Boris Brajnikov – com notas sobre Eugênia Miller Brajnikov

Hoje: 29-11-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

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09. A família no Recife.

Mas, creio que pelo menos nos dois primeiros anos que passou em Recife, o professor Boris e sua família tiveram um período tão próspero e feliz quanto o vivido em Minas. A família morou à rua dos Navegantes nº 169, em Boa Viagem, a pouca distância da práia e da Igreja Matriz do bairro, e do mais procurado hotel da época, o Hotel Boa Viagem. Era uma casa antiga, muito espaçosa, guardada por um cão pastor alemão mantido no quintal.

Sobre uma mesinha de madeira escura, na sala de jantar, Eugênia tinha uma pequena coleção de fotografias de família – algumas pessoas da sua linhagem em trajes do século XI X. Estavam montadas em plaquinhas de madeira e vidro, reunidas como um pequeno álbum que lamento não haver examinado com mais atenção, quando me foi mostrado.

A filha Eugenie – uma quase ainda menina – de compleição frágil e rosto de traços delicados, tinha grande amor aos pais. Era criada com total liberdade. Com frequência vinha encontrar o pai na Escola, nos fins de tarde, após perambular pela cidade passeando e fazendo compras. Sempre pronta a sorrir, ria com os epigramas maliciosos e as observações jocosas do jovem assistente de seu pai, que a divertia muito, e de quem era muito amiga. Ìamos todos juntos no micro-ônibos que nos levava para Boa Viagem, o prof. Brajnikov, o prof. Karl Beurlen, o Assistente André Meunier, e um aluno que morava no caminho. Essa facilidade, importante na hora do rush, durou até quando alguns alunos protestaram contra o privilégio, e o transporte foi cortado. O Prof. Boris passou então a depender do seu minúsculo e problemático carrinho francês da marca Citroen, com tração nas rodas da frente, que por vezes passava semanas na oficina. Eu e o seu assistente alugamos um aprazível apartamento na rua José de Alencar com a Rua Barão de São Borja, a poucos quarteirões da Escola, situada na Rua do Hospício esquina com a Barão de Suassuna.

Como havia acontecido em Belo Horizonte, além de sua ligação com o Consulado Francês cujas promoções culturais a família acompanhava, e de sua relação com alguns compatriotas franceses que trabalhavam em outros setores da Universidade, Boris e Eugênia Brajnikov cultivaram amizades com vários intelectuais envolvidos com atividades culturais na cidade do Recife. Eugênia promoveu várias exposições dos seus quadros, e tornou-se uma pessoa conhecida e uma artista apreciada no meio artístico recifense.

Gastão de Holanda, professor de artes gráficas na Escola de Belas Artes do Recife, Aloísio Magalhães, pintor e interessado em tudo que dissesse respeito à arte de impressão de livros – que veio depois a ser presidente da Fundação Pró-memória, em Brasília –, e José Laurênio de Melo, constituíam um grupo de vanguarda artística em Olinda e Recife. Haviam fundado, em 1954, “O Gráfico Amador”, uma pequena editora que tinha por objetivo fazer do livro uma expressão de arte. Como uma de suas edições de esmerada qualidade artística, esses amigos fizeram imprimir, em 1960, o álbum com dez litografias intitulado Recife-Olinda, de Eugênia Miller Brajnikov, em 120 exemplares numerados e assinados, com prefácio de Ayrton de Almeida Carvalho, Diretor Regional do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, outro intelectual envolvido com o grupo. O álbum em cores, reproduzia pinturas nas quais ela havia retratado os locais mais belos e pitorescos do Recife e de Olinda.

10. Percalsos inesperados.

Com a greve dos alunos que tomaram e fecharam a Escola de Geologia do Recife, o Prof. Boris viu-se em dificuldades bastante sérias.

O choque na vida dos professores foi geral. Estava eu inscrito para Doutoramento na Universidade de Minas Gerais e, uma vez que trabalhava e residia no Recife, eu devia indicar um Orientador substituto local. Disso cuidei logo que ingressei na Escola como professor assistente do professor Thomas Stark. Para orientador, não pensei em outro senão no professor Boris, um nome conhecido no meio geológico mineiro. Ele acedeu, demonstrando certa satisfação com a escolha a qual foi aprovada pelo Conselho de Professores da minha Escola. Passei a colocá-lo sempre a par do meu trabalho.

Depois que os americanos – expulsos da Escola pelos alunos – me pediram de volta a caminhonete que eu usava no campo, minha tese de doutorado estava comprometida. Entre muitas outras coisas, não pude testar no campo a tese de Brajnikov de que o conglomerado Cabo era na verdade um extenso depósito de bonhardts. Então, como meu Orientador substituto, ele foi taxativo – aconselhou-me a publicar o que eu já havia descoberto, por se tratar de uma região não mapeada antes, e pelo valor que ele atribuía às descobertas que eu havia feito. Pelo fato de serem constatações inéditas – disse ele – bastaria qualquer uma dentre as principais, para sustentar uma boa tese. Aqueles salvados do naufrágio de fato me valeram a aprovação com louvor, no ano seguinte, em Belo Horizonte, após exames escritos em várias disciplinas e a defesa pública da tese na sala de conferências da Faculdade.

Os professores cujos salários eram providos pela CAGE ficaram alguns meses sem receber o pagamento. Essa humilhação deve ter colocado na cabeça do Professor Boris deixar o Recife o quanto antes lhe fosse possível.

11. A vida e os trabalhos nos Estados Unidos.

Após a ida para o Recife, Boris e Eugênia haviam solicitado naturalização brasileira. O processo iniciou-se com sua petição de 7 de maio de 1958 ao Governador de Pernambuco no Recife, e recebeu sucessivamente os documentos requeridos pelas autoridades pernambucanas e depois pelos funcionários do Ministério. da Justiça no Rio. Mas face aos acontecimentos em 1959, desistiram da naturalização quando esta se achava prestes a ser concluída.

Pouco tempo depois de publicado o álbum, que custou a Eugênia Miller muito trabalho, inclusive de natureza gráfica na oficina da Editora, e que ela deve ter considerado uma grande realização em sua carreira, Boris Brajnikov, ao final de 1960 levou a família para a Califórnia, nos Estados Unidos. A mudança marca o fim da sua missão francesa, pelo que se pode inferir do comentário “La mission de longue durée de Boris Brajnikov est le fait le plus récent de ces activités de nos géologues” na Revue de l’enseignement supérieur daquele ano.

É possível que Boris tenha passado por Nova York para estar com seus familiares. A irmã e o cunhado haviam deixado Bruxelas no inicio da Guerra. Alfred veio para servir o exército americano com a patente de Capitão. Terminada a guerra, tornou-se um alto executivo da Standard Oil Company, a Esson, onde foi auditor chefe. Tatiana tornou-se locutora da Voz da America, para difusões em russo, e sua voz inaugurou essa transmissão feita em ondas curtas de longo alcance em 17 de fevereiro de 1947. O casal residiu em endereços dos mais caros de Mannhatan, primeiro na Central Park West nº 227 – indicado por Ella Brajnikov como destino, quando desembarca em Nova York em 1951 –, e depois em um apartamento no edifício número 340 na Riverside drive – declarado por Ella no seu pedido de naturalização em 1957. Hecker era um patrono do Metropolitan Museum of Art, em Nova York.

A mãe Ella, que ainda se demorou alguns anos na Europa após a vinda de Boris para o Brasil, viajou do Havre para Nova York na primeira classe do SS Liberté, da Compagnie Générale Transatlantique, um transatlântico a turbina de vapor dos mais modernos, velozes e luxuosos navios em sua época. Desembarcou em 12 de Março de 1951, declarando-se Stateless (apátrida).

Ela Brajnikov obteve cidadania americana em 15 de abril de 1957 na Corte de Nova York, Southern District, e só então livra-se da incômoda situação de apátrida. Em sua petição declara residir com a filha em Mannhatan.

Nos Estados Unidos Brajnikov integrou o staff de tradutores da International Geology Review, uma Revista de grande circulação no meio geológico, fundada em 1959 pelo American Geological Institute então vinculado à U. S Academy of Sciences.

Em 22 de dezembro de 1961 adquiriu casa de residência na Califórnia, mediante empréstimo de uma financeira local. Acrescentou um “V.” à sua assinatura, como se fosse inicial de um nome do meio – um costume norte americano –, porém nem mes em documentos onde deveria usar o nome por extenso consta “Vladimirovich”, sobrenome que essa inicial representava. Com a assinatura de “Boris V. Brajnikov” fez várias sinopses (revews), resumos (abstracts) e traduções de artigos para a Revista, trabalhando, até 1969, em parceria com outros tradutores russos como A. A. Meyerhoff, Constantine C. Popoff, Eugene A. Alexandrov – ex-professor de geologia no Queens College (New York, N.Y) –, e principalmente com o respeitado geoquímico Vladimir Petrovich Sokoloff. As sinopses e traduções feitas em parceria com este último tornaram-se .muito apreciadas devido à abundância de anotações e rodapés esclarecedores colocados pelos tradutores.

Brajnikov também fez parte de um importante grupo de cientistas incumbido de organizar uma Bibliografia mundial relativa aos Vertebrados fosseis para a Geological Society of America, na Universidade da Califórnia em Berkeley. Ele assina, juntamente com Bacskai e outros paleontologistas, o catálogo Bibliography of Fossil Vertebrates 1964-1968 (The Geological Society of America, 1972, Memoir 134) e o Bibliography of Fossil Vertebrates 1969-1972 (The Geological Society of America, 1973, Memoir 141).

Brajnikov residiu por vários anos na casa de sua propriedade, a de n. 6850 na Charing Cross Road, com fundos para a Tunnel Road, no bairro Piedmont, Distrito de Alameda, próximo à Universidade da California em Okland, um arborizado conjunto de casas a apenas 7,5 km da Universidade pela College Ave. Residente na California, Boris solicitou naturalização em 17 de abril de 1963, com validade, de acordo com a Lei americana para a mulher e a filha. Os números de seguridade social dos três foram fornecidos na California.

Em 26 Jan 1964, a filha Eugenie, com 24 anos, casou em Alameda com um americano corretor de imóveis de nome Arthur Alfred Kobs, de 29 anos, membro da Northern California Commercial Association of Realtors, que se ocupava principalmente de adquirir imóveis baratos, reformá-los e revendê-los com lucro.

Por uma extraordinária coincidência, foi exatamente no dia do seu casamento que eu, então estagiário na Universidade de Stanford, decidi procurar por Boris Brajnikov no catálogo telefônico e liguei para ele. Atendeu e conversamos brevemente. Disse que era o dia do casamento de sua filha. Parabenizei-o e perguntei-lhe se mantinha contacto com seus amigos no Recife. Senti grande frieza no modo lacônico e no tom amargo com que respondeu. “Eu não deixei nenhum amigo no Recife, professor Cobra”.

Este período foi fecundo para Eugênia Brajnikov. Em 1960, deixando por algum tempo a pintura, dedicou-se a trabalhar com as memórias de seu pai sobre a emigração russa. Apoiou financeira e moralmente sua velha amiga Olga Bernatsky antes mencionada , que morava em uma casa de repouso em Shelley, perto de Paris. Olga, que fora casada com I. J. Sevitch, veio a falecer em 1971, e foi enterrada junto a seus pais, Mikhail e Olga, no cemitério de Bagneux.

Na década de 1970, pintou painéis, a partir de esboços levados do Brasil. Em 1973, o California Quarterly, da Universidade da California – Davis (n. 34, 36, 38, 40, 42; p. 34), publica sua tradução How Night Came into the World, da lenda amazônica “Como apareceu a Noite”.

No ano seguinte, em 1974, é publicado seu artigo De certaines similitudes présentées par les gravurs rupestres de l’Amazonie et de la région del’Amour-Oussouri, no.Bollettino del Centro Camuno di Studi Preistorici (1974, vol. 11, pp. 151-163), uma instituição italiana voltada para a pesquisa e publicação sobre arte pré-histórica em todo o mundo. Nele a autora aponta semelhanças entre as figuras rupestres da região dos rios Amur e Ussuri, na fronteira russo-chinesa, que teria conhecido quando a sua família morou no Oriente, e as formas gráficas encontradas na cerâmica marajoara e nas inscrições rupestres do rio Japurá, no Amazonas, um indício que confirmava a hipótese de Alexey Pavlovich Okladnikov arqueólogo, historiador, e etnógrafo russo, segundo a qual uma cultura originaria do baixo Amur teria se difundido através do Pacífico para o Continente Sul-Americano..

Em 1975 Eugênia terminou de re-escrever em Inglês, um livro (que teria escrito em francês ou portugês) intitulado By the Light of Candeia (Sob a luz do candeeiro ou candeia). O livro teve prefácio de Charles Wagley, autor de Race and class in rural Brazil, Paris, UNESCO (Coleção Race et Société) e de Amazon Town (Título em português: “Uma Comunidade Amazônica”), um clássico da bibliografia amazônica. Wagley trabalhou por muitos anos no Brasil, e recebeu a condecoração da Ordem do Cruzeiro do Sul.

Outro amigo do Brasil, Frederic Amory, empenhou-se também pela publicação do livro. Amory era um brasilianista, professor de línguas na Universidade de San Francisco e pesquisador da vida e da obra de Euclides da Cunha. Foi autor de dois livros e de várias publicações menores sobre esse notável escritor brasileiro. Enquanto esteve casado com Ann Amory, professora na Universidade da Califórnia em Berkeley (onde Boris trabalhava), e também interessada na Cultura sul-americana, ambos viajavam anualmente ao Brasil, onde tinham grande número de amigos. Após seu divórcio de Anne, Amory havia retornado a Massachussetts, e de lá, atendendo a uma carta de Eugênia Miller, foi a Nova York solicitar a Ronald Christ, um dos editores credenciados junto ao Centro para Relações Inter-Americanas, a publicação da obra. Mas, apesar da influência dos amigos ilustres, recebendo um parecer desfavorável de um dos seus críticos, Ronald Christ comunicou a ambos, Amory e Eugênia, a impossibilidade de publicá-la.

12. Retiro em Otsego, N.Y.

Buscando contacto com alguém que tivesse lembrança do prof. Boris ao tempo em que ele integrou o grupo organizador da Bibliografia mundial sobre fosseis acima referida, respondeu-me a Dra. Judith A. Bacskai, nascida na Hungria e radicada nos Estados Unidos. Ela Informou que participou nos trabalhos do grupo após graduar-se em Paleontologia em 1970, e tornou-se amiga do professor Boris, com quem podia conversar em francês. Disse que ele deixou Berkeley com a mulher em fins dos anos setenta, e o casal foi morar em Richfield Springs, perto de Albany, no Estado de Nova York.

Efetivamente, em 27 de fevereiro de 1979 Eugênia Brajnikov– com certeza descartando de seus pertences alguns itens por ocasião da mudança – doou ao Fine Arts Museums of San Francisco (FAMSF) duas bonecas de madeira com roupa de algodão, do artesanato de Pernambuco, datadas do início do século XX.

Entre abril e julho de 1979 Boris e Eugênia vendem sua casa na Charing Cross e os terrenos anexos, e mudam-se para Richfield Springs em Otsego no Estado de Nova York. A filha também vende sua parte nos bens e muda-se para a Flórida com o marido. Lá se divorciou de Arthur Kobs, em dezembro de 1981, para casar-se com John Dreyer McCoy, em Jan 1983, passando a assinar Eugenie Kobs McCoy. No mesmo ano teve a filha Valérie Nicole McCoy (d/casada: Valerie Nicole Murphy), e se divorcia segunda vez em agosto de 1985.

A professora Bacskai foi visitar Brajnikov no novo endereço, no início dos anos oitenta. Soube que Eugênia Miller havia falecido logo após a mudança. Efetivamente seu falecimento foi informado ao Serviço de Seguridade Americano, indicando Richfield Springs, no município de Otsego, como local do falecimento, aos 73 anos, em junho de 1980.

A ex-colega encontrou o professor Boris muito frágil, porém muito determinado. Segundo ela, na ocasião de sua visita ele fazia algum trabalho na biblioteca de um monastério russo próximo a sua residência. Ele morava só, a filha casada residia em outro Estado.

O Monastério era o Holy Trinity Monastery, da Igreja Ortodoxa russa, situado desde 1948 em Jordanville, NY, nas proximidades de Richfield Springs. Além de Seminário Ortodoxo, era considerado um grande centro de cultura russa. Lá eram feitas traduções de autores russos em todas as áreas da literatura.. Seus arquivos guardavam registros relativos à imigração russa, jornais dos imigrantes, documentos eclesiásticos e papeis pessoais datando da época da revolução comunista e das guerras civis que se seguiram. Talvez Brajnikov estivesse a pesquisar a história de sua família ou alguma época da história da Rússia, ou então apenas trabalhasse lá como tradutor profissional.

Ella Brajnikov, a mãe de Boris, havia falecido em Nova York em janeiro de 1969 aos 87 anos. A irmã Tatiana e o cunhado Alfred Hecker, aposentando-se em 1968, passaram a residir em uma casa de férias que possuíam em Bridgewater, e posteriormente no endereço 3 Glen Hill Rd em Danbury, Fairfield, no Estado de Conecticut, onde Tatiana veio a falecer em 27 Jul de 1990, com a idade de 84 anos, e Alfred Hecker em 24 de junho de 1997, aos 90 anos.

O falecimento de Boris Brajnikov foi anotado no Serviço Americano de Seguro Social com data de 11 de fevereiro de 1988. Foi enterrado no Cemitério do Mosteiro, junto a sua esposa Eugênia.

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Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 31-10-2009.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Boris Brajnikov - com notas sobre Eugênia Miller Brajnikov. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2009.