Hoje: 13-08-2026
Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br
A CONSULTA
Um casal compareceu ao consultório do psiquiatra acompanhado de um filho adolescente. Enquanto, na sala de espera a secretária fazia as anotações de cadastro, o pai e o menino sentaram-se separados em duas poltronas. Mal trocavam palavras. Já a mãe, de pé, vestida com simplicidade e bom gosto, passava informações à recepcionista sobre o seu garoto. Os demais clientes, que aguardavam sentados nas poltronas, tentavam captar o que ela dizia para a enfermeira, referentes ao menino. O pai um pouco pálido, o olhar vazio, recordava-se da noite em que sua casa fora invadida por soldados da polícia política ante comunista, que levaram o filho mais velho, que ali estava para a consulta, prisioneiro, ao tempo da ditadura militar. Lembrou-se do desespero da mãe que saíra de camisola de dormir correndo e gritando pela rua de madrugada, atrás do carro da polícia que se afastava, de faróis apagados levando seu filho. Ele, de pijamas, apesar de coronel do Exército, nada pode fazer. Para a mãe, os problemas pasicológicos do filho tinham origem nos traumas que sofrera naquela noite. JMJ
Os três estavam com hora marcada e foram logo atendidos. Após os cumprimentos formais, foram convidados a se sentarem pelo psiquiatra, um homem de fina aparência, cabelos ainda completamente pretos, que usava um jaleco branco por cima de um terno azul, gravata salpicada de bolinhas vermelhas e um belo anel verde no dedo. O consultório era uma sala ampla, com uma mesa que agora ocupavam, suficiente para até meia dúzia de pessoas. JMJ.
A mãe falou:
– O Hélio é o nosso filho mais velho – este é Edervam, meu marido. Eu sou Dora, a mãe do Helio, que troucemos para Consultar com o senhor, porque ele está muito nervoso, – criou um problema na escola, – e não gosta muito de obedecer aos pais, não é meu filho? Disse a mãe voltando-se para o jovem e olhado-o com ternura não muito convincente.
– Depende! É muito simples: Besteiras eu não obedeço!
O psiquiatra sorriu com a reesposta do garoto, e ponderou:
– Permitam, por favor: questões de família costumam ser bastante complexas, acho melhor conversarmos algumas vezes, em duas ou mais consultas. Primeiro eu quero saber, de modo particular e reservado, o que o Hélio pensa da situação, para depois tratar da questão, todos juntos; com ele e com vocês, os pais dele. JMJ
O Sr. Edervam franziu o senho, e enrubeceu. Não queria estar ausente em nenhuma etapa do tratamentoe. Avançou com o corpo musculoso na direção do Doutor; este, incomodado, recuou, fingindo estar apenas se colocando mais confortável em sua cadeira; esperou em silencio que o Sr. Edervam se acalmasse. JMJ
Após alguns segundos, o psiquiatra retomou a revelação do seu plano de tratamento do jovem:
– Não seria no consultório, disse ele, mas do outro lado daquela porta, em uma sala ampla onde teríamos melhor ventilação, luz natural através de janelas, ar-condicionado, projetor de slides e outros recursos para a terapia. JMJ
O casal ficou indeciso. Eles se entreolhavam, voltavam – se para o psiquiatra, e o pai, ainda enrubecido, gaguejando, tentava se decidir. Esperava por um sinal que a mulher sempre lhe dava de firmeza e determinação quando era necessário, em uma decisão grave a respeito de um assunto da família. JMJ
—-Temos algum recurso e não pouparíamos nada para mudar o comportamento do Hélio, não é Vansinho? Perguntou a mulher ao marido como um primeiro sinal esperado por ele para ir em frente. Ele sentiu que podia prosseguir no sentido de uma resposta positiva para o médico, e comprometeu-se a custear o tratamento como proposto pelo psiquiatra. Sempre que ela o socorria em uma decisão, ele a via como há 15 anos atrás, quando era apaixonado por ela. JMJ
O psiquiatra já anotara discretamente em seu laptop, a submissão do marido, ao esperar que a mulher tomasse a decisão. O Coronel escondia seu medo de decidir oferecendo à mulher a oportunidade de falar primeiro como uma deferência gentil. Por sua vez ela iria cumprir diante dele o seu papel autoritário desempenhado no lar, de uma mãe que dirigia a economia da família.
—-Vanzinho, vamos deixar o Helio vir sem nossa companhia! Ele precisa começar a ter responsabilidades.JMJ
VEZ DO HÈLIO:
No dia seguinte o Hélio chegou para a consulta na hora marcada. Enquanto aguardava ser chamado, passou os olhos pela saleta de Sofás coloridos, mesa de centro com duas ou três revistas e quadros de aquarelas reproduzindo com graça e perfeição flores solitárias de cores vivas e evidentemente fieis as plantas originais. Helio era o próximo e foi chamado da porta pelo doutor, quando o cliente anterior saiu. “Difícil que a esposa do médico não seja a decoradora do seu consultório”, pensou. Delicadeza e bom gosto estavam na decoração em todos os detalhes.
– O que é que eu tenho? Perguntou Hélio.
—-Você não tem nada. Você vive uma circustância desajustada de uma vivência racional. O homem é um ser racional, mas sem perceber aceita influências que o tornam irracional, estúpido, futuro detento da cadeia pública, ou louco interno em um hospício, respondeu o psiquiatra. Lamentavelmente, esse influenciador pode ser seu pai ou sua mãe, ou um mestre, qualquer adulto que conviva com você.
Hélio abriu um sorriso de incredulidade- Isso não é verdade. Como fariam isso?
—-Simplesmente dizendo alegremente que você já é o que eles querem que você venha a ser. Essa foi a decoberta do famoso psiquiatra escocês, Dr. David Laing, batizada por ele com o título de “Política da Família”. Essa a causa da sua rebeldia. — Consta na ficha de consulta que sua mãe foi aluna interna em um colégio de freiras católicas dominicanas. Podemos então supor que ela aprendeu como aluna, a ser submissa, gentil e séria. De fato isto é curioso! Sua mãe está preocupada porque você está violento, e ao mesmo tempo dá provas de que aceita a violência ao escolher por marido, um homem que é violento. Vejo apenas uma explicação, que seu pai na verdade não é um homem violento, mas tem atitudes muito enérgicas.
O doutor perguntou-lhe, – qual a “qualidade que as pessoas mais admiram em você”?
– As meninas parecem que gostam da minha força, umas, e outras não gostam e não consigo que me aceitem.
– Mas sua mãe não gosta que você seja violento, e por isso trouxe-o ao meu consultório.
Você alguma vez o viu ser violento com alguém ou quebrar o braço de alguém? Parece-me que sua mãe gostou dele por ele ser uma pessoa decidida, firme e corajosa, talvez um pouco ríspido, mas você como criança, e agora como adolescente, ainda não distingue rispidez de violência. Aos seus olhos, de jovem inexperiente ele era violento e cruel. —-Esqueça essa imagem de brutalidade que você erradamente tem atribuído ao seu pai e procura imitar a firmeza de decisões que ele tem. Está de acordo? Experimente mudar o seu ponto de vista sobre ele e verá mudar também sua própria personalidade. Aproxime-se então das meninas para que elas conheçam o novo Hélio.
VEZ DE EDERVAM
O Coronel Edervam pareceu ser outro homem, no dia de sua Consulta médica. Certamente entendeu que sua postura habitual de militar durão era dispenável diante do doutor. Tinha um geito amigável e cumprimentou cortezmente tanto a atendente quanto, com um aceno de cabeça e o boné preso sob o braço, aos demais clientes na sala de espera. Mostrou uma franca cordialidade ao cumprimentar o doutor e respondeu com grande boa vontade às suas indagações:
—-É importante para mim a compreensão do relacionamento entre a sua senhora e seu filho Hélio, para descobrir a causa da rebeldia de que ela se queixa. O sr. pode me dizer-alguma coisa sobre isto?
—-Dora aprendeu, como aluna de um colegio de freiras, como ser tida por submissa, gentil e séria. Quando namorado, a tomei por extremamente doce. O problema é que ela queria que eu me mostrasse como um militar rigoso exigente e bruto e, para não desagradá-la, eu me habituei ao papel de durão com as pessoas, disse o sr. Edervam e riu.o pai: aprendeu que se físico atlético impunha respeito. Passou a fazer uso do temor natural que provocava passando por valentão. Criou um falso contraste com a esposa que elogiava sua aparencia poderosa e dava-lhe na medida certa uma submissão falsa, de falsa bondade.
—-O sr. não se importou que também seu filho Hélio passasse a ve-lo como durão?
O Dr. já anotara em sua caderneta de observações que ela dominava o marido com sua doçura e que o filho lutava por não ser dominado do mesmo modo, suas armas eram a arrogância e a rebeldia.
– Aí está o mais daninho e perverso dos jogos que os pais com maior ou menor consciência, fazem com seus filhos. É interesse deles que os filhos desenvolvam determinados traços de caráter. Que um seja mau, seja a ovelha negra da família, e o outro seja mais inteligente, o outro seja humilde e tímido, o outro seja deprimido e incompetente, preguiçoso, esperto, e outros tipos. Continuou o psiquiatra – Esse jogo pode ser bom como quando os pais induzem os filhos a serem justos, simpáticos, alegres, mas será mau se a ação paterna obedece a um preconceito que é criado em relação a cada filho de modo irracional, deixando agir a parte ruim do espírito que todos podemos ter, porque fomos criados com aptidões para o bem o para o mal, e para sermos livres e eleger qualquer desses dois modos de comportamento. – Muitas coisas podem contribuir para que alguém mostre um determinado tipo de caráter, mas o principal é a permissão e o estímulo dos seus pais para isto, enquanto o filho cresce.
VEZ DE DORA:
Dona Dora, preciso que a Senhora compreenda que, de modo algum, por falar de aspectos do seu comportamento que a senhora deve mudar para que o Hélio, seu filho, mude tambem, eu não creio que será errado dizer que a senhora tem uma dupla personalidade, uma natural bastante agressiva copiada com olhos de criança do seu pai, um militar, e outra estremamente doce adquirida do seu convívio com as freiras da escola em que estudou.
O psiquiatra prosseguiu:
Além de influir no caráter, esse jogo de duas personalidades pode ser usado para encaminhar um jovem para uma profissão, uma mãe pode induzir um filho, por exemplo, a ser advogado apesar dele não possir os dotes nesseçários e ele resultar em um mau profissional, cheio de problemas e fracassos eacabar abandonando a profissão.
Dora ironicamente perguntou sorrindo: —-Aconteceu com o senhor de ser induzido por sua mãe a ser psiquiatra?
O psiquiatra calmamente respondeu:
– Posso dizer que sim! Sofri o mesmo que você, interferência na minha decisão do que escolher para viver. Éla e meu pai, acharam que não podiam permitir que eu me ocupasse com uma profissão menor que meus dotes de inteligência, e em desacordo com o prestígio social que minha família ocupava na cidade, mas se você perguntar se foi uma escolha livre a psiquiatria, respondo que não foi. Eles abriram para mim a porta de um destino que terminou por me fazer feliz.
– Com as mesmas ferramentas poderiam te-lo induzido ao mal? Perguntou o Dora.
– Sim, mas não eram pessoas ignorantes! Me disseram que eu daria um bom médico, a profissão que queriam para mim. Veja, eles não me desprezaram, não me chamaram de bobo nem de burro. Porque eu desejava algo em que minhas qualidades estariam mal-empregadas. Fizeram-me compreender isto.
– Não é bem seu filho que é um “filho problema”. A senhora, e não ele que precisa da iniciativa de mudar, de ter calma para ser mais racional, de acompanhar as atividades de seu filho sempre que puder porque ainda há tempo.
– Desculpa doutor. Eu não me dei conta de que o Hélio estava estressado.
Tenho o que lhe dizer nesse sentido com respeito ao Hélio é simples, apenas acho que ele sempre sofreu forte influência da sua parte, e que ele nunca aprendeu a lidar com essa influência.o pai: aprendeu que se físico atlético impunha respeito. Passou a fazer uso do temor natural que provocava passando por valentão. Criou um falso contraste com a esposa que elogiava sua aparencia poderosa e dava-lhe na medida certa uma submissão falsa, de falsa bondosa.
– Absolutamente ele é livre para fazer o que quiser, disse a mulher.
– Para a criança não faz bem aquilo que quer, mas o que lhe traz reconhecimento dos adultos a sua volta. É assim que a criança aprende. Para o bem de seu filho, dê-lhe mais consideração e reconhecimento quando ele fizer algo de bom para a família, quando ele fizer seus deveres escolares e não quando ele se põe inconveniente. Tenho certeza de que você vai conseguir. Desejo-lhe felicidades.
a mãe:aprendeu como aluna de um colegio de freiras como ser tida por submissa, gentil e séria. O namorado a tomou por extremamente doce. – De fato isto é curioso. Sua mãe está preocupada porque você está violento, e ao mesmo tempo dá provas de que aceita a violência ao escolher por marido, um homem que é violento. Vejo apenas uma explicação, que seu pai na verdade não é um homem violento, mas tem atitudes muito enérgicas. Você alguma vez o viu ser violento com alguém ou quebrar o braço de alguém? Parece-me que sua mãe gostou dele por ele ser uma pessoa decidida, firme e corajosa, talvez um pouco ríspido, mas você como criança, e agora como adolescente, ainda não distingue rispidez de violência. Aos seus olhos, de jovem inexperiente ele era violento e cruel.
Esqueça essa imagem de brutalidade que você erradamente tem atribuído ao seu pai e procura imitar a firmeza de decisões que ele tem. Está de acordo? Experimente mudar o seu ponto de vista sobre ele e verá mudar também sua própria personalidade. Aproxime-se então das meninas para que elas conheçam o novo Hélio.)
– Não! Ela disse que me levaria a um psiquiatra porque quebrei o braço de uma menina na escola. – Ora! Isto é que não entendo. Por que então ela se casou com meu pai, um atleta que está sempre irritado?
Está foi sua última consulta, tive prazer em atendê-los. Ponham em prática o que, unidos, entendemos como o melhor para acabar de vez com problemas que infelicitavam suas vidas, porque era o que antes gerava atritos: pesados preconceitos arraigados em suas mentes. corrijam todos, vocês não são os primeiros e a ficarem curados e a descobrirem como o mundo é diferente de como pensamos que ele é.
