A Mulher da Ilha

Hoje: 01-08-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

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Depois de vários dias de orgia, a satisfazer o erotismo feroz das tripulações de dois cargueiros asiáticos no terminal de minério da Ilha, ela foi ao continente fazer compras na Vila e o viu – o estrangeiro louro e gentil por quem se apaixonou. Na Rua do Comércio, ele pediu para fotografá-la com sua complicada máquina de muitas lentes. Moraram juntos até que não pôde mais esconder a gravidez. Porém, feitas as contas, a criança não poderia ser dele. Foi quando ele disse que havia terminado seus negócios no continente e que era chegada a hora de retornar a sua pátria, e partiu. Sem ele, preferia morrer!

Quando achava que havia feito uma coisa ruim, ela pedia perdão sem se dirigir a ninguém e a nenhum deus. Simplesmente fechava os olhos e se arrependia, e esse arrependimento a tranqüilizava. Mas, se estava para fazer uma coisa tão assustadora como tirar sua própria vida, precisava de alguém com poderes para lhe dar uma absolvição prévia. O padre que, vez por outra, via nas ruas da Vila, afável com todos que encontrava, a batina preta batendo ao vento em contraste com toda aquela luminosidade refletida nas calçadas e nas paredes brancas das casas, seria com certeza a melhor escolha. Mas agora já anoitecia. O padre estaria na igreja àquela hora? Seguiu, a contragosto, uma beata com um véu preto sobre a cabeça, que subia a rua para o alto da Vila: detestava aquela gente! Viu-a entrar na Igreja e entrou logo atrás.

No interior do templo, umas poucas e fracas lâmpadas elétricas permitiam ver os vultos escuros de três ou quatro mulheres de véus pretos que – o rosário pendente das mãos – oravam em silêncio, apenas movendo rapidamente os lábios, com os olhos fixos no Crucificado.

— É a mim que procura? – indagou o padre encontrando-a ao vir da penumbra de uma nave lateral. – Quer se confessar?

Como ela não soube o que responder, o padre indicou-lhe a porta da sacristia.

– Sente-se aqui – disse apontando uma cadeira de madeira, frágil e de encosto reto, e sentando-se em outra igual. – Você parece muito aflita. É uma das mulheres da Ilha, não é?… Vive em pecado!

Ao ouvir essa condenação antecipada ela, indignada, quis levantar-se e partir, mas o padre, percebendo em tempo sua intenção, ajoelhou-se à sua frente num gesto rápido, manteve-a sentada, impedindo-a de se mover. “Os homens são todos iguais”, ela pensou com desprezo, atribuindo ao padre uma intenção libidinosa. Mas surpreendeu-se com a fala do jovem metido na batina preta:

— Eu te imploro: dê a Deus uma chance de ajudá-la. É o que Ele quer fazer e você não permite! Quer tirá-la dessa vida de pecado, acredite! – disse o padre em um tom dramático.

Ela afastou as mãos dele com energia e ergueu-se, tomada de raiva; recompôs a saia e se afastou; os tacos de seus sapatos soando alto nas tábuas do chão do templo. Cheia de furor, alcançou a rua escura em passadas rápidas. Sua raiva aumentou ainda mais ao cruzar com algumas beatas que vinham, cobertas de véus negros, a caminho da igreja.

— Quer me salvar? – bradou para o céu de estrelas. – Quer que eu deixe a rua? Então faça que meu filho seja filho do homem que eu amo, e tão bonito quanto ele! E se realmente for filho dele, quero ser rica para fazê-lo tão finamente educado como o pai! Se me fizer essas duas coisas, pode me salvar!

E gritou mais, para as passantes:

— Eu até viro uma beata! – e riu alto.

As mulheres de preto apressaram o passo, escandalizadas.

Divertida com a fuga das mulheres e com desafio sacrílego que fizera, a idéia do suicídio sumiu de sua cabeça. De volta à Ilha entregou-se ao seu trabalho, sem descanso: havia os que preferiam “a grávida” para satisfazerem sua luxúria!

*

Quando a criança explodiu do seu ventre sobre as palhas de coqueiro, as velhas parteiras se entreolharam. Depois de limpa, era uma criança branca.

Lembrando-se do desafio, a mãe sentiu-se desfalecer de terror. Qual seria o preço? Deus haveria de tomar dela o quê, por haver atendido ao seu maior desejo? A vida dela? A vida do bebê? Mas logo se lembrou de que aquela fora apenas uma parte de seu pedido – que seu filho se parecesse com o amado. A outra parte – que ela ficasse rica –, isto Ele certamente não encontraria meios de atender. Ela queria esquecer o repto lançado aos céus. Queria ser inteiramente livre!

O bebê era lindo! Enquanto observava o resguardo, os dias foram quase festivos e muito felizes. As companheiras cobriam a criança de mimos. Para a mãe, prepararam várias receitas fortificantes. Até a mulher do Coronel – que viera à ilha com o irmão Prefeito a pretexto de – por curiosidade –, assistir ao embarque do minério – assomou à porta da cabana e pediu para ver o recém-nascido.

— Tem feições nobres, não cabe dúvida – disse o prefeito, escrutinando, perplexo, o rosto da criança. Nada disseram à mãe. Foram-se embora estranhamente silenciosos.

As companheiras decidiram que ela devia levar o neném para batizar e passaram algumas semanas preparando alegremente o enxoval. No dia do batizado, quando voltassem da igreja, haveria uma festinha. Porém, como todas queriam e mereciam ser madrinhas, então não haveria madrinha. Ela foi só com a criança.

*

Ela contava chegar à Vila ao cair da noite e encontrar a Igreja como da outra vez: as fracas luzes acesas, as beatas murmurando preces; e o padre a receberia na sacristia, feliz em vê-la de volta e de batizar a criança. Se ele novamente crispasse as mãos sobre seus joelhos, ela afagaria aquelas mãos tão brancas!… – pensou. Mas a viagem fora demasiado rápida; não viera de jangada e sim na barca a motor. Agora seria pelas quatro da tarde, somente, e enquanto subia a ladeira, tinha que proteger o bebê do sol, jogando sobre o seu rostinho mimoso uma aba dos panos que o envolviam.

Uma mulher, que varria o pequeno patamar frente à porta da Igreja, olhou-a de soslaio, sem interromper as vassouradas. As janelas estavam abertas e o templo ventilado e claro. Ao fundo, uma jovem lidava com ramalhetes de flores sobre o linho branco do altar. Preparava uma jarra com gestos medidos, suaves, como se respeitasse cada ramo como uma coisa pré-santificada. No átrio, outra mulher alinhava os longos bancos de madeira castanha. Quando os arrastava um pouco, o ruído do atrito, ora grave, ora agudo e enervante, ecoava pelo templo. Ou então eram os sons de notas isoladas tangidas pelo organista que dava uma afinação final ao pequeno órgão, enquanto a cantora organizava as laudas de pautas musicais sobre uma estante articulada. O padre observava todas aquelas atividades de pé, junto a uma das finas colunas de madeira frisadas em branco e azul celeste que sustentavam o forro – aquela que era o eixo da escada que levava ao pequeno púlpito de tabuinhas verdes com restos de ouro.

Aproximou-se dele.

— Desejo batizar o neném – disse ela, bastante consciente de que ele estava muito ocupado.

— Vou celebrar um casamento e temos ainda muita coisa que arrumar – disse o padre hesitante. Ele desejava que o batizado ficasse para outro dia, porém, tinha pena de decepcionar aquela mulher, justo ela por quem ele rezava para que se convertesse.

— Tem uma madrinha? – perguntou. Não vendo nenhuma, também não quis usar isto como desculpa. – Bem, eu serei o padrinho – disse ele. – Espera-me junto à pia batismal.

O padre foi colocar sua estola e, de volta, folheava seu vademecum litúrgico. iniciou uma longa prece em latim; fazia, a espaços, um sinal à mulher para que dissesse “Amém”.

Agora ela vivia um momento único em sua vida, de serena alegria e paz, enquanto o filho era batizado como se o fosse em uma cerimônia solene, em meio a flores e ao som do canto do ensaio para o casamento.

Ao fim da cerimônia, o padre não a deteve. Ela despediu-se, pensando na festinha prometida para o bebê quando voltasse, mas ficou demasiado curiosa sobre quem seria o noivo nesse casamento. Com certeza não fizera uma despedida de solteiro porque, quando havia uma, a farra sempre terminava na Ilha, onde o noivo, acompanhado dos amigos completamente bêbados, ia se divertir com as mulheres “pela última vez”. O não acontecimento de uma despedida aguçou-lhe a curiosidade. O noivo devia ser um estranho, com certeza.

Já havia grande número de convidados dentro e fora da igreja, e muitos curiosos. Conversando, inteirou-se de que a noiva era a filha única do Coronel e que o noivo, de fato, era estrangeiro. Logo depois do casamento, o casal seguiria de lancha para Salvador e de lá para o Rio, pela Panair. No dia seguinte, os dois viajariam para o país dele, onde viveriam.

Vários cordões de lâmpadas elétricas haviam sido estendidos no alto, de uma árvore para outra, ou ao redor das torres, iluminando a fachada e a área fronteira do templo. Então, debaixo de toda aquela luz, ela viu o noivo saltar do carro. Elegante, o semblante um pouco tenso, não era outro senão ele, o homem pelo qual se apaixonara! Ao vê-lo, suas forças lhe faltaram. Alguém a ajudou a manter-se de pé. Não cabia fazer qualquer escândalo; sua condição de meretriz não lhe dava nenhum direito. Livrou-se das mãos que a amparavam e saiu a correr, com a criança em seus braços, rua abaixo.

O dia, que parecia um dos mais belos de sua vida, acabava naquela infelicidade. Queria morrer, mas levaria consigo, para a morte, o bebezinho. Não se separaria dele. Não mais por que fosse filho do traidor e se parecesse com ele, mas porque era um tesouro todo seu. Corria rumo ao cais, pela rua deserta – parecia que a gente toda fora para o alto da Vila ver o casamento. A lua, que brilhava em um céu limpo de nuvens, deixando pálidas as estrelas, iluminava as fachadas das casas e criava barras negras de sombra sob os beirais de seus telhados.

A mulher, no mesmo correr em que vinha, lançou-se com a criança da beira do trapiche para o escuro das águas profundas.

*

O baque surdo do seu corpo contra o fundo do barco despertou o barqueiro que cochilava na proa. Como vários outros, esperava, com seu barco amarrado a um dos pilares do cais, pelo retorno dos curiosos vindos das ilhas para ver o casamento. Sob a luz do luar, o homem ajudou-a a se levantar e a fez sentar-se no banco de tábua. A criança logo parou o chorinho de susto e ela passou a amamentá-la.

— Ora, ninguém se machucou! – celebrou o barqueiro. – Vez por outra isso acontece a alguém, e foi muita sorte não ter caído na água com a criança – disse ele para a mulher. A sombra do cais, projetada sobre a água pela luz da lua, fora a causa do tombo, pensou ele.

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Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 19-06-2003 e revisada em 20-06-2005, 24-04-2020 e 06-12-2020.

Direitos reservados.
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – A Mulher da Ilha. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2020.