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Boris Brajnikov

(com notas sobre Eugênia Miller Brajnikov) - I

 

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Boris Brajnikov foi o inspirador e impulsionador da ação do governo na criação de cursos universitários de geologia no Brasil. Focada no desenvolvimento da mineração, a política de ensino para o setor tendia à abertura de novas escolas de engenharia de minas. Recorria-se aos geólogos estrangeiros para o trabalho de mapeamento geológico (e o próprio Boris veio ao Brasil para esse fim),´porque os engenheiros eram poucos para as necessidades burocráticas, o ensino e a indústria da mineração. A preparação específica para o mapeamento geologico pregada por Brajnikov se fez clara como opção mais propícia a resultados práticos imediatos. Devido ao seu relacionamento com membros da futura equipe do presidente Juscelino Kubitschek em Minas Gerais, desde a preparação de suas metas de governo, o geólogo russo influiu no sentido da formação de geólogos no país. Logo após os primeiros meses de instalção do novo governo, Boris foi convocado a integrar o gabinete de Clovis Salgado, o ministro da Educação, e colaborar diretamente com ele no projeto de instalação das escolas de geologia no Brasil.

1. De Moscou a Paris.

Boris Vladimirovich Brajnikov nasceu em Moscou, a 10 de novembro de 1904, e faleceu a 11 de fevereiro de 1988, em Richfield Springs, município de Otsego, no Estado de New York. Era filho de Vladimir  e de Ella Brajnikov.

Seu pai Vladimir Konstantinovich Brajnikov, nascido em 1870 e falecido em 1921, foi um conhecido zoólogo e professor especializado em pesca e indústria do pescado. Formou-se em biologia na Universidade de Moscou em 1894. Logo depois de formado, ingressou no Departamento de Agricultura e Pesca da Russia, em Petrogrado, e foi realizar pesquisas no Extremo Oriente. Utilizando um navio oceanográfico e de patrulha que havia pertencido à marinha americana, o Storozh ("Vigia"), realizou investigações nas proximidades de Vladivostock, com o objetivo de recuperar a produção de peixes, principalmente de salmão, que se achava em perigoso declínio no estuário do rio Amur e no mar do Japão. Depois de regressar a Petrogrado, viajou aos  Estado Unidos – aparentemente em uma comitiva de participantes em Congresso sobre a indústria pesqueira –, a bordo do vapor Kaiser Wilhelm II, procedente de Bremem. Em 1912 foi nomeado chefe da pesca na Rússia. Neste cargo, ele se distinguiu como um líder, administrador e cientista talentoso. Foi o fundador do ensino da pesca a nível das universidades.

Com o caos instalado no governo e nas instituições de ensino, conseqüência da queda do governo tzarista, da derrota da Russia na guerra contra a Alemanha e da eclosão da revolução comunista, Vladimir Brazhnikov deixou o pais, levando a mulher e os dois filhos,  Boris com 12 e Tatiana com 10 anos. Demorou-se por seis meses na Suécia, e passou ainda tres meses na Inglaterra. Supostamente por não encontrar condições de trabalho nesses países, teria optado pelo Japão, onde gozava de grande prestígio como autoridade em pesca industrial, e estaria próximo da Russia, para o caso do exército branco comandado por Wrengel no sul e extremo oriental da Russia, pudesse derrotar  o exército vermelho de Lenin, e restaurar a democracia no país. No Japão, lecionou a matéria de sua especialidade em universidades e deu cursos em centros de pesca japoneses de 1918 a 1921, quando veio a falecer prematuramente.

A mãe de Boris Brajnikov, Ella Roesch Brajnikov, nascida na Russia a 10 de Agosto de 1882 de pai e mãe alemães, permaneceu com os filhos no Japão ainda alguns meses. Certamente a família Brajnikov era ligada por amizade a Carlos Miller, tambem filho de alemães, representante comercial e financeiro do governo anti-revolucionário na embaixada da Russia em Tókio, cujo irmão, o General Eugênio Karlovich Miller, comandou a resistência anti-comunista na região norte. Karl Miller teve o respeito dos refugiados russos por auxiliar financeiramente as famílias russas mais necessitadas e os soldados do Exercito Branco em fuga, quando os Brancos foram finalmente derrotados e o governo comunista subjugou toda a Russia. As duas famílias deixam Tokio em 1922 com destino à Alemanha, onde Ella Brajnikov tinha familiares e onde permanece com os filhos por dois anos.

Em 1924 a família muda-se para Paris.

 

2. Na França antes da Segunda Grande Guerra.

Mihares de imigrantes que russos se refugiaram em Paris após a revolução comunista de outubro de 1917 em seu país. Grande parte era de ex-combatentes russos que lutaram na frente francesa e na frente da Macedônia na guerra de 1914, ou que foram combatentes anti-revolucionários do “exército branco” do general Anton Ivanovitch Dénikine e de seu sucessor Barão Piotr Nikolayevich Wrangel. Muitos estavam em péssimo estado de saúde, devido à fome, a doenças ou a ferimentos de guerra. Porém, no total, descontada a soldadesca em parte rude e ignorante, havia uma grande massa de civis russos bem educados, os chamados, por extensão, “russos brancos”, que possuíam formação secundária e diplomas universitários. Eram membros da nobreza e do clero ortodoxo, altos funcionários do governo czarista deposto pela revolução comunista, ou eram profissionais liberais e cidadãos que haviam perdido suas propriedades e indústrias. Mas também estes passavam necessidades, porque os empregos eram escassos.

Boris tinha vinte anos, quando a família deixa a Alemanha para residir em Paris.

A braços com a invasão de refugiados russos, o governo francês pôs em prática uma política destinada a tirá-los da rua, dos cortiços e dos abrigos públicos. Foi formada uma comissão para fornecer documentos franceses e ajudá-los a aprender a língua, estimulando também a que recuperassem as tradições de sua pátria. Surgiram escolas russas, igrejas e corais, dança cossaca, e jornais em russo, e formaram-se círculos literários. O Governo garantia-lhes fazer seus estudos de bacharelado na Sorbonne, e designou a Universidade de Nancy para que fizessem, logo após, um curso de especialização de dois anos em ciências aplicadas.  Em pagamento por este apoio, os beneficiados deveriam servir nas Colônias Francesas da África, onde era grande a falta de professores e técnicos em praticamente todas as áreas do conhecimento. Foi criado o chamado passaporte NANSEN para os imiigrantes que haviam perdido a nacionalidade russa, um documento proposto por Fridtjof Wedel-Jarlsberg Nansen (1861-1930) enquanto delegado norueguês na Liga das Nações, a fim de permitir a identidade dos refugiados e para que pudessem viajar.

A irmã de Boris, Tatiana Vladimirovna Brajnikov, conhece um americano descendente de alemães, Alfred Bernard Hecker, que residia com os pais na Inglaterra, em Vanburg Park, Blackheath, próximo a Londres. Alfred Bernard nascera em julho de 1906, em Alton, no Missouri, onde seu pai, Alfred Herman Hecker, fora gerente da filial de uma indústria de vidros de Ilinois. Sua mãe era americana. A família mudou-se para a Inglaterra onde o filho, após formado em Havard, tornou-se um competente auditor. Ele se empregou na firma de auditoria inglesa Price-Waterhouse, e foi designado chefe do escritório na Bélgica em 1932. Conforme noticiou o Alton Evening Telegraph de 26 de setembro de 1932, seu casamento com Tatiana ocorreria no início do verão de 1933, e o casal residiria em Bruxelas, Alfred era bisneto de Frederik Carl Franz Hecker, revolucionário republicano na Alemanha em 1848, que se asilou na Suiça e depois nos Estados Unidos quando o levante liderado por ele contra a monarquia alemã  fracassou.

O casamento de Boris realizou-se três anos mais tarde em 1936. Casou com Eugênia Frisch Miller, então com 29 anos, refugiada russa como ele, nascida em Petrogrado, em 22 de outubro de 1907. filha de Karl Karlovich Miller e Elizabeth Frisch, amigos da família Brajnikov em Tokio, onde haviam chegado e depois retornado à Europa nos mesmos anos. 

Karl Karlovich Miller, pai de Eugênia, nasceu em 1874 e  foi diplomata, financista, e era uma  conhecida e respeitada figura pública entre os refugiados russos na Europa e na América. Foi um Agente do Ministério do Comércio e Industria, Conselheiro de Estado attaché na Embaixada Imperial da Rússia em Tóquio de 1910 a 1924, que se refugiou com a família em Paris onde faleceu em 1943. Ao tempo de Kolchak, o derradeiro chefe de governo anti-comunista da Rússia, o lastro em ouro do país foi transferido para contas pessoais de agentes financeiros privadoss de confiança, para que o dinheiro público não caísse nas mãos dos rebeldes. Karl Karlovich Miller um homem com um sentido muito elevado de responsabilidade, foi um desses agentes. Em 1922, quando ele chegou com a família em Paris, ele utilizou o dinheiro que  estava em sua posse pessoal para socorrer os emigrantes em suas diversas necessidades, a critério de um Conselho de Embaixadores no exílio, do Comitê Central para a educação russa superior, além de outras organizações russas criadas para pagar pensões a viúvas de guerra, e dar apoio dos refugiados  O cargo de Miller é referido em documentos da coleção Register of the Russia. Voennyi Agent (Japan) Records, Hoover Institution Archives, da Univ. de Stanford, e do Arquivo da Universidade de Columbia.

Em Paris Karl Miller aplicou-se ao negócio de seguros, e como historiador, foi autor de "Emigração Russa na época de Catarina II» (Paris, 1931) e de um manuscrito que não chegou a ser publicado, sobre a emigração russa para a França. Faleceu na França.a 15 de outubro de 1943, alguns anos após o casamento da filha com Boris Brajnikov. Eugênia destinou à caridade o dinheiro que herdou com o falecimento do pai (auferido em seus negócios financeiros), e em 1945, entregou o dinheiro herdado ao educandário russo Zemstvo Union City e à Sociedade da Cruz Vermelha Russa.

Seu tio paterno, Evgeny Karlovich Miller, nascido em 25 de setembro de 1867, e falecido em 1939, foi um general, adido militar russo na Bélgica, na Holanda, e na Itália, e considerado um estrategista excelente, na guerra da Russia e seus aliados contra o império austro-hungaro, na primeira guerra mundial. Um dos líderes do exército branco na luta contra os vermelhos. comandou a resistência no norte da Rússia, não por causa da ambição pessoal, segundo declarou, mas por chamamento ao dever para com o seu país. Derrotado, foi condenado à morte pelos comunistas, mas conseguiu fugir escondendo-se na Embaixada da Itália em Petrogrado. Em 1918 ele se refugiou em Paris. Lá, foi sequestrado e levado de volta para Russia, onde foi torturado e morto em Moscou, em maio de 1939.

Sua mãe, Elizabeth Frisch Miller, nascida a 23 de julho de 1870, faleceu em Vichy em 1939. Era filha de Edward Vasilievich Frisch, da nobreza da Província de São Petersburgo (Petrogrado), advogado e político russo que foi membro do Tribunal Permanente de Arbitragem Internacional da Rússia. Integrou o primeiro Duma (Senado) criado pelo Imperador Nicolau II em 27 de abril de 1906, e foi Presidente do Conselho de Estado do Império russo.

A tia de Eugênia, Maria Sofia, nascida a 12 de maio de 1865 e falecida em Maio de 1933, foi casada com o príncipe Vladimir Anselmovich Lyschinskim Secretário de Estado do Conselho de Estado do Império de 1907 a 1917;

Eugenia Miller teve, apesar da conturbação dos anos de sua infancia e juventude, uma educação esmerada. Após a família se refugiar em Paris, em 1922, ela estudou no atelier-escola do renomado pintor e artista gráfico russo Vasily Ivanovich Shuhaev. Nessa ocasião, tornou-se amiga da artista Olga Bernatsky (Olga (Bernatskaya-Savic) Biernacki), filha de Mikhail Vladimirovich Bernatsky, amigo de seu pai Karl Miller, e que fora ministro das finanças nos governos de Denikin e de Wrangel. A amizade entre as duas artistas durou toda a vida. Ambas foram à  Itália, em 1926-1927, Eugenia com 19 anos e Olga, nascida em 1899, com 27. Em Florença, estudaram pintura do Renascimento e trabalharam sob a orientação de artistas-restauradores italiannos.

Eugênia fez parte de um grupo de tradutores para o francês de obras do escritor Mikhail Afanasevich Bulgakov.

Junto com a amiga expôs no salão da "Société du Salon d'Automne (1928, 1930), na "Galerie Bernheim-Jeune" em 1929 e no 1 º Salão de mulheres artistas, de 1929, na Galeria Alban de Nice, e também no Salão dos Independentes (Société des artistes Indépendants). Juntamente com obras de Olga, expôs seus quadros na mostra de arte russa realizada em Paris, na Galerie La Renaissance, em 1932, e levou seus trabalhos à mesma mostra, em Praga, em 1935. Realizou exposições individuais na Galerie Barreiro, em Paris, em 1934 e em 1938, após seu casamento; quando um livro sobre sua pintura foi publicado pela própria Galeria. Após a libertação de Paris ela fez, na Escola do Louvre, nos anos 1944-1945, um curso sobre Arte Oriental, disse em sua auto-apresentação, datada de 1960, em uma página temporária de leilão de objetos de arte http://cgi.ebay.co.uk.

O último endereço da família em Paris foi à Villa Coeur de Vey Nº 10, entre a Av. do General Leclerc e a Avenida de Maine, por trás da Igreja de Saint-Pierre-de-Montrouge, em Montparnasse.

Além de agradecer o apoio de amigos e colaboradores como Jean Michel, R. Charbonnière e C. Francis-Baeuf, Boris, em sua tese de doutorado sobre os sedimentos geológicos da bacia de Paris, estende seus agradecimentos à sua irmã “Mme Tatiana Hecker, cujo carinho e ajuda deram-me as possibilidades de realizar este trabalho, e à minha mulher, da qual apenas o admirável empenho e a colaboração permitiram leva-lo a bom fim.”
 

3. Trabalhos na França e nas colonias.

Parece muito claro que Boris Brajnikov submeteu-se ao esquema acima referido, organizado pelo governo Francês para os refugiados russos. Com efeito, Fernando de Azevedo (As Ciências no Brasil (Vol. I, Ed. da UFRJ, 1994), informa que ele concluiu em 1926 o curso na Universidade de Paris (Sorbonne) e se diplomou Engenheiro-geólogo pelo Instituto de Geologia Aplicada da Universidade de Nancy em 1928, e foi trabalhar na África. Inicialmente fez pesquisas para a Société Mokta-el-Hadid, na Costa do Marfim e no Congo francês. Ainda segundo Azevedo, trabalhou para a “Société d’Études et Participations Miníères”, na Iugoslávia, porém não localizei qualquer outra referência a um trabalho de Boris Brajnikov naquele país. No entanto, ele é o autor do estudo "Sur la géologie de Verila Planina, Bulgarie",  publicado em 1939 (vide Obras.),.

Juntamente com Raymond Furon e Victor Pérébaskine, é autor da Carte géologique de reconnaissane du Gabon occidental, na escala 1:1.000.000, realizada em Missão da “Société Anonyme de recherche et d’exploitations minières en Afrique Française Equatoriale”, publicada em 1931 (Vide Obras), bem como de vários outros trabalhos, alguns publicados posteriormente ao seu regresso à Europa.

Brajnikov adquiriu malária no continente africano, e com frequência sofria a recorrência dessa doença.

Diz ainda Azevedo que, de regresso à França, Brajnikov “foi assistente do Instituto de Climatologia e na Escola Superior de Minas, dedicando-se a estudos de Petrografía de sedimentos e Pedologia”. O Instituto - que estava integrado ao Centro Nacional de Pesquisa Científicas e à Escola Superior de Minas, pertencia à Sorbonne (Universidade de Paris).

Parte das informações de Azevedo sobre Brajnikov é ratificada em um rodapé no Anuário Fluviométrico de 1945, do Ministério da Agricultura do Brasil (Belo Horizonte, 1 (6): 93-107, 1945), no qual é dito mais que, "depois de ter trabalhado dois anos em prospecção de minas nas colônias francesas da África, ele especializou-se em petrologia de rochas sedimentárias e tectônica, dois assuntos que constituíram sua tese de .doutorado pela Sorbonne em 1938".

Boris Brajnikov desenvolveu vários trabalhos, sozinho ou em parceria, tanto no Instituto de Climatologia como na Escola Superior de Minas. Ele é freqüentemente citado como o precursor inconteste da identificação dos minerais dos flints (argiles à silex) e dos silts, a partir de seus estudos da Bacia de Paris, o principal deles Recherches sur la formation appelée "argile à silex" dans le Bassin de Paris. [2 partes], de 1937, que constituiu sua tese apresentada à Faculté des Sciences de Paris (Sorbonne), para obter o título de doutor pela Universidade, em 1938 (vide Obras).

Após seu doutoramento em 1938, Brajnikov passou a integrar a equipe do Laboratoire de Géographie Phisique e Géologie Dinamique que, juntamente com outros laboratórios da Sorbonne, foi integrado ao Centro Nacional de Pesquisas Científicas com sede no mesmo edifício, em fins de 1939. O Centro Nacional contratava pesquisadores e lhes oferecia condições melhores de trabalho e mais liberdade, sem a burocracia do Ministério da Educação Nacional.

No prefácio do livro Techniques d’études des sédiments et des eaux qui leur sont associées‎, do qual Brajnikov é um dos autores (Actualités scientifiques et Industrielles, n. 952 – Paris, Hermann & Cie.- 110 p.), o criador e chefe do Laboratório de Geografia Física e Geologia Dinâmica, o famoso naturalista Jacques-Paul Bourcart diz: “MM. Boris Brajnikov, Claude Francis-Boeuf et Vsevolod Romanovsky são meus colaboradores mais próximos e por muitos anos; eles estão aqui, dividindo o trabalho. Mas a homogeneidade não é menor, porque eles formam uma verdadeira equipe”.

 

4. Trabalhos durante a guerra.

Sobre a vida de Boris Brajnikov em Paris durante a segunda guerra, não podemos senão repetir o que fizemos em relação à sua juventude: supor que passou pelas mesmas vicissitudes sofridas pelo grupo no qual estava inserido.

O professor Jean Wayart, em seu depoimento – um dos vários reunidos pelo Centro Nacional de Pesquisas de Paris–,  fala minuciosamente dos pesquisadores do Centro no período da guerra. Quando foi noticiada a marcha dos alemães rumo a Paris, em junho de 1940, houve uma debandada geral dos técnicos. No dia 10, o governo francês deixou a Capital e Paris se tornou "cidade aberta", o que equivale a um "salve-se quem puder". Foi apenas de quatro dias o prazo que os cientistas tiveram para transferir seus livros, arquivos e aparelhos para lugar seguro. Grande parte deles fugiu carregando o que foi possível carregar, principalmente para Bordeaux e Toulouse, fora da rota dos alemães, e de onde poderiam passar à Inglaterra ou à Espanha. Boris Brajnikov teria se antecipado, levando a esposa grávida para Bordeaux, pois a única filha do casal, Eugenie, nasceu a 15 de outubro de 1939 em Cauderan, Bordeaux (na Gironde, França).

Em 14 de junho de 1940, as tropas inimigas entraram na Capital.  Seguiu-se o armistício, no outono do mesmo ano. Iniciada a nova ordem, a possibilidade de colaborar com a Resistência fez que os cientistas retornassem a Paris. O Centro voltou a funcionar e os pesquisadores retomaram seus trabalhos. Os alemães se inseriram na pesquisa e na administração do Centro.

Ainda egundo o professor Wayart, os pesquisadores voltaram à sua rotina de trabalho: davam cursos, faziam hora extra, prosseguiam agudamente interessados em suas pesquisas, em uma quase normalidade, não fosse a falta de funcionários nos procedimentos de pesquisa e o temor permanente dos alemães. A Secretaria criou documentos falsos para pesquisadores e funcionários judeus. Havia muitas reuniões da Resistência nos laboratórios de química e mineralogia e discussões entre os pesquisadores divididos entre a Frente Nacional de Direita – os gaulistas –, e os Comunistas da Esquerda. Os primeiros esperavam que os Estados Unidos interferissem em breve para a libertação da França, e os últimos acreditavam que seriam os russos que libertariam o país. Vários professores foram presos e fuzilados como demonstração de força dos alemães ou porque participassem na sabotagem atribuída à Resistência.

Pesquisas que pudessem interessar aos ingleses e americanos foram imediatamente iniciadas. Microfilmes de interesse para os aliados eram processados clandestinamente onde fosse possível prepará-los, por professores do Laboratório de Química. Jacques-Paul Bourcart conduziu os trabalhos de sua equipe para o estuário do Sena e as praias da Normandia, um estudo que poderia ser útil ao preparo do provável desembarque dos aliados para a libertação da França..

Durante toda a guerra os cientistas do Centro Nacional de Pesquisas Científicas conseguiam publicar seus trabalhos graças à boa vontade de um editor de Paris, Enrique Freyman. Ele era o dono da Editora Hermann que pertencera ao seu sogro Arthur Hermann. Para colaborar com os cientistas, Freyman criou a coleção Actualités scientifiques et industrielles. Brajnikov teve alguns de seus trabalhos publicados nessa coleção..

Continuando as pesquisas feitas para sua tese, Boris Brajnikov publicou Sur les associations de mineraux lourds de quelques rivières de la bordure sud du Bassin de Paris, juntamente com Mademoiselle Solange Alphonsine Duplaix. Esta moça com certeza era uma grande amiga sua, pois ele faz para ela a carta de apresentação – que é acompanhada de outra de Jacque Bourcart –, para seu ingresso na Société Géologique de France (Sommaire des séances de la Société, de 1944, Página 36).

Solange Duplaix, segundo os seus biógrafos nascida na vila de Issoudun, no Indre, região central da França, em 1904, tinha a mesma idade de Brajnikov. Entrou para o Laboratório de Géographie Phisique et Géologie Dinamique em 1942, como estagiária, passando logo a Adjunta (Attaché) de Pesquisa e em 1945 integra o Centro Nacional de Pesquisas Científicas. Trabalhando, sob a orientação de Boris, no estudo dos sedimentos da Bacia de Paris, Solange faz o reconhecimento de minerais pesados nas areias, retomando os trabalhos de Batourine na U.R.S.S., provavelmente por influência do seu orientador.

As atividades artísticas de sua esposa não são menos intensas. São do período da guerra as suas pinturas mais apreciadas.

O dia 25 agosto de 1944 é o dia da libertação de Paris. No dia 24 já um destacamento de tanques das forças aliadas chegou à Prefeitura ao cair da noite, dando início à festa que marcaria o acontecimento. No dia 26 teve lugar o desfile triunfal nos Champs-Elysées em meio a uma multidão incontável de parisienses.

 

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Rubem Queiroz Cobra

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
31-10-2009

Direitos reservados.  Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. -Boris Brajnikov - com notas sobre Eugênia Miller Brajnikov.
 
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