Viagem pelo Amazonas

Hoje: 29-11-2021

Página escrita por Rubem Queiroz Cobra
Site original: www.cobra.pages.nom.br

Naimon Yoseph Schwarts um jovem empregado na indústria de joias de seu pai, em São Paulo, o caçula de três irmãos, decidiu conhecer a Amazônia. Naimon preparou-se para uma viagem com grande expectativa de ver coisas exóticas, conhecer povos indígenas e observar com atenção cada ponto do trajeto. Pensou que uma viagem assim precisaria ser bem aproveitada. Contando com a aprovação dos pais, tomou um avião em São Paulo e desembarcou em Belém, a tempo de adquirir uma cabine no “Le solitaire des eaux”, pequeno navio de 120 toneladas movido a motor diesel, que lhe indicaram como barco seguro, apesar de que o mais adequado para conhecer verdadeiramente a Amazonia seria uma “gaiola”.

O navio sairia de Belém com uma carga de máquinas no porão para serem entregues no Porto de Afuá e em outros pontos ao longo do Amazonas, terminando seu percurso em Manaus de onde regressaria a Belém.

Depois de se instalar em sua cabine, foi juntar-se a um pequeno grupo de passageiros junto à ponte de navegação. De onde estavam, tinha-se uma boa visão das margens do rio e podia-se ver por inteiro o capitão ao leme do grande barco, ao lado de uma bussola de bom tamanho, montada sobre uma coluneta de metal pintada de branco. Firme à roda do leme, o capitão mostrou-se irritado com os moleques que se juntavam nas laterais do barco para acompanhar as manobras de desatracamento, a nado ou utilizando minúsculos barquinhos e gritando por dinheiro. Irritado, murmurou entre os dentes:

– Eles vêm pegar onda na marola que fazemos, e pedem que lhes demos qualquer coisa para si.

Voltando-se para os passageiros do pequeno grupo junto da ponte, –local a que habitualmente acorriam os que faziam pela primeira vez aquela viagem –, continuou:

– Moram em casebres de madeira, sobre palafitas, nas margens dos rios e canais, como vocês podem ver.

– Me surpreende a variedade de barcos, disse Naimon, o mais próximo do capitão. São vários tipos das “pequenas”, alguns parecem um caiaque.

– Sim, disse o capitão. Vão de “pequenas montarias”, menores que o caiaque para uma pessoa, até navios duas vezes maiores que este. Há também os batelões e regatões que carregam comidas e gêneros, e comercializa com os ribeirinhos ao longo do caminho.

 No final da tarde o capitão avisou aos passageiros que quando já estivessem no rio Amazonas, seriam alcançados por um grande espetáculo da natureza na Amazônia chamado “Pororoca”, que é o encontro das águas do mar, na maré alta, com as águas da foz do rio Amazonas. Disse que foi informado pelo rádio da marinha que a velocidade da pororoca estava maior que a velocidade do barco e que não teria como evitá-la.

– O navio vai sacudir muito. Mantenham-se em suas cabines, enquanto durar a agitação das águas, disse o capitão. — Não há o que temer. A onda vai nos apanhar por trás e o choque será menor. Seremos apenas impulsionados por ela.

Naimon assustou-se com aquela informação porque sabia que a pororoca é uma onda que se forma na foz do rio Amazonas e que avança com velocidade de 30 km/h e altura que pode alcançar a 6 metros, e causava enormes estragos, inclusive, afundamento de barcos.

– Em quanto tempo seremos alcançados por ela? Perguntou ele, ao capitão.

– Nossa velocidade seria superior à pororoca se estivéssemos viajando no mesmo sentindo que correm as águas do rio. Mas, como nós estaremos em rumo contrário à correnteza, ficaremos com a velocidade reduzida para uns 15 km/h. Seremos apanhados, porém de modo suave e sem perigo algum. Será por volta da meia noite e vou procurar um porto para proteger o navio.

Ao final da sua explicação o capitão alteou a voz e repetiu para que todos escutassem “não há perigo algum!”.

As feições dos passageiros indicavam dúvidas, desacordo ou concordância, conforme suas experiências do passado. Mas os ânimos estavam abatidos e não faltavam histórias desanimadoras.

— Jacob, disse um passageiro apresentando-se a Naimon. – Simão Jacob. E você, vai até Manaus?

Percebendo que podia ser um judeu paulista como ele, porque não costumava simpatizar-se com gente de sua própria raça, não disse seu nome completo: — Queria manter-se cordial e circunspecto. – Naimon, disse:

— Pretendo ir até os confins da Amazonia… até o Acre. Mas posso mudar de ideia. Parece que pode ser muito perigoso. Todos estão bastante assustados.

Seu modo reticente parece não ter agradado a Jacob. Ele voltou-se para outros passageiros ao seu lado.

— O que acho mais perigoso são os acidentes com os barcos, que são muitos. Saeed, um amigo, me contou que viajando no rio Amazonas, já havia adormecido, e era por volta de uma hora da madrugada, quando o desastre aconteceu. Disse ele que acordou com um estrondo e um impacto, e foi jogado do barco para dentro d’agua, como se não fosse maior que uma formiga! – contou ele. Haviam batido num pesqueiro de aço e as duas embarcações estavam afundando… Houve uma gritaria danada, de pessoas, de animais, de galinhas alvoraçadas, todo mundo se debatendo, se afogando ao redor. Eram gritos de desespero e pedidos de socorro. Na escuridão não se enxergava direito.

De repente, uma pessoa agarrou-o pelo pé me puxando-o para o fundo. Institivamente deu um safanão bem forte e se livrou. Viu depois que era uma mulher. Esse meu amigo ficou boiando noite adentro. Um barco que passou içou-o para bordo e o salvou.

O Le solitaire des eaux não se deteve ao chegar à curva do canal frente a Macapá, para passar às águas do Grande Rio. Como não dispunha de cabines para mais passageiros e nenhuma carga para desembarcar naquele movimentadíssimo porto, foi fundear mais acima, no porto de Mazagão.

Já era noite, mas apenas parte dos passageiros se recolheu. Jacob preferiu ficar vigilante, de olho no Capitão, na expectativa da chegada da pororoca. Só foi dormir quando, pelo rádio, a Capitania dos Portos desfez o aviso de perigo. A pororoca fora das mais brandas de que se tinha notícia. Os passageiros que haviam se recolhido nada sentiram que lhes perturbassem o sono. Aliviados, todos saíram de suas cabines para gozarem a manhã magnífica daquele dia. O sol comandava todo o espetáculo. Uma iluminação forte e cálida deixou as matas nas margens iluminadas por raios de luz com tons dourados, meio amarelados, criando uma espécie de aura em volta, algo misterioso, realmente espetacular. Aquela luz realçou o colorido da mata de arvores imensas e enormes copas, alternadas com açaizeiros típicos da região.

Boca do Jari foi a próxima cidade no itinerário para Manaus. O atracamento foi apenas para desembarque e embarque de passageiros carregando suprimentos em sacos de plástico de Supermercados. Naimon Yoseph tinha grande curiosidade sobre o lugar. Mas, não havia vestígios dignos de nota do antigo “projeto do Jari” do magnata americano Daniel Keith Ludwig, iniciado em 1967.  Ele havia pretendido criar indústrias e serviços que haveriam de trazer progresso imediato para a região. O Capitão falou muito ligeiramente, e com tão grande pouco caso do gigantesco empreendimento, que levou Naimon a calar-se. O judeu tentou apenas reconhecer o que lera em revistas e jornais anos atrás. O Capitão era certamente daquela classe de fanáticos de opositores ao megaempreendimento industrial idealizado pelo bilionário norte-americano. O magnata mandou construir uma fábrica de celulose no Japão, na cidade de Kobe, que fora rebocadas até as proximidades do atual distrito de Monte Dourado no Rio Amazonas.

Passaram pelo canal Norte, entre o continente e a ilha de Gurupá e atracaram em Almeirim para entrega de óleo de lubrificação para motores, peças para reparo de serras industriais e veículos. Era uma operação que deveria ser curta, porém subiram a bordo três senhores bem-vestidos, de terno e gravata, indubitavelmente ricos proprietários de madeireiras que eram comuns nas redondezas da cidade. Conversaram com o capitão, que aceitou levar maços de grandes tábuas para Belém, quando estivesse de volta. Mediram os espaços no porão que ficariam reservados para o embarque dessa carga. Acertaram um adiantamento que não podia ser grande, devido aos riscos para o navio na sua viagem até Santarém e retorno a Mazagão para o carregamento.

Por isso os homens não quiseram adiantar nenhum dinheiro a mais, como insistiu em pedir o comandante. Escondido pela porta semiaberta da ponte, Naimon acompanhou a discussão, levado pelo pendor à análise dos traços faciais, e dos sutis repuxos da musculatura do rosto, das súbitas alterações na cor da face, e da gesticulação que marcava como um compasso as diversas entonações da voz dos quatro homens, ele concluiu que estavam sendo absolutamente honestos em seus argumentos.

O Solirtaire navegou até o Parque Nacional de Monte Alegre. Algumas viaturas rurais aguardavam ali um número expressivo de passageiros que deixaram o navio e iriam ocupar lugares nos veículos. Alguns abraçavam quem os aguardava, como amigos ou parentes que se reencontravam com risos e abraços e beijos. Havia os que logo deixaram o local em caminhonetes novas e velozes, enquanto outros retardavam a conversa na areia da praia para atualizarem os que chegavam falando de como iam passando suas férias no parque. Um grupo de senhores, segurando contra o peito os seus chapéus, trocavam cumprimentos cerimoniosos de boas-vindas.

Ainda eram muitos os passageiros que continuariam a viagem enquanto outros embarcavam com destino a Manaus. Desinteressado da cena que fora muito comum durante toda a viagem até ali, Naimon foi para o outro lado do barco observar o rio e a densa vegetação da outra margem.

 Foi surpreendido pelos gritos de uma jovem junto à amurada. Marimbondos a atacavam e ela se defendia brandindo seu chapéu contra os ferozes insetos que a volteavam tentando picá-la. Mergulhando no assoalho, Naimon pegou-a e rasgou a sua saia, e passou a defendê-la com lambadas no ar, o que fez os bichos se juntarem no pano como um forro negro. Tomou dela o chapéu e empurrou-a para dentro de uma cabine que estava aberta. Fechou a porta e em poucos minutos exterminou os poucos insetos que se prenderam na saia.

Sentado à beira do beliche, Naimon não viu o seu rosto oculto pelos seus cabelos em desordem escondendo suas feições, mas examinou-lhe as coxas e as pernas e viu que sua rapidez em socorrê-la, evitara que fosse picada. Mas notou que suas pernas eram muito brancas e bem torneadas, o que seria para ele, inesquecível lembrança. Vestiu-a novamente com a saia e recomendou que se acalmasse e fosse para sua cabine descansar. Ela subiu a escada segurando a roupa sem botões e ele voltou para a amurada onde os antigos e os novos passageiros ainda conversavam, tendo aos seus pés suas bagagens. Dispersou-os a vibração do navio que se afastava do trapiche lentamente. A viagem fora reiniciada. 

Despediram-se do Pará, com breve estadia em Óbidos, no estreito do mesmo nome, para entrega de grandes quantidades de pesadas encomendas dos Correios. Naimon apressou-se em reservar passagem aérea para o Rio Branco, deixando para os dias que teria que esperar pelo voo, para conhecer Manaus.

Na verdade, passou o tempo fazendo contacto com comerciantes; havia trazido cartas de recomendação para patrícios bem-sucedidos em Manaus. Estava ansioso por chegar em Rio Branco, seu destino.

Na capital do Acre procurou também por dois ou três patrícios que lhe haviam sido indicados como figuras proeminentes do comércio e da indústria locais.

Alguém deixou um bilhete na portaria do hotel onde com uma delicada letra feminina estava escrito. “Preciso urgentemente falar com você para lhe dar uma notícia de interesse do seu negócio. É grave! – Estava assinado Suzana e indicado um telefone. “A quem atender diga que me conhece da viagem no Le solitaire des Eaux.” dizia mais.

Uma jovem de longos cabelos pretos o aguardavam sentada no banco do jardim, na praça que tinha uma grande estátua de um herói, de uma violenta batalha revolucionária. Assim que viu Naimon entrar na praça ela se pôs de pé e começou a caminhar em passos leves e um pouco hesitantes, os olhos fitos nele.

— Suzana?

— Sou a fada das abelhas, respondeu ela. Descobri por acaso você aqui no Acre, e você não me reconheceu.

— Você se escondeu. Não a vi mais no barco!

— Eu estava muito envergonhada. Quase sem roupa. – Sentaram-se no banco. Mas preciso que você saiba que o seu interesse comercial vai chocar-se com os do meu pai, e que ele estava disposto a tirar você do negócio.

— Como se chama ele?

— Simão Jacob, respondeu ela, num tom de quem faz uma advertência sobre alguém perigoso. O gerente do banco, amigo dele, cortaria o seu crédito. Ele ficou sabendo que você estava secretamente armando contra ele, porque no mercado aqui, de traições, assassinatos etc., não existem segredos. Mas, você pode conversar com ele e encontrar meios de conviverem em paz.

Você já pode ficar tranquilo. Eu perguntei a meu pai em uns dias atrás, quando ele falou que ia tirar você do caminho, se ele teria coragem de fazer tão grande a mal a um rapaz que havia salvado a vida da sua filha. Nem ele, nem mamãe sabiam, e mamãe, depois que lhes contei o que poderia ter sido uma tragédia, disse:

 –Nesse caso tudo muda de figura…  

Depois de conversarem os dois sozinhos no escritório por muito tempo, papai abriu a porta, já com outro semblante, e falou:

–Traga o seu amigo para jantar hoje conosco. Vou fazer dele o sócio de que ando necessitando ter.

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 19-11-2021.

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Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. – Viagem pelo Amazonas. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2021.