Boudenlos

Hoje: 26-10-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

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Combinaram para um almoço na praia de Olinda, tinham muito que conversar, e ali no frescor das sombras dos coqueiros se sentiam mais confortáveis que no escritório do Consulado.

Todos portavam bermudas muito enfeitadas, bem coloridas como era de costume dos americanos na década de 1960. Camisetas em geral de cor branca.

Alguns fumavam, um deles cachimbo, e após um banho de mar, sentaram-se para comer moluscos regados a caipirinha.

– Que comida saborosa! Disse Charles Messungue.

– Pode ser comparado a um prato da culinária francesa, disse Boudenlos. – No Sul da França, na região de Marselha eu comi um prato do qual não me esqueço. Era como esse, um sortido de frutos do mar ao molho rouille chamado bouillabaisse. Aqui custa uma bagatela, mas na França pode chegar a 32 francos ou mais.

– Estou trabalhando no dossiê do professor Jack (apelido usado entre eles), disse Robert ao final da refeição. Torceu o corpo para alcançar na mochila o bloco de notas do caso e esperou que todos pudessem lhe dar atenção. Removidos os utensílios de serviços de mesa, abriu o bloco sobre ela.

Voltando a se dirigir aos colegas, disse – É um ativista muito dissimulado, mas acho que já temos elementos seguros para listá-lo como suspeito de comunista inserido no meio universitário.

Complementou Boudenlos – Já são 150 ativistas dessa categoria listados no serviço secreto do Consulado.

– Digam-me uma das evidências, falou Charles Messungue.

Robert respondeu prontamente – Eu próprio o vi entrando em uma casa escura, onde se reuniam agentes comunistas. Haviam conseguido apagar as luzes dos postes, mas ainda restou claridade o bastante para ver que se tratava do João da Silva, acompanhado de uma garota que parecia temerosa. Ele tomou a mão da moça para encorajá-la e entraram na casa escura onde o grupo comunista promovia debates.

Pareceu-me que ele estava fazendo proselitismo, e que a moça seria iniciada na doutrina comunista.

– Alguma outra prova? Perguntou Boudenlos.

– Não é o suficiente? Retrucou Charles.

Boudenlos meneou a cabeça e não insistiu. Mas o nome João da Silva não lhe era estranho, por isso se preocupou em apurar o que havia de verdade no que Robert dissera.

Seguiram-se ainda algumas conversas entre eles a respeito de suspeitos que cada um tinha em mira.

William, que até ali, preocupado com a falta de notícias da mulher, não havia dito nada, falou:

– Continuo com o dossiê da Adalgisa Cavalcanti. Atualmente ela dá menos trabalho; são menos agitações que quando era deputada.

Aludindo a sua atividade de fachada, informou que estava como conselheiro da biblioteca pública, para conservação e restauração de documentos.

– A biblioteca é infestada de comunistas e muitos trabalham em organismos que possuem documentos antigos de modo que posso acompanhar as atividades do partido. Esse pessoal me dá pena. Vejo que são pessoas de bom coração e de verdadeiro amor pelos pobres, mas é um amor mesclado com revolta por isso não param de conspirar contra a sua Pátria. A todos parece faltar uma compreensão de que a ajuda aos pobres, precisa primeiro passar pelo progresso social. Somente depois que o país se levantar economicamente, poderá cuidar dos menos privilegiados do destino.

Charles concordou.

– Esse desenvolvimento vai acontecer agora que estamos oferecendo ao governo brasileiro a aliança para o progresso.

O sol já se punha quando tomaram a última caipirinha e se foram.

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Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 06-10-2021.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Boudenlos. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2021.