Pedro Parafita de Bessa: 100 anos

Hoje: 20-07-2024

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

Completaram-se 100 anos do nascimento do professor Pedro Parafita de Bessa a 06 de março deste ano de 2023. Essa figura que certamente fez o orgulho de Juiz de Fora, terra onde nasceu, é lembrado pelo grande progresso que trouxe para a modernização e difusão da Psicologia no Brasil, particularmente em Minas Gerais. Filho de Antônio Luiz de Bessa e Letícia Parafita de Bessa.

O senhor Antônio Luiz de Bessa era natural de Amarante, localidade vizinha ao Porto, Portugal, e senhora Letícia Parafita de Bessa era natural de Juiz de Fora, MinasGerais, Brasil. Quando tinha dois anos sua família mudou-se para Itaúna e, quatro anos mais tarde, para a capital do Estado, Belo Horizonte, onde viveu até falecer em 2002, aos 79 anos.

Pedro passou um ano em Portugal na companhia do pai. Era ainda criança e é difícil imaginar a razão dessa viagem da qual, ao que parece, somente ele e o pai participaram. Após permanecerem naquele país por um ano, voltaram ao Brasil no último navio que partiu de Lisboa antes de estourar a segunda grande guerra. Foram para Belo Horizonte onde a família agora residia. Desenvolveu seus estudos primários em escola pública e o ginásio no conceituado Colégio Arnaldo, dessa cidade.

Em 1941, Pedro Parafita de Bessa ingressou na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de Minas Gerais, cursando Ciências Sociais, em que se bacharelou aos 21 anos. Não havia bacharelado em Psicologia, sua vocação. Só havia duas disciplinas: uma das relações da Psicologia com a Filosofia, no próprio curso de Filosofia e a outra, de Psicologia Educacional, no Curso de Pedagogia e Didática.

Mas, em 1944, no Laboratório de Psicologia da Escola de Aperfeiçoamento de Professoras de Belo Horizonte, Pedro Parafita foi aluno da única turma de Didática da Professora Hélèna Antipoff que, parece, saciou sua fome de um um magistério profundo e claro da  Psicologia Aplicada. Unidos por uma grande afinidade em seus ideais no ensino da Psicologia, o jovem estudante não se afastou mais da professora. Foi ela também, a sua orientadora, na primeira pesquisa que realizou sobre “O Conteúdo dos Jornais”. Hélèna Antipoff mostrou-lhe o caminho que viria a trilhar toda sua vida. Orientou-o na primeira pesquisa que realizou, intitulada “O Conteúdo dos Jornais”, pouco conhecida mas que os alunos dos atuais cursos de Jornalismo talvez tenham lido. Foi, portanto, neste período que deu início a sua carreira de pesquisador. Declarou ele em uma entrevista: “Ao iniciar o curso de Didática, percebi que ali estava alguém que poderia me ajudar.  Vencendo minha timidez, conversei com a professora Hélèna Antipoff e disse-lhe do meu desejo de ser pesquisador e de tê-la como orientadora”.

Em 1946 foi técnico em exame da personalidade no Serviço de Orientação e Seleção Profissional – SOSP -, que acabara de ser fundado no Instituto de Educação. Tornou-se diretor no Instituto, ocupando o cargo até 1957.

Participou do XIII Congresso Internacional de Psicologia realizado em Estocolmo, em 1951. Segundo relata o próprio professor Bessa, foi o grupo brasileiro em Estocolmo que iniciou as ações visando a regulamentação da profissão do psicólogo em nosso país. Antes disso, a profissão não era regulamentada e a atenção à saúde mental podia ser oferecida por qualquer pessoa. Aquelas que possuissem diploma de curso superior poderiam contar com aceitação social e ganharem a vida como psicólogos, principalmemte os médicos psiquiatras.

A vida do professor Pedro Parafita de Bessa haveria de mudar ao conhecer a psicóloga Maria Célia de Castro, mineira da cidade de Luz e com ela se casar em 1953. Logo vieram os filhos: Maria de Fatima de Castro Bessa, Romeu Luiz de Castro Bessa e Maria Letícia de Castro Bessa.

As novas responsabilidades não diminuiram a força de sua atuação no SOSP, Serviço de Orientação e Seleção Profissional, que implementou e dirigiu. Sua profunda dedicação aquele Serviço gerou uma grande quantidade de documentos, laudos, testes e provas, originados de orientações e seleções profissionais realizados pela equipe sob sua direção.

O SOSP funcionou nas dependências do Instituto de Educação de Minas Gerais, no período de 1949 á 1994, ano em que foi transformado em CENPA – Centro de Psicologia Aplicada da Universidade do Estado de Minas Gerais.

No ano de 1964 eclodiu a Revolução Militar visando coibir os movimentos políticos contrários a ordem vigente no país. Pedro Parafita não se envolveu com os ideais e ações dos revoltosos, não pronunciou palestras, não procurou estimular de qualquer modo movimentos em prol de utopias políticas, não se aliou a nenhum governo, mas como diretor da Faculdade, protestou contra a perseguição de alunos e professores pelo exército quando era reitor da Faculdade vindo a sofrer por esta causa, duras represálias.

O Professor Bessa nunca pediu revisão de sua aposentadoria compulsória decretada em 1969 quando dirigia a Fafich mas depois retornou ao trabalho quando foi convidado pela direção da Faculdade de Filosofia para ensinar Psicologia Educacional nos cursos de Didática e Pedagogia da Universidade de Minas Gerais.

Em 1956 participou do curso de Psicologia Experimental ministrado pelo professor André Rey no Instituto Superior de Educação Rural – ISER -, em Ibirité, na Fazenda do Rosário. Neste período surgiu a ideia de fundar a Sociedade Mineira de Psicologia e Pedro Parafita estava entre os trinta signatários da Primeira Reunião Preparatória da Sociedade Mineira de Psicologia, realizada no dia 12 de novembro de 1956. Em 1957 a sociedade foi fundada e Pedro eleito Secretário Científico, além de criar o curso de Orientação de Pedagogia da Universidade Católica de Minas Gerais, onde foi o primeiro diretor do Instituto de Psicologia que passou a funcionar em 1959.

Uma vez a profissão regulamentada no país em 1962, abria-se a possibilidade de serem criados os cursos de formação de psicólogos. O Professor Pedro, figura importante na regulamentação da profissão Brasil fundou, juntamente com Maria Auxiliadora de Souza Brasil e Galeno Procópio de Alvarenga, em 1963, o Curso de Psicologia, ligado à Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais.

O curso de Psicologia da UFMG foi concebido de forma a que as  necessidades da sociedade fossem bem atendidas pelo profissional da Psicologia.

O professor Pedro foi indicado na lista tríplice para a direção da Faculdade de Filosofia da UFMG em 1967, cargo que ocupou entre fevereiro de 1968 e outubro de 1969.

Precisamente no dia 5 de outubro de 1968, um sábado, aconteceu a invasão do edifício da Faculdade de Filosofia por uma tropa do Exercito. O receio do Professor era que ocorresse com a FAFICH o que havia ocorrido em outras invasões no Brasil, com a morte de estudantes no próprio prédio das universidades. Após muitas negociações e uma carta da direção da FAFICH negando a existência de uma reunião clandestina no recinto da escola, o cerco foi levantado.

A esposa do Professor Bessa, Maria Célia de Castro Bessa, que era também professora da FAFICH à época e estava no prédio lecionando no dia do cerco e se recusou a deixar os alunos à mercê dos militares. Ela se recusou a sair e disse que permaneceria com seus alunos até que o cerco acabasse e todos pudessem sair em segurança. Já era noite quando os estudantes começaram a sair do prédio, ainda temerosos de que tudo não passasse de um truque para prende-los.

O Professor Pedro Bessa foi um dos professores afastados da Universidade durante o Regime Militar. A notícia de sua demissão foi publicada no Diário Oficial da União em 16/10/1969, p. 8767. Aposentou-se da universidade em 1969 por motivos políticos. Passou a dedicar-se a psicologia clínica, atendendo em consultório particular.

Anos depois, ministrou “Aula Inaugural” dos Cursos da UFMG, proferida em 14/03/1990, abordando o tema “A trajetória da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais: uma experiência humanística em tempos de crise”. Na oportunidade, o Professor Bessa relembrou o evento e refletiu: “Não fui eu, que na época tinha a honra de ser o Diretor da Escola, que resisti. Foi a escola, professores, alunos e funcionários”.

Pedro Parafita de Bessa foi um sociólogo e psicólogo importante na consolidação da profissão de psicólogo não só em Minas Gerais, mas também em todo o Brasil. Faleceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, 17 de setembro de 2002.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 22-05-2023.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Pedro Parafita de Bessa. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2023.