanto estes costumam ser impacientes, prepotentes, atrevidos e ríspidos, podem dizer aqueles que os servem ou tentam fazer simplesmente que respeitem as normas de qualquer serviço ou a própria Lei. É um fato ilustrado em recente testemunho das empresas aéreas, dado a uma revista brasileira de grande circulação (Vexame no ar, por Flávia Varella. Rev. Veja, Ed. 1708, p.88-89), de que os incidentes a bordo, em que os seus empregados são agredidos, ocorrem em sua maioria no compartimento da primeira classe, onde viajam os poucos passageiros ricos, e não no compartimento da classe econômica, onde viaja a multidão dos passageiros menos abastados.

Portanto, ainda que seja pobre ou de pouca instrução regular, uma pessoa pode andar ou sentar-se com dignidade, cobrir o corpo com decência, manter-se limpa e penteada, comer e beber com gestos educados; pode cultivar hábitos discretos no rir, no saudar e no conversar, ser pontual, agradecer favores ou prestá-los em toda oportunidade, e procurar enfim, todos os meios de mostrar pelo o outro o mesmo respeito que deve desenvolver em relação a si própria.

A idade também não conta e bem cedo, ainda no ensino pré-primário, o indivíduo deve receber as primeiras lições de bom comportamento e esta precocidade é fundamental para que adquira hábitos de agir assim para toda sua vida.

Seria a meu ver ideal que o acesso ao conhecimento de Boas Maneiras se desse na Escola, através de uma atividade compreendendo palestras, Teatro Pedagógico, visitas educativas, redação de textos, ou que outros recursos possa utilizar o Orientador Educacional para o seu ensino.

Um instrumento educativo importante pode ser o Baile de Debutantes, cujo projeto inclui várias atividades práticas das quais as jovens adolescentes tiram lições para sua vida adulta. Também o Teatro Pedagógico, ou Teatro Educativo, é um instrumento tradicional da pedagogia.

Restam ainda as leituras, a observação atenta dos eventos e do comportamento dos demais quando se está em boa companhia, e a prática progressiva, no próprio lar.

NOTA: A concordância verbal observada para “Boas Maneiras” é a da regra gramatical relativa ao sujeito simples, quando formado por nome próprio que só tem plural. Se este não é precedido de artigo, o verbo ficará no singular. Ex: Minas Gerais possui grandes jazidas de ferro (Novíssima Gramática da Língua Portugesa, Domingos Paschoal Cegalla, 24ª edição. Comp. Ed. Nacional, São Paulo, 1984). Assim também “Boas Maneiras é uma disciplina”. R. Q. Cobra.

(*) Emotional Man and His Thematic Behavior (Ed. Tesaurus, Brasília, 1985, 84 p.); Filosofia do Espírito (Gráfica Valci Editora, Brasília, 1997, 112 p).

(**) Boas Maneiras, Etiqueta e Cerimonial: suas definições e seu lugar na Filosofia (Ed. Valci/GV Formulários, Brasília, 2002, 64 p.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 09-06-2009.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Boas-maneiras e a Filosofia. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2009.