O Rosto Transgênico

Hoje: 01-08-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

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A Semana da Moda no Recife era resultado de uma associação entre a Prefeitura e o Serviço Assistencial da Indústria. Haveria conferências, seminários e desfiles com mostras de costureiros do Rio e São Paulo. Estavam presentes também representantes de grifes europeias convidadas a participar.

Bernardinho, dono da grife Saint-Edmond de São Paulo, veio com as suas modelos, trazendo uma bagagem de exemplares da sua marca e acompanhado de seu amigo íntimo que, depois da Semana, seguiria para a Itália, a fim de estudar cenografia na Academia de Belas Artes de Brera.

Por estarem muito ocupados com os preparativos para o desfile, os dois amigos perderam o tour pela cidade, promovido pelos organizadores da Semana. Mas, na manhã que antecedeu a abertura do grande evento, encontraram tempo para se arriscarem em um passeio a pé pelo centro do Recife. Já ao descerem do táxi em uma praça central, tornaram-se objeto de curiosidade dos transeuntes.

Bernardino sempre recomendou ao parceiro não deixar tão óbvia a opção afetiva de ambos. Mas o seu amigo, de aparência mais frágil, sofria de um incontrolável vício de exibicionismo: usava brincos, um pouco de batom roxo, roupas multicoloridas e cabelos longos, amarrados na nuca por sobre um cachecol cor de rosa. Tais extravagâncias faziam da dupla alvo de chacotas e xingamentos por onde passassem.

Habituados a essa reação indignada e escarnecedora do público – reação que parecia mesmo dar ao amigo um certo prazer –, caminharam imperturbáveis, na direção indicada pelo taxista, até a ponte sobre o largo rio Capibaribe. Via-se em suas margens alguns prédios modernos inseridos no correr do casario antigo que ainda existia, as pontes e o distante outeiro de Olinda, sob um céu azul onde o sol já ia alto.

Emocionados com o cenário – a maré alta elevava o caudal do rio quase ao nível das ruas e soleiras do casario em suas margens, lembrando Veneza –, os dois amigos decidiram seguir adiante pela ampla avenida além da ponte. Os motejos cresceram. Jipes, fuscas, Fiats e Kombis diminuíam a marcha, buzinavam com estridência e de suas janelas os caronas gritavam impropérios gaiatos, insultando a dupla.

Um grupinho de moleques magrinhos, sem camisa e de bermudas largas, surgiu da rua do Hospício. O exótico par de estranhas figuras saltou-lhes de pronto às retinas ávidas de novidades. “Duas bicha”, gritou um, “a macha e a fema”, gritou outro, e passaram à ação. Com uma tática de guerrilha de ataca e foge, tentavam passar-lhes a mão nos traseiros. Bernardinho, revoltado, falhou em chutar um deles, e seu amigo tentou, sem êxito, afugentá-los brandindo contra eles o leque com que viera se abanando pelo caminho. A cada escaramuça fugiam e logo voltavam mansamente tentando, em nova investida maliciosa, surpreender suas vítimas.

Uma preta mal vestida e descalça, que vinha em sentido contrário, avançou sobre os moleques em defesa dos dois rapazes.

—Parem com essa mangação! –gritou-lhes. —Vocês me conhecem… – bradou, a voz rouca porem enérgica. — Acabo com vocês… Lá vem um guarda… Sumam. “seus” moleques da gota!… Bexiguentos! Infelizes!…

Os garotos fugiram, cruzando perigosamente o trânsito para a calçada oposta, e dispararam a correr avenida abaixo.

Os amigos voltaram-se para a preta. “Uma moradora de rua, fumante e alcoólatra”, pensaram.

Desvanecidas a cólera e a palidez da sua face, e acalmado o amigo, Saint-Edmond agradeceu.

—Obrigado por nos salvar – disse ele à negra.

Houve uma pausa de silêncio, enquanto os dois amigos, recuperados, se davam conta de que a mulher não era assim tão miserável e vulgar. Os dois foram descobrindo –, seus lábios não pendiam rubros nem tinha o rosto edemaciado dos bêbados inveterados. Era magra, mas de formas arredondadas, o que Edmond julgou poderia valorizar certos estilos da sua grife. Suas unhas, nas mãos e nos pés, eram bem crescidas, e seriam belas, não fosse a pintura vermelha desgastada. Ao enxotar os garotos, seu rosto severo não perdera sua beleza. “Uma face severa que não fosse ridícula nem feia, era a ideal para uma modelo na passarela” – pensou o costureiro.

Edmond parecia examiná-la com o interesse em minúcias próprio de um comprador em um mercado de escravos. O amigo adivinhou sua intenção e permaneceu calado, esperando que o lance fosse dado.

A preta, com um meio sorriso crítico, também os avaliava, concluindo que não havia muito o que esperar daqueles tipos afeminados – mas na aparência eram ricos, e talvez a gratificassem por haver afugentado os moleques.

—Olhe…– disse Edmond, cauteloso. —É que você tem um corpo… de modelo! . —Não é fácil encontrar uma modelo negra. Precisamos de uma… Você poderá aprender em pouco tempo e… pagamos bem. Vem conosco – disse resoluto, e sem esperar por sua resposta, assumindo que pela magnanimidade da sua proposta esta só poderia ser um “sim”, fez logo parar um táxi em que todos embarcaram.

Instruída pela rigorosa secretária do costureiro, e com o carinho das outras meninas, a preta surpreendeu pelo seu rápido aprendizado do caminhar, do gestual e das expressões faciais adequadas a uma modelo.

Na última apresentação do desfile, o costureiro permitiu que ela tivesse uma participação que deveria ser mínima e discreta, mas que se tornou um clamoroso sucesso. A plateia acreditou que a preta fora incluída no desfile como demonstração do costureiro contra a discriminação e o preconceito racial e por isso, após sua participação, os aplausos foram redobrados. Porém muito era devido também à sua beleza africana. Alguns representantes de grifes italianas aplaudiram de pé, fascinados pela sua elegância e competência. Ao final Bernardino de Saint Edmond agradeceu a todos, enleado, esticando docemente a pronúncia de cada “obrigado”.

—O nome dela? – indagaram os entrevistadores ao fim do desfile. Apanhado de surpresa, Edmond não quis dizer apenas “Maria”, como a chamavam. Lembrou-se do jasmim preso aos cabelos dela durante o ensaio…

—Flor Azul – respondeu ao grupo de jornalistas.

O improviso rendeu mais louvores na Imprensa do dia seguinte. Porém um colunista do principal jornal da cidade comentou em sua coluna o cuidado do costureiro em batizar a modelo com o nome Flor Azul, quando ela era na verdade preta. Melhor que não tivesse esse escrúpulo anti-racista, pois existem a rosa negra e também a tulipa negra, flores lindas e valiosas. Cairia muito bem na modelo – que era esbelta e bonita –, que fosse conhecida nas passarelas pelo nome artístico de “Rosa Negra”.

Não foi fácil para a eficiente secretária do costureiro conseguir que a heroína da grande mostra embarcasse com o grupo, no retorno à São Paulo. Ela não possuía documentos e, não fosse um telefonema do Prefeito para a empresa aérea.

O amigo seguiu para Milão.

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Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 16-10-2014.

Direitos reservados.
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – O Rosto Transgênico. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2014.