A Filosofia do Querer

Hoje: 29-11-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

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Sexualismo e curiosidade. Nem Roldán nem Curb e Manahan falam do sexualismo como obstáculo ao celibato, mas escândalos noticiados de pedofilia, sedução e estupro perpetrados por sacerdotes, levaram recentemente a Chefia da Igreja Católica a pronunciamentos públicos sobre o problema. Deixando de lado o que pode ser contado como preferências sexuais, o que é o cerne do problema no sexualismo é a intensidade da dependência, que torna ainda mais difícil a castidade e o celibato.

Uma das características do sexualismo é uma intensa curiosidade sobre o sexo oposto, convergente sobre o desenho dos órgãos genitais e suas funções.

Posso incluir aqui um depoimento de um ex-sacerdote casado, com quem certa vez conversei à mesa do carro-restaurante, no trem entre Montes Claros e Belo Horizonte. Disse-me que estudara no seminário de Petrópolis desde criança e uma vez ordenado, veio a ser um diretor espiritual para os outros padres. No entanto, vivia torturado por uma profunda curiosidade sobre o corpo feminino e, não podendo mais suportar tal pressão psicológica, deixou a batina. A primeira coisa que então desejou fazer, um amigo ajudou-o a conseguir: levou-o a um local onde, para seu deslumbramento, uma atriz do vaudeville carioca se desnudou para ele, de pé, sobre uma mesa.

Levanta-se então a questão se o conhecimento do nu representará uma falta contra a castidade. Penso que essa curiosidade é problema já conhecido dos diretores espirituais, os quais talvez considerem que satisfazê-la não é em si uma violação dos votos, a esperar que possam com isso salvar uma vocação. Como nunca encontrei uma fonte que tratasse do assunto, desconheço as soluções práticas para o problema. Mas penso também que a pessoa portadora de sexualismo deve saber da anormalidade da sua condição e considerar o quanto uma vida casta será particularmente difícil para ela.

Medo do sexo. Os psicólogos sempre insistiram muito na hipótese de que o medo do sexo deixava o adolescente inseguro, levando-o a buscar na baderna, nas ações de gangues e no crime, um modo de afirmação alternativo. Lançavam também a suspeita de que a vida religiosa podia igualmente ser uma opção alternativa, e este seria o caso de moças receosas da maternidade que, para fugirem dela, faziam voto de castidade. Se houve tal influência, ela hoje não se justificaria mais: quanto à maternidade, existem intervenções seguras que podem evitar o parto, para aquelas que tiverem receio dela.

O eventual medo da incapacidade sexual masculina, que pudesse levar rapazes à escolha da castidade, também não teria mais razão de ser, após a descoberta do Viagra e de outros estimulantes até aqui considerados seguros (O Viagra foi descoberto em pesquisa de remédio para pressão alta e tem seu uso liberado pelas autoridades de saúde).

Reforçando o tonus de nossa vontade.Achamos que devemos seguir o pensamento racional e que esse pensamento deve prevalecer sobre os desejos que são derivados meramente dos mecanismos do instinto. O problema é que também o pensamento racional deriva de matrizes associativas biológicas e fica impossibilitado, – como demonstrou Piaget em sua obra, e a ciência contemporânea confirmou –, de existir sem essas matrizes.

Piaget também afirmou que as matrizes do pensamento lógico não cresciam, mas apenas assimilavam a experiência e produziam as idéias racionais. Porém, as evidências científicas divulgadas posteriormente, indicam que ocorrem expansão e crescimento das fibras associativas. Isto oferece a possibilidade de uma áurea matricial associativa adquirida com o pensamento lógico gerar sentimentos de força igual ou superior aos impulsos dos núcleos meramente instintuais.

Método do contraponto associativo. A impossibilidade de terminar com uma paixão ou um vício está na falta de uma razão sentida como real e convincente para tal. Seu combate depende de um esforço racional em concentração da atenção e meditação, e de razões bem fundamentadas.

O homem tem a capacidade, que parece não ser apenas orgânica, de dar rumo ao seu pensamento racional, embora nem sempre possa obedecê-lo. Assim, enquanto os caminhos do instinto são fixos e únicos, os pensamentos nascidos da associação de idéias por via do pensamento lógico, mesmo que dentro das limitações de estruturas biológicas, podem criar estruturas associativas que se tornam poderosas.

No caso do celibato, a reflexão que chamo contraponto associativo precisa ser estimulada pelo próprio indivíduo e pelos que lhe dão orientação psicológica e espiritual. Ambos precisam conhecer o mecanismo da objetivação e saber que aquilo que se pretende é criar um reforço associativo a ser adquirido com o pensamento lógico. As configurações associativas desse reforço poderão, como foi dito, gerar sentimentos positivos e ter força igual ou superior aos impulsos dos núcleos meramente instintuais. A reflexão não pode, porém, ser de ultima hora, quando, diante de um impulso súbito, uma resistência nem chega a se esboçar. Tem que ser preventiva, do mesmo modo que não se constrói uma fortaleza no dia da batalha.

A reflexão poderá ser auxiliada com leituras e, principalmente, com a música. Esta tem um notável poder para influir na base fisiológica, por um modo ainda não entendido. Santo Agostinho cita a Túlio, que narra em seus Conselhos (obra que se perdeu) um episódio da vida de Pitágoras: “Um dia, quando uns jovens, algo embriagados, excitados, como costuma acontecer, pela música de umas flautas, começaram a arrombar a porta de uma casa onde vivia uma mulher casta, Pitágoras aconselhou a uma tocadora de flauta que entonasse no compasso lento um espondeu; e a lentidão do compasso e a gravidade da melodia amansou a fera rugidora”. (Contra Julianum Libri Sex (“Seis livros contra Juliano”), Livro n. 5, Cap. V, 23). é evidente então que, para combater uma dependência amorosa, as músicas românticas devem ser evitadas, e as músicas que estimulam alegria e liberdade, preferidas.

é principalmente a consciência do processo de objetivação que permitirá desmontar a ilusão de que o amor possa ter qualquer valor transcendental por si mesmo, uma vez que seu real valor dependerá de modo absoluto do projeto em que estiver inserido.

Método Budista.O budismo tem seu método próprio o qual, no meu entender, corresponde também a desenvolver a expansão do que chamo “áurea associativa”.

Para atacar a luxúria e libertar da escravidão do sexo e da paixão, o budismo recomenda criar um pensamento e um sentimento de repugnância à pessoa amada. Ela será vista como um cadáver e imaginada em detalhes a sua decomposição. As formas sedutoras do corpo externo devem dar lugar, na mente do apaixonado, às formas do conteúdo interno à mostra: fígado, pulmões, músculos e vísceras, gordura, fezes, etc. O apaixonado deve lembrar-se dessa visualização a fim de sentir repugnância quando a luxúria se manifestar.

Basicamente, esse método tenta contrapor à objetivação inconsciente uma objetivação consciente fortemente negativa, que tem a força de certas tendências agressivas da natureza humana a seu favor e, por esse motivo, pode ser desenvolvida com menor esforço.

Método da depreciação. Parecido ao método budista, porém menos drástico, é o que se poderia chamar “Método da depreciação”, o qual é recomendado por Roldán, como visto acima. Consiste em descobrir na pessoa amada, – em sua figura, em seus hábitos, em sua família –, algo que permita diminuir seu valor, com o propósito de criar um sentimento negativo que anule a objetivação positiva, que ele chama “idealização”.

Esse método com certeza não funcionará, porque tenta contrapor uma valorização racional fraca a uma objetivação inconsciente que tem a força natural derivada de um instinto. A quem eventualmente desejar testá-lo, proponho o que penso seria uma modificação útil: o uso separadamente de duas imagens, paralelas e simultâneas. Seria criar uma segunda imagem que retrate o objeto da paixão como uma pessoa comum, despida da objetivação, certamente portadora de defeitos e imperfeições que mesmo o maior dos apaixonados não deixará de perceber e reconhecer.

Separados os dois personagens, o objetivado que é amado, e o não objetivado, então se pode ir, aos poucos, reforçando este último, que é a pessoa comum com suas imperfeições e suas limitações.

Essa segunda objetivação, – que corresponde a uma “desobjetivação” da primeira –, permitiria descobrir os infra-estímulos envolvidos, a que carências com respeito à auto-estima a objetivação se refere, e desenvolver certos sentimentos antagônicos relativos à pessoa amada, tal como recomenda Roldán. Mas isto ainda não seria, talvez suficiente, exceto para facilitar um último passo, que seria o objetivador excluir a pessoa do seu círculo de contactos mais frequentes.

Outros métodos. é, do ponto de vista teórico e prático, possível criar uma interferência física ou química no sistema associativo. Os efeitos da alteração do equilíbrio hormonal sobre a sexualidade já são bastante conhecidos. Muitos bispos e sacerdotes na história da igreja apelaram para a castração, com o fim de se livrarem do impulso sexual.

A castração feminina é uma operação muito mais complexa que a masculina. Porém existe e é praticada em massa, em alguns países do oriente. A circuncisão ou remoção do clitóris da menina é feita antes da puberdade, a fim de dificultar o prazer sexual e facilitar a manutenção da virgindade, além de que é parte da cultura desses países que a mulher não demonstre ao marido encontrar prazer no ato sexual. Não se pode excluir a possibilidade de que essa medida tenha sido tomada alguma vez com vistas a facilitar o celibato de religiosas.

Recursos farmacológicos. E uma vez que tratamos com um processo afetivo sabido, de longa data, ser sensível a substâncias estimulantes, não poderiam faltar remédios populares para seu controle. e arrefecimento. Componentes químicos da essência de certas ervas têm reconhecido efeito anti-afrodisíaco. Algumas são estimuladoras dos hormônios femininos que reduzem o interesse sexual no homem e na mulher. Uma delas é a Vitex negundo ou Vitex agnus castus, conhecida como Alecrim-do-norte, Alecrim-de-Angola ou Pimenteira. Os botânicos dizem que, na Idade Média, os monges mascavam as bagas secas dessa planta ou utilizavam a semente como tempero (pimenta de frade) para afastar o desejo sexual e que também as mulheres romanas espalhavam suas folhas aromáticas no leito com a mesma finalidade, quando os maridos estavam guerreando no estrangeiro. Por isso ficou conhecida como “arvore da castidade”.

Em qualquer caso, desejar e buscar o celibato pela liberdade espiritual que possa representar, requer a criação de emoções que possam sustentá-lo, e saber desmontar as que se lhe opõem é, com certeza, o método cognitivo, acima de qualquer outro, é o que está mais à altura da dignidade do ser humano racional.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 04-08-2002.

BIBLIOGRAFIA

  • Agostinho, Santo – Obras Completas de San Agustín. Ed. bilingue, Vol. XXXV, p.777. Biblioteca de Autores Cristianos. Editorial Católica, S. A., Madrid, 1984.
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  • Mululo, Maria das Graças – A vida Eucaristizada de Dom Tomás Murphy. Editora Vozes, Petrópolis, 1997; 134 p.
  • Roldán, Alejandro – As crises na vida religiosa e sacerdotal (Las crisis de la vida en religión). Edições Loyola, São Paulo, 1965; 247 p.
  • Teresa de Jesus, Santa – Caminho de Perfeição. Editora Paulus, S. Paulo, 1979; 258 p.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Queiroz – Filosofia do querer. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2002.

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