O Rosto Transgênico

Hoje: 29-11-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

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Após o retorno a São Paulo, Edmond viu a repercussão do seu sucesso nas páginas dos principais jornais da capital.

Poucos dias depois, apresentou-se em sua Maison um italiano de aparência elegante, certamente um homem muito rico, acompanhado de um segurança indubitavelmente armado, também usando roupas de estilo.

—Senhor Edmond, por favor, trate-me apenas por Vincenzo. – Disse dirigir no Brasil os negócios da família, e que seu tio pedira que convidasse um designer brasileiro para um encontro que iria promover em Roma. O encontro reuniria os maiores estilistas de alguns países, para discutirem um projeto de interesse da classe.

O visitante confessou-se surpreso com o progresso da alta costura brasileira. Havia assistido a Semana Internacional da Moda no Recife, a fim de ver os desfiles e escolher a quem convidar para ir a Roma. Sua atenção fora atraída para a grife Saint-Edmond. Gostaria de convidá-lo para jantar em um restaurante, para discutirem os detalhes da sua ida ao encontro.

—Quero que leve ao jantar aquela modelo negra que fez tanto sucesso na mostra. Foi muito inteligente de sua parte reservar para o último número o seu maior trunfo – arrematou.

Cauteloso, porém atraído pelo convite para reunir-se com as maiores figuras da alta costura mundial, como prometia Vincenzo, Bernardino aceitou o convite para o jantar e levou a modelo em sua companhia.

Como era usual, o lugar junto ao motorista estava ocupado por um segurança, portanto não significava deferência do patrão que ela sentasse ao seu lado no banco de trás. Pela primeira vez estava tão intimamente próxima dele. “É bonito e tão perfumado!”, pensou. Pareceu-lhe um perfume natural, tão seu quanto sua pele branca, seu queixo largo, seus olhos castanhos claros encimados por longas pestanas escuras. Mas, lamentou para si mesma, suas colegas modelos faziam comentários de estarrecer, sobre os amigos que ele tinha. “Acho que poderia amá-lo mesmo assim… eu já vi de tudo nesse mundo!” – pensou desolada.

Enquanto o carro seguia a corrente lenta do trânsito, Flor Azul continuou a argumentar consigo mesma. “Somente sob um aspecto as mulheres lhe davam prazer”, ela reconheceu. –”Era ver seus modelos como obras de arte. Fazê-las provar cada peça do vestuário e contemplá-las, e de uma demorada contemplação tirar ideias para aperfeiçoar um corte, ou determinar como seria o penteado e a bijuteria adequados ao que vestiam, estudar os seus pés, o seu calçado, e o seu andar, buscando inflexões do pisar diferentes do cadenciado métrico costumeiro. Tudo isto, que os sôfregos do sexo ignoram, era para ele o valor de uma mulher”. Ela já experimentara essa espécie de carinho da parte dele, que a deixava excitada.

Vincenzo os aguardava à mesa que reservara. Os clientes vestidos a rigor – assim como também se vestiam Edmond e seu anfitrião –, ocupavam mesas redondas forradas de linho branco. Copos de cristal e a fina porcelana dos pratos, pontuados de reflexos de luz, tinham como fundo custosos colares de brilhantes de mulheres de seios alvos semi ocultos sob as rendas e sedas de seus vestidos. Flor Azul fora vestida com um magnífico longo de renda preta sobre um forro de seda cor de rosa; o decote justo salientava seu pescoço fino e alongado, e seus ombros bem alçados. Brincos de marfim faziam contraste com a pele e os cabelos negros.

Como aperitivo lhes foi oferecido champanhe seco e petiscos. Após escolherem os pratos, Vincenzo falou o que seria o encontro em Roma. Enquanto falava, se apossou, como que apenas por simpatia, de uma das mãos de Flor Azul, e ela não quis parecer rude, desvencilhando-se dele. O patrão tinha por certo que havia um interesse comercial em relação à modelo, de mistura com o convite para ir à Roma, mas esta relação ainda lhe escapava.

O encontro em Roma não seria uma mostra, explicou Vincenzo, mas uma reunião para a discussão de um projeto que interessava a toda a alta costura. Participariam designers italianos, franceses, alemães, americanos e ingleses que aceitassem o convite. Devido aos grandes interesses comerciais envolvidos, havia a necessidade do sigilo. Mas, chegados à Roma, na sua primeira reunião, o seleto grupo seria informado do que se tratava.

—O senhor não pode faltar, senhor Edmond, e Flor Azul já me pertence: não pode deixar de levá-la consigo – disse beijando a mão da modelo.

*

No aeroporto de Fiumiccino, assim que os passageiros da primeira classe desembarcaram, um funcionário da companhia aérea acercou-se do casal e lhes disse que a empresa desejava prestar-lhes toda assistência. Pediu-lhes os passaportes e os bilhetes do voo; dirigiu-se ao prédio do terminal e em poucos minutos retornou; entregou-lhes os documentos carimbados, e lhes desejou boa estada em Roma.

Uma limusine preta estava estacionada sob uma cobertura próxima do avião em que haviam viajado, com outro carro ao seu lado. Viram que suas malas estavam sendo colocadas nos porta-malas por seguranças de óculos escuros.

Um homem que parecia fiscalizar toda a operação, dirigiu-se a Edmond e apresentou-se:

—Giuseppe, senhor Edmond. – Apontou para Flor Azul que ainda segurava sua bagagem de mão e ordenou aos guarda-costas:

—Ela vai no carro com os rapazes. – Antes que Edmond pudesse protestar – ultimamente ele dava à modelo preta, pelo grande valor que ela tinha para a grife, status de maior proximidade e importância junto dele – Flor Azul já havia sido introduzida no veículo ao lado.

Terminada a acomodação das coisas e pessoas, Giuseppe sentou-se junto ao motorista e a limusine começou a rodar rumo à saída para os diplomatas. Havia um vidro separando o compartimento do chofer do resto da cabine.

Quando o veículo saiu da penumbra da garagem, Bernardino viu que no seu interior havia outro passageiro,que estivera silencioso, e que o fitava com um sorriso levemente divertido, de costas para Giuseppe que estava no banco da frente. Apesar da aparência distinta do estranho, o estilista sentiu-se incomodado pela falta de exclusividade.

O homem se apresentou:

—Serei seu anfitrião em Roma – disse, e estendeu a mão para lhe dar as boas vindas, ao mesmo tempo que sinalizava para que se afastasse para o outro extremo do assento, e lhe cedesse a posição privilegiada junto à janela. —Sou o Conde Ermelino Borguini, e estou promovendo o encontro entre designers, do qual o senhor foi convidado a participar… mas não sabia que o senhor traria consigo sua empregada doméstica.

Sem dar ao costureiro tempo de replicar, o Conde passou a falar do objetivo do encontro. Havia trazido à Roma, para uma reunião secreta, alguns dos principais nomes do design mundial. Tratava-se de discutir a possibilidade de um novo design para o rosto humano, por meio da engenharia genética. O projeto era super-secreto e por isso cada participante seria vigiado nas 24 horas do dia.

O Conde disse que havia hospedado seus convidados em diferentes hotéis para que o grupo não despertasse a atenção dos paparazzi de plantão, o que colocaria em risco o projeto secreto. Ele próprio, por ser Comendador da Ordem Soberana Militar de Malta, estava hospedado no Palácio da Ordem, na Via dei Condotti, a poucos passos da Praça de Espanha.

—Nenhum conforto, mas o ambiente me satisfaz muito. Sinto-me um verdadeiro cardeal do século XIV.– disse.

Filho de italianos, máfia era assunto que Bernardino conhecia muito bem. Seu pai dizia que o chefe da Máfia de Palermo era o homem mais poderoso da Itália.

—Agora, vamos falar de diversão! Ao final do encontro teremos uma festa, e já providenciei aquilo que os designers mais gostam: rapazes bonitos e delicados… – o mafioso ria enquanto falava —Contratei rapazes marroquinos. O senhor vai gostar, Sr. Edmond. Aposto que vai.

A limusine estacionou frente a um hotel na confluência de três ruas estreitas, ao lado de uma igreja, nas proximidades da grande escavação das ruínas romanas. O Conde havia escolhido colocar Edmod naquele hotel porque dali ele poderia fazer algum turismo sem dar grande trabalho aos guarda-costas. A reserva seria refeita, para a hospedagem também de Flor Azul. Só poderiam deixar o hotel acompanhados dos guarda-costas.

Dois mafiosos da comitiva, Kico e Fratelli, incumbidos de vigiá-los, sentaram-se no lobby e abriram jornais para ler.

*

Ansioso por encontrar o amigo, Edmond utilizou o telefone do hotel, sem se importar que alguém estivesse a escutar a ligação. O amigo viera de Milão para recebê-lo no aeroporto, mas se desencontraram porque o costureiro desembarcou na área diplomática. Depois da troca de palavras carinhosas sobre o reencontro eminente, Bernardino passou-lhe o nome do hotel,

—Sabe de algum lugar aqui perto para jantarmos?

—Sim: o Angelino ai Fori. Você só terá que caminhar uns poucos metros pela ruazinha frente ao hotel e cruzar a Avenida Cavour. A noite promete ser quente e poderemos ficar na parte externa, sob o toldo. Combinado?

À noite, acompanhado de Flor Azul e seguido pelos guarda-costas, encontraram-se no restaurante.

Achou o amigo ainda mais belo e atraente, o rosto mais rosado, os olhos mais azuis, os cabelos mais negros. Usava um bem talhado blusão azul escuro com um brilho discreto de pelúcia.

—Também tenho os meus capangas, disse o amigo, e apresentou dois colegas de estudo da Academia de Brera. Foi reunida outra mesa à que ocupavam, para acomodar Edmond e a modelo. Os guarda-costas se deixaram ficar ao relento, pois poderiam ver o costureiro e seus amigos por cima da sebe baixa que circundava o toldo.

Igualmente atraentes eram os dois rapazes de Brera, acompanhantes do amigo. O mais alegre e energético deles logo deu ao encontro um clima festivo e divertido, atraindo as atenções da clientela. Logo aparelhos celulares apareceram na mão dos turistas para captar a festa como recordação de Roma. O garçom Walter – que era a atração do local por alegrar os clientes com seus gestos de opereta e cantorias humorísticas –, juntou-se ao grupo, falando português. Era casado com uma brasileira. Provavelmente por chamado dele, e não por acaso, surgiu um grupo de seresteiros com violão e pandeiro e a música brasileira, com vários sucessos da famosa Bossa Nova, podia ser ouvida até mais tarde, quando a mal iluminada Avenida Cavour já não tinha quase nenhum transeunte em suas calçadas.

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Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 16-10-2014.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – O Rosto Transgênico. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2014.