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Conservação e restauração de livros e
documentos:
Perguntas mais freqüentes
Respostas dadas pela restauradora |
Vez por outra recebo uma pergunta sobre restauração ou conservação de livros e documentos. Listo abaixo as perguntas que mais freqüentemente me são feitas, e uma breve resposta a cada uma. Claro que estas recomendações são oferecidas sem qualquer conhecimento detalhado da situação ou condição do material. De fato, seria irresponsabilidade alguém dar opinião ou recomendar qualquer tratamento sem ver o material a ser preservado ou restaurado. Por esse motivo as respostas são escritas em termos gerais, apenas procurando indicar que existem soluções possíveis para muitos dos problemas de restauração e conservação. Recomendo insistentemente que você procure um bom técnico com experiência em restauração de livros e documentos se o material a restaurar é importante e valioso. 1. Você conhece algum local onde
aprender a restaurar livros? A respeito de locais em que se fazem
restaurações de documentos, existem alguns bons, no Rio: Biblioteca Nacional, Arquivo Nacional, Fundação Casa
de Rui Barbosa; em Belo Horizonte: CCECOR - Centro de Conservação de Obras Raras; em São Paulo: Museu
Lasar Segall, o Museu Paulista e a Biblioteca
Municipal Mario de Andrade; em Brasília: Laboratório da Imprensa Nacional e
Laboratório do CEDOC da UnB.
Fora do Brasil existem centros muito
modernos como o Laboratório de Restauração da Biblioteca Nacional em Lisboa, o da Fundação Ricardo
Espírito Santo Silva, Serviço de Encadernação e Restauro do Arquivo Nacional da
Torre do Tombo, a Oficina de Restauro do Arquivo Histórico Ultramarino, a Oficina de Restauro da Fundação
Calouste Gulbenkian, e, dependendo da 2a. língua que
você falar, o Laboratório Central de Restauração em Madri, a Biblioteca do
Congresso em Washington, Estados Unidos, e outros em Firenze (Florença), em Roma,
etc.
2. Gostaria de saber se você oferece
curso nessa área e se há possibilidade de fazer um curso com você. Presentemente estou sob contrato com o
Centro de Documentação da Universidade de Brasília - CEDOC. No laboratório do CEDOC fazem estágio os alunos
dos cursos de Arquivologia e Biblioteconomia da Universidade. 3. Você pode resumir uma orientação
geral para os meus livros, alguns com mais de um século de impressos?
Livros produzidos de fins do século XVIII
até recentemente são as maiores vítimas de deterioração e envelhecimento, e isso se deve à má qualidade da
matéria prima e do processamento com produtos agressivos, o que, aliado aos altos valores de umidade e
temperatura, propiciam o enfraquecimento e conseqüente fragmentação do papel. Somente em laboratório é
possível reverter um pouco esse prejuízo, mediante banho das folhas do livro para
desacidificá-las. Como medida de conservação de acervos
aconselha-se a higienização permanente das instalações. Se a coleção está em
estantes de madeira, melhor passá-la para estantes de aço. Retirar os volumes das prateleiras,
proceder a limpeza das mesmas (as prateleiras) com um pano ligeiramente úmido (não
bater o pó).
Fazer a limpeza do miolo do volume com uma
trincha bastante macia, página por página, se possível em uma "capela" ou em local ventilado, utilizando
máscara e luvas cirúrgicas, para evitar problemas de alergia ou contaminação por fungos. Essa operação NÃO
deve ser feita com aspirador de pó, pois a sucção poderá danificar irreparavelmente uma folha já fragilizada.
Fazer a limpeza dos cortes dos volumes com
flanela de cor branca, seca, ou com uma trincha estreita e macia, tendo o cuidado de manter o volume bem
fechado (em laboratório usa-se a chamada "prensa vertical"), para que o pó não infiltre ou aconteçam rasgos
nas páginas. Se os cortes estiverem muito enegrecidos, sujos de gordura ou com marcas deixadas por insetos
pode fazer a limpeza com uma lixa fina (por exemplo: Norton, amarela, n. 100), em
movimentos suaves ao longo do corte. Proteja a capa do atrito da lixa inserindo uma folha de papel como uma
orelha entre a beirada da capa e o corte ou miolo do volume.
Depois dessa operação de limpeza, se o
volume tem capa de couro, ou apenas a lombada em couro, passar um pano ou flanela secos
para retirar a poeira e em seguida aplicar uma cera incolor própria à base de cera de abelha ou carnaúba,
sempre em movimentos circulares com os dedos o que facilita a penetração da cera. Mas verifique antes se o
estado do couro suportará essa operação. Não a faça se o couro estiver muito ressecado e já formando pó (Neste
caso é necessário um fixativo o que é trabalho de laboratório)..
Cuidado para não sujar ou destacar a impressão a ouro acaso existente no dorso do volume. Existe uma cera
incolor a venda em são Paulo de nome COLT que é de muito boa qualidade para esse fim ou então a cera americana
FREDELKA, específica para encadernações. Tomar cuidado nessa operação para não atingir as partes de papel do
volume. Colocar o volume em pé ligeiramente aberto e no dia seguinte dar o polimento com flanela para remover
o excesso de cera e dar brilho. Climatização é a forma mais eficiente de
conservação. Para tanto se faz necessário que a ambientação permaneça estável, com valores em torno de 18 a 20
graus cent. de temperatura e 55 a 60% de umidade
relativa do ar. Geralmente se faz necessário um sistema combinado de refrigeração e de
desumidificação, pois os parâmetros climáticos das regiões tropicais (grande parte do Brasil) estão
muito distantes, positivamente, dos valores ideais. Porém, nas épocas secas, poderá ser necessário elevar a
umidade ambiente ao nível indicado. Também causam bastante dano aos materiais
usados nos livros, os raios ultravioletas presentes tanto na luz solar (ação mais rápida) como na iluminação
artificial (normalmente de ação mais lenta). Entre outros malefícios, eles contribuem para a oxidação da
celulose do papel, pela ação fotoquímica. É preciso observar a incidência de uma e de outra e minimizar tanto
a incidência da luz solar, fechando janelas, quanto da luz artificial, diminuindo a exposição do acervo à luz
elétrica.
Os livros quando muito comprimidos nas
prateleiras, obrigam a sua retirada de maneira incorreta, o que danifica as lombadas e fatalmente leva ao dano
da encadernação.
Mais informações, recorra aos livros e artigos indicados na página Bibliografia 4. Uma pessoa aconselhou a tratar o
livro empastelado com gasolina, e não deu certo. Que pode ser feito? Desconheço qualquer técnica presentemente em uso para recuperar livros empastelados. Se você sabe da existência de livros ou documentos empastelados (páginas coladas) alerte o responsável para que não descarte nem dê por definitivamente perdido esse material. Está em pesquisa um método com o uso de raios gama que pode trazer a solução. O material deve ser conservado com os mesmos cuidados proporcionados aos demais documentos e livros, a fim de aguardar a divulgação dessa técnica. Não jogar fora livros empastelados que possam ser valiosos! 5. Gostaria de restaurar (capas) alguns
livros antigos. Poderia me dar dicas para este trabalho? Onde encontro o material
necessário? Espero que a seguinte orientação geral
sobre restauração de livros sirva de ponto de partida para você: Toda restauração, é feita após um
diagnóstico técnico. É tarefa para um especialista e requer a infra-estrutura de um laboratório. Se no momento
você não dispõe dessas condições, pode mandar fazer caixas de material desacidificado
( não ácido), no tamanho próprio de cada livro, e assim mantê-lo protegido. No lado
da caixa correspondente ao dorso pode indicar o título, data, etc. Para qualquer pequeno reparo que deseje
fazer, use material livre de acidez: emprega-se normalmente como adesivo a
metil-celulose e como reforço o chamado "papel japonês". Para mais que isso
seria conveniente que fizesse primeiro um estágio em um laboratório de restauração de livros e papeis.
Sobre locais onde estagiar para aprender
técnicas de restauração, veja, por favor, a resposta à pergunta n.1. Mais informações, recorra aos livros e artigos indicados na página Bibliografia. 6. Gostaria de saber se você tem um
modelo de projeto para conseguir recursos financeiros para restaurar uma coleção. Primeira hipótese de solicitação de
recursos:
Você mantém a coleção fechada e deseja que
alguma Instituição dê suporte financeiro para treinar seu pessoal e capacitá-lo a abrir a coleção e realizar o
diagnóstico, e que, a partir do levantamento dos serviços necessários, lhe proporcione mais recursos para a
restauração propriamente dita.
Segunda hipótese:
Você pede o orçamento da restauração a um
laboratório e então busca ajuda financeira de valor fixo.
Em qualquer das duas hipóteses você terá
que fazer uma carta-consulta (de duas a três páginas no máximo, não um projeto propriamente), expondo o
valor da coleção, citando as principais obras raras que tiver, com uma descrição do estado geral em que se
encontra a coleção, as dificuldades que levam à necessidade de buscar recursos fora do seu próprio sistema,
etc.
Na primeira hipótese, o normal é a
celebração de um convênio. Parte-se logo para um primeiro convênio com o Órgão que dará o apoio financeiro.
Este fará o desembolso na medida do necessário, liberando os recursos para os estudos preliminares, os quais
consistirão principalmente no treinamento de funcionários para a elaboração das fichas de diagnóstico de cada
volume. O coordenador ou gestor do convênio movimentará a conta bancária e fará a prestação de contas dos
recursos recebidos. O convênio poderá ser prorrogado se necessário, e anualmente serão alocadas verbas, à
vista do seu relatório sobre o andamento dos trabalhos e de acordo com o programa que você apresentar e for
aprovado.
Na segunda hipótese é o simples pedido da
ajuda financeira com especificação do montante necessário, o qual é previamente fixado com base no orçamento
que você obteve do Laboratório. Ao solicitar o apoio financeiro você já sabe de quanto precisa. O órgão ou
empresa que concordou em fornecer os recursos fará uma carta de compromisso de financiamento e irá ela mesma
pagar as contas ao Laboratório e mais o que estiver incluído no projeto. Em outras palavras, não há repasse de
recursos para você ou sua instituição. 7. A pesquisa em nossa biblioteca
aumentou consideravelmente, trazendo preocupação quanto à preservação principalmente dos jornais. Fico em
dúvida se o melhor serviço ainda é a microfilmagem ou se já existe algo mais moderno através da informática. Para preservar uma coleção de jornais, a
microfilmagem ainda me parece o melhor procedimento. A finalidade do microfilme é mais e principalmente a de
permitir a leitura do documento nas máquinas leitoras de microfilme, evitando que os originais sejam
utilizados e sofram danos. Por isso a microfilmagem é um recurso ainda insuperável quando se trata de jornais
antigos, de documentos, de códices ou de obras raras. É uma boa idéia utilizá-la para os jornais e documentos,
pois os exemplares deixariam de ser manuseados e ficariam assim a salvo do desgaste. A Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro
mantinha um programa de microfilmagem de periódicos em todo o interior do Brasil. Eles mandavam uma equipe
fazer a microfilmagem. A propósito, liguei para a Biblioteca Nacional e me informaram que o "Projeto de
Microfilmagem de Periódicos" (jornais, semanários, etc.) no interior do país continua atuando. Caso deseje
candidatar-se escreva para:
Vera Lucia
Garcia Menezes 8. Minha cidade possui vários
documentos históricos ainda não catalogados e espalhados, principalmente no Fórum local. Pediram-me que
fizesse um projeto para seleção e arquivo desses documentos. A preservação desse futuro arquivo seria através
de microfilmagem ou CD-Rom?
O primeiro passo seria o exame preliminar
feito por um técnico. das coleções que serão reunidas. Precisam ser avaliadas para
que seja possível dimensionar o volume documental presente, e fazer previsões para o futuro,
afim de determinar a capacidade do Arquivo em termos de espaço e equipamento.
Os documentos têm que ser avaliados também
para fins de mudança do local de origem para o novo local, não apenas em relação ao custo incluído o
acondicionamento, mas também a fim de serem separados, para tratamento especial no transporte, aqueles em pior
estado. Um projeto responsável não permite que uma única folha se perca na operação de mudança. Outra questão delicada e controvertida é a
decisão de o que guardar e o que descartar. Claro que o ideal seria conservar qualquer papel que vinculasse
uma informação não repetida ao nome de um cidadão. Um documento pode vir a ser importante no futuro
simplesmente por revelar que alguém esteve em algum lugar numa certa época. Por aí se vê que muito pouca
cousa poderá ser posta de lado. Outros aspectos do projeto dizem respeito
à boa adequação do local ao armazenamento, quanto à sua ventilação e iluminação, controle da temperatura e da
umidade, controle de insetos daninhos e da poluição, à proteção contra incêndio, às facilidades para socorro
em situações de emergência e segurança, locais de exibição e de leitura, e instalações para procedimentos
ligeiros de conservação e restauro. Aqui as recomendações são as mesmas que para uma biblioteca. No entanto, o
estado da documentação pode exigir que desde o início exista no Arquivo um laboratório de restauração, o que é
um item a ser examinado à parte. Esta seria uma primeira fase. Outra seria
a da organização do acervo documental. Como se trata de documentos de vários tipos, a organização do novo
Arquivo deverá, em princípio, preservar os corpos documentais separadamente, de acordo com sua origem.
Com tantas facetas a serem examinadas, um
projeto de Arquivo, por menos ambicioso que seja, é algo muito complexo, requerendo a assistência técnica de
uma equipe competente. Essa equipe deve incluir tanto os profissionais da construção quanto os profissionais
da arquivística, desde a fase de desenho do projeto; todos os detalhes precisam
ser discutidos pela equipe com ampla compreensão daquelas necessidades
fundamentais para o bom funcionamento e segurança do Arquivo.
Existem no Brasil vários cursos
universitários de Arquivo. Uma escola ou universidade próxima de você e que tenha um curso desse tipo poderá,
talvez, aceitar fazer um convênio para realização do projeto. Se isto não é possível, outra solução seria
chamar um técnico do Arquivo Nacional, do Arquivo Estadual, ou Municipal, da Capital mais próxima, para
examinar as coleções ou corpos documentais que se cogita reunir no Arquivo. O problema é que as instituições
andam se queixando de falta de pessoal e falta de verbas. 9. Livros velhos precisam ser
desinfetados de bactérias de doenças contagiosas em câmaras de expurgo? É sabido que roupas usadas podem conter
micróbios de doenças infecto contagiosas, como é o caso do cólera, da varíola e de
outras doenças em que o tecido conserva resíduos deixados pelo portador. Mas é bem pouco provável que isto
aconteça com livros. Porém, recomendo que seja consultado um serviço de saúde ou o serviço de
desinfetação de um hospital para obter uma orientação. Existem as câmaras de
expurgo para livros, geralmente utilizadas para matar insetos que roem o papel ou deixam marcas nas páginas de
livros e documentos. São câmaras a vácuo onde o material é tratado com inseticidas poderosos, mas não posso
afirmar que funcionem nesse caso. 10. Em nossa cidade não existe uma
câmara de expurgo e teríamos que enviar os livros para a Capital. Existe uma maneira de evitar isto? Não existindo a possibilidade de usar uma
câmara, o tratamento dos livros pode ser feito, de modo igualmente eficaz,
colocando-se lotes de livros em bolhas de plástico. Ambos os métodos requerem a assistência de técnico
especializado. O mais simples a fazer no combate aos
insetos é verificar onde se aninham ou de onde provêm, e eliminar essa passagem, e expurgar a coleção mediante
simples limpeza, volume a volume, conforme está detalhado acima (Vide a resposta à pergunta n. 3). Ao passar
as páginas, o local com a infestação será percebido e a limpeza removerá os insetos. Se a capa dura estiver
infiltrada de insetos, pode usar um inseticida seco de origem confiável. Depois de 72 horas remova o excesso
do produto com uma trincha bastante macia e limpe o volume externamente com flanela.
É aconselhável fazer sempre um teste com o
inseticida, colocando uma pequena quantidade dele sobre um papel do mesmo tipo do papel da capa a ser tratada.
Deixe por dois dias e verifique se o inseticida não causou nenhuma mancha ou outro tipo de dano. Mantendo a temperatura do ambiente baixa e a umidade do ar sob controle, os insetos não farão morada nem visitarão o local.
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Direitos reservados. Para citar este texto: Maria José Távora - Conservação e restauração de livros e documentos: perguntas mais freqüentes. Site COBRA PAGES, www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2001. ("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)
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