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O Grande Salto da Geologia no tempo de JK

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra.
Site original: www.cobra.pages.nom.br


Estas páginas de Geólogos do meu tempo apresentam a vida e os trabalhos de alguns pioneiros da Geologia no Brasil. A idéia de criá-las tem origem no desejo de recordar os tempos e os personagens, de quando a geologia era ela mesma uma descoberta, um campo profissional inteiramente novo. Até então o conhecimento mineral no Brasil não incluía mapeamentos regionais. A geologia que interessava às empresas estrangeiras era estudada por geólogos estrangeiros de seu próprio quadro, que discretamente levantavam o valor das reservas minerais e encaminhavam seus relatórios privados.

Para os brasileiros, a geologia era um estudo pontual das reservas minerais ainda por definir e explorar, espécie de ciência sofisticada dentro da Engenharia Civil e de Minas e da chamada "História Natural". Os relatórios narravam, com sabor de contos aventurescos, as excursões dificultosas pelo interior, em um país sem estradas e sem veículos, para amostragens minerais rápidas, complementadas com o estudo ao microscópio de lâminas preparadas no porão dos escritórios do DNPM - Departamento Nacional da Produção Mineral, em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro.

Os mapas topográficos eram praticamente inexistentes, a geologia guardava distância da garimpagem e eram poucos os alto-fornos a alimentar. Havia um apelo vago da Petrobrás, a estatal do Petróleo que se organizava, e pretendia complementar a formação dos naturalistas com um treinamento que a própria empresa haveria de dar. E foi este apelo, feito através do psicólogo dos testes de orientação vocacional em Belo Horizonte, que me levou a escolher História Natural.

A arrancada para a profissionalização da Geologia veio por via das metas do presidente Juscelino Kubitschek, que incluíam o levantamento geológico no Brasil. Tratava-se agora da tarefa de despir a geologia de seus ares românticos, de tirá-la dos velhos gabinetes nas sedes estaduais do DNPM - Departamento Nacional da Produção Mineral, das inúteis discussões sobre "movimentos orogênicos" e riquezas potenciais, e de fazer dela um instrumento efetivo de descobertas úteis ao progresso nacional.

As coisas aconteceram com rapidez. Foi preciso importar técnicos. Onde quer que acontecessem, as reuniões para discussão de projetos se faziam principalmente com alemães, franceses e americanos, e uns poucos brasileiros que precisavam ouvir e entender as propostas e ofertas de cooperação dessas "missões".

Notável estímulo e contribuição técnica resultariam dos trabalhos de levantamento geológico que uma missão americana realizava no Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais. Os americanos, com seu equipamento moderno e a maneira simples e objetiva de trabalhar que o seu chefe, John Dorr, introduziu no grupo -, checaram, reformularam e ampliaram os conhecimentos que os velhos engenheiros e naturalistas, em excursões usando terno e gravata, sobre o lombo de burros, e aferrados às suas teses polêmicas, haviam levantado por aquelas montanhas pontiagudas da "Série Minas". Conquistaram a confiança e o apoio dos engenheiros do Departamento Nacional da Produção Mineral, sob a chefia do lúcido Avelino Inácio de Oliveira, e foram igualmente bem aceitos pelos mineradores montanheses. Os mapas geológicos, que eram uma novidade, foram tomando forma nas pranchetas, no seu escritório na Rua da Bahia, em Belo Horizonte.

A essa Missão devo os rumos que tomou minha carreira de geólogo, e porque não fui para a Petrobrás. Recém formado em História Natural, e após um curto estágio de apenas dois meses no Departamento Nacional da Produção Mineral em Belo Horizonte, fui empregado pela Mineração Trindade, da Cia. Belgo Mineira, para acompanhar em suas terras o levantamento geológico que fazia o geólogo americano Robert G. Reeves, um dos integrantes da equipe americana. Minha indicação à Companhia fora feita pelo próprio chefe da equipe, John Van Nostrand Dorr II, a quem eu havia procurado, aconselhado pelo Dr. Djalma Guimarães, para saber da possibilidade de obter uma bolsa de estudos para doutoramento em geologia nos Estados Unidos.

Alguns anos depois, com a primeira leva de bacharéis dos Cursos de Geologia criados pelo Presidente Juscelino, a profissão de Geólogo já podia ser regulamentada. Ficou reservada exclusivamente aos formados em cursos de Geologia, sob fiscalização do Conselho de Engenharia e Arquitetura, e isto me obrigou a fazer, a fim de obter meu registro, uma complementação de matérias ao meu bacharelado e doutorado, obtendo o diploma de geólogo na Universidade de Brasília.

Rubem Queiroz Cobra

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
1997

Direitos reservados.
Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - O Grande Salto da Geologia no tempo de JK. Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 1997.

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