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KARL BEURLEN


 

O periódico Estudos Geológicos (Série B: Estudos e Pesquisas, V. 8, p. 7-11) publicou a biografia de Karl Beurlen, escrita por Paulo José Duarte, que transcrevo abaixo, respeitada a grafia.
 

" PROF. DR. KARL BEURLEN (1901-1985)

Quis, o destino que o XII Simpósio de Geologia do Nordeste ficasse impregnado da saudade do seu primeiro organizador, o insigne Geólogo Karl Beurlen, falecido em Tübingen, na Alemanha, a 27 de dezembro do passado ano de 1985.

Certamente ao longo deste Simpósio, iremos ouvir palavras mais luminosas em homenagem a esse homem extraordinário pela firmeza de caráter, capacidade de trabalho e "saber de experiência feita", como pelo seu comportamento acolhedor e fidalgo, sua dedicação à família, aos colegas e aos alunos.

É possível que a razão da escolha de minha pessoa para esta oração em sua memória, tenha sido influenciada pelo fato de haver levado ao saudoso cientista, o convite para ministrar as cátedras de Paleontologia e Estratigrafia, quando primeiro Coordenador do Curso de Geologia, na então Universidade do Recife, em 1957.

Em julho desse ano, por indicação dos ilustres e saudosos geólogos Luciano Jacques de Moraes e Wilhelm Kegel, fazia meu primeiro contato com o Prof. Beurlen, no departamento nacional da Produção Mineral, e outros em sua residência, em Niteroi, num alto que dominava a praia de Icaraí, para onde ele descia, ao romper da aurora, a fim de colher as conchas recentes que também ajudam, dizia-me, a decifrar a história da Terra, muitas vezes escrita pelo mar, o que me faz lembrar um poema de Goethe:

"Dos solos ao mar, do oceano aos continentes, Jogam-se os temporais com ímpeto profundo; Zonas de assolações e criações potentes Que desfaz e refaz perpetuamente o mundo."

Nascido a 27 de abril de 1901 na cidade de Aalen no sul da Alemanha, fez os estudos primários sob as vistas de seu pai, professor de Matemática e Ciências Naturais, e, do seu avô, Teólogo e Geólogo amador, de quem o neto imprimaria (sic) , em sua memória, um tratado inédito de Geologia Geral.

O Prof. Karl Beurlen fez o Curso Ginasial na cidade de Tübingen, e foi, também na famosa Universidade de Tübingen, fundada em 1477, que fez o seu curso de formação em Geologia, de 1919 a 1923, e o de doutoramento, em 1923, recebendo o grau de Doutor em Ciências Naturais. com tese sobre Amonóides do Jurássico Superior da Alemanha Meridional.

É ainda na cidade de Tübingen dos castelos medievais, que se casou com a Sta. Anna Eleonore Bohöfer que lhe dedicou a vida e o entusiasmo pelas suas pesquisas. Permaneceu o Prof. Beurlen, na mesma Universidade até 1925, publicando como resultado de suas pesquisas sobre Amonóides, Crustáceos e a Estratigrafia do Jurássico, oito trabalhos que lhe dariam início à sua projeção científica.

Convidado para Assistente Científico do Instituto de Geologia da Universidade de Königsberg, ao norte da Alemanha, aí trabalhou até 1934, publicando 35 trabalhos. Nessa Universidade onde o Filósofo Immanuel Kant escreveu a sua famosa "Crítica da Razão Pura", adquiria o Dr. Karl Beurlen, a Livre-Docência em 1927. Ao longo dos 10 anos que passou em Königsberg, ensinou e pesquisou, principalmente, Paleontologia dos Crustáceos e dos Equinóides, sobre o problema da teoria da descendência e sobre a Geologia do Quaternário Norte-Europeu, pelo que viajou pelos países nórdicos e do Báltico.

No ano de 1934, aceitou o convite e foi nomeado Catedrático de Geologia e Paleontologia da Universidade de Kiel, na Alemanha norte-ocidental, onde prossegue os seus estudos sobre a Paleontologia dos Equinóides e Paleontologia do Quaternário, fazendo também pesquisas sobre Geologia Geral e Histórica. No período de seis anos em que esteve em Kiel, publicou 38 trabalhos, dentre os quais vamos encontrar um, sobre o Brasil: "Die Pygaspiden, eine neue Crustaceen-Gruppe aus den Mesosauriershichten Brasiliens". O Geólogo Fritz von Huene lhe trouxera alguns fósseis do Rio Grande do Sul.

Em maio de 1941, aceitou a Cátedra de Paleontologia e Estratigrafia da Universidade de Munique, ensinando e realizando estudos sobre Paleontologia Geral, Paleontologia dos Equinóides e Lamelibrânquios, além de estudos sobre Geologia Histórica e Geologia dos Alpes. Durante sua vida nessa Universidade, o Dr. Beurlen publicou 30 trabalhos científicos e uma obra didática impressa em Heidelberg: "Die Geologia und Paleontologie".

Como consequência de seu trabalho permanente, as honrarias começaram a cumular o cientista. De 1936 a 1942 é eleito Membro da Academia de Ciência Leopoldina, em Saate. Sócio honorário da sociedade de Geologia de Viena. Membro da Academia Bavárica de Ciências, de Munique, Presidente da sociedade de Paleontologia da Alemanha e Presidente da sociedade de Geologia da Alemanha.

Nas alturas de 1949 o Brasil ainda não possuia um mapa geológico com apreciável detalhe, nem escolas de geólogos profissionais, nem um planejamento vigoroso para atender o crescimento populacional.

Com o término da II Grande Guerra, percebeu o Governo do Brasil, a ótima oportunidade de convidar sábios europeus para o imenso campo de pesquisa que é o Brasil, e para contribuirem em sua preparação científica e técnica.

Nessa oportunidade, e através de seu amigo Bruno Freyberg, recebeu o Prof. Beurlen o convite para trabalhar no Brasil, contratado pelo departamento Nacional da Produção Mineral. Era um convite que vinha ao encontro de seus desejos: estudar novas áreas do ainda Novo Mundo.

Chegou ao Brasil em maio de 1950, indo morar em Niteroi. Retomando sua vida de trabalho, executa levantamentos geológicos nas formações gondwânicas dos Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, até 1953. No período de 1950 a 1957 publica 44 trabalhos, na maioria, em língua portuguesa.

Dentre os trabalhos publicados, estudava também crustáceos e Amonóides do Cretáceo do Nordeste do Brasil, o que lhe abriria novas áreas de estudos geológicos.

Aceitando em 1957, o convite para ensinar e pesquisar no Curso de Geologia da Campanha de Formação de Geólogos (CAGE), superintendida pela então Universidade do Recife, assumia o Prof. Beurlen uma das mais árduas responsabilidades.

Para completar o campo de ensino paleontológico, indicou, e logo foi contratado, o notável Micropaleontologista e seu colega de trabalho no DNPM do Rio de Janeiro, o Dr. Ivan de Medeiros Tinoco.

O programa proposto para o Nordeste tinha algo de fascinante e de pioneiro. Tratava-se de fundar um Curso Superior de Geologia, em regime de tempo integral para professores e alunos, num ambiente integrado de ensino e pesquisa. Ficaria, o Curso, inicialmente, à margem dos Regulamentos Universitários a fim de desenvolver didática experimental em nosso meio.

Superintendido pelo Magnífico Reitor Joaquim I. de A. Amazonas e com o total apoio do Diretor da Escola de Engenharia, Dr. Aurino Duarte, na qual se criara na mesma época o Curso de Engenharia de Minas, o o Curso de Geologia do Recife seria o primeiro para todo o Nordeste e Norte do País -, uma sementeira, dentre os cinco cursos que foram criados no Brasil em 1957.

O campo de pesquisa era excelente: uma região que apresentava várias áreas sedimentares sobre um complexo cristalino não bem definido. Na época, a mineração no Nordeste, como a de calcário, fosforita, argilas, scheelita e outros minérios, estava florescente.

Professor fundador das Cátedras de Paleontologia e Estratigrafia do Curso, - que se tornaria em 1965, a Escola de Geologia da Universidade -, deu também início à organização de uma bibliografia e coleção de fósseis que, após 10 anos de paciente trabalho, já era considerada uma das melhores do Brasil, acentuando-se a sua especialidade sobre o Nordeste. E, neste ponto, haveis de compreender, o seu desejo, como me disse, e o de outros professores do Curso, de que a Universidade viesse a estruturar o seu Museu de História Natural do Nordeste, situado - sugeria-me - por entre as matas tropicais de Dois Irmãos, no Recife.

Magro, alto(*) de feições atléticas, enrijecido com o seu andar em pesquisas pela natureza, tinha uma saúde altamente temperada, lembro-me que, ao apresentar-se no Curso, em sua chegada ao Recife, senti em seu aperto de mão um estado febril. De noite fui procurá-lo no hotel, em Boa Viagem, cuidadoso de que precisasse de alguma ajuda. Subi ao seu quarto, bati na porta e ouvi que mandou- me entrar. Estava deitado, com a janela aberta e um vento forte a varrer o quarto. - Dr. Beurlen, disse, essa ventania sobre o senhor! - Não faz mal, respondeu, a natureza cura.

Viajando só ou em companhia de professores e alunos, o Dr. Beurlen percorreu todas as bacias sedimentares do Nordestem (sic) não apenas colhendo fósseis para sua coleção de pesquisa, como fazendo levantamentos geológicos e estudos estratigráficos que vieram completar e esclarecer, em muitas áreas, a estratigfrafia daquela região, não raro em colaboração com os seus colegas do Curso, especialistas em Micropaleontologia e Sedimentologia.

Não menor trabalho foi o seu, na orientação desenvolvida nos Relatórios de Graduação dos alunos concluintes, referentes à Bacia de Iguatu-Icó, Chapada do Araripe, Bacia de Jaibaras. Devoniano do Piauí, Chapada do Apodi, região de João Câmara no Rio Grande do Norte, litoral de Pernambuco-Paraíba, e nas excursões de treinamento na Bahia, Sergipe, Alagoas, Maranhão, por todo o Nordeste.

No campo, seria um personagem sertanejo descrito por Euclides da Cunha, pela extraordinária resistência à fádiga (sic), o que causava a admiração de seus alunos. Solícito em explicar e colaborar, sabia transmitir o entusiasmo pela ciência que abraçou e, no qual formou dois filhos, Gehard Beurlen, hoje uma sumidade em Micropaleontologia na Petrobrás, e Hartmut Beurlen, hoje um dos mais notáveis professores de Geologia da Universidade Federal de Pernambuco.

Desde que chegou ao Recife, publicou, o Prof. Karl Beurlen, 62 trabalhos científicos, uma monografia sobre a Geologia de Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde se encontra quase toda sua bibliografia nacional e estrangeira. Publicou, também, a obra didática "Introdução à Estratigrafia Geral e Comparada". Homem de equipe e de boa vontade, realizou com seus ilustres colegas, como disse, trabalhos fundamentais de Geologia e manteve, no ambiente do Nordeste, uma atividade marcante.

Membro do Instituto Humboldt, teve oportunidade de proferir no Recife, conferências sobre Alexandre von Humboldt, Wilhelm von Eschwege, Carl Friedrich Philipp von Martius, Jorge Markgraf e Gottfried Wilhelm Leibniz.

Membro da Sociedade Brasileira de Geologia, foi, por diversas vezes, Presidente do Núcleo Nordeste, ao qual deu o melhor de suas energias, iniciando os simpósios de Geologia do Nordeste.

Em 1972, recebeu a Medalha de Ouro, José Bonifácio de Andrada e Silva, a mais alta honraria da Sociedade Brasileira de Geologia. Foi o Prof. Beurlen, membro da Academia Brasileira de Ciências e recebeu da Universidade Federal de Pernambuco, o título de "Doutor Honoris Causa". Retornando à Alemanha em 1969, volta ainda ao seu sistema de trabalho, escreve em língua alemã. "Geologia do Brasil. Traduz a notável obra de Halstead, do ingles para o alemão, "Rastro nas Pedras", e escreve em alemão, "Geologia, a história da terra e da vida", obra esta traduzida em outros idiomas europeus. Quase todos os anos, voltava ao Brasil, como convidado especial aos Congressos de Geologia e Paleontologia. E sempre procurou trabalhar até o fim dos seus dias.

O testamento dos trabalhos geológicos do Prof. Karl Beurlen, representa a continuidade de sua presença entre nós e a sua memória ha de durar mais que o bronze que se modele em sua homenagem, pois ele bem mereceu o eterno repouso na Natureza e no seu Espírito Criador. A bandeira que deixou para nós, foi a do trabalho para o progresso da Ciência e pelo bem da Humanidade. Avante, pois, com o seu e o nosso XII Simpósio de Geologia do Nordeste.

Recife, maio de 1986 Prof. Paulo José Duarte

Discurso proferido na sessão de abertura do XII Simpósio de Geologia do Nordeste, realizada em 1o de maio de 1986, em João Pessoa (PB)."

 

NOTA. A transcrição foi feita por R.Q.Cobra, com a permissão de Maria do Carmo, uma das filhas do autor. Em (*) cabe uma observação. O professor Beurlen não era um homem "alto". Tinha a estatura mediana, comum tanto aos habitantes da sua região de origem, na Alemanha, como aos brasileiros das regiões sudeste e centro-oeste, no Brasil. R.Q.Cobra.

Karl Beurlen - Obras

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
14/08/2005

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