Higiene: o Ambiente

Hoje: 27-09-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

A ordem e limpeza da residência e do ambiente de trabalho, além da higiene do corpo, espelham a maturidade do indivíduo, porque mostram em que medida ele é capaz de organizar e de cuidar racionalmente do ambiente em que vive, com os recursos de que dispõe. Idealmente, a casa deve ter uma arquitetura que lhe traga conforto e facilite o cumprimento de suas tarefas, inclusive a de bem abrigar e criar sua família quanto a todas as suas necessidades.

A casa. Os compartimentos da casa devem ser mantidos varridos e encerados, livres de animais que trazem parasitas, espalham pelos e oleosidade mau cheirosa por onde andam. Os sofás e poltronas, os carpetes e tapetes, e o assoalho devem estar limpos com produtos de limpeza adequados, de modo a que restos de comida, cabelos, gordura e células deixadas pela epiderme humana não alimentem os ácaros e não retenham a poeira que contém fezes desses minúsculos e invisíveis artrópodes.

O quarto de dormir. O conforto para um bom descanso não depende só de como o quarto de dormir está equipado, mas principalmente de que seja um ambiente limpo e isento de insetos parasitas. Um costume que está muito difícil de ser aceito no Brasil é o uso de tela nas janelas dos quartos. Nem a indústria se empenha em produzir materiais adequados e baratos para esse fim, nem o Ministério da Saúde dá a mínima importância à questão. No entanto, faz uma diferença enorme um quarto telado, cuja porta dá para um corredor que tenha a porta sempre fechada, se apenas as janelas dos quartos forem teladas (O ideal é que a casa tenha todas as janelas e portas teladas). A diferença está em não ser a pessoa incomodada pelos mosquitos (muriçocas) enquanto descansa ou dorme. Se o hábito fosse implantado, a mais modesta família não teria dificuldade em adquirir um metro quadrado de tela e quatro sarrafos aproveitados de um caixote de madeira para telar a janela do seu barraco. Não se trata de evitar doenças como filariose, dengue, malária, e outras transmitidas pelos mosquitos, embora a tela na janela possa diminuir os ricos da picada desses insetos transmissores; trata-se do conforto para dormir.

Além da tela na janela, o quarto precisa ser mantido limpo. Não havendo tempo pela manhã para arrumar a cama, é melhor que os lençóis, cobertas e cobertores sejam apenas dobrados e deixados sobre a cama para serem postos mais tarde, num horário em que a pessoa possa fazer a arrumação com calma, examinado o colchão e também a grade do estrado da cama à procura de insetos. É comum a pessoa trazer do transporte coletivo e dos cinemas percevejos e pulgas. Arrumar a cama com cuidado, colocando inseticida se necessário, é fundamental para a higiene do quarto.

Ao varrer o quarto é preciso evitar levantar poeira. Para isso varre-se levemente as partículas maiores que estejam no assoalho diariamente e pelo menos uma vez por semana passa-se pano úmido no chão e flanela úmida nos móveis. Nas frestas do chão e dos móveis abrigam-se os ácaros, as pulgas, as miúdas mariposas que se transformam em traças, e as aranhas que se alimentam daquelas. Borrifar inseticida caseiro se notar que os cuidados acima não foram suficientes.

O banheiro. Antigamente dividido em quarto de banho e privada – esta, geralmente, um cômodo separado da casa –, o banheiro é hoje um cômodo destinado ao asseio pessoal, que reúne os principais aparelhos sanitários: vaso, bidê, mictório, banheira, chuveiro e pia – e possui pelo menos um pequeno armário. É necessário que haja pelo menos um tapete, preferencialmente de cor clara ou branca, ao pé da pia, para absorver respingos. Sinônimos: sanitário; toalete [do fr. toillette]; WC [do ingl. Water-closet).

Fig. 1 – Bidê

O banheiro deve estar sempre impecavelmente limpo (realmente limpo!) e os objetos em ordem. Alguns frascos de loção ou colônia bem desenhados podem ser deixados sobre o balcão, dispostos esteticamente, mas vidros comuns devem ser mantidos dentro do armário. A escova de cabelo com cabo de prata pode fazer parte da decoração do balcão, mas uma escova comum é preferível que seja guardada numa gaveta. O tubo de dentifrício deve ser bem fechado e deixado no armário, como também a escova de dentes; ambos não são peças para ficar em exibição. É grave falta de consideração com as pessoas, escovar os dentes andando pela casa. Esta providência deve ficar restrita ao interior do banheiro. Escovar os dentes tem a sua técnica, descrita na página Higiene pessoal.

Banheiro se usa de porta fechada. Os ruídos inevitáveis devem ficar abafados entre as quatro paredes do banheiro, por mais íntimos que sejam os moradores, e mesmo que esteja em casa apenas o casal. Se a pessoa está só em casa e precisa deixar a porta entreaberta para ouvir o toque da campainha da rua ou do telefone, deve certificar-se de que a porta de entrada da casa está trancada e não terá a surpresa de alguém que entre inesperadamente.

O vaso sanitário, a pia e o box do chuveiro são as peças principais dos banheiros em residências e hotéis.

O Bidê [do fr. bidet] é uma peça considerada ainda muito útil, apesar da preferência muito frequente por uma ducha que pode ser usada no próprio vaso, quando há necessidade de economia de espaço. É uma peça de louça com jatos d’água para a higiene íntima. O que é mostrado em (2), ao lado do vaso sanitário (1) na Fig. 1, tem três registros, um de água quente (3), outro de água fria (5) e outro (4) que desvia o jato de água para o chuveirinho vertical (9), no fundo da peça, ou para a abertura redonda na borda interna para um jato de água normal (6). No fundo, o ralo (8) e na parede do fundo o ladrão ou ralo de nível (7), para evitar transbordamentos. A pessoa que o utiliza senta-se posicionada sobre o chuveirinho e de frente para os registros (lado da parede) ou de costas para eles, conforme achar mais prático. A finalidade do bidê é lavar as partes íntimas do corpo. É recomendável que essas partes sejam primeiro limpas com papel higiênico, para serem lavadas depois. Não se urina no bidê, o qual precisa ser mantido asseado e esterilizado com germicidas.

Havendo uma banheira, esta precisa estar livre daquela pátina gordurosa que pode se formar no esmalte, ao nível da água, quando é usada. O mesmo com a pia, que não deve ficar com manchas de dentifrício e espuma seca de sabão, ou com fios de cabelo espalhados na bacia. Uma escova de cabelo deve estar absolutamente limpa, sem um único fio de cabelo. O mesmo se aplica aos pentes, que também precisam ser limpos do resíduo de poeira oleosa que retiram dos cabelos. O sabonete também deve ser lavado após o uso, para não ficar com manchas de sujo, nem odores de partes íntimas em que tenha sido usado. Não é o lugar para acumular roupa suja em sestas, pois dá mau cheiro. Ao terminar de usar o banheiro, a pessoa deve correr os olhos pelo ambiente e ver o que pode ser limpo ou reposto no lugar, e se as torneiras estão completamente fechadas. O tapete deve ser deixado bem estendido, o vaso sanitário limpo, com a tampa baixada.

Sobre a construção e posição dos banheiros domésticos vide também Desenho da casa confortável.

Banheiros públicos. Sua construção e manutenção é obrigação da entidade publica ou privada responsável por locais em que o público é atendido ou convidado a comparecer. Sabão, papel higiênico e toalhas de papel fazem parte indispensável do atendimento, que deve ter a vigilância de um Guarda-limpeza, um empregado bem consciente de sua responsabilidade pelo funcionamento e manutenção da limpeza, e provimento do material de consumo, para que nada falte.

O maior problema desses locais é a imaturidade do administrador. Mesmo quando o Reitor de uma universidade é tido na conta de sábio e competente, visitando um dos banheiros do campus você vai saber o que exatamente ele é. É muito provável que os banheiros masculinos estejam inundados de urina, os cantos cheios de papel usado, a louça do vasos arranhada e suja pelos sapatos de quem os usa subindo sobre suas bordas, e as torneiras da pia e dos mictórios sem a coroa de abrir e fechar.

Ainda que não esteja necessitando usá-lo, faça uma visita de cidadania ao banheiro do shopping onde faz suas compras. Se estiver mal cuidado e sem um guarda-limpeza presente, então telefone para a saúde pública. Faça isso quantas vezes for necessário até que a Repartição se decida a enviar o fiscal para multar a empresa. No ano seguinte, repita a operação, se necessário. Faça a visita de cidadania também ao banheiro do Supermercado onde costuma fazer suas compras, para saber se pode confiar na peixaria, na padaria e nas verduras desse estabelecimento.

Bares e restaurantes à beira da estrada não têm medo da fiscalização porque os seus clientes estão de passagem e vão para longe. Na verdade eles poderiam ser denunciados por telefone ao departamento próprio da polícia rodoviária. No caso, basta indicar o Km da estrada e o município e Estado. A telefonista encaminha a ligação, para que o cidadão possa falar com a seção própria. Neste caso o seu exercício de cidadania irá lhe custar a tarifa do interurbano, mas se essa despesa não o assusta, o Brasil certamente agradecerá.

Uso do banheiro público. Ao usá-los, as pessoas devem ter o mesmo cuidado e o mesmo respeito pelos outros que também irão usá-lo, tal como fariam em suas próprias casas. Mas, o estado em que esses banheiros andam, nas Rodoviárias, nos Supermercados, nas Universidades, Escolas públicas, e em muitos cinemas, bares e restaurantes, – principalmente pela ausência do Guarda-limpeza –, faz que sejam necessários certos procedimentos de defesa por parte do usuário.

“Duas semanas após o DEBATE ter noticiado as péssimas condições de higiene dos banheiros públicos da rodoviária e das praças Otaviano Botelho de Souza (da igreja São Benedito) e Deputado Leônidas Camarinha, a situação permanece a mesma.

A população continua sem ter um sanitário público em condições de uso no município. Há acúmulo de lixo, sujeiras nos vasos sanitários e mictórios, falta de descargas, canos entupidos, ausência de lavabos e papel higiênico. O mau cheiro é sentido a distância, além da presença de insetos. A limpeza, de acordo com frequentadores das praças, é feita sem uso de produtos adequados — apenas com água — .”

Há uma dificuldade compreensível para o usuário do banheiro público: a aversão natural em utilizar instalações usadas por estranhos e o receio de se contaminar com alguma moléstia contagiosa. Então recorre a posições acrobáticas para evitar o contacto com qualquer peça no banheiro, e não quer tocar sequer no botão ou alavanca de descarga. Mas há uma solução fácil. Quem o utiliza poderá usar um pedaço de papel para abrir a torneira da pia ou apertar o botão de descarga sem tocar diretamente no metal. Evita-se exagerar no uso do papel mas, se há um mínimo de limpeza no banheiro, pode inclusive forrar com uma faixa de papel higiênico o assento do vaso e utilizá-lo com mais conforto. É preciso atenção, porém, para não exagerar no uso do papel, deixando pouco ou nenhum para quem vier depois, e provocando entupimento do vaso. Se o rolo de papel estiver para acabar, será louvável avisar o Guarda-limpeza ou o gerente, a fim de que seja reposto.

Os proprietários de bares, hotéis, teatros, etc. costumam pedir às pessoas para “não jogar papel no vaso”. Esse aviso é de muito interesse para eles porque, se o cliente obedece, não precisarão instalar corretamente o vaso nem se preocupar com instalação correta da tubulação do saneamento. Nisto eles são ajudados por arquitetos, mestres de obras e pedreiros que desconhecem as normas técnicas respectivas.

Se no local há papel higiênico para ser usado, a pessoa deve usá-lo na quantidade mínima suficiente para sua higiene e não se deixar influenciar por esse apelo “não jogar papel no vaso”, porque ele é indevido. Um vaso que disponha de descarga deve ser construído dentro das normas técnicas respectivas, para que a descarga de água leve o material orgânico e o papel usado, desde que seja papel higiênico. Este se dissolve na água na mesma proporção que as fezes normais, e portanto não há porque separar o papel usado e colocá-lo na sexta de lixo ao lado. Esta cesta não é para papel higiênico mas sim para algum material insolúvel como tubos vazios, envelopes de pílulas, cotonetes, certos artigos da higiene feminina, etc. Apenas se usado em excesso e com desperdício o papel higiênico entupirá o vaso, tal como acontecerá também com uma massa fecal abundante e ressecada.

Porém, onde os padrões de construção não obedecem às normas técnicas, um vaso de privada não funciona corretamente e deixa de sugar todo o material como deveria.

Há duas coisas essenciais para que um vaso sifonado comum funcione corretamente: primeiro uma descarga rápida de pelo menos 7 litros de água e, segundo, que o cano do saneamento esteja desobstruído, tenha pelo menos 100 mm de diâmetro, e esteja abaixo da superfície do assoalho pelo menos 50 cm.. Essa profundidade permitirá que ele se ligue ao sifão do vaso por um segmento vertical de comprimento suficiente (no caso os 50 cms.) para que o peso da água crie o vácuo que vai drenar o sifão e limpar o vaso. Nessa conexão deve-se usar de preferência uma curva, e não um joelho. Existe uma canopla de borracha própria para a união entre a base do sifão e a boca do cano vertical do saneamento, cuja finalidade é impedir a entrada de ar, o que enfraqueceria ou anularia a força do vácuo. Quando se trata de apartamento, para obter o mesmo efeito o vaso deve ficar o mais próximo possível da grande tubulação vertical que desce pelo prédio até o solo.

Quem encontra um banheiro sujo, com o botão ou alavanca de descarga que não funciona, ou faltando água, papel higiênico, pia e sabão para lavar as mãos, não deve reclamar com o proprietário: isto jamais funciona, e o queixoso correrá o risco de sofrer um desacato. Mas estará fazendo um bem à comunidade se telefonar para o Serviço de Fiscalização da Prefeitura, e denunciar a irregularidade. O número desse telefone deve estar afixado, por Lei, de modo bem visível no interior do banheiro e se não estiver, é mais uma irregularidade a comunicar.

NOTAS:

Ácaros. Esses minúsculos animais artrópodes, os ácaros, têm sido, recentemente, objeto de muitas referencias nos meios de informação, principalmente em relação a doenças alérgicas. Seu papel no desencadeamento de reações asmáticas através da poeira tem sido muito difundido. São invisíveis à vista desarmada, devido ao seu tamanho quase microscópico, tendo apenas cerca de 0,3 mm de tamanho. Os nomes científicos de algumas espécies mais comuns: dermatophagoides farinae, blomia tropicalis e dermatophagoides pteronyssinus.

Os ácaros não são diretamente responsáveis por qualquer doença, porém o são indiretamente; o que integra a poeira e causa as alergias respiratórias são as suas fezes. Alimentam-se de farelos de comida retidos nos cantos e gretas dos sofás e poltronas, nos carpetes e tapetes, gretas do assoalho e dos rodapés; de células da epiderme humana retidas nas cobertas das camas, tatames, em brinquedos como ursinhos de pelúcia, e nos forros dos assentos e também de fungos que se desenvolvem no interior das residências.

Algumas pessoas são particularmente afetadas pela poeira que contém os micro excrementos de ácaros, e em consequência sofrem de surtos de asma e rinite crônica, entre outros males. Os ácaros são combatidos eliminando-se a poeira do piso, dos móveis, dos tecidos e tapetes, e o mofo em paredes e armários. Existem vários produtos anti-ácaros, inclusive capas especiais para colchões, travesseiros e almofadas. Não parece que seja muito eficiente o aspirador de pó, uma vez que, devido ao seu tamanho minúsculo, os ácaros poderão não ficar retidos no filtro e assim voltar ao ambiente. Passar pano úmido no assoalho talvez seja a melhor solução, o que permite a adição de produtos acaricidas.

Percevejos de cama. Os percevejos fazem uma mordida capaz de deixar um sinal na pele e mesmo causar inflamação por vários dias. São arredondados e têm uma carapaça córnea, sendo do tamanho de até meio centímetro de diâmetro. Foram uma grande praga na Europa e mesmo hoje, podem ocorrer em hotéis pouco higiênicos ou de alta rotatividade, e mesmo em dormitórios de internatos, viajando nas malas e nas roupas das pessoas, passam aos assentos dos coletivos e são daí levados por elas para contaminar suas residências.

Nos ambientes onde o forro é de madeira ou de treliça, os percevejos podem morar no teto e descer à noite para as camas. Porém é mais comum que fiquem nas frestas e nos engates das laterais da cama, na prega das costuras do colchão, etc. Ficam escondidos durante o dia e à noite saem a procura de um hospedeiro. Escondem-se com grande rapidez. Porque costumam subir pelos pés da cama, picam principalmente na perna da pessoa que dorme, junto ao tornozelo, ou na região de pescoço. Apesar de sugar o sangue da vítima, não se detectou doença da qual o percevejo seja o transmissor.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 00-00-2001.

Direitos reservados.
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Higiene: o ambiente. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2001.