NOVIDADES DO SITE

 

 Um tremendo esquerdista!

 

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

 

Faltam-me quase completamente informações sobre a origem e a formação acadêmica do professor Juan Carlos Goñi. Diligências que fiz junto à Escola em que lecionou, buscando informações sobre ele, não surtiram efeito. Não tenho, pois, elementos para uma biografia sua, com um mínimo satisfatório de informações. Mas, como eu o conheci, e nos confrontamos no XV Congresso da Sociedade Brasileira de Geologia em Florianópolis, não poderia deixar de incluí-lo em minhas Memórias.

Apenas três referências posso fazer a respeito do Professor Juan Carlos Goñi. Uma, a um episódio contado pelo então diretor do Curso de Geologia do Rio Grande do Sul, em uma sua entrevista publicada no Site http://www.museumin.ufrgs.br/MemIrajaPinto.htm. Outra, é a afirmação de um ex-aluno seu, de que o Prof. Juan Goñi era uruguaio, lecionava Mineralogia e Petrografia, havia estudado na França, e “inclusive sua esposa era francesa”. A terceira é a impressão que me causou sua figura.

Na mencionada entrevista do Professor Irajá Damiani Pinto para o Prof. Ruy Paulo Philipp em 10 de julho de 2003, no endereço citado, aquele diz muito pouco sobre Goñi. São suas palavras: “Eu convidei para dar aula um uruguaio, o prof. Juan Goñi, que tinha feito o curso na França, era um excelente mineralogista, extremamente competente, mas um tremendo esquerdista. Às 5 horas da manhã ele já estava no Chatozinho tomando mate com os alunos e catequizando-os”. Diz mais que teve grande dificuldade para convencer os alunos – obviamente influenciados por Goñi –, a aceitarem os professores americanos. Lembrou-lhes que a rejeição radical aos americanos por parte dos alunos da Escola do Recife – também criada pela CAGE-Campanha de Formação de Geólogos – tivera como consequência a Escola deixar de receber do governo americano equipamentos indispensáveis para o ensino, e era melhor que isso não se repetisse com a Escola de Porto Alegre.

Essas breves referências bastam para se perceber que o prof. Goni instrumentalizava seu magistério de geologia como meio para sua atividade política marxista e antiamericana.

Quanto a mim, o professor Goñi devia saber que eu fora assistente do americano Robert Reeves no mapeamento do Quadrilátero Ferrífero. Por coincidência Reeves, terminado o mapeamento patrocinado pelo United States Geological Survey em Minas Gerais (no qual eu estive engajado, pago pela Cia. Belgo Mineira), fora transferido para a cooperação americana ao Curso de Geologia de Porto Alegre, e era colega de Goñi. Reeves teria mencionado meu nome, que figurava junto ao seu em um dos mapas geológicos do Quadrilátero, mapas que o U.S.G.S. havia disponibilizado para as aulas nos Cursos de Geologia. Devia igualmente saber que eu havia sido assistente em Geologia de Campo e Geologia Estrutural do professor John Thomas Stark, na Escola de Geologia do Recife. Talvez o seu noticiado antiamericanismo é que o tenha levado a cegamente me ridicularizar no Congresso de Geologia de Florianópolis, e também – considerada sua proeminência no conclave –, fosse igualmente a razão de os professores americanos da sua Escola se manterem silenciosos durante as sessões, ocupando as últimas filas de assentos do salão

Se o professor Goñi tinha uma obsessão pelo marxismo e o antiamericanismo, com certeza não era menor a sua paixão pelo processo de formação de migmatitos. Fez um aparte à minha palestra no congresso de Florianópolis, para afirmar– sem conhecer o local – que aquilo que eu tomava como uma intrusão de rocha ígnea em um granito não passaria de uma mancha em forma de dique, constituída de biotita e outros minerais básicos escuros, comuns em migmatitos.

Nessa época, a migmatização era um assunto já superado em discussões de congressos geológicos, mas Goñi havia empolgado seus alunos com a questão, apresentando-a como novidade, a julgar pelos ruidosas aplausos que estes, também presentes ao encontro, deram ao mestre ao final do erudito aparte que me fez.

Eu sabia muito bem distinguir uma coisa de outra, e não cometeria o erro primário que o professor Goñi com tanta convicção me atribuía. Minha exposição era sobre uma região – o Noroeste do Ceará –, onde visíveis e claras formas intrusivas de magma atravessavam a sequência sedimentar, e uma delas cortava também, com a mesma evidência, um granito róseo, de textura granular homogênea, entre média e grossa, no lado ocidental da Serra da Meruoca.

Estava presente à minha exposição o Dr. Kurien Jacob, ex-diretor do Serviço Geológico da Índia e Consultor Técnico da UNESCO, que me levara a mapear aquela região, e acompanhava o meu trabalho. Mas infelizmente, Dr. Jacob não pode vir em meu apoio, porque não compreendia o português. Mostrava-se atônito com os risos e apupos que me fizeram os alunos do professor Goñi, mas somente depois ficou sabendo o que havia acontecido. Ele próprio estava decepcionado com o fato de não ter sido chamado na sua vez de apresentar um sumario, em inglês, sobre a atuação da UNESCO no Nordeste.

 Diante do tumulto levantado, seria pior tentar convencer  aquele grupo, e preferi abreviar a exposição e voltar ao meu lugar na plateia. No caminho ouvi um dos estudantes gaúchos mais exaltados conclamar os colegas a que, nos futuros congressos da SBG, fossem barradas as inscrições de "trabalhos ruins". Isto, dito para que eu ouvisse.

Era impressionante o reinado de  autoridade daquele mestre, os seus acólitos segurando-lhe as pontas do seu manto de glória. Naqueles tempos era fácil se fazer rei – em meio ao atraso geral do país – em qualquer ramo do saber em que se desejasse brilhar. O professor Goni era habil em se promover no seu circulo, não importa que fosse totalmente desconhecido fora dele.

O resto da tarde foi para mim de perplexidade e desencanto, e um certo terror, pensando que coisas insanas como aquela poderiam, no futuro, novamente me vitimar em minha vida profissional. 

Porém, no mesmo dia, à noite, um  bem humorado gesto de solidariedade me comoveu. Ao jantar com Ivan Tinoco e João Dália Filho no hotel, casualmente demonstrei admiração pelo formato original de um pequeno paliteiro de louça, sobre a mesa. Quando, após o jantar, descemos para o andar em que tinhamos nossos apartamentos, o Dália surpreendeu-me. Tirou do bolso o paliteiro de porcelana, e me presenteou com ele. Obviamente, condoído do meu estado de espírito, tentava me reconfortar um pouco – uma das sete obras de misericórdia espirituais... De fato, me fez novamente sorrir.

Passados alguns meses, enquanto eu prosseguia o meu gratificante e inédito mapeamento do Noroeste do Ceará, achava-me em Sobral, almoçando no restaurante Crepúsculo, e lá apareceu o professor Goñi. Estava, sem dúvida, à procura do seu migmatito. Sentou-se a uma das mesas. Embora ele estivesse a me olhar, com um olhar ressabiado, preferi ignorá-lo. Mas, guardo até hoje, como uma relíquia, o pequeno paliteiro triangular de porcelana branca.

Rubem Queiroz Cobra

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
01-03-2011

Direitos reservados.
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Um tremendo esquerdista. Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2011.

Utilize a barra de rolagem desta janela de texto para ver as NOVIDADES DO SITE
Obrigado por visitar COBRA PAGES  

Todos os links desta página devem estar funcionando. Se há um link nesta página que não está funcionando, por favor, avise-me. Insira em sua mensagem o TÍTULO da página onde encontrou o link defeituoso. Fico-lhe antecipadamente agradecido pela cortesia de sua colaboração.
Rubem Queiroz Cobra