O Rosto Transgênico

Hoje: 29-11-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

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Sequestrada na tarde do segundo dia em Roma, Flor Azul estava preza em uma rica mansão, encerrada em um quarto decorado em estilo moderno, com moveis baixos em madeira escura de que era parte uma cama de casal larga e macia, e um gigantesco guarda roupa com pesadas portas de correr. De início, não sabia a quem pertencia a casa nem o que queriam com ela. Não teve dificuldades para tomar um banho e escolher o que vestir para dormir. Tudo que lá estava tinha seu número de manequim. Havia um lanche servido sobre uma mesinha na saleta à entrada do quarto.

Somente na manhã seguinte, quando uma mulher com uniforme de copeira veio lhe trazer o café, ficou sabendo que o dono da casa era Vincenzo.

Um pilão de cristal de Murano, chamou a atenção de Flor Azul. Escondeu o seu socador para usá-lo como arma e abater Vincenzo, se ele tentasse forçá-la a se entregar a ele. Porém, passou-se o dia sem que ele aparecesse. Mais tarde lhe trouxeram as refeições e revistas, e a televisão foi ligada.

No terceiro dia do seu cativeiro, Vincenzo apareceu para vê-la. Surpreendeu-a com o seu ódio e ressentimento.

—Eu trouxe você à Roma para você ficar comigo. Você aceitou vir mas comportou-se como uma prostituta ordinária, esbravejou Vincenzo chutando uma mesinha laqueada com bibelôs de cristal. —A decoradora que levou as flores ao hotel pegou-a nos braços de Fratelli. Meus homens me chamarão de cornuto! Mas estou bem vingado!

Lançou sobre a mesa de centro negra, baixa, e lustrosa – diante do sofá em que ela estava sentada –, o jornal do dia, A página da frente estampava o retrato de Fratelli sob uma grande manchete anunciando “mais um trucidamento entre os presos na penitenciaria Regina Coeli”. O jornal comentava: “Com certeza é uma trama da máfia que apresenta à polícia a denúncia falsa de um crime hediondo, o que leva os outros presos a matar o acusado preso. A máfia, gratifica depois os assassinos, organizando esquemas para que fujam”.

A notícia causou horror a Flor Azul. “Fratelli era um bom homem”, pensou, chorando baixinho. Fora enganada no Hotel com o recado de que Bernardino a mandara buscar. Mas era uma trama montada por Vincenzo para sequestrá-la e matar Fratelli, que não desconfiou de nada, porque os homens que vieram buscá-los eram companheiros seus, e trocaram cigarros antes de pegarem os carros.

Flor Azul precisava de um plano. Vincenzo era perigoso. Voltou-lhe a astúcia da sobrevivência nas ruas do Recife.

—Você se esqueceu de mim – queixou-se ela, fingindo igual indignação. —Não foi me buscar no aeroporto; vim para o hotel entre dois capangas que queriam me bolinar.

A reação da preta silenciou Vincenzo. Ele caminhou alguns passos até ela. Tomou-lhe as mãos, ergueu-a do sofá e propôs, em tom humilde e pacificador:

—Eu lhe posso dar tudo que você quiser, basta pedir. Você vai ficar comigo. e será feliz. De volta ao Brasil, com a minha influência, farei de você uma top-model… Eu prodigalizo tudo aquela mulher que amo. Vamos recomeçar! Vamos a um bom restaurante! Vamos sair! Vamos ver um pouco da cidade! Você gostaria de conhecer alguma coisa em Roma?

—Esta prisão me enlouquece! Quero sair – disse Flor Azul fingindo esquecer Fratelli e não se sentir culpada. —Gostaria de conhecer o Coliseu. – Fratelli lhe havia dito que eram ruínas que todo turista visitava, e estava perto do hotel. Imaginou que lá haveria onde se esconder, se tivesse chance de fugir.

Saíram de carro para o passeio. Vindo pela via Carlo Alberto, na altura da praça por trás da Igreja de Santa Maria Maior, o motorista parou o carro devido ao grande número de turistas cruzando a faixa para pedestres, caminhando para a Basílica. A praça estava cheia de grupos de várias nacionalidades, acompanhados de guias, vindos a visitar o grande templo católico.

Flor Azul teve a intuição de que aquele era o momento. Pegou seus sapatos, destravou sua porta e saiu a correr descalça, misturando-se aos turistas. Logo Kico, o motorista e Vincenzo saíram a persegui-la. Atraídos por um grupo de africanos, supondo que ela teria ido socorrer-se da gente da sua nação, abriram caminho brutalmente entre os pretos, buscando identificá-la por suas roupas ocidentais, que se destacariam dos estampados longos das africanas. Mas ela havia corrido em outra direção, para trás de um ônibus.

Providencialmente, um táxi deixara um casal de turistas pouco atrás e ela sinalizou para o chofer. Entrou no carro, sempre curvada, disse o nome do hotel, e suplicou aflita: “Presto, presto!”. Era uma palavra que Edmond repetia quando estava nervoso e impaciente com as modelos,

Ao se aproximarem do hotel, apontou para o restaurante Angelino. No restaurante encontrou o Walter, que lhe pagou o táxi e ajudou-a a fazer a ligação para falar com Edmond. Ele ainda estava no hotel. Ela lhe disse desesperada:

—Vincenzo me sequestrou e eu consegui fugir. Estou aqui no Angelino. Vincenzo é um assassino perigoso. Quero voltar para o Brasil, por favor. Você pode ficar, mas eu quero ir embora antes de ser novamente sequestrada ou até morta.

Edmond não levou um segundo para se decidir. Deixar Flor Azul entregue à própria sorte? Não! Precisava salvá-la. Era uma modelo de muito valor e ele já havia investido muito no seu preparo.

—Não fique exposta à vista de quem passa na calçada. Vou até aí. Aguarde.

Edmond sabia que não se brinca com a máfia e que seu aparelho celular estava sendo monitorado, e foi rápido. No lobby, o novo guarda-costas tinha toda a sua atenção concentrada em uma notícia do jornal encimada por uma grande manchete. O carro que viria buscá-lo ainda não havia estacionado à porta do hotel.

Levando apenas uma bolsa com dinheiro, os seus documentos e os de Flor Azul, seu sobretudo e o delicado manteau da modelo, Edmond correu pela Via Tor de Conti, enquanto vestia o capote. Cruzou a avenida e, no restaurante, abraçou e beijou o Walter, agradecendo-lhe haver escondido a modelo. A pedido de Flor Azul indenizou-o pela despesa do táxi em que ela fugira. Arrastou Flor Azul para a calçada, como se ela fosse uma menina teimosa que tivesse acabado de estragar seu sonho de fortuna, e tomaram um táxi para o aeroporto. Olhou o relógio. A operação toda, desde que ela telefonara, não fora além de dez minutos. Haviam deixado tudo para traz. Depois Edmond recorreria ao amigo para que viesse a Roma recuperar seus pertences no hotel, e os despachasse para São Paulo.

Conseguiram vaga no próximo voo a sair, e que seguia para Zuric. La esperava ter um curto espaço de tempo para comprar algumas roupas, e procurar um voo para São Paulo. Teriam que esperar ainda uma hora para o embarque.

Inquietava Edmond um sujeito encostado a uma coluna que parecia estar de olho neles. “Ora, deve estar apenas atraído por Flor Azul”, pensou.

Súbito, aproxima-se o Conde Ermelino acompanhado de quatro tipos mafiosos. O costureiro assustou-se ao notar as feições transfiguradas do Conde. Traços duros vincavam seu rosto que lhe parecera imperturbável, das outras vezes.

—Sr. Edmond! O senhor roubou-me 10 mil Euros! Isto vai levá-lo a apodrecer na cadeia.

—Eu?… – gaguejou Edmond. – A voz irada do Conde fez que o costureiro quase desmaiasse.

—Meta a mão no bolso do seu casaco! – ordenou o Conde.

Edmond tirou do bolso notas dobradas de Euro. Haviam sido colocadas ali para incriminá-lo. O salão de embarque, os guichês, os passageiros que formavam fila, dançaram diante de seus olhos. Não caiu, porém perdeu momentaneamente a voz.

Um dos capangas tomou-lhe o dinheiro e passou-o ao Conde. Outro torceu um de seus braços fazendo que se ajoelhasse gemendo, e o manteve ajoelhado segurando-o pelos cabelos.

—Um ladrão! – disse o Conde para algumas pessoas que pararam para observar a cena. —Esses homens são testemunhas! – disse – indicando com um gesto os seus guarda-costas.

Porém, curvando-se para o costureiro ajoelhado, abrandou a voz e disse, quase com doçura:

—Mas, não vou mandar prendê-lo, Sr. Edmond. Ao contrário – e o mafioso esboçou um sorriso irônico –, quero recompensá-lo pelo bem que fará à minha família, levando sua preta de volta para o Brasil. O mal que o idiota do meu sobrinho pretendia fazer aos Borguini, casando-se com ela, será evitado. Somos uma família nobre. Meu avô recebeu o título de Conde dos Estados Pontifícios conferido pelo próprio papa, na Arquibasílica de San Giovanni in Laterano, a primeira igreja da cristandade. Tê-la na família desacreditaria nosso título de nobreza e prejudicaria extensamente os nossos negócios. – Então elevou a voz e disse com aspereza:

—Saiam da Itália! O camareiro do hotel arrumou suas bagagens e mandei despachá-las em seu voo para Zuric.

O guarda-costa que o subjugara deixou-o livre. Outro mafiosos estendeu para o costureiro os tickets das malas, mas como Edmond continuasse ajoelhado, petrificado, meteu-as no bolso superior do seu casaco. O Conde arrematou:

—Preste muita atenção no que agora vou lhe dizer, senhor Edmond. O senhor está expulso do nosso projeto, e se falar dele com alguém, mando matá-lo onde quer que esteja.

Ditas essas palavras, o Conde deu as costas ao casal e se afastou seguido dos capangas. Flor Azul ajudou o companheiro, pálido e trêmulo, a se erguer.

O susto e o medo foram tão intensos que o incidente provocou um efeito psicológico impensável na personalidade de Saint Edmond. Ele sentiu o abalo da passagem entre dois mundos, e quando se deu conta de que estava em um outro universo de valores, abraçou, chorando, Flor Azul, coração contra coração, ambos disparados. Beijou-a! O grupo de espectadores aplaudiu, depois de captarem o longo beijo em fotos e vídeos de seus celulares.

Com Edmond abraçado à modelo, o casal seguiu para o embarque. Naquele mesmo dia Edmond teve certeza de que a amava e a desejava!

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Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 16-10-2014.

Direitos reservados.
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – O Rosto Transgênico. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2014.