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A existência de Deus - II

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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6. Não pode faltar a Deus deixar-se provar.

Se prosseguimos nos passos do Argumento Ontológico que examinamos na página anterior, eles nos levam à conclusão lógica de que a misericórdia é uma perfeição moral e não pode faltar a um Ser perfeito. Nele a misericórdia coexiste com a justiça e o poder. Infinitos. A minha tese portanto é que se Deus é perfeito e sumamente misericordioso como pede o próprio conceito de divindade, então não pode faltar à Sua perfeição e à Sua misericórdia que Ele se deixe provar cabalmente, por meio de uma evidência clara e inquestionável.
 

7. O milagre redefinido.

Porém, há mais o que deduzir quanto à misericórdia de Deus, porque Ele pode manifestá-la de duas formas, não mais que duas. A primeira, quando Sua misericórdia se realiza atendendo a uma súplica, e a segunda, quando Ele se condói da miséria e se manifesta com uma ação espontânea de misericórdia.

Nos fatos que são indistintamente relatados como milagres, podemos distinguir aqueles que são respostas a uma prece – a estes é que reservo a designação de milagre -, daqueles outros que são graças não esperadas, de iniciativa do próprio Deus, e que, para mim, são testemunhos. Porém, tanto na visão popular como na visão filosófica, não se considerou ainda que essas duas formas distintas estão incorretamente incluídas no meso conceito, e precisam ser separadas. É imprescindível distinguir, na Teologia Natural, “milagre” de “testemunho”

8. Testemunhos

Hume faz uma crítica aos fatos bíblicos como Cristo caminhar sobre as águas ou elevar-se ao céu ou, no que é dito ser o Velho Testamento, a travessia do Mar Vermelho pelos judeus, mas falta-lhe essa distinção que eu faço, entre milagres e testemunhos. Apesar de que ele se refere indistintamente às duas coisas – como ainda hoje se faz –, seu texto é dirigido mais ao que eu chamo "testemunho",e neste caso está também São Tomás, de quem se pode ver que Hume tomou parte da sua definição de milagre.

Os fatos mencionados por Hume, que estão nos chamados Velho e Novo Testamento, em que a natureza teria sido claramente contrariada, não são milagres, como ele diz. São testemunhos. Falta-lhes, em sua origem, aquilo que considero fundamental na definição do milagre: a relação da vontade de Deus com a vontade humana – não são consequências de um pedido que desperta a misericórdia divina.

Nos testemunhos, o poder de Deus é claramente manifestado a todos, o que tornaria completamente dispensável uma fé previamente existente. São acontecimentos capazes de despertar a fé naqueles que não a tiverem. O testemunho infunde respeito e temor, e serão logicamente aceitos como provas da existência de Deus, mas não são milagres.

9. Prova do milagre redefinido

O segundo dos dois únicos modos possíveis de ação da misericórdia, como visto, é aquele em que o Ser misericordioso faz a mercê por um acordo de sua vontade com a vontade daquele que a solicita. É a resposta, no caso, dada a uma prece ou oração. E para mim, os fatos que, dentro da Teologia Natural, podem representar essa convergência das duas vontades – que é também a convergência das duas naturezas, a humana em sua aflição, e a divina em seu poder e misericórdia –, são principalmente os milagres. Deus se deixa provar numa relação de sua vontade com a vontade humana, justamente quando concede o milagre.

No entanto, para que o milagre seja uma prova válida, ele precisará ter, primeiro, o caráter de uma resposta verificável, empírica, afeta aos sentidos e, segundo, ser universalmente testado.

Faltará, evidentemente que ele seja uma resposta empírica verificável, porque participam da prova, não propriedades de corpos ou substâncias, mas faculdades que são uma vontade misericordiosa e uma vontade suplicante, e ambas são livres. A resposta poderá ser tanto um efeito físico, por exemplo uma cura, ou ser uma inspiração com nexo naquilo que foi pedido.

É de se esperar, portanto, que o milagre seja verdadeiro e inequívoco apenas para aquele que o solicitou, e permaneça para os outros sempre contestável, sempre explicável como simples fenômeno físico, ou como um fenômeno psicológico, ou simplesmente atribuível à sorte, a uma certa probabilidade estatística, como se nenhuma intervenção metafísica houvesse ocorrido. Porém, como essa experiência factual, nunca falha face á misericórdia infinita, uma resposta de alguma natureza será dada, na forma de algo externo que acontece, ou de uma inspiração. Adquire-se então, entre os que a experimentam, a certeza de que ela prova a existência de Deus

Mas, o segundo requisito – que a experiência possa ser universal –, este será decisivo. A questão, quanto a esse item, é se qualquer pessoa que solicite um milagre haverá de recebê-lo, ainda que seja no âmbito de sua compreensão apenas, como uma resposta inacessível à compreensão das demais pessoas. Pedir e não receber invalidaria a teoria do milagre como prova.

Em tese, o milagre pode ser experimentado por todos, dentro de condições que todos podem reproduzir, adquirindo desse modo o caráter universal da prova científica verificável por qualquer pessoa, ou mesmo que falseada, se reconstruirá com provas de sua veracidade..

10. O caminho do não-crente

Para que o milagre seja uma prova universal, todo ser humano, inclusive o não crente, deve ter acesso a ele. Então, para quem já acredita, pedir por um milagre e ver que uma resposta é dada à sua prece fará apenas aumentar a sua fé. Mas o ateu precisa de um testemunho, de uma evidência clara, insofismável e incondicional, como seria, por exemplo, que Deus desse duas novas pernas a alguém que tivesse perdido as suas, ou que o sol girasse no céu, ou qualquer outra coisa que contrariasse com toda evidência as leis naturais.

Que Deus atendesse a uma imposição estaria fora daquelas duas únicas formas de ação da misericórdia. Pedir-Lhe arrogantemente um testemunho é ignorar a Sua vontade, é um ato de provocação que os teólogos dizem que é “tentar a Deus”. Portando, a misericórdia, por definição, não comporta exigências nem a arrogância. A atitude oposta seria a humildade.
Então, a única saída lógica que vejo seria o ateu sanar sua falta de fé, substituindo-a pela humildade (deixando de ser crítico e arrogante ) e pedir por um milagre em uma prece íntima , de antemão abrindo sua alma à qualquer resposta que tenha nexo com o seu pedido. Se Deus existe, e como a infinita misericórdia  seria um atributo necessário da Sua perfeição, essa resposta virá de modo inteligível.

11. A ante-prova da existência de Deus

Considerando tanto o mal moral, quanto o mal físico, o homem está sempre em risco de praticá-los ou de sofrê-los. Vendo a ocorrência do mal no mundo, muitos se perguntam se Deus existe. Esta é, efetivamente, uma questão intrigante para muitas pessoas. Se Deus criou o mundo e também o mal que nele vemos, então não é perfeito; se criou o mundo e não tem poder bastante para afastar o mal, não é infinitamente poderoso; e se colocou propositadamente o mal no mundo para nos provar na infelicidade, nesse caso, não é sumamente bom e misericordioso. E ainda, se Deus permite o bem e o mal moral para ver qual dos dois vence na alma de uma pobre criatura, isto nos confundiria ainda mais.

O mal no mundo foi visto por São Tomas e por Leibniz como necessário para que o Bem apareça, para que o Bem possa ser praticado. Sem a possibilidade de escolher entre um e outro, não seriam possíveis decisões da vontade no campo moral. Como dele podia resultar o Bem, então o Mal era bom. Portanto, segundo Leibniz, sendo o mal necessário, Deus havia criado não um mundo perfeito, mas o “Melhor dos Mundos Possíveis”.

12. Contra-prova.

Mas, em meu entender, há um outro modo de encarar o mal, não como necessário, como foi considerado por aqueles filósofos, porém como acidental. O mal, físico ou moral, em hipótese alguma é bom ou pode ser tolerado.

A vida e o universo existem tal como são porque estão entranhados de movimento. E este movimento respeita uma certa ordem que é regida por Leis Naturais (o que diz respeito ao argumento teleológico, visto acima). Fosse o universo caótico, sem Leis, e os corpos e a vida – o homem, em suma , não poderiam existir. E se de algum modo o homem fosse parte desse caos, não haveria como manifestar sua vontade livre.

Deus criou as leis que regem o universo, as quais, seguidas à risca pela natureza, surpreendem os homens a todo instante e, se não pode preveni-las ou não pode vencê-las, elas podem se tornar a causa do sofrimento humano. O homem vai aos poucos, lentamente, desvendando as leis da natureza e livrando-se do mal. E basta ver como o mal se apresenta, para sabermos que pode ser transitório, e um dia - ainda que terrivelmente remoto, infelizmente –, o homem possa bani-lo inteiramente de sua vida.

 Assim, pelo conhecimento das leis morais e domínio das leis naturais, o homem segue a trilha de um aperfeiçoamento constante, na busca de uma felicidade terrena sempre maior, que parece ser o seu destino remoto, enquanto neste mundo.

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Rubem Queiroz Cobra

NOTA: Esta página (como a anterior) desenvolve conteúdo do capítulo 16 do livro
Filosofia do Espírito (1997), do mesmo autor. O tema foi explorado
também no conto Diálogo com um ateu.

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em 06-12-2009

 

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional.
Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Q. - Provas da Existência de Deus. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2009.
(“www.geocities.com/cobra_pages” é “Mirror Site” de COBRA.PAGES)

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