Friedrich Nietzsche

Hoje: 28-11-2022

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

Friedrich Nietzsche: importante fator em sua obra

Parece que entre os críticos de Nietzsche é desconhecida a ligação sempre presente nos esquizofrênicos, de uma inclinação artística, em qualquer campo das artes, com a sua doença. É principalmente tratar desse aspecto, trazendo alguma luz sobre o assunto, a finalidade desta página.

O filósofo Friedrich Nietzsche, nascido a 15 de outubro de 1844 em Röcken, Saxônia, Prússia, falecido em 25 de agosto de 1900 em Weimar, na Turíngia, foi um influente pensador contemporâneo nas áreas de religião, moralidade e filosofia ocidental. Seu pensamento afetou profundamente gerações de teólogos, filósofos, psicólogos, poetas, romancistas e dramaturgos ocidentais. Foi um jovem profundamente religioso, seu avô paterno publicou livros defendendo o protestantismo e alcançou o cargo eclesiástico de superintendente; o avô materno era um pároco do interior; seu pai, Carl Ludwig pastor em Röcken morreu em 1849 antes que Nietzsche completasse 5 anos. Nietzsche passou a maior parte de sua juventude em Röcken na casa de sua mãe Franziska, sua irmã mais nova, Elizabeth, sua avó materna e duas tias.

Em 1850, a família mudou-se para Naumburg onde Nietzsche frequentou uma escola equivalente ao pré-universitário. Em 1958 foi admitido em Schulpforta, internato protestante da Alemanha. Lá se destacou academicamente e recebeu uma excelente educação clássica. Após formar-se em 1864, ingressou na Universidade de Bonn para estudar teologia e filologia clássica.

Após o breve período do interesse pela ciência, pelo pensamento clássico e pela arte clássica (1778-1882), passa a ter uma atitude contrária defendendo a liberdade de pensamento, opondo-se a qualquer orientação prévia cientifica ou religiosa que pudesse sufocá-lo. Inicia-se então, a fase que muitos consideram a mais significativa de sua filosofia; fala de temas já tratados na fase anterior, mas que são agora expostos com maior desenvoltura e maior beleza de estilo no livro que marca o apogeu da sua obra: “Assim falou Zaratustra” (Also sprach Zaratustra, 1883-5).

Mas é só com “Humano, Demasiado Humano” (Menschliches, Allzumenschliches, 1878) que ele realmente penetra na dimensão contemporânea de sua própria época. Essa obra representa um “momento de crise”, conforme ele mesmo confessa em “Ecce Homo” (trad. Judith Norman, Cambridge University Press, 2005,ISBN 0-521-01688-6); afasta-se então de tudo quanto mais amava, mas que ver agora como fuga e desvio de sua realidade circunstancial; não quer mais se alimentar do passado, do pó da erudição; quer libertar-se também de todo “delírio sagrado”, de todo idealismo, belos sentimentos e principalmente afastar-se de uma arte que seja “um narcótico, como a de Wagner”.

      Quanto ao objeto desta página, que é a condição mental de Nietzsche, me parece que muito pouca atenção foi dada à grande influencia que teve sobre o seu pensamento as peculiaridades da doença mental que o vitimou. Em sua juventude, apesar de ser extremamente cristão e piedoso, contraiu sífiles em um bordel. A sífiles, para a qual então não havia ainda um tratamento, evoluia em sua vítima desde um estágio inicial fora do cérebro, para um estágio em que as células do cortex cerebral eram atacadas provocando os sintomas na mente e no comportamento do doente até levá-lo à morte.

Nietzsche não é um filósofo que se compreenda à primeira leitura. Fala por enigmas, coloca diferentes máscaras, usa de ironia; é algumas vezes cruel, impiedoso, chocante e outras vezes suave, amoroso, extremamente presunçoso e outras vezes poético e contraditório em boa parte do que escreveu. E além do mais, é muitas vezes aparentemente contraditório: há fases de sua obra que se opõem, em todos os aspectos, às colocações básicas de outros momentos. Assim, é difícil interpretá-lo, principalmente porque não é sempre o mesmo: há em Nietzsche pelo menos três colocações filosóficas diferentes, correspondentes a três fases diversas de sua obra, os três estágios de uma evolução que se faz de modo brusco e perturbador, incompreensível ao primeiro contato, típica influência da ”paralisia mental sifilítica” que o consumia. É na verdade um destruidor da filosofia, considerando-a mero cabedal de frases de efeitos, ditos autoritários, etc.

Em 1889, em Turim, onde se sentia eufórico e com melhor disposição do que em toda sua vida, Nietzsche enlouquece e não mais recupera a saúde mental, Porém, pouco antes de perder os últimos elos com a realidade e mergulhar totalmente no abismo do inconsciente, escreveu um livro de extrema lucidez, embora paradoxalmente iluminado por relampagos de loucura: a sua autobiografia e apreciação da própria obra, Ecce Homo (1888) , trad. Judith Norman, Cambridge University Press, 2005,ISBN 0-521-01688-6. Suas observações são mais de genialíssimas intuições, que construções lógicas, racionalmente demonstradas, que a doença não mais lhe permitia construir. Onze anos permaneceu Nietzsche completamente imerso na loucura, até a morte em 1900.

A relação comum da paralisia mental com um grande talento para as artes, foi descoberta ao tempo em que Nietzsche já havia falecido.

Numa época em que as lobotomias, as terapias de eletrochoques e de insulinas ainda eram a norma na psiquiatria em todo o mundo. A psiquiatra brasileira Nise da Silveira se destacou como defensora de uma abordagem mais humana e fundamentalmente relacional para o tratamento de pessoas com condições de saúde mental. Ela estabeleceu terapias ocupacionais como tratamento válido em esquisofrenia e outras condições psiquiátricas, crônicas, no Brasil, mudando a forma como a reabilitação era vista e praticada em sua terra natal. Isso a levou a criar o Departamento de Terapia Ocupacional e Reabilitação do Centro Psiquiátrico Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1946. Aqui ela organizou oficinas de pintura e escultura, onde os pacientes eram incentivados a experimentar novos meios de expressão emocional. Surpreendeu-a a constatação do dom artístico que seus pacientes logo demonstravam, em maior ou menor grau. Passou a fazer interpretações das obras de arte  na busca por entender o que estava na base da doença de cada esquizofrênico. Foi ela quem primeiro aplicou técnicas livres de desenho, pintura e modelagem aos chamados “doentes mentais”. Pelo trabalho que ela realizou, em 1957 Nise ganhou uma bolsa de estudos do Instituto C.G. Jung, em Zurique, na Suíça. Lá ela aprofundou os seus estudos e fez amizade com o próprio pai da psicologia analítia, Carl Gustav Jung. Organizou na Suiça uma exposição, chamada, “Esquisofrenia em Imagens”.Como discípula do grande psiquiatra Jung, aplicou ideias “junguianas” a interpretação dos trabalhos de seus pacientes na tentativa de desenvolver uma compreensão mais profunda e pessoal dos indivíduos aos seus cuidados, e dos processos psicóticos que sustentavam seus sintomas. O sucesso dessa abordagem ficou evidente já no início, e muitos dos pacientes da doutora Nise da Silveira, consiguiram se reintegrar com sucesso à sociedade. As pinturas e outras obras de arte desses pacientes, acabaram sendo celebradas no Museu de Imagem do Inconsciente, fundado em 1952. O Museu permanece em funcionamento, e conta com mais de 350 mil obras de pacientes da década de 1940 até hoje.

O trabalho da Dra. Nise  inspirou a criação de centros culturais terapêuticos no Brasil e no exterior. Ela morreu aos 94 anos, deixando para trás um legado verdadeiramente único. Sua paixão e devoção ao valor da conexão emocional, criatividade e compaixão são lembretes da importancia dessas qualidades tanto no tratamento, quanto na reabilitação de pessoas com doenças mentais.

O caso de Nietzsche guarda inequívoca analogia com os loucos que se tornam artistas, ele pode ter contraido sífiles quando era estudante, o que pode explicar sua loucura posterior. Parece certo que durante sua vida adulta, ele foi, sexualmente um asceta. O máximo que foi alegado é que, como estudante, ele pode ter visitado um bordel duas vezes.

Na doença que atacou Nietzsche, a paralisia geral de origem sifilítica, morreram as células corticais, a começar pelas fibras inibidoras. Mesmo antes de manifestar-se propriamente a doença, apareceram sinais de falta de inibição, sob a forma de expressões e ideias, misturadas com delírio de grandeza. No início, ao ser convidado a lecionar na Universidade da Basiléia, tinha apenas 24 anos, mas sente-se responsável por aqueles estudantes tão desorientados; com sua mania de grandeza, amplia logo essa responsabilidade perante toda a juventude européia e mais tarde dirige-se conscientemente às gerações vindouras, sente-se mestre de uma humanidade futura. A seguir evasão de ideias, confusão mental, e, após um curto período de excitação, instalou-se a desintegração mental. Relativamente cedo atrofiaram-se as células da esfera da memória ótica. Ele não pode mais reconhecer as pessoas, inclusive seus amigos.

Um dos gênios das artes plásticas brasileira, Arthur Bispo do Rosário, esteve por muitos anos internado na Colonia Juliano Moreira, o maior e mais antigo manicômio do Rio de Janeiro. Ele foi diagnósticado como esquisofrênico por muitos médicos. Internado, produzia estandartes, murais, bordados e outras peças feitas a partir de panos velhos, sucatas e lixos. Em seu campo da arte, um verdadeiro Nietzsche brasileiro. Suas peças foram expostas por todo o mundo. Rosário morreu em 1989 aos 80 anos.

Um artista como Rosário, só apareceu, graças ao trabalho da psiquiatra Nise da Silveira. Ele é o mais claro exemplo de como a esquisofrenia pode produzir gênios na pintura, enquanto Nietzsche é o melhor exemplo na arte literária.

Bibliografia:

KAHN­_FRITZ “O CORPO HUMANO” Segundo Volume. Tradução do Dr. L. MENDOÇA DE BARROS, 2ª EDIÇÃO, COMPANHIA EDITORA NACIONAL, SÃO PAULO, 1949.

Belkiss Silveira Barbuy: http://members.fortunecity.com/bucker4/biografias.htm      

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 13-05-2022.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Friedrich Nietzsche. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2022.