O Jardineiro Perspicaz

Hoje: 29-11-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

È importante considerar o fato de que o acaso faz por nós mais que conseguimos por nossa vontade. O encontro entre os dois homens não foi por iniciativa própria de nenhum deles, foi por um acaso mais bem urdido do que conseguiriam por desejos seus. Como o detetive poderia sair do escritório com a intenção de encontrar o jardineiro e de fato encontrá-lo, ou, o jardineiro buscar o detetive? Tudo aconteceu engendrado por acaso.

Foi como se os fatos fossem preparados em diversas instancias independentes, para pouco adiante convergirem na solução do crime.

Um novo caso sempre deixava o detetive em mal estar e tédio, incerto de estar investindo seu tempo e seus recursos em algo que valia a pena.

Mas ali estava, com contrato assinado em seu escritório, contratado pelo dono de uma mansão para uma espionagem; pago para lhe apresentar um relatório sobre a amante que o traia.

Fazer o relatório lhe renderia dez mil reais. Poderia ter pedido mais que isso, tal interesse do dano da mansão em saber a movimentação da mulher, pela qual estava apaixonado.

Aquele era um bairro de gente rica, as mansões se sucediam rua abaixo. Havia entre elas largos espaços de jardins impecavelmente aparados, com suas calçadas sinuosas de seixos brancos impecavelmente limpas. Os arquitetos não se davam conta de quanto agora eram vulgares e desinteressantes os seus jardins geométricos, plantados com arbustos de grandes folhas, traficados do Amazônia, quando plantas exóticas, gramados e palmeiras anãs, formavam os jardins da moda.

Na esquina havia uma padaria montada com muito luxo. De suas mesas o detetive podia ver, sem obstáculos, através das grandes janelas de blindex, à frente e uma das laterais da casa que morava seu contratante a qual teria que vigiar, de modo que ninguém entrasse ou saísse sem que ele visse.

 Entrou na padaria, um homem calçando botas, pediu um café e foi sentar-se junto à janela.

– Curioso? Perguntou recém-chegado ao detetive.

– Estou tentando identificar as plantas daquele jardim, disse o detetive voltando-se para o indivíduo que o abordava, sem revelar o verdadeiro motivo de estar ali.

– Posso lhe dizer o nome de qualquer uma das flores.

– É um cenário que acalma e traz alguma paz. Sempre que vier aqui, não deixarei de admirar aquele gramado tão bem aparado e as flores tão exóticas e desconhecidas para mim. Conhece o dono?

– Obrigado por seus elogios. Sim, conheço o dono. Sou o jardineiro dessa mansão.

“Aquele homem, de aparência rude, mas de olhos brilhantes e inteligentes, seria exatamente aquilo que imaginara: alguém que poderia ser muito útil para seu trabalho”, pensou o detetive.

Mas o jardineiro também pensou: “Talvez ele possa me ajudar; parece sério e inteligente”. Pensando assim, sentiu-se movido a revelar seu segredo, antes porém comentou:

– Talvez eu tenha que sair do emprego. O que vejo acontecer naquela casa, me revolta! Não me faltaria onde trabalhar, disse o jardineiro.

Mansamente, como convém quando há o receio de que o outro mude de idéia, o detetive perguntou.

– O que de tão grave acontece lá, que o faz pensar em deixar o emprego? O tom moderado de sua fala e suas feições tranqüilas na verdade escondiam o súbito interesse despertado nele pela confissão do seu interlocutor.

– Acredito que o que aconteceu ali levou ao assassinato da minha patroa, respondeu o jardineiro emocionado. Seus olhos molharam-se com as lágrimas contidas. Não tenho nenhuma dúvida de que sua cuidadora a matou.

– Mas é apenas uma suposição ou você tem provas?

– Comecei a desconfiar. Fiz uma lista de acontecimentos estranhos, e tive uma idéia de quem estava a frente desses fatos: Rosana.

– O quê, por exemplo?

– Posso abrir qualquer coisa. Foi o que ela disse quando entrou na casa uma manhã, sem que ninguém tivesse aberto o portão.

– Estranho que uma mulher diga isso, falou o detetive.

Outra coisa continuou o jardineiro:

– Foi o desaparecimento da aliança de minha patroa. Quando ameacei chamar a polícia, a aliança reapareceu jogada no chão do escritório. Muita coisa estava sendo roubadas da casa, coisas da copa, ferramentas, roupas de cama etc.

Logo desapareceu também um brilhante guardado no cofre; dele ficou o estojinho vazio, caído no chão.

Passado uns dias, houve um assalto, e o que vi? Rosana prendendo os cachorros no canil para os ladrões pularem a cerca.

Os ladrões nos deixaram trancados no quarto da minha patroa, que dormia e felizmente não acordou. Só depois que os bandidos foram embora, a própria Rosana chamou o filho da patroa que chegou com a polícia para nos libertar do quarto. Ao delegado, mentiu dizendo que não tinha o celular consigo, mas foi o que ela usou para trancada no quarto como estávamos, chamar o filho da patroa.

O detive falou:

– Você foi bastante perspicaz! Gostaria de ser assistente de um detetive?

O jardineiro sorriu

– Você é detetive? Perguntou.

– Sim.

– Escute o que poderemos fazer. Vou escrever um relatório e entregá-lo ao seu patrão. Eu vi essa mulher em um restaurante perto da casa dela conversando e bebendo com um estrangeiro. Pude ver que ele usou de muita insistência para que fossem para um hotel, mas ela só queria seduzi-lo para ganhar um jantar caro e deu um jeito de se livrar dele após o último gole de vinho italiano. Com base neste fato, direi no relatório que ela me parece uma mulher honesta e que não está o traindo. Ele deverá me pagar o que acertamos pelo meu trabalho e depois vamos estudar como criar nossa sociedade.

– Quanto a mim está ótimo, disse o jardineiro alegremente.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 19-10-2021.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – O Jardineiro Perspicaz. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2021.