Farias Brito

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Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
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Segundo seu biógrafo Jônathas Serrano, o filósofo Raimundo de Farias Brito nasceu na atual cidade de São Benedito, então um povoado, na serra da Ibiapaba, Ceará, em 24 de julho de 1862 (data fixada em pesquisa feita pelo próprio Jônathas). Foi batizado a 3 de dezembro do mesmo ano na capela de São Benedito, filial da Matriz de Nossa Senhora da Assumpção da Vila de Viçosa (Jônathas Serrano se equivoca interpretando “10bro”. da certidão como “outubro”, apesar de ele mesmo mostrar a certidão de casamento dos pais de Farias Brito onde se vê “8bro”, que equivale a “outubro”, assim como também “9bro” era a abreviatura de “novembro”, e portanto “10bro” seria dezembro, e não outubro. Tão longo prazo entre o nascimento e o batismo se explica, talvez, por não terem as capelas um sacerdote permanente, e com frequência dependerem da visita de um padre coadjutor (como consta da certidão de batismo) ou de “missões”, quando a localidade era visitada por um ou vários padres que ouviam as confissões e realizavam em conjunto vários casamentos e batizados.

O pai, Marcolino José de Brito, natural de Sobral, e a mãe, Dona Eugênia Alves Ferreira, natural de Serra dos Cocos, eram gente humilde habituada à lide do campo. Quando Raimundo contava apenas três anos, sua família transferiu-se para um sítio chamado Alagoinha, a cinco léguas de Ipú, onde moravam parentes de sua.mãe. De lá muda-se, em 1870, para Sobral, onde a família abre uma pequena quitanda e Raimundo fez seus estudos primários, matriculando-se depois no Ginásio Sobralense onde se destaca no estudo de francês, latim e matemática.. De volta a Alagoinha em fins de 1976, ao que parece pela impossibilidade de se sustentar em Sobral, a família perdeu quanto possuía por causa da seca de 1877. No ano seguinte a família emigra para Fortaleza, a pé, levando num burrico os trastes que ainda possuía. Na capital cearense Raimundo cursou os estudos secundários no Liceu Cearense, e conseguia algum dinheiro ministrando aulas de matemática. Concluiu seus estudos em 1880 e, no ano seguinte, contando Farias Brito 18 anos, a família, mudou-se para Pernambuco. Diz ainda Jônathas Serrano que essa viagem foi custeada com a venda das últimas pequeninas joias de ouro que ainda restavam a Dona Eugênia, a mãe do filósofo.

Em Recife o pai conseguiu com o conterrâneo padre diretor do Ginásio Pernambucano o emprego de porteiro do estabelecimento. A mãe fornecia refeições a estudantes e engomava roupa, e um irmão trabalhava em uma charutaria.

De 1881 a 1884, Farias Brito cursou a Faculdade de Direito, que, desde 1,854 funcionava no velho prédio da rua do Hospício, onde se conservou até 1882. Farias Brito teve ensejo de assistir, durante o seu curso, à mudança para o prédio da Praça então chamada Pedro II, hoje Dezessete, no Bairro de Santo Antônio. Nesse último endereço permaneceu até 1912.)

Em 1879, havia sido instituído o ensino livre nas faculdades de Direito, isto é, abolida a obrigatoriedade da frequência dos alunos e admitida a prestação de exames feitos por matérias. Este novo regime certamente facilitou os estudos de Farias Brito, que lecionava matemática em alguns colégios, como já o fizera em Fortaleza. Na Faculdade de Direito, foi um de seus alunos mais distintos e lá conheceu o influente Tobias Barreto, o líder da corrente que na filosofia no Brasil ficou conhecida como a “Escola do Recife”, e que no segundo e no terceiro ano de seu curso fez parte da banca que o examinou.

Colado o grau em 1884, Farias Brito obteve, quando ainda no Recife, uma nomeação de promotor público no Ceará, cargo em que tomou posse em Viçosa, no interior daquele Estado, em 1885. Um caso em que obteve a condenação do réu ao qual se diz que o juiz pretendia favorecer com a liberdade, foi causa de estremecimento entre as duas partes, levando Farias Brito a solicitar sua transferência para Aquiraz, onde permanece até 1887.

É de 1887, época em que está em Aquiraz, um artigo de Farias Brito sobre o suicídio aparece na publicação quinzenal de um club literário de Fortaleza. Comenta Jonatas Serrano que nesse artigo ele demonstra o espírito evolucionista e materialista da Escola do Recife (fundamentado em Darwin e Spencer e grandemente promovido por Tobias Barreto), admitindo que um criminoso possa ser originariamente mau. Aponta o trabalho como uma força consciente e regeneradora, dizendo “A fórmula da moderna civilização deve portanto ser esta: trabalhemos. Tal é a única medida de salvação contra a influência perniciosa do pessimismo”.

Neste período como promotor, Farias Brito escreveu versos, depois coligidos no livro “Cantos Modernos”. Farias Brito mais tarde repudiou esse seu trabalho da juventude, como de escasso valor, exceto pela sua Introdução na qual indaga: “A Poesia ainda tem razão de ser?”. Esse trecho ele levou para um capítulo de “Finalidade do Mundo”, que publicaria mais tarde.

Em 1888 o novo presidente da Província do Ceará, Antônio Caio da Silva Prado, ouvindo em Aquiraz um discurso do promotor Farias Brito, convidou-o para Secretário de Governo. Vindo a falecer Caio Prado um ano depois, Farias Brito dedicou-se a advocacia e ao ensino, tendo feito concurso para o Liceu Cearence. Em 1890, concorreu então a deputado ao Congresso Constituinte representando o Estado no Congresso nacional, sem êxito. Frustrado com o resultado, Faria Brito dedicou-se à advocacia e publicou seu primeiro livro, Contos Modernos, de poemas, em 1889. Eleito novo governador da província em 1891 pelo congresso da província o general de divisão José Clarino de Queiroz, este o convidou para secretário. Esta experiência no governo foi ainda mais frustrante. Presenciou então as arruaças da revolta de fevereiro de 1892 contra este último governador, na onda de distúrbios com origem na política do Marechal Floriano Peixoto e executada pelos alunos da Escola Militar de Fortaleza, que bombardearam com canhões o palácio da Luz, sede do governo.

Em setembro de 1891 defendeu tese e se submeteu às provas de arguição e preleção para a cadeira de História Geral do Liceu do Ceará, onde então ja lecionava interinamente havia dois meses. Foi por essa ocasião que escreveu uma pequena monografia sobre os Fenícios e Hebreus, em sintonia com o ensino que ministrava.

No triênio de 1892-1895, um período tranquilo em sua vida, elabora, redige e publica o primeiro dos volumes da Finalidade do Mundo: A Filosofia como Atividade Permanente do Espírito (1895) enquanto também escreve artigos para jornais e revistas em Fortaleza.

Em Dezembro de 1893 Farias Brito casou em Fortaleza, na Igreja Coração de Jesus, com Ana Augusta Bastos, filha do comerciante João da Costa Bastos. Após o lançamento do livro, o filósofo sofre um grande golpe: seu primeiro filho, Raimundo, não chegou a completar um ano – morreu com apenas dez meses de idade. No início de 1897 nasce sua filha Filomena (de Farias Brito Pontes de Miranda), mas em junho do mesmo ano sua esposa veio a falecer.

Em 1899 publicou o segundo volume do Finalidade do Mundo: Filosofia Moderna.

Em 1901, talvez no intuito de desanuviar os espírito, Farias Brito e o pai de sua falecida esposa, o comerciante João da Costa Bastos, pensaram viajar à Europa. Na verdade pouco motivados, o seu sogro desistiu da viagem quando o vapor atracou no Recife, e Farias Brito, tendo prosseguido até o Rio, lá encheu-se de preocupações com o pai idoso, e decidiu também voltar ao Ceará. Encontrou o pai enfermo, vindo este a falecer poucos dias depois, aos 71 anos de idade .

Em setembro do mesmo ano de 1901, Farias Brito casou Segunda vez com Annanélia Alves, natural de Guaramiranga, vinte anos mais jovem que ele.

A morte do pai e os desgostos políticos, segundo Jônathas Serrano fizeram com que Farias Brito deixasse o Ceará. Em 1902 passou a residir em Belém do Pará, à rua João Diogo, à Travessa 22 de Junho, vivendo aí sete anos de intenso trabalho como professor substituto na Faculdade de Direito e promotor público até 1905, quando solicitou exoneração deste último cargo, passando a advogar. Lá nasceram três de suas filhas do segundo casamento: Margarida Maria (de Farias Brito e Castro) nascida em 1904, Maria Madalena (de Farias Brito Mendonça) em 1906, em Belém do Pará, na casa, canto da rua Boaventura da Silva; e Maria José (Farias Brito Soares).

Em 1902 visitou a capital do Pará o grande pregador belga Padre Júlio Maria De Lambaerd, que entre 1892 e 1903. impressionou com seus sermões a elite cultural de quase todos os estados do país. Radicou-se como missionário, primeiro no Amapá. Chocado com a miséria daquela província paraense, fundou ali uma congregação feminina para cuidar dos doentes. Terminou seus dias em 1944 na Diocese de Caratinga, Minas Gerais, onde trabalhou no combate à pobreza, como assistente de Dom Carloto Távora. Quando esteve em Belém, em 1902, o missionário fez duras críticas ao positivismo, o que provocou veemente reação de um militar positivista fanático, o Major Gomes de Castro, através de artigo publicado em um dos principais jornais da cidade. Ao ler o artigo, Farias Brito, irritado com as grosserias nele contidas, escreveu em defesa do sacerdote de modo moderado porém enérgico.

A terceira parte do Finalidade do Mundo: Evolução e Relatividade saiu em 1905 e, no mesmo ano, A verdade como regra das ações, primeira parte de Ensaios sobre a Filosofia do Espírito.

Em 1909 Farias Brito mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, com a intenção de fazer concurso para a vaga de professor de Lógica do famoso colégio Pedro II. Inscreve-se e, além de ter que competir com quatorze outros candidatos, enfrenta preconceitos pela sua origem e o desconhecimento de sua obra, que um concorrente, Manuel de Bethencourt, critica publicamente pela imprensa, obrigando Farias Brito a uma reposta no mesmo ”Jornal do Comércio”.

O resultado foi empate entre cinco concorrentes, entre eles Euclides da Cunha. Dos cinco, embora por votação da mesa Farias Brito tenha sido escolhido para a vaga, o governo, ao qual pertencia o Colégio, escolheu da lista a Euclides da Cunha.

Devido a poucas semanas depois ocorrer, no ápice de um drama familiar, o assassinato de Euclides da Cunha, a vaga foi reaberta e novamente se inscreveu Farias Brito. Foi logo, investido nas funções em caráter interino e as provas reapreciadas por nova banca. Coube a Sílvio Romero examinar os trabalhos de Farias Brito nessa segunda fase, sendo seu parecer inteiramente favorável. Farias Brito foi então nomeado e empossado por decreto ainda em dezembro de 1909.

Depois de começar suas aulas no Colégio Pedro II, Farias Brito publicou A Base Física do Espírito, (1912) segunda parte de Ensaios sobre a Filosofia do Espírito, o qual dedica à congregação dos professores do Colégio, expressando admiração e seu reconhecimento pela justiça que lhe fora feita nos exames.

Nasceram no Rio de Janeiro suas duas filhas caçulas Lucy (Farias Brito Mota) em 1913, e Sulamytha (Farias Brito David).

O Mundo Interior, a última parte da série Ensaios sobre a Filosofia do Espírito é publicado em 1914. Ao longo de sua vida no Rio de Janeiro.

Farias Brito travou amizade com Nestor Vítor, Rocha Pombo e Jackson de Figueredo. Malograda a tentativa que fez de se eleger para a Academia Brasileira de Letras, Farias Brito escreveu, em 1916, o Panfleto, em que extravasa sua frustração em termos estranhos ao seu estilo habitualmente cordato.

A tuberculose, que na época ceifava vidas, atingiu também a família de Farias Brito. Ele próprio faleceu desse mal, O fato de que também sua filha Philomena padeceu desta moléstia. é revelado em cartas de Heráclito Carvalho Pinto, amigo da família, comentadas na biografia daquele advogado escrita por John W. F. Dulles (Univ. of Texas, 2002 ). Filomena era casada com um parente do conhecido jurista alagoano Francisco Cavalcanti Pontes de Miranda. As cartas dizem, em suma, que Philomena Farias Brito Pontes de Miranda, “filha do espiritualista Farias Brito” esteve internada, sob os cuidados do então jovem tisiologista sergipano Milton Fontes Magarão, na Pensão-Sanatório São Geraldo, em Corrêas, próxima a Petrópolis, em 1934.

Farias Brito adoeceu em janeiro de 1917 e faleceu naquele mesmo mês no Rio de Janeiro. O Diário Oficial da União de 20 de julho, em aditamento a publicação de 17 de julho de 1918, registra solicitação de D. Annanélia Alves de Farias Brito do pagamento pela aquisição feita pelo Governo da biblioteca de seu falecido marido, e na data de 21/09/1917, p. 10, Seção 1, pensão do montepio para si e suas filhas.


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Fundador da Filosofia do Espírito. Esta disciplina ocupa-se da questão da existência de um ser imaterial que está numa relação íntima com o ser material do homem, e trata da natureza desse ser imaterial e da natureza dessa relação.

Os filósofos franceses Louis Lavelle e René Le Senne, conhecidos especificamente como espiritualistas, lançaram a publicação Phiolosphie de l’Esprit em 1934. Essa publicação (boletim ou “journal”) popularizou a palavra espiritualismo na Europa e sua matéria era especialmente sobre personalidade e formas de intuicionismo.

No entanto, não foram esses franceses os primeiros a utilizar essa expressão ou a batizar um novo campo da filosofia. No prefácio do seu livro, com data de outubro de 1912, Farias Brito lança essa disciplina dizendo: “…porque o pensamento a cuja exposição me proponho, só pode ser desenvolvido em volumes successivos. São ensaios diversos sobre os múltiplos aspectos do que, no conjunto, poderia chamar-se Philosophia do espírito” (Em “A Base Física Do Espírito”, Livraria Francisco Alves, Rio, 1912). Cabem portanto a Farias Brito as honras de criador dessa importante disciplina

No terceiro volume do Finalidade do Mundo, cujo subtítulo é Evolução e Relatividade, considera-se que esteja expresso seu posicionamento filosófico mais maduro desta série de volumes. Nele Farias Brito põe em foco o mal estar indefinível do mundo contemporâneo em todas as camadas sociais. Todas as doutrinas salvadoras ou regeneradoras da humanidade faliram. Combate especialmente o positivismo, talvez influenciado por sua própria atitude, assumida na defesa do Padre Júlio Maria. Verbera contra o capitalismo, acusando o poder dos capitalistas e banqueiros como sucessor do absolutismo pernicioso dos reis. Segundo ele, toda a filosofia moderna tem sido de resultado negativo como negativo foi o resultado da Revolução Francesa. Ressalta que a teoria da relatividade do conhecimento, que examina sob o ângulo objetivo de Comte (a verdade científica relativa ao que pode ser provado) e o ângulo subjetivo de Kant (a verdade possível conforme os limites de nossa percepção), é apenas uma forma moderna do cepticismo, assim como a teoria da evolução é uma forma moderna do materialismo. E numa posição cartesiana (pois Descartes supunha que ideias claras e distintas seriam sempre verdadeiras) propõe que o critério supremo da verdade seja o testemunho normal da consciência.

A verdade como regra das ações é um ensaio de filosofia moral como introdução ao estudo do direito.

Em sua tese Ubirajara Calmon Carvalho faz a seguinte seleção de tópicos do pensamento de Farias Brito:

1-Alma – “A alma é, pois, o ser verdadeiro do homem, como de todo o organismo, e se bem que seja uma energia puramente interna. Inacessível a todo e qualquer processo de observação exterior, todavia é sempre ativa e em tudo se mostra presente na vida do organismo, fazendo-se de certo modo visível, senão em si mesma, pelo menos em suas operações, como nos movimentos exteriores que determina.” o Mundo Interior, pág. 341.

“Há assim uma alma no todo e uma alma em cada parte: o que quer dizer: cada organismo, por si só, é a objetivação de uma ideia e tem, por conseguinte, a sua alma particular. “O Mundo Interior”, p. 343.

“A alma do ser vivo, de todo o organismo, como de todo o sistema natural, é uma ideia divina, em analogia com a concepção ou ideia humana que dá origem às produções artísticas. E nisto claramente se vê a distinção entre o pensamento de Deus e o do homem. E que no homem, por assim dizer, o pensamento é morto, pois nada produz objetivamente real, e apenas reflete passivamente a imagem das coisas. Em Deus, pelo contrário, o pensamento é vivo. O que significa: é princípio de criação, de tal modo que em Deus pensar é criar.” – O Mundo Interior, pág. 344.

“A alma é a consciência, isto é, a face interna da luz, uma revelação subjetiva da divindade, do mesmo modo que a natureza com todas as suas evoluções e mecanismos não é senão a sua revelação exterior (…). Vê-se assim que o problema de Deus e o problema da alma não são propriamente duas questões distintas, mas apenas duas faces de uma só e mesma questão.” – Finalidade do Mundo pág. 13, apud Jonathas Serrano, Farias Brito, pág. 128.

1-Consciência – “Para que o conhecimento se possa compreender, indispensável é imaginar um princípio mais alto – a consciência, sem a qual é inconcebível a representação das coisas. A consciência é pois o fato primordial da natureza, espécie de ponto de contacto de dois mundos, de que um é a imagem do outro”. Prova escrita de Farias Brito ao concurso de Lógica do Colégio Pedro II, apud Jonathas Serrano, Farias Brito, pág. 193.

1-Espírito – “O espírito não é somente a base do edifício do pensamento, o princípio dos princípios: é também fato que resiste a toda a dúvida, verdade que desafia o capricho mais desordenado dos céticos. E negá-lo é coisa que, só por si, envolve absurdo, porque negar é ato da consciência e a consciência é fenômeno do espírito. Negar o espírito é negar-se, e negar-se é dizer: eu sou e não sou. O espírito é, pois, o princípio dos princípios e a verdade das verdades, o fundamento de toda a realidade e a base de todo o conhecimento.

… o pensamento é a força em nós; mas ao mesmo tempo devemos acrescentar que a força é um pensamento fora de nós. Desde então só o espírito existe realmente, e o mundo exterior, a força e suas manifestações objetivas, os corpos, o movimento, todos estes fatos em que se resolve, o que se chama a universal existência, tudo isto que se chama matéria, não é senão a aparência externa, a manifestação e o desenvolvimento, ou a eterna fenomenalidade do espírito, uma como sombra que o espírito projeta no vácuo.” O Mundo Interior, págs. 16 e 339.

1-Homem – “O destino do homem, como o destino do espírito em geral, é aperfeiçoar-se, e dar a maior extensão possível as suas energias, e alcançar em todas as manifestações de sua atividade, o mais alto grau de desenvolvimento; numa palavra, é dominar. Mas é preciso distinguir duas espécies de domínio: o domínio do homem sobre a natureza e o domínio do homem sobre si mesmo. O primeiro alcança-se pelas ciências da matéria; o segundo, pela ciência do espírito ou pela psicologia. Mas se um destes dois domínios deve ter preponderância sobre o outro, decerto é ao domínio do homem sobre si mesmo que cabe este privilégio, pois é dai que dependem a disciplina e a ordem, e tais são as condições essenciais e fundamentais de todo o progresso, como de todo o desenvolvimento”.

“É que Somos apenas um como sopro da Inteligência suprema. Quer dizer: não somos a inteligência em si mesma, mas apenas irradiações que dela emanam, imagens a que ela dá corpo e realidade, sombras a que dá vida” (…) “Eis, pois, o que somos, e isto nos basta: somos raios que emanam da suprema luz, reverberações do fogo divino, pensamentos de Deus! E é por isto que arde também em nós, sempre acesa, a chama sagrada da ideia. (O Mundo Interior, págs. 19 e 378).

1-Inteligência – “A inteligência é, pois, o ser, o que existe e conhece, não somente a si mesmo, mas a tudo o mais. Há, assim, o que conhece e existe em si mesmo, e o que é conhecido e existe em outra coisa. É a ‘coisa em si’ e o fenômeno, o ser e a maneira de ser, a luz interior e a luz externa, a luz e a repercussão da luz.

A inteligência e o primeiro destes dois aspectos fundamentais da realidade: é ‘coisa em si’, não fenômeno; ser, não maneira de ser, luz interior, não luz externa, luz, não repercussão da luz. Deste modo do, só a Inteligência existe em si mesma: e tudo o mais é manifestação ou ação da inteligência. Tudo, pois, devera explicar-se como obra da inteligência e é determinado pelo movimento das forças ou pela ação das ideias que a inteligência desenvolve.”

“Em nós, a inteligência está, por necessidade natural, ligada a um organismo, do qual depende e do qual dificilmente poderá fazer inteira abstração. Por isto, tem dois aspectos: um aspecto individual, e neste sentido chama-se vontade, e um aspecto geral e universal e neste sentido chama-se pensamento”. (O Mundo Interior, págs. 376 e 378).

1-Introspecção – “Por introspecção entende-se, expressamente, exclusivamente, a observação interior, a observação dos estados da consciência e dos movimentos do espírito. Tal é, pois, com toda a segurança, Indubitavelmente, o método próprio da filosofia. A este método, entretanto, tem-se feito e ainda se continua a fazer, uma oposição formidável. É o que se explica como consequência inevitável, fatal do predomínio do materialismo. E realmente, se tudo e matéria, não se compreende outra espécie de observação, a não ser a observação exterior.” (O Mundo Interior, pág. 381).

2-Luz – “Há uma luz interior, luz de intuição e penetração, que não é somente o veículo da visão, mas a visão mesma (…) Essa luz é a consciência. É um princípio vivo e ativo. E é a esse princípio mesmo agindo que se dá o nome de inteligência” (O Mundo Interior, págs. 375 e 376).

2-Amor – “O amor e a forma mais elevada, mais nobre da necessidade: é a necessidade em suas manifestações superiores (…) É que há sempre no amor propriamente dito um principio de criação; do mesmo modo que há sempre na filosofia ou no amor da ciência uma visão do futuro.

O amor é tanto mais nobre e elevado, tanto mais poderoso, quanto mais se mostra o objeto que o inspira, cheio de mistério e de grandeza. É o que dá uma ideia da alta significação e do poder incomparável, supremo da filosofia. Explicar o sentido da existência, dar solução real ao problema do Universo – eis o objeto de nossa atividade pensante.” A Base Física do Espírito, págs. 56 e 57.

3-Coisa em si – “Não; a ‘coisa em si’ não é a vontade, ou pelo menos não é a vontade somente, mas o que em cada ser se manifesta como subjetividade, como sentimento e conhecimento, como emoção e paixão, como vontade e energia psíquica; ou para empregar a palavra definitiva, a ‘coisa em si’, ou o ser íntimo e profundo, a realidade fundamental e a existência verdadeira, é o espírito.”

“O que há, atrás de tudo o que vemos e percebemos, o que constitui o fundo e a realidade íntima de todas as coisas, é, pois, o ser sensível] e ativo, o ser consciente, ou numa palavra, o espírito. Este é que rigorosamente constitui o que se chama de existência, o ser verdadeiro. E todos os demais fatos ou coisas que consideramos como diferentes do espírito, as Coisas de ordem subjetiva, que se representam no espaço, que ocupam um lugar e podem ser postas em movimento, são apenas fenômenos ou maneiras do ser, manifestações exteriores do espírito mesmo: o que tudo quer dizer que o espírito é a ‘coisa em si’, a realidade fundamental, a essência de todas as coisas. E o mundo, o conjunto de todas as coisas não é senão a manifestação mesma do espírito, a eterna fenomenalidade em que este se desenvolve indefinidamente através do espaço e do tempo: o espírito manifestado-se exteriormente, desdobrando-se sob uma variedade infinita de aspectos, desenvolvendo, na sucessão sem fim das idades, o drama eterno de sua existência.”

“O pensamento, a energia psíquica, ou, numa palavra, o espírito – eis, pois, a ‘coisa em si’ ou o ser verdadeiro do homem; e o corpo ou o organismo humano não é senão a modalidade acidental ou a aparência exterior dessa energia mesma; ou ainda, como pretende Bergson, um simples instrumento de que o espírito se serve para agir. O Mundo Interior, págs. 321, 322 e 324.

3-Matéria – “Tudo isto significa, no fundo, que o que se chama matéria, vem, em última análise, de um elemento imaterial, o éter elemento de um poder e de uma extensão infinita, que nenhum sentido percebe, mas que invencíveis exigências lógicas nos forçam a admitir, porque de outra forma tudo seria inexplicável. É um elemento intangível, impalpável, uma espécie de matéria sem massa: o que equivale a dizer: matéria imaterial (a fórmula contradictória é imposta por necessidade imperiosa da linguagem que não tem outra expressão para o caso”. O Mundo Interior, pág. 333.

“A matéria está rigorosamente neste último caso: é uma ideia geral ou um conceito, uma representação artificial. Mais do que isto: é o genus generalissimum referente a toda a existência fenomenal. E deste modo não tem absolutamente existência real, mas somente lógica. Nada, pois, como individualidade, corresponde objetivamente ao que se chama matéria. A matéria não é nem Deus, nem o diabo. Nada em si mesma, essa matéria mendacium verax, como diz Schopenhauer, é apenas “um ingrediente do objeto conhecido pela intuição, simples ideia abstrata que não é dada à parte em nenhuma experiência”, e como simples conceito que é, não existe senão nosso espírito. Mas é abstração de propriedades pertencentes a coisas que existem realmente. Não existe certamente a matéria em geral, como não existe o homem em geral, a montanha em geral, o organismo em geral. mas existem homens, existem montanhas, existem organismos”. O Mundo Interior, págs. 335 e 33B.

3-Fenômeno – “… fenômeno é o que aparece (phainomenon), o que _e nos representa o espaço, qualquer operação, portanto, de significação exterior, tudo o que se apresenta como tendo uma forma ou figura e pode resistir como força. É a significação primitiva, originária da palavra. E neste sentido só se pode considerar como fenômeno o que se apresenta fora de nós; logo, os corpos, logo, a matéria. E o mundo fenomênico vem a ser, assim, precisamente, rigorosamente, o mundo objetivo, exterior, a realidade externa, que toda ela pode ser reduzida, em sua infinita complexidade, a esta fórmula- força e matéria –, ou a esta outra, talvez mais expressiva – movimento e figura.

Assim compreendido, é evidente que o fenômeno só pode ser estudado e conhecido por observação exterior. Trata-se de fato externo e a este corresponde evidentemente a observação externa. O fenômeno pode mesmo ser definido nestes termos: o que vemos ou observamos fora de nós, o que se nos representa no espaço, ou numa palavra e de modo mais positivo: o que conhecemos por observação exterior.

Fenômeno é, então, o que se conhece por observação exterior.” O Mundo Interior, pág. 318.

3-Materialismo – “E eu digo: esse dogma (tudo é matéria), é o da filosofia do desespero. E realmente dizer: tudo é matéria – é desesperar de compreender o espírito. O materialismo, de fato, é uma filosofia que só acredita no corpóreo e no tangível. Tal filosofia não pode acreditar no espírito. E se há alguma coisa a que se deva dar o nome de espírito, e se merece esse nome a energia que em nós pensa e sente, para essa filosofia, isto é, para o materialismo, essa coisa essa energia, esse fantasma, deve ser ainda uma manifestação particular e mais complicada da matéria. O espírito é, pois, fenômeno da matéria mesma; não, fenômeno propriamente dito, uma vez que não tem realidade e não se concretiza como corpo, mas epifenômeno isto é, uma espécie de repercussão acidental das evoluções da matéria”. O Mundo Interior, pág. 46.

3-Cosmos – “O cosmos, portanto, com todos os seus mundos e com todos os seus movimentos, o espaço e suas constelações, tudo isto é Deus pensando. Deus pensa e a substancia cósmica, em todas as suas modalidades, só por ação do pensamento divino, logo se desenrola no espaço. As forças naturais são então os processos mesmos de que Deus se serve para pensar, as categorias do supremo Intelecto”. O Mundo Interior, pág. 345.

3-Mundo – “O cosmos, portanto, com todos os seus mundos e com todos os seus movimentos, o espaço e suas constelações, tudo isto é Deus pensando. Deus pensa e a substancia cósmica, em todas as suas modalidades, só por ação do pensamento divino, logo se desenrola no espaço. As forças naturais são então os processos mesmos de que Deus se serve para pensar, as categorias do supremo Intelecto. E eu digo, em conclusão, e nisto consiste a minha concepção fundamental: o mundo é uma atividade intelectual, pois e Deus pensando, e nós homens, como elementos que somos do mecanismo do mundo, fazemos também parte do pensamento de Deus, e somos, por conseguinte, no mais rigoroso sentido da palavra, ideias divinas.”

“E o mundo, o conjunto de todas as coisas não é senão a manifestação mesma do espírito, a eterna fenomenalidade em que este se desenvolve indefinidamente através do espaço e do tempo: o espírito manifestando-se exteriormente, desdobrando-se sob uma variedade infinita de aspectos, desenvolvendo, na sucessão sem fim das idades, o drama eterno de sua existência”. O Mundo Interior, pag. 345; A apreensão da “coisa em si” na filosofia de Faria Brito – S.B. Vianna, pag. 8, citação de “O Mundo Interior”, p. 322.

4-Deus – “Em Deus é assim ou deve ser assim: há identidade perfeita entre o ser e o conhecer. Deus é, pois, completo e perfeito em si mesmo. Nada lhe falta, nada lhe é necessário: é o ser em sua plenitude. É tudo em tudo, e nele existe o conhecimento absoluto, a certeza absoluta, o amor absoluto; logo, a eterna paz e o eterno repouso.”

Eis, pois, a mais alta verdade: Deus é a suprema Inteligência. Isto significa, em outros termos: Deus é ã luz. Mas a luz e toda a luz, a luz eterna e a luz interior, identificada numa só e mesma unidade, envolvendo todo o ser e toda a realidade.

É o que se pode interpretar ainda por outra forma. dizendo: Deus é a Inteligência em si, a ideia da ideia e o pensamento do pensamento.”

“Em vez de ser uma coisa tão estranha e tão inacessível ao homem, pelo contrário Deus é o que está mais perto de nós e mais directamente influi sobre todo os fatos da vida. Podemos mesmo dizer que ele nos cerca por todos os lados, que é dentro dele que todos vivemos e agimos, que ele é o que mais intensamente sentimos mais claramente conhecemos, se bem que só possa ser conhecido em seus acidentes superficiais. Ou mais precisamente e para concluir com as mesmas palavras com que conclui a primeira parte desta obra: – Deus é o que há de mais claro e visível na natureza: Deus e a luz.” O Mundo Interior, pág. 368, 377 e Jonathas Serrano, Farias Brito, pág. 126.

4-Religião – “Falsa religião seria somente uma doutrina que fosse pregada por impostura, uma teoria, por exemplo, que fosse propagada por um sofista de gênio que tivesse em vista afastar O povo do conhecimento do que ele próprio acredita ser a verdade, no intuito de tirar partido da corrupção social: o que se concebe, mas é difícil imaginar que possa realizar-se.

A religião, a meu ver, pode ser definida nestes termos: é a moral organizada. E isto quer dizer: “é a sociedade organizada pela lei moral, é a sociedade governada pela razão. Há, pois, dois sistemas de leis, duas ordens distintas de preceitos que se impõe, como regras de ação no governo das sociedades: a moral e o direito. A primeira consiste no império da razão e pode ser chamada a lei dos bons, pois consiste na disciplina fundada simplesmente na inspiração do bem, sem outra sanção, para a pessoa que age contra a lei, além da condenação da própria consciência, ou da execração por parte da consciência pública. E porque esta sanção nem sempre é eficaz, por isto mesmo faz-se necessário que venha, em auxílio da moral, o direito, com o complemento decisivo da força material. O fim do direito é, pois, impedir pela força a violação da lei, reagir, pela violência contra a violência dos maus; pela razão pela qual o direito pode ser chamado rigorosamente a lei dos maus. O governo pela lei moral é a religião, o governo pelo direito é o estado”.

“O problema religioso só poderá ser resolvido pelo estabelecimento de uma religião nova que esteja em condições de satisfazer as aspirações atuais do espírito humano. Esta deverá sair, ao que suponho, de uma fusão do Oriente e do Ocidente, purificando-se, o que houver de melhor nas duas civilizações, em uma síntese universal, pela qual definitivamente se estabeleça a unidade espiritual da humanidade no planeta”.

“Ora, a lei é o princípio orgânico da sociedade. Por conseguinte, feita a dedução da lei, segue-se como consequência o fato da organização social. Quer dizer: fica estabelecido o governo moral das sociedades, fica fundada a religião. A religião é, pois, a própria filosofia, passando da ordem teórica para a ordem prática, saindo como doutrina, da consciência do sábio, para dominar como lei ou como fé na consciência das multidões”.

“Não há erro mais grosseiro do que fazer da religião uma forma inferior do conhecimento. Em todos os povos, como em todos os momentos da história, a religião foi e será sempre a mais alta manifestação da intelectualidade: a religião é o veículo espiritual da sociedade; é o espírito regulando as suas forças, organizando as suas energias, introduzindo a unidade na multiplicidade; numa palavra: a religião é o império da razão”. O Mundo Interior, págs. 84, 87, 88 e 95.

4-Cristianismo – “O cristianismo foi, pois, um pensamento que se impôs a consciência das multidões; e foi esse pensamento, obra de uma consciência superior, que deu organização social as nações de que se compõe o que chamamos hoje civilização ocidental”. (O Mundo Interior, pág. 90).

4-Teologia – “Poder-se-á, pois, reduzir toda a teologia a este único argumento: o mundo é criação contínua; logo, Deus existe. Também diz-se indiferentemente: Deus ou o Criador. E a relação que há de Deus para o homem, como para todas as coisas, é exatamente a do Criador para a criatura”.

“A própria teologia não se pode negar o seu caráter de permanência, porque a teologia não é senão uma psicologia de ordem transcendente…” O Mundo Interior, pág. 345; prova para o Colégio D. Pedro II, publicada no Jornal do Comércio, apud J. Serrano, Farias Brito, págs. 194 e 195.

5-Filosofia – “…a filosofia é, em um sentido, pré-científica (conhecimento in fieri, conhecimento em via de elaboração; e, em outro sentido, supercientífica (totalização da experiência, concepção do todo universal). É neste último sentido que a filosofia se chama filosofia primeira, ou metafísica”.

“Entendo por filosofia a paixão do conhecimento. É a paixão de que nos fala Aristóteles, no começo de sua Metafísica, quando diz – “O homem tem naturalmente a paixão de conhecer.” É o mesmo sentimento de que nos dá ideia Platão, em fórmulas que são por Fouillée traduzidas nestes termos: – “ A filosofia é o amor da verdade, não de tal ou tal verdade particular, mas da verdade universal ou das ideias” (…).

Filosofia é, pois, paixão e amor: paixão pela verdade, amor do conhecimento. É o que se prova, remontando à tradição primitiva dos Filósofos, remontando a Platão e Aristóteles.”

“…a filosofia é uma atividade permanente do espírito humano: é o espírito interrogando a realidade, o espírito em ação, lançando o seu olhar sobre as coisas e procurando explicá-las, investigando o desconhecido e elaborando o conhecimento. Enquanto, porém o conhecimento está sendo elaborado, há somente filosofia, isto é, há o domínio da paixão do conhecimento; o que quer dizer: há o esforço e trabalho da parte do espírito, e isto significa o exercício de uma atividade. O conhecimento uma vez elaborado, temo_ a ciência. De maneira que a filosofia é neste sentido, o conhecimento in fieri, o conhecimento em via de organização; a ciência é o conhecimento feito, o conhecimento organizado. A filosofia é então uma atividade, e o resultado dessa atividade é exatamente a ciência. É a razão por que, a meu ver, se deve compreender a filosofia como órgão e a ciência como função: a ciência é precisamente o que se deve chamar a função teórica da filosofia. E é assim compreendida que a filosofia constitui o que eu chamo filosofia pré-científica: o que significa exatamente que se trata aí de uma atividade anterior à ciência e que é o principio mesmo produtor da ciência”.

“Da ciência resultam regras técnicas; da filosofia resultam regras éticas. _ escusado lembrar que emprego a palavra filosofia no sentido que eu mesmo adotei quando me servi da fórmula filosofia supercientífica. Vem a ser a mesma coisa que metafísica”. págs. 29, 55, 58 e 65. A Bas. Fís. do Esp. Filosofia Supercientífica – Filosofia pré-científica “… filosofia pré-científica é a actividade mesma do espírito elaborando o conhecimento, o espírito mesmo investigando o desconhecido e produzindo as ciências: e uma filosofia supercientifica – é o espírito partindo das ciências e procurando dar interpretação do verdadeiro sentido da existência ou lançar as bases de uma concepção do Universo. E neste último sentido precisamente que a filosofia se chama metafísica filosofia primeira, ou simplesmente filosofia como é mais corrente.” O Mundo Interior, pág. 27.


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5. Ética – “A filosofia, como ciência do espírito, compreendendo a filosofia moral que é exatamente, da filosofia do espírito, a parte mais importante e o núcleo fundamental, a esta ciência, única no seu gênero, que dando-nos, pela visão interior, a interpretação da nossa própria existência, fornece-nos ao mesmo tempo ã indicação para a interpretação da existência universal; a esta ciência das ciências, a esta ciência suprema que, como manifestação teórica de nossa atividade cognitiva, representa o mais alto grau do saber e a vida mesma do espírito, – corresponde, pois, na prática, a religião. É que essa ciência nos dá uma intuição da vida e do mundo. Deste modo nos torna conscientes de nossa própria realidade, como da nossa posição no caos da universal existência; habilita-nos, em suma, a fazer a dedução da lei a que devemos obedecer. Ora, a lei é o princípio orgânico da sociedade. Por conseguinte, falta a dedução da lei, segue-se como consequência o fato da organização social. quer dizer: fica estabelecido o governo moral das sociedades, fica fundada a religião.”

“A verdade é, pois, nosso dever supremo. Sejamos sempre verdadeiros – eis o princípio de toda a lei e a condição de toda a moralidade. Mas para que sejamos verdadeiros, devemos reconhecer em todos os que se apresentam como órgãos de uma consciência, o mesmo ser, o mesmo princípio que nos anima, a mesma essência eterna e respeitar neles o que queremos seja respeitado em nós”. “Isto quer dizer: devemos ser solidários uns com os outros e solidários no todo. (…) não há virtude fora do amor, do mesmo modo que não há moral fora da verdade e da sinceridade.” (O Mundo Interior, págs. 88 e 380).

5-Verdade – “O fundamento real, o critério último de toda a verdade é o testemunho direto da consciência, de modo que, para mim, quando qualquer conhecimento estiver de acordo com esse testemunho, é verdadeiro; quando em desacordo com ele, é falso”.

“A verdade é, pois, nosso dever supremo. Sejamos sempre verdadeiros – eis o princípio de toda a lei e a condição de toda a moralidade. Mas para que sejamos verdadeiros, devemos reconhecer em todos os que se apresentam como órgãos de uma consciência, o mesmo ser, o mesmo princípio que nos anima, a mesma essência eterna e respeitar neles o que queremos seja respeitado em nós”.

“O critério supremo da verdade é o testemunho normal e permanente da consciência”. “Finalidade”, l.a pág. 27, apud Barreto Filho, in Introdução ao Mundo Interior, pág. XVII; (O Mundo Interior pág. 380; Evolução e Relatividade, pág. 316).

5-Virtude – “A virtude é como uma harmonia interior e uma música n’alma: é a saúde e a beleza do espírito. É por isto que nada e mais belo e mais comovente do que a virtude. E a virtude é obra do pensamento, porque a virtude é a verdade na ordem moral, e é o pensamento que representa em nós o princípio da luz interior, e é deste princípio que deriva toda a verdade”. (O Mundo Interior, pág. 380).

5-Morte – “A morte não é fenômeno do espírito, mas da matéria. É por isto que a sua previsão é possível. A mesma coisa pode dizer-se de todos os outros fenômenos que constituem os diferentes momentos ou os graus sucessivos do desenvolvimento natural do organismo. A morte é o desenlace final desse drama sanguinolento em que se resolve a vida de cada organismo. Mas esse desenlace mesmo, se bem que possa ser previsto com certeza, todavia fica sempre envolvido no mistério quanto às condições em que terá de realizar-se, nem poderá ser determinado o momento preciso em que deverá chegar para cada um a crise terrível: o que prova que na própria morte, por isto mesmo que está em ligação imediata com a vida do espírito, existe um certo grau de liberdade.

A liberdade – eis realmente o fato decisivo que marca a separação absoluta entre o espírito e a matéria. Nos fenômenos da matéria dominam a mais absoluta necessidade e o mais inflexível determinismo; nos fenômenos do espírito o princípio que se deve reconhecer como lei primordial e tudo domina, é a liberdade. É a razão por que ai toda a previsão é impossível.”

“A morte é a cessação da consciência; o que significa: a cessação de toda a sensação, de todo o afeto, de toda a emoção, de toda á esperança, de todo o conhecimento, de toda a percepção. E não equivale isto a dizer: a cessação de toda a realidade? Está aí, bem se compreende, o problema dos problemas. É a questão do- ser ou não ser – de que cogitava Hamleto. Com a morte desaparece o indivíduo e com o indivíduo desaparece a consciência. É uma negação do particular que, em última análise, se resolve em negação do todo, porque para a consciência que termina, tudo fica reduzido a nada. A isto poder-se-á, é certo, responder que, embora se extinga a consciência com o indivíduo, todavia não fica com isto diminuída a existência, porque o todo permanece sempre o mesmo, impenetrável em seus arcanos, inesgotável em sua fecundidade, revelando sempre novas energias e desdobrando-se sempre em novas modalidades, agindo incessantemente produzindo novas consciências e novas vidas. Sim. Nisto está uma verdade irrecusável. Mas o que temos de mais forte e de mais poderoso em nós mesmos é o sentimento de nossa própria individualidade”. O Mundo Interior, pág. 23; A Base Física do Espírito, pág. 72.

6-Arte – “A arte, em sua significação mais ampla, consiste nisto: no poder ou aptidão, que pertence ao homem de servir-se de meios ou de empregar processos no sentido de melhorar e aperfeiçoar as condições da natureza, para seu uso e bem-estar, ou apenas para emocionar-se agradavelmente” (…) “A arte está para a psicologia como o instinto para a inteligência: a psicologia é a visão consciente, a arte uma cosmo visão inconsciente, mas profética da nossa própria realidade. A primeira é ciência, porque é trabalho do espírito; a segunda é instinto, porque o artista obedece a uma inspiração, por assim dizer, subconsciente, como se o impulsionasse uma força irresistível e fatal, nascida das profundezas ignotas de seu ser mais intimo e profundo.” O Mundo Interior, págs. 19 e 21.

7-Ciência – “Ciência é o conhecimento organizado, reduzido a sistema, destinado à prática, tendente a regularizar a indústria e organizar o trabalho; quer dizer: é o conhecimento especializado. (..)

Considerada sob esse ponto de vista, a filosofia é em um sentido pré-científica (conhecimento in fieri, conhecimento em via de elaboração); e, em outro sentido, supercientífica (totalização da experiência, concepção do todo universal). É neste último sentido que a filosofia se chama filosofia primeira ou metafísica, e é contra esta em particular que se dirigem os golpes mais violentos da ciência” Base Física do Espírito, pág. 29.

7-Psicologia – “Eu chamo psicologia a ciência do espírito, e entendo por espírito a energia que sente e conhece e se manifesta, em nós mesmos, como consciência, e é capaz, pelos nossos órgãos, de sentir, pensar e agir. É essa energia em nós uma manifestação particular da matéria? Pouco importa. Nessa manifestação particular a matéria adquire caracteres especiais que a constituem um princípio à parte e sui generis. que é o ponto de partida para uma Série de fenômenos da matéria, pelo menos, considerada esta em suas manifestações exteriores. Sob esse ponto de vista, tanto Importa considerar o espírito como uma substancia independente_ ligada apenas acidentalmente à matéria, como considerá-la como fenômeno da matéria, ou mesmo como simples epifenômeno. De toda forma há no espírito modalidades especiais da realidade, um poder agente e real vivo e concreto, que não somente sofre a ação dos elementos exteriores, como ao mesmo tempo é capaz de agir sobre eles: um princípio vivo de ação, capaz de modificar, embora em proporções infinita mente pequenas…”

“Entretanto, a psicologia é a ciência do espírito, se é a ciência nascida dessa exigência universal que veio a encontrar sua expressão mais precisa na fórmula socrática: – conhece-te a ti mesmo –, compreende-se que esta ciência existe desde que se apresentou em face da natureza um ser pensante, e por conseguinte, desde que existe o homem. Pode dizer-se que é a mais velha das ciências” ( . . . ) “A psicologia é uma ciência intuitiva e concreta, uma espécie de visão interior consubstancial com o sujeito, e deste modo não é somente conhecimento, mas energia e vida. Todas as outras ciências são fenomenais, porque estudam apenas modalidades exteriores da existência aparências da realidade. A psicologia estuda a realidade em si mesma. o ser em seu mistério. em sua significação mais intima e profunda, numa palavra, o ser consciente de si mesmo.”

E há uma ciência fundada na causalidade psíquica: é a psicologia, compreendendo a lógica, a ética e a estética. A primeira tem por objeto a realidade externa: a segunda a realidade interior. A primeira refere-se ao mundo das aparências, ao mundo da pura fenomenalidade. A segunda refere-se ao real em si mesmo, ao ser íntimo e fundamental, que se oculta através dos fenômenos. Daí a supremacia da psicologia. É a ciência fundamental, a ciência das ciências. É também a ciência da ‘coisa em si’, do ser verdadeiro, e só esta ciência que é dado, por assim dizer, entrar no coração das coisas”

“… a psicologia, como ciência do espírito, tem uma extensão universal e no fundo confunde-se com a filosofia, ou pelo menos é o fundamento e a base da filosofia, ou como melhor se poderia dizer, é o coração da metafísica…”.

“A filosofia é a psicologia, a ciência do espírito. Tal é, por conseguinte, a nossa tese fundamental. Agora, a psicologia é que pode ser considerada de dois modos: no sentido comum e ordinário e no sentido transcendente. No primeiro caso é a psicologia propriamente dita, B análise da atividade psíquica, tal como se verifica no homem, e, em menor escala, nos graus inferiores da pura animalidade; de onde a psicologia comparada cujo valor é hoje altamente reconhecido. No segundo caso é ainda psicologia, isto é, indaga ainda da significação e natureza do espírito; mas considerando este não somente em sua função puramente humana, mas em sua significação mais geral, confunde-se com a metafísica e não só trata de descobrir a relação que há ou deve haver entre o espírito e o todo universal, como ao mesmo tempo procura interpretar o próprio todo universal”. (O Mundo Interior, págs. 14, 18, 156, 386, 30 e 31).

Influência. Farias Brito ensejou uma reação à corrente positivista materialista. Foi um apoio útil para a reação Anti-Materialista e Finalista dos intelectuais cristãos.

Os espiritualistas, principalmente os católicos, se apegaram ao pensamento de Farias Brito que, segundo Antônio Paim, tem fundamento em Schopenhauer: que na própria matéria está algo de metafísico, que é a coisa em sí, o que está sob a forma, sob a aparência, do que conhecemos algumas propriedades como extensão e resistência, mas não sabemos exatamente o que seja.

Então o puro materialismo é uma impossibilidade.

Raimundo de Farias Brito (1862-1917) é, como Sílvio Romero, um elo entre o século XIX e o século XX: o segundo no domínio da história da filosofia, que seria retomada em 1918 pelo Padre LEONEL FRANCA e passaria a constituir o mais importante aspecto da produção literária no campo da Filosofia, até os nossos dias; o primeiro na renovação da problemática filosófica do espiritualismo. .

Com efeito, havendo partido de uma atitude de adesão ou simpatia por algumas teses positivistas, que, logo, daria lugar a um monismo naturalista e teleológico, a peregrinação intelectual de Farias Brito acabaria por conduzi-lo a um final espiritualismo, que, apesar de pretender conter-se nos estritos limites da razão, não deixaria de ceder a uma tendência mística e visionária.

Discípulo de Tobias Barreto na Faculdade de Direito do Recife, cujo curso concluiu em 1884, o jovem bacharel, se numa primeira fase, revela, claramente, o influxo da Escola e do seu principal mentor e das teses por ele acolhidas e divulgadas, como o relativismo gnoseológico, o monismo, o naturalismo, o evolucionismo e o teleologismo, a recusa do caráter científico da sociologia ou a tese de que a religião ou a religiosidade é algo radicalmente humano, não deixará, no entanto, desde muito cedo, de marcar a sua singularidade dentro dela e a sua discreta oposição a alguns aspectos essenciais do pensamento do filósofo sergipano.

Alguns anos mais tarde virá a considerar o evolucionismo como falso ou, pelo menos, deficiente como interpretação da natureza, confundindo-se com o materialismo, de que constituiria a versão moderna, pelo que a moral que dele se deduziria não poderia deixar de ser a moral do interesse ou a moral da força.

Assim, se a noção de evolução poderia ser admitida em certo sentido, enquanto significasse a ascensão espiritual do homem, já a teoria da evolução como concepção do mundo e interpretação da natureza lhe parecia inadmissível pois não só não é possível explicar nem provar como a nebulosa se transforma em estrela, esta em planeta e, neste, as forças, inorgânicas se transformam em organismos, como não há qualquer maneira de explicar e, mais ainda, de tornar compreensível, que fatos puramente mecânicos e simples combinações de elementos corpóreos deem origem ao sentimento e à vida psíquica.

O pensamento e a obra de Farias Brito permaneceriam quase desconhecidos até bem perto da sua morte.

Em carta a Jackson de Figueiredo (setembro de 1915), que este incluiu no livro Algumas Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito, págs. 211, segs., Farias Brito afirmava: “Já atravessei mais de um quarto de século, esforçando-me, quase ininterruptamente quanto em minhas forças cabia, por examinar umas tantas questões e desenvolver umas tantas ideias que têm, até aqui, constituindo o objeto particular de minhas cogitações, e vou chegando quase ao fim de minha obra e ainda não consegui fazer, que eu saiba, um só discípulo, a não serem alguns íntimos, que não pretendem por modo algum tornar-se conhecidos do público”.

Segundo Aquiles Cortes Guimarães (Rev. Bras. de Filosofia, n. 144), se numa primeira fase a crítica ao pensamento de Farias Brito foi uma crítica inicialmente superficial e incorreta, principalmente engajada na corrente católica, depois tornou-se uma crítica mais refletida e justa. Fez-se então a reinterpretação de sua obra em confronto com o pensamento fenomenológico e existencial.

Percebeu-se então na sua obra “parentesco visível entre o pensamento fenomenológico-existencial desenvolvido na Europa no mesmo momento em que o filósofo brasileiro percorria a sua trajetória em busca da fundamentação rigorosa do conhecimento e, consequentemente, da verdade, e principalmente no que diz respeito à elucidação da problemática da consciência.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 04-02-2011.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Raimundo de Farias Brito. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2011.