A Garota Emparedada

Hoje: 26-10-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

A fazenda Cachoeira dedicava-se à produção de café, que exportava para o porto de Santos. Era um estabelecimento agrícola exemplar. Seus empregados dispunham de moradia decente e horários estabelecidos de trabalho. Suas famílias ocupavam pequenos chalés ao longo do caminho entre a grande porteira e a sede da fazenda.

Em um desses chalés, moravam Pedro Miguel e sua mulher. Certa noite Pedro Miguel acordou com um estrondo vindo da sala; por um instante não compreendeu o que se passou porque não viu nada de errado ao acender a luz de cabeceira. Então resolveu verificar na sala de onde vieram o ruído. Desvencilhou-se vagarosamente do abraço que lhe dava a mulher enquanto dormia. De pé pegou cautelosamente sua lanterna e a carabina, que deixava pendurada na parede junto a cama do casal. Olhou pela porta do quarto o interior da sala e então sofreu um grande susto. Havia caído parte da parede junto a porta de entrada e essa foi a causa do estouro.

Nesse instante na escuridão do cômodo, uma visão deixou-o gelado. Viu na parede, uma menina desenhada com uma luz fluorescente branca, acenando-lhe com a mão. A garota mantinha-se no ar, debatendo-se como se desejasse escapar de onde estava.

O terror deixou-lhe as pernas rígidas e os pés colados ao assoalho, quis chamar a mulher, mas a voz não saiu. Em vão tentava fugir daquela visão que logo começou a se esvanecer. Finalmente a mulher veio em seu socorro. Ele apontava na direção da porta da rua mas ela nada podia ver ali de anormal. Convenceu-se de que o marido sofrera um derrame, delirava, e precisava de um socorro imediato, mas não conseguia movê-lo.

Decidiu correr até a casa grande, apesar da escuridão da noite. O capataz atendeu a seus gritos e acompanhou-a de volta à sua casa. Encontraram Pedro Miguel na mesma posição, e o capataz não conseguiu que ele respondesse ou se movesse.

Foi bater à porta do vizinho, cerca de uma dezena de metros adiante na estrada. Os dois carregaram Pedro Miguel para fora de casa, como se ele fosse uma estátua de gesso.

Na casa do capataz, já havia luzes acesas e pessoas esperando para saber o que havia acontecido. A opinião dos mais velhos é que fosse chamada uma ambulância, mas assim que deitaram o doente no sofá da sala, ele começou a dar sinais de melhoras e recuperou o seu entendimento. Perguntou, ainda de olhos esbugalhados, se tinham visto a menina iluminada. Ninguém entendeu o que ele queria dizer com isso.

A polícia foi chamada, e em pouco tempo o pátio da casa-grande estava cheio da carros. Além dos dois automóveis do fazendeiro, havia também o carro do delegado, o da investigadora e do perito criminal da delegacia. Mantinham os seus faróis ligados, o que fazia da noite, dia.

Da varanda da casa-grande, o fazendeiro indagou o que acontecia. O capataz foi até ele.

– Foi um empregado que surtou, disse o capataz. – Eu cuidarei de tudo e depois lhe farei um relatório. Pode voltar a dormir tranquilo, senhor.

O delegado pediu à mulher do empregado que os levasse ao local onde moravam. O cortejo, tendo a frente o capataz e o delegado, chegou ao chalé e todos se puseram a escrutinar a sala em busca de algum indício de que Pedro Miguel estaria ou não em seu juízo perfeito. A investigadora colocou uma luva e examinou o entulho ao pé da parede espalhando com cuidado o pedregulho, inexplicavelmente, era uma parte de taipa na parede de tijolos. Subitamente ela deu um grito de horror. Segurava duas falanges dos dedos da mão de um morto, recolhidas do monte de saibro e fragmentos de cascas de pau que jazia sobre o assoalho. Diante do achado, todos voltaram suas atenções para a larga falha deixada na parede pelo desmoronamento.

Em pouco tempo montaram sobre o assoalho o esqueleto completo de uma criança, que teria provavelmente oito anos de idade ao falecer.

Faltou palavras a cada um. Emocionados e silenciosos, formavam uma roda em volta dos despojos da menininha.

Pedro Miguel não estava louco quando disse que havia visto uma menina, pensou a investigadora. Mas, como explicar que a garota fosse um fantasma luminoso como ele afirmava? Lembrou-se então do fogo fátuo que se forma sobre as sepulturas nos cemitérios, devido à liberação do fósforo de ossadas antigas desenterradas.

O delegado aproximou-se da investigadora e lhe disse:

– Você vai ficar com esse caso.

Na delegacia a investigadora mostrou ao perito criminal os ossos que havia reunido na operação. Indagou dele qual seria o tempo de falecimento daquela garota. O perito examinou e logo concluiu:

– O grau de alteração aponta para uma data muito remota. A sua determinação exata, somente através de teste de carbono. Calculo que mais de vinte anos, e neste caso pouca utilidade terá para fins policiais.

– Não devo insistir em investigar?

– Eu mandaria arquivar a ocorrência, disse o perito.

– Não arquivo antes de ouvir o fazendeiro e o  capataz.

A interrogação do capataz pouco rendeu. Salvo, que a casa era das mais antigas e uma das melhores da fazenda, inclusive, era de alvenaria e que ele ficou surpreso com a acréscimo de taipa em que a menina estava emparedada. Um trabalho tão bem feito que não dava para diferenciar. Ele não tinha registro dos moradores de antigamente, mas não se lembrava de que tivessem notado na época qualquer comportamento estranho dos moradores daquele chalé. Em nada podia ajudar.

A investigadora perguntou-lhe se não se lembrava de algum uso da casa, no passado, por exemplo, para abrigar alguém temporariamente.

O depoimento do fazendeiro dizia que toda responsabilidade pelas moradias, ele passara ao capataz, também disse que nunca houve ocupantes temporários. Os amigos e parentes que o visitavam, ficavam na casa-grande que era suficientemente ampla para abrigar várias famílias confortavelmente.

O depoimento do filho do fazendeiro nada acrescentou porque ele estava em Paris quando o pai comprou a fazenda e aquele ano, viera para conhecer a propriedade. Com seu cachecol verde, gravata borboleta colorida, camisa azul, botinha de pelica lustrosa para provar que tinha consciência de estar em uma fazenda, perecia um dândi fora de lugar e de época. Nada sabia sobre novos ou antigos moradores da propriedade.

A investigadora ouviu também o depoimento de trabalhadores, inclusive de Pedro Miguel e sua mulher que haviam encontrado a menina morta. Disseram que nunca notaram qualquer anormalidade naquela sala. O único acidente estranho, foi a queda da parte do taipa.

A investigadora já estava pensando em seguir o conselho do perito e arquivar o processo, porque pelo tempo decorrido e devido a rotatividade dos empregados da fazenda, tornava-se praticamente impossível aprofundar as investigações. Porém antes que arquivasse o caso, apareceu uma senhora idosa indagando o que havia sido feito dos restos mortais encontrados. A investigadora abriu uma gaveta na parte baixa de sua estante, e tirou de lá a caixa de sapatos e mostrou para a visitante o estado em que os restos tinham sido encontrados.

Para sua surpresa, a mulher iniciou um pranto mostrando desespero e uma dor profunda. Quando pôde falar, explicou:

– É minha filha, reconheço pelos restos de vestidinho que ela usava e apontou alguns fragmentos do tecido aderentes na ossada.

A investigadora perguntou:

– A senhora poderia me dizer o motivo de tê-la emparedado. Quem a matou?

– Ela faleceu de tifo. Eu e meu marido decidimos encontrar um meio de conservar o seu corpo, porque queríamos que ela continuasse perto de nós, como ele era um bom pedreiro, fez um pequeno sarcófago de taipa que adaptou à parede junto à porta de entrada, e lá nos ajoelhávamos para orar pela sua almazinha, e isso nos consolava bastante.

– Mas que prova a senhora tem do que está me falando? Porque o seu marido não veio com a senhora para fazer essa declaração?

– Meu marido também é falecido, mas podemos ir lá e ver o que posso descobrir para provar-lhe o que estou dizendo.

No carro da investigadora, cobriram o percurso em pouco tempo, e lá chegando, encontraram apenas a esposa do Pedro Miguel que fora para o trabalho. Puseram-se a examinar o local, a parede e o entulho que estavam ainda como haviam deixado. A idosa olhou o local, o teto e o assoalho e disse:

– Aqui ficava uma mesinha sobre a qual colocamos um retrato da minha filhinha, vasos de flores e algumas velas que meu marido gostava de acender a noite.

A esposa do Pedro Miguel observava o trabalho investigatório das duas mulheres. A que se disse mãe da criança pediu uma vassoura, que lhe serviu para afastar a poeira, e a moradora ajudou-a a remover algumas partes mais pesadas de taipa deixando o piso limpo.

– A mesinha ficava justamente aqui, disse a mãe.

A investigadora curvou-se para examinar o assoalho mais de perto. A mulher a suas costas assustou-a dizendo:

– Olha aqui! Ver essas manchas? Algumas vezes eu deixei cair cera das velas no assoalho.

Havia diversas manchas de diversos tamanhos, e o aspecto poderia confirmar, realmente, o que ela dizia: restos de cera.

Ambas se ergueram e a senhora perguntou.

– Não é uma prova?

 A investigadora meneou a cabeça e disse:

– Vou chamar o perito e o caso ficará resolvido. Vamos voltar para a delegacia.

Completadas as formalidades, os ossos da criança foram entregues a mãe em uma caixa de sapatos. O delegado disse-lhe que os enterrasse.

– Estou muito velha e sozinha, não poderia cuidar de um túmulo. Vou crema-la. Agradeceu-lhe e se foi apertando a caixinha contra o peito.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 07-10-2021.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – A garota emparedada. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2021.