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Técnicas de leitura: nomes e abreviaturas em documentos dos séculos XVII e XVIII

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra.
Site original: www.cobra.pages.nom.brr

 


 

ÍNDICE DESTA SEÇÃO:

Genealogia
-
Métodos
-
Arquivos
-
Técnicas de leitura
-
Calculo de datas
-
Bibliografia
-
Modelo de contrato de pesquisa
-
Vitrine das Famílias

*

Contribuição à genealogia dos Nogueira Cobra
-
Inglês
-

Contribuição à Genealogia e História dos Távora no Brasil
-
Índice onomástico do livro Um Comerciante do Século XVIII

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Nomes.

Repetiam-se grandemente os nomes, ocorriam também muitos casamentos na mesma família, inclusive tios com sobrinhas ou tias com sobrinhos. Torna-se importante qualquer dado extra que possa ajudar a identificar a pessoa, e que acompanha o seu nome. Por esse motivo, na identidade de um indivíduo é importante levar em conta alguns elementos acessórios como::

a) O nome de sua mulher. Mas aqui também não se pode confiar integralmente, pois era frequente casarem-se as pessoas duas vezes, devido ao alto índice de viuvez.

b) Tão importante ou talvez mais importante que a vinculação ao nome de uma mulher, é o nome do lugar onde o indivíduo vivia ou de onde ele era natural. Hoje, devido à facilidade de movimentação de indivíduos e famílias, esse dado parece irrelevante para identidade, e o pesquisador tende a não lhe dar a importância que tinha em épocas antigas.

Desde a antiguidade, o local de nascimento ou moradia da pessoa era com frequência agregado ao nome do indivíduo, para identificá-lo entre outros de mesmo nome. Assim, "Domingos Pereira, morador na Sobreda", vale para toda a vida desse Domingos, uma vez que provavelmente viverá sempre naquela localidade e assim se distinguirá de muitos outros Domingos Pereira. Muitos nomes de lugares incorporaram-se assim ao nome de família dos indivíduos. Esse costume passa da idade média à idade moderna, e vai praticamente desaparecer na época contemporânea.

c) A crença de que alcunhas tenham se tornado nomes de família não parece corresponder à verdade. As alcunhas eram indicadas muito distintamente, e serviam como identificador quando havia muitos nomes iguais no mesmo lugar. Pelo menos nos documentos das Igrejas da Vila de Almada, as alcunhas eram sempre indicadas com muita clareza e não acompanhavam os nomes de filhos e netos. Assim Diogo da Costa, o Camílio, Antônio Vaz, o bengala, etc.

Mudança de nomes.

Abandono de um nome da linha paterna por um nome da linha materna pode ocorrer, e isto foi comum em Portugal, à época do domínio espanhol, quando o último sobrenome era o da mãe, e o sobrenome do meio é que era do pai. Erros e má interpretação de funcionários e escrivães também levam à alteração de sobrenomes, como é o caso de uma família italiana que veio de Gênova para o Brasil e cujo sobrenome era Covre; por descuido do funcionário que lhes emitiu documentos brasileiros, teve o sobrenome alterado para Cobra (Os Cobra de Piracicaba, S.P.).

Quando os judeus foram obrigados a adotar a religião católica, desapareceram os Isaac, Jacob, Judas, Salomão, Levi, Abeacar, Benefaçam, etc., e ficaram somente nomes e sobrenomes cristãos. Tomaram nomes vulgares, sem nada que os diferenciasse da maioria dos cristãos velhos, a não ser por vezes a manutenção de algum sobrenome antigo judaico pelo qual o indivíduo era vulgarmente conhecido. Assim aconteceu com Jorge Fernandes Bixorda, Afonso Lopes Sampaio, Henrique Fernandes Abravanel, Duarte Fernandes Palaçano, Duarte Rodrigues Zaboca, etc.

É, portanto, falsa a idéia de que os cristãos novos usavam nomes de árvores como Nogueira, Pereira, Pinheiro Carvalho, etc., para distinguir-se. Estes já eram sobrenomes existentes e pertencentes a própria nobreza de épocas anteriores.

Abreviaturas.

A leitura da documentação antiga é tarefa um tanto difícil para o iniciante mas, após algum esforço, vai se tornando cada vez mais fácil. Existem umas poucas regras que facilitam muito a leitura dos documentos mais difíceis. É imprescindível também conhecer de antemão as formas de abreviatura comuns em cada época. São abreviados não somente palavras nos textos do documento como também os nomes das pessoas

Em uma abreviatura, geralmente é conservada a parte inicial do termo, acrescentada de suas letras finais colocadas em sobrescrito, acima de um traço ou de um ponto. Ex: Anto = Antônio. Mais raramente, é usado um símbolo. Ex, Xto = Cristo.   Alguns casos são simples apócopes, em que um ponto indica a supressão da parte final do termo, ou síncopes, com omissão de sílabas intermediárias. Varias palavras podem ser reunidas em uma sigla, p. ex: E. R. M. = "Espera Receberá Mercê", em qualquer petição.

Alguns nomes e sobrenomes passaram a existir a partir de abreviaturas como por exemplo "Roiz", abreviatura de Rodrigues; Brites, abreviatura de Beatriz; Alves, provável abreviatura de Alvarez, etc.

Os sobrenomes eram frequentemente escritos com a inicial minúscula: oliveira, pereira, etc.

Aqui vão alguns exemplos de abreviaturas extraídos por mim de documentos dos séculos XVII e XVIII:

7bro = setembro

8bro = outubro

Alz' = Alvares

Anto = Antônio

Azdo = Azevedo

C.na = Catarina

Da = Dona

da Va = dita Vila

Dis = Dias

Diz e Diz (com til sobre o i) = Diniz

do, da = Dito, dita

Dos dias = Domingos Dias

Dos, Das = Domingos, Domingas

Dtor = Doutor

de prezte = presentemente

delegcas = diligências

deligas = diligências

E. R. Mce = espera receberá mercê

Evang’os =Evangelhos

fo, fa = filho, filha

feuro, feuro, Feuro = fevereiro

Fonca = Fonseca

Franco, franco, Franco, Frco, frco; Frca = Francisco, Francisca

frega ou fga = Freguesia

Frra, frra, Fera = Ferreira

Frz', ou frz' = Fernandes

Glz' ou glz' = Gonçalves

Imo = Jerônimo

impedimto- = impedimento

in facie ecctiae = in facie ecclesiae

Janro, Janrro, Janr = janeiro

Jhs'., ihus'., Jhus. = Jesus

Joph. = Joseph ou José

Lxa ou Lixa = Lisboa

l.o., ou legit.o, legita, legta, legta, legma = legítimo, legítima

Ma = Maria

Ma dias = Maria Dias

Mz = Munis ou Martins

Mel = Manuel

mor, mora = morador, moradora

minha lça = minha licença

miza = Misericórdia

Mnz . = Martins

Montro, montro = Monteiro

Mrco = Março

N. Sra = Nossa Senhora

nal = natural

nal da V.a = natural da vila

nascidos de hum ventre = filhos gêmeos

nesseco = necessário

9bro, Novbro = novembro

P. C. = passar carta, dar autorização

pa = para

Pe = Padre

Po = Pedro ou Pero

preztes = presentes

Prra,prra, Pera = Pereira

q' = que

q' Ds'. guarde como deso. = que Deus o guarde como desejo

ribro = Ribeiro

Roiz = Rodrigues

Roiz’ = Rodrigues

Ryo de Janro = Rio de Janeiro

S.er = Senhor

Sagr. Con. trid. e Constoe(n)s deste Arc. = Sagrado Concílio Tridentino e Constituições deste Arcebispado

SMq'Ds'., SMDs'. = Sua Magestade que Deus guarde

Snra. = Senhora

Suppte, suppte = suplicante

Teixra., teixra., teixra = Teixeira

testas ou tas = testemunhas

V. Illma e Rma = Vossa Ilustríssima e Reverendíssima

Va = Vila

VM, Vmce = Você, o Senhor, a Senhora

X = Cris (como em Cristo)

Xer = Xavier

 

Procedimento para leitura de textos antigos.

A leitura da documentação antiga – escrita em letras quase indecifráveis e abreviaturas intrigantes feita a mão por notários, copistas, missivistas, etc. – requer, além da interpretação dos sinais, também, o conhecimento de seus significados de época.. O assunto hoje é tratado não apenas em livros mas também em vários sites da Internet.

NOTA: A melhor fonte para socorro do leitor de documentos da nossa história colonial talvez ainda seja o Elucidário das Palavras e Termos e Frases que em Portugal Antigamente se Usaram e que Hoje Regularmente se Ignoram: Obra Indispensável para Entender sem Erro os Documentos Mais Raros e Preciosos que Entre Nós se Conservam. Esta obra de tão extenso título, de autoria do frade franciscano Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, veio a público em Portugal em 1798 e 1799, mas foi reeditada, sendo de 1962 a "edição crítica", por Mário Fiuza (Livraria Civilização Porto-Lisboa) a mais facilmente encontrável. Em Brasília existia um exemplar na Biblioteca Central da UnB.

Outras fontes são o Lexicon Abbreviaturarum, de Adriano Cappeli, 1912; o Dicionário.de Bernardo de Lima e Melo Bacellar, 1782;.o Vocabulário, de Raphael Bluteau, 1727;.o Dicionário. de Paulo Perestello da Câmara, 1850; e o Portugal e possessões: Novíssimo Dicionário Archeológico Histórico, de Joaquim Augusto d'Oliveira Mascarenhas, editor Manoel Salvador Vieira, Vizeu, 1883. 893 p.

Apenas como uma primeira noção da técnica para a leitura de manuscritos antigos, queremos lembrar os seguintes procedimentos:

1. Uma lente para leitura é equipamento indispensável. As lentes maiores e de menor poder de ampliação ajudam na visão mais ampla de um texto a ser interpretado. A lente pequena e de maior poder de aumento é muito útil quando se deseja examinar vestígios de volteios de uma letra, para identificá-la.

2. Em uma folha de papel com as dimensões do documento, ou mesmo maior, transcrever, na ordem em que aparecem no texto, as palavras facilmente reconhecíveis.

3. Identificar o formato de cada letra, como o copista a escreve, observando como fecha as letras redondas, como prolonga a haste das consoantes como d, t, h, etc.

4. Aplicar o desenho de cada letra, nas palavras parcialmente legíveis procurando completá-las.

5. O sentido que se pode dar a uma frase é também um recurso para desvendar um texto pouco legível, porém é traiçoeiro.

6. Conhecer o jargão próprio, por exemplo, o jargão cartorial, a partir de um documento legível da mesma época (outros documentos constantes do mesmo códice ou processo, ou se isto não for possível, procurando um documento do mesmo tipo, da época mais próxima que conseguir). Geralmente o jargão permanece através dos séculos. Por exemplo: E. R. M. = "Espera Receberá Mercê", em qualquer petição.

7. Nunca procure completar uma palavra escrevendo sobre o original, mesmo que usando grafite. Para isso faça uma cópia xérox do documento, ou fotografia, se for possível, ou simplesmente o copie a mão, de modo que possa fazer os ensaios de interpretação das letras e textos sem danificar o documento.

8. A posição da luz pode dar uma ajuda extraordinária. Por isso é bom ter uma luminária móvel pequena, que possa ser colocada em várias posições sobre o documento para iluminação direta ou oblíqua, no ângulo que for mais favorável.
 

 

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 20 de agosto de 2001.

Direitos reservados. Para citar este texto:
Cobra, Rubem Queiroz - Técnica de leitura: nomes e abreviaturas em documentos dos séculos XVII E XVIII. COBRA.PAGES, www.nom.br, Internet, Brasília, 2001.
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)

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