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DAVID HUME

Vida, época, filosofia e obras de David Hume - I

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Um dos mais célebres filósofos da Época Moderna, David Hume nasceu na Escócia em 7 de maio de 1711 (após o ato de União de 1707 unindo Escócia e Inglaterra) e ali faleceu em 1776. Foi o filho mais novo de Joseph Hume, homem de posses modestas, senhor de Ninewells, uma pequena propriedade junto a vila escocesa de Chirnside, cerca de nove milhas distante do porto inglês de Berwick-upon-Tweed no sentido de Edinburg. Sua mãe, Catherine Falconer, estava em Edimburgo, quando ele nasceu; ela era filha de Sir David Falconer, presidente da corte de justiça escocesa. Pelo calendário então em vigor, chamado "estilo antigo", era ainda 26 de abril (Somente em 1752, quase dois séculos depois de promulgado, o Reino Unido adotou o calendário Gregoriano).

Os Hume eram um ramo dos condes de Home, ou Hume, uma família influente da fronteira cujo poder estava em Berwickshire. Eram da linha política Whiggish (partidários da monarquia constitucional em oposição ao absolutismo por direito divino) e de religião calvinista. Um tio de Hume era o pastor da Igreja Escocesa local, freqüentada regularmente por ele na sua infância.

No seu terceiro ano de vida, Hume perdeu o pai. Ele, uma irmã e o irmão mais velho foram criados pela mãe viúva.

Era o costume na época cursar na universidade o curso básico (humanidades) ainda na adolescência, compreendendo três a quatro anos de estudos e Hume, aos onze anos de idade seguiu para a Universidade de Edimburgo. Estudou ali até por volta dos quinze anos, quando decidiu aprimorar seus conhecimentos por conta própria. Os familiares o pressionaram para estudar Direito, uma formação tradicional na família tanto pelo lado da mãe como de seu pai. Porém, não se interessando pelo Direito, dedicou-se à literatura e à filosofia, e lia intensamente. Suas leituras o lançaram em angustiante dúvida religiosa.

O próprio Hume descreveu como, quando jovem estudante, ele encarava seriamente a religião e seguia escrupulosamente uma lista de preceitos morais tirados do livro The Whole Duty of Man, um devocionário calvinista editado por Richard Allestree, um editor de almanaques e livros populares de então. Porém, durante aqueles anos de estudo particular, começou a sentir dúvidas que o assaltavam e que, como ele próprio conta, ele conseguia resolver mas que sempre voltavam novamente. Eram preocupações com as provas da existência de Deus, debaixo da influência que sofria dos ateus, principalmente na medida que lia sobre o assunto nos clássicos gregos e latinos e no "Dicionário Histórico e Crítico" de Pierre Bayle. Este filósofo cético e enciclopedista francês que editava o influente jornal Nouvelles de la république des lettres (Notícias da república das letras), tentava meter a Bíblia no ridículo.

Inseguro de si, o então jovem Hume resvalou para uma vida sem objetivos, marcada por aventuras amorosas, quando sofreu um sério esgotamento nervoso, com forte hipocondria, o que, entre 1729 e 1734, tolheu quase inteiramente suas atividades.

Em 1734, depois de experimentar trabalhar em um escritório comercial em Bristol, decidiu viajar para o interior da França, onde poderia, com os parcos recursos de que dispunha, conseguir complementar sua educação. Ele pouco recebera da herança do pai, uma vez que, seguindo o costume do país, a propriedade foi herdada, por seu irmão (Como em Portugal, o regime de "morgado", que evitava a fragmentação das propriedades entre herdeiros).

Ficou na França por três anos, algum tempo primeiro em Reims, porém principalmente em La Flèche, no Loire, antigo Anjou, no noroeste do país, um centro intelectual desde que ali fora fundado pelos jesuítas, em 1604, o Colégio Real, que René Descartes havia freqüentado.

Na França, além de estudar, ocupou-se também de escrever o "Tratado da Natureza Humana", uma tentativa de criar um sistema filosófico completo.

Retornando à Escócia em 1737, Hume foi juntar-se à mãe e ao irmão na antiga propriedade rural da família, próxima a Edimburgo. Logo providenciou a publicação do "Tratado", dividido em três livros, publicado anonimamente em duas etapas, antes de completar trinta anos, em 1739 e 1740. O Livro I busca explicar o processo do conhecimento no homem, descrevendo respectivamente a origem das idéias, as idéias de espaço e tempo, de causalidade, e o ceticismo com respeito aos sentidos. O Livro II, sobre as "paixões" do homem, apresenta um elaborado mecanismo para explicar a ordem afetiva ou emocional no homem, e reserva um papel subordinado para a razão. Estas duas partes foram publicadas em 1739, anonimamente. O Livro III descreve o bem moral em termos de "sentimentos" de aprovação ou desaprovação que o homem sente quando ele considera o comportamento humano sob a luz do que é de conseqüência agradável ou desagradável para ele ou para os outros. Esta terceira parte foi publicada em 1740.

Ao explorar os vários tópicos filosóficos de que se ocupa, o "Tratado" oferece apreciações originais freqüentemente céticas dos conceitos respectivos. Apesar de que religião não é especificamente o assunto de nenhuma seção do "Tratado", é um tema freqüente nas suas páginas.

Apesar de que hoje os intelectuais o reconhecem como uma peça magistral, Hume estava desapontado com o pouco interesse que o livro levantou na ocasião. Porém, a despeito de ser o "Tratado" a obra mais abrangente de seu pensamento, o próprio Hume o considerou, depois, um trabalho imaturo. Ao fim de sua vida ele o repudiou veementemente como juvenil, declarando que somente seus últimos trabalhos representavam seus verdadeiros pontos de vista.

Efetivamente, o "Tratado" é considerado algo mal construído, excessivamente sutil em certos trechos, confuso devido à ambigüidade no emprego de termos importantes, por exemplo, "razão", e prejudicado por insistentes afirmações extravagantes e declarações pessoais teatrais. A condenação dele pelo próprio Hume em sua maturidade é tida apenas como severa, não descabida. No entanto, o Livro I foi mais lido nos círculos acadêmicos que qualquer outra de suas obras. Na época, no entanto, o "Tratado" recebeu pouca atenção, e por ser seu primeiro trabalho e uma obra ambiciosa, Hume ficou deprimido.

Hume continuou vivendo no campo com a mãe e o irmão até 1740, aproveitando para relembrar a língua grega. Em 1741 e 1742 publicou em Edimburgo seus dois volumes do "Ensaios, Moral e Político". Essa obra foi escrita em estilo popular e obteve melhor sucesso que o "Tratado". Devido ao sucesso do seu "Ensaio", Hume ficou convencido de que a fraca acolhida ao seu "Tratado" fora causada pelo seu estilo mais que pelo seu conteúdo e planejou refundir a primeira obra.

Os aplausos ao "Ensaios" também encorajaram Hume a tornar-se candidato à cadeira de filosofia moral na universidade de Edimburgo, no ano de 1744.

A vaga foi criada pelo afastamento do cientista e filósofo John Pringle, considerado fundador da moderna medicina pelos princípios de higiene que impôs aos hospitais (Publicou em 1750 "Experiências com Substâncias Sépticas e Antisépticas"). Pringle ocupara a cadeira de 1734 a 1744, e se afastava devido a compromissos vários como médico e cirurgião militar, vindo a ser o médico do rei George III em 1774 (Sua sugestão de que os Hospitais Militares fossem respeitados por ambas as facções em combate levou mais tarde à criação da Cruz Vermelha Internacional).

O concelho da cidade de Edimburgo era responsável por eleger o substituto de Pringle. Hume não era o único candidato, mas era considerado o candidato mais importante. Levantou-se então a objeção de ser ele um herege e mesmo ateu, reportando-se ao anterior "Tratado", como evidência. O líder entre os críticos era o próprio reitor da Universidade, o clérigo William Wishart. Circularam listas das supostas proposições perigosas do "Tratado" de Hume, presumivelmente de autoria do próprio Wishart.

Face a tão cerrada oposição, o Conselho da Cidade decidiu consultar o Conselho de ministros religiosos de Edimburgo. Na esperança de convencer os clérigos daquela assembléia, Hume redigiu e publicou um breve trabalho intitulado "Uma carta de um cavalheiro a seus amigos em Edimburgo", no qual responde ponto por ponto às listas circulantes de suas proposições tidas por perigosas. Mas esse esforço não surtiu efeito e 12 dos 15 ministros votaram contra ele.

Derrotado, Hume deixou a cidade onde residia desde 1740 e passou um período de perambulação:

Em 1745, ao que parece por orientação dos parentes e amigos, o jovem Marquês de Annandale, na ocasião doente tanto do corpo quanto da mente, enviou a Hume uma carta convidando-o para ir viver com sua família na Inglaterra. Hume se ocupou do rapaz por doze meses, compromisso que lhe rendeu, como compensação, considerável acréscimo a seus pequenos recursos. No ano seguinte, 1746, ele recebeu um convite do General James St. Clair, um membro de uma proeminente família escocesa, para assessorá-lo como secretário em uma expedição contra o Canadá, a qual terminou em apenas uma incursão às costas da França; teve uma curta estada em Londres retornando ainda ao refúgio da família em Ninewells.

Aceitando novo convite do General St. Clair, de 1748 a 1749 vestiu uniforme de oficial, assessorando o general em sua embaixada militar as cortes de Viena e Turim. Foi apresentado naquelas cortes como ajudante de campo do general, junto com outros militares de alta patente.

Durante esses anos de perambulação Hume estava ganhando o dinheiro que precisava para ter folga para seus estudos. Nestas atividades conseguiu reunir a pequena fortuna de mil libras, então suficiente para viver com independência. Sobre esse período publicará mais tarde "Diário de Viagem".

Enquanto estava em Turin foi publicado "Ensaios filosóficos concernentes ao entendimento humano" que era a revisão do Livro I do "Tratado" que ele se propusera fazer com linguagem mais popular. Estava também acrescido de duas seções: "Dos Milagres", notório por sua negação que um milagre possa ser provado por qualquer quantidade ou qualidade de evidência; e de outro intitulado "De uma certa providência e de um estado futuro". Essa obra ficou melhor conhecida como "Uma investigação concernente ao entendimento humano", o título que Hume lhe deu numa revisão em 1758.

Ainda em 1748 ele somou à coleção de suas obras um ensaio intitulado "Dos tipos nacionais". Em um longo rodapé nesta peça, Hume ataca o caráter do clero, acusando a profissão de ser motivada por ambição, presunção e vingança. Este rodapé tornou-se alvo favorito de ataque pelo clero.

Em 1749 ele retornou à Escócia e morou dois anos na casa do irmão (sua mãe havia falecido), onde compôs a segunda parte do seu Ensaio, que ele chamou "Discursos Políticos", e também sua "Investigação concernente aos princípios de moral", outra parte do seu "Tratado", o Livro III, que ele refundiu de forma muito diferente e viria a publicar em 1751. Logo em seguida ele foi informado por Mr. A. Millar, seu livreiro de Londres, que suas primeiras publicações, exceto seu infeliz "Tratado", estavam começando a ser comentados e as vendas deles estava aumentando gradualmente e que novas edições eram necessárias para responder a demanda do público.

Foi nesses trabalhos que Hume expressou seus pensamentos maduros.

A "Investigação concernente aos princípios de moral" é um refinamento do pensamento de Hume sobre moralidade, no qual ele vê a simpatia como o fato da natureza humana jazente na base da toda vida social e felicidade pessoal.

Dois anos após o "Investigação" ter sido publicado, Hume confessou: "Eu tenho uma predileção por esse trabalho", e, ao fim de sua vida ele julgou "de todos os meus escritos incomparavelmente o melhor". Tais afirmações, junto com outras indicações em seus escritos posteriores, torna possível suspeitar que ele considerava sua doutrina moral como seu principal domínio.

Após a publicação desses trabalhos, deixou o campo e voltou a morar em Edimburgo, pelo período de 1751 a 1763, que teve dois intervalos em Londres. Essa etapa se inicia com uma tentativa para se conseguir que ele fosse indicado sucessor de Adam Smith, o economista escocês (que depois se tornaria seu amigo íntimo) para a cadeira de lógica em Glasgow. Não obteve a cátedra. O rumor de ateísmo prevaleceu novamente.

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
14/07/97

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - David Hume. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 1997.
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