As Filhas Adotivas

Hoje: 20-09-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

HENRIETTE

A igreja de Carpestang (carpestan), construída como uma fortaleza, dominava todos os edifícios no centro da cidade. Gianluca deteve o barco em um remanso aprazível e sombreado, não muito distante do cais. Na mesa do convés da popa as moças se dispuseram para mais uma conversa de grupo, antes do almoço. Henriette expôs o seu caso.

— Meus pais adotivos não tiveram filhos próprios. Já haviam adotado um menino e me adotaram para completar um casal. Meu pai dizia que ter filhos era necessário para dar sentido ao seu trabalho. Treinava-nos para que continuássemos a fazer crescer sempre mais os recursos da família. Devíamos fazer por merecer o que ele deixaria para nós.

— E a sua mãe – indagou Martine –, pensava do mesmo modo?

— Parece que sonhara com a adoção dos filhos, mas depois estranhara seu próprio projeto, e não se ajustava ao papel de mãe adotiva. Certa vez disse que, apesar da adoção ter sido legal, não conseguia se livrar da sensação de que havia roubado suas duas crianças. Acho que minha mãe tinha certa incapacidade de mostrar afeto, e também não acreditava em nosso amor. Uma vez ela disse, desalentada, que um bebê chora devido à falta do cheiro de sua mãe biológica, seu toque, o som de sua voz… Por falta desses sinais achava que nunca seria amada por nós. Por tudo isso a ligação com meus pais me parecia cada vez mais inútil e falsa.

— A incapacidade da mãe de desenvolver seu instinto materno é a maior causa de perturbação da criança, seja ela adotiva ou não – disse Martine em assumido tom profissional. – Mas este é um problema ainda mais grave para os filhos adotivos; eles precisam de uma aceitação autêntica para fundamento de sua identidade pessoal, em substituição ao fundamento biológico. – E como reagia seu irmão?

— Acho que algo parecido acontecia com meu irmão. Ele foi completar sua formação no exterior onde, apesar dos protestos da família, casou e passou a residir. Então me pareceu que sair eu também de casa seria muito cruel para nossos pais, e uma deslealdade para com eles que me tratavam com toda largueza. Pensei no perigo de que, ofendidos, eles me desamparassem. Aconselhada por minhas amigas, procurei um psicólogo mas ele me deixou ainda mais confusa. Disse que a origem dos meus problemas psicológicos estava no fato de que, como qualquer adolescente, eu desejava conquistar meu espaço social, porém via minha condição de adotiva como uma ameaça para minha aceitação. O resultado foi um colapso nervoso com uma variedade de sintomas físicos, e um longo tratamento sem resultado. Somente saí daquele estado quando me decidi a encontrar meus pais biológicos sem me preocupar com as consequências. Quando tomei essa decisão senti forte emoção ao pensar que encontrar meus pais significaria conhecer meus avós, tios, ou mesmo possíveis irmãos, irmãs e primos, e descobrir de repente uma grande família à qual eu pertenceria realmente.

— E seus pais não se opuseram? – perguntou Martine.

— A reação deles foi pior do que eu temia. – “Você não está interessada em encontrar uma família, está interessada em você mesma!”, lamentou minha mãe adotiva aos prantos. Ouvi meu pai comentar para minha mãe: “Se ela os descobre e cai nos braços deles, com que ficamos nós que tivemos tanto trabalho, despesas, angústias, para educá-la? Essas pessoas gozaram a vida livrando-se de cuidar dela e a terão de volta educada e rica, para tranquilidade de suas consciências. Mesmo que desejássemos, não poderíamos deserdá-la.”

Martine interrompeu-a:

— No seu dossiê consta que você foi condenada por dirigir embriagada… Como isto aconteceu?

— Eu nunca tive a sensação de pertencer a alguém, e achava difícil fazer amigos ou me aproximar das pessoas, mas os rapazes me procuravam. Fui presa por dirigir bêbada e provocar um acidente, ao sair de uma festa, depois de romper com meu namorado. Mas foi cair tão fundo no poço que acabou me salvando. Conheci um policial que deseja me ajudar.

Como se adquirisse novo ânimo, Henriette abriu sobre a mesa uma pasta de cartolina onde tinha algumas fotografias.

— Ele é da polícia; é um especialista em montar fisionomias de pessoas procuradas – continuou. – Este é o retrato que ele fez de como deve ser o rosto de meu pai. Este é o de minha mãe.

— E como ele fez isto? – indagou Olga, examinando os retratos. – Alguém os descreveu para ele?

— Não, mas ele sabe quais os traços dos pais costumam predominar em um filho e em uma filha. Por exemplo, nos meninos o nariz costuma ser o da mãe; nas meninas o do pai. A altura da testa tende a corresponder à da mãe, tanto nos meninos como nas meninas. Eu coloquei estas fotos na Internet. Talvez eles as vejam e poderão saber que eu desejo conhecê-los. Por conselho do meu amigo publiquei também um perfil biofísico: minhas alergias, meu tipo sanguíneo, a minha taxa de colesterol… Quando for possível, iremos publicar também o meu genoma.

Olga não se conteve:

— Desculpe, Henriette querida – disse rindo –, mas acho tudo isso falso. O que esse policial quer é apenas conquistar teu coração! – As outras duas detentas também riam, e Henriette empalideceu, ofendida.

Ouviram o sino tocar no convés da proa, sinal de que Louise já havia posto o bufê do almoço. Martine se perguntou se não teria sido Henriette que furtara seu perfume. Afinal ela tinha um namorado para quem se perfumar, ao retornar à prisão. Ela teria pego o seu telefone para conversar com ele noite a dentro. Mas isto não parecia caber bem no perfil firme e honesto do caráter de Henriette – pensou.

Na parte da tarde, enquanto o Bel-Grosté prosseguia sua rota fixa pelo canal, as moças conversaram vivamente, sentadas no convés da popa. Enquanto trabalhava sobre suas anotações, Martine ouviu que pediam desculpas e encorajavam Henriette.

À noite Gianluca e Louise surpreenderam a todas com um convite para jantar em um restaurante na margem do canal, próximo a La Croisade (la croasade). Uma refeição em terra era parte do contrato! As tensões do dia se esvaíram com o acontecimento inesperado, e assegurar honestamente a Louise que sua comida era tão boa ou melhor que a do restaurante foi para todos um prazer complementar ao do próprio jantar.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 04-11-2004.

Direitos reservados.
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – As Filhas Adotivas. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2004.