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Fenomenologia - I

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Fenomenololgia (do grego phainesthai, aquilo que se apresenta ou que se mostra, e logos, explicação, estudo) afirma a importância dos fenômenos da consciência os quais devem ser estudados em si mesmos – tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos, a esses objetos ideais que existem na mente, cada um designado por uma palavra que representa a sua essência, sua "significação".  Os objetos da Fenomenologia são dados absolutos apreendidos em intuição pura, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) e as entidades objetivas que correspondem a elas (noema). A Fenomenologia representou uma reação à pretensão dos cientistas de eliminar a metafísica.

O empirismo. Desde Aristóteles até o final da Idade Média, o caminho para o conhecimento foi o da análise dialética, ou seja, o raciocínio por dedução lógica, na busca de novos conhecimentos. As respostas dadas por esse método pareciam tão satisfatórias e convincentes que não havia muita preocupação em testá-las no mundo real, mediante a observação. Ciência era o mesmo que Filosofia, e o método dedutivo lógico dominou o ensino e o estudo da natureza a partir de conceitos teológicos sobre Deus e o universo. Por exemplo: se Deus existe, Ele é um Ser perfeito e se é um Ser perfeito, sua criação das coisas haveria de refletir a Sua perfeição. Consequentemente, a órbita dos planetas não podia ser qualquer uma mas devia ser a mais perfeita possível, que é a forma circular e não a elíptica, porque esta última contem desigualdades. Logo, as estrelas e os planetas situavam-se em esferas perfeitas ao redor da Terra.

Galileu (1564-1642), com sua luneta, descobre que as esferas celestes não existiam e porque contrariou essa idéia, tão certa para todos, por pouco não foi condenado a morrer na fogueira, acusado de heresia.

A nova atitude naturalista de Galileu, de dúvida e observação, inspirou Francis Bacon (1561-1626) a criar tábuas para o controle da experimentação e o estabelecimento de leis científicas, o que levou rapidamente o homem a novos conhecimentos na astronomia, na química e na física. A mesma atitude de observação e interpretação natural levada ao estudo da mente e do conhecimento, deu origem à Corrente Empirista, que haveria de afetar profundamente a filosofia e criar o Positivismo, ou seja, o tratamento científico de todos os fatos e fenômenos, inclusive em Política..

John Locke (1632-1704), tido como o maior dos filósofos empiristas, procurou, no seu Essay Concerning Human Understanding (1690), demonstrar que todas as idéias são registros de impressões sensíveis (ou são derivadas de combinações, de associações entre essas idéias de origem sensível), e criticou o pensamento de Descartes (1596-1650) de que existiriam algumas idéias que seriam inatas - que o homem teria no espírito ao nascer -, como, por exemplo, a idéia de perfeição. Segundo Locke, alguma coisa é enviada pelos objetos e é captada por nossos sentidos e dão causa à formação das idéias. Este  pensamento é a base da teoria corpuscular da luz.

Outro filósofo dessa corrente foi David Hume (1711-1776). Ainda mais contundente que seu predecessor Locke, negou o valor do raciocínio lógico, denunciando que a relação de causa e efeito não é suficiente como verdade, pois nada encontramos entre causa e efeito senão que um acidente costumeiramente se segue a outro. Estamos habituados a chamar o primeiro acidente de causa apenas porque ele sempre acontece antes do segundo que chamamos de efeito.

Psicologismo e Historicismo. À influência da psicologia associativa de Locke sobre a filosofia (ou teoria) do conhecimento se chamou Psicologismo. É a teoria de que os problemas da epistemologia (a validade do conhecimento humano) e inclusive a questão da consciência, podem ser solucionados por meio do estudo científico dos processos psicológicos. A Psicologia deve ser tomada como base para a Lógica.  Os psicologistas entendiam a lógica - domínio da filosofia - como ciência. Seria apenas uma disciplina definidora, normativa, dos atos psíquicos, dos modos associativos do pensamento, e suas matérias apenas regras para pensar bem, e não fonte de verdade. A filosofia ficou fora de moda, "reduzida" a uma psicologia científica vinculada ao Positivismo.

O historicismo representava a mesma tendência empirista para uma interpretação científica da História. Os fatos históricos somente poderiam ser compreendidos e julgados se confrontados com a cultura estética, religiosa, intelectual e moral do período histórico em que aconteciam, e não em relação a valores morais permanentes.

 Husserl. O filósofo Edmund Husserl ( 1859-1938),  matemático e lógico, professor em Göttingen e Freiburg im Breisgau, autor de Die Idee der Phänomenologie (A ideia da Fenomenologia - 1906) enfrenta o Psicologismo e o Historicismo, e funda a Fenomenologia..

Contrariamente a todas as tendências no mundo intelectual de sua época, Husserl quis que a filosofia tivesse as bases e condições de uma ciência rigorosa. Porém, como dar rigor ao raciocínio filosófico em relação a coisas tão cambiantes  e variáveis como as coisas do mundo real? O êxito do método científico está em que ele pode estabelecer uma "verdade provisória" útil, que será verdade até que um fato novo mostre uma outra realidade. Para evitar que a verdade filosófica também fosse provisória, a solução, para Husserl, é que ela deveria referir-se às coisas como se apresentam na experiência de consciência, estudadas em suas essências, em seus verdadeiros significados, de um modo livre de teorias e pressuposições, despidas de seus acidentes próprios do mundo real, do mundo empírico objeto da ciência. Buscando restaurar a "lógica pura" e dar rigor à filosofia, argumenta a respeito do principio da contradição na Lógica.

No primeiro volume do seu Logische Untersuchungen ("Investigações lógicas"-1900-01), sob o título Prolegomena, Husserl lança sua crítica contra o Psicologismo. Segundo os psicologistas, o princípio de contradição seria a impossibilidade do sistema associativo estar a associar e dissociar ao mesmo tempo. Significaria que o homem não pode pensar que A é "A" e ao mesmo tempo pensar que A é "não A". Husserl opõe-se a isto e diz que o sentido do principio de contradição está em que, se A é "A", não pode ser "não A". Segundo ele, o princípio da contradição não se refere à possibilidade do pensar, mas à verdade daquilo que é pensado. Insistiu em que o principio da contradição, e assim os demais princípios lógicos, têm validez objetiva, isto é, referem-se a alguma coisa como verdadeira ou não verdadeira, independentemente de como a mente pensa ou o pensamento funciona.

Em seu artigo Philosophie als strenge Wissenschaft ("Filosofia como ciência rigorosa" -1910-11) Husserl ataca o naturalismo e o historicismo. Objetou que o Historicismo implicava relativismo, e por esse motivo era incapaz de alcançar o rigor requerido por uma ciência genuína.

A redução fenomenológica. A fenomenologia é o estudo da consciência e dos objetos da consciência. A redução fenomenológica (ou "epoche" no jargão fenomenológico), é o processo pelo qual tudo que é informado pelos sentidos é mudado em uma experiência de consciência, em um fenômeno que consiste em se estar consciente de algo. Coisas, imagens, fantasias, atos, relações, pensamentos eventos, memórias, sentimentos, etc. constituem nossas experiências de consciência.

 Husserl propôs então que, no estudo das nossas vivências, dos nossos estados de consciência, dos objetos ideais, desse fenômeno que é estar consciente de algo, não devemos nos preocupar se ele corresponde ou não a objetos do mundo externo à nossa mente. O interesses para a Fenomenologia não é o mundo que existe, mas sim o modo como o conhecimento do mundo se dá, tem lugar, se realiza para cada pessoa. A redução fenomenológica requer a suspensão das atitudes, crenças, teorias, e colocar em suspenso o conhecimento das coisas do mundo exterior a fim de concentrar-se a pessoa exclusivamente na experiência em foco, porque esta é a realidade para ela.

Na redução fenomenológica, a noesis é o ato de perceber. Aquilo que é percebido, o objeto da percepção, é o noema. A coisa como fenômeno de consciência (noema) é a coisa que importa, e refere-se a ela a conclamação "às coisas em si mesmas" que fizera Husserl. "Redução fenomenológica" significa, portanto, restringir o conhecimento ao fenômeno da experiência de consciência, desconsiderar o mundo real, colocá-lo "entre parênteses", - o que no jargão fenomenológico não quer dizer que o filósofo deva duvidar da existência do mundo – como os idealistas radicais duvidam – mas sim que a questão para a fenomenologia é antes o modo como o conhecimento do mundo acontece, a visão do mundo que o indivíduo tem.

Consciência e intencionalidade. Vivência (Erlebnis) é todo o ato psíquico; a Fenomenologia, ao envolver o estudo de todas as vivências, tem que englobar o estudo dos objetos das vivências, porque as vivências são intencionais e é nelas essencial a referência a um objeto. A consciência é caracterizada pela intencionalidade, porque ela é sempre a consciência de alguma coisa. Essa intencionalidade é a essência da consciência, e é representada pelo significado, o nome pelo qual a consciência se dirige a cada objeto.

Em seu Psychologie vom empirischen Standpunkte ("A Psicologia de um ponto  de vista empírico"- 1874), Franz Brentano afirma: "Podemos assim definir os fenômenos psíquicos dizendo que eles são aqueles fenômenos os quais,  precisamente por serem  intencionais, contem neles próprios um objeto". Isto equivale a firmar, como Husserl, que os objetos dos fenômenos psíquicos independem da existência de sua réplica exata no mundo real porque contêm o próprio objeto. A descrição de atos mentais, assim, envolve a descrição  de seus objetos, mas somente como fenômenos e sem assumir ou afirmar sua existência no mundo empírico. O objeto não precisa de fato existir. Foi um uso novo do termo "intencionalidade" que antes se aplicava apenas ao direcionamento da vontade.

 A redução eidética. Reconhecido o objeto ideal, o noema, o objeto da percepção, o passo seguinte é sua “redução eidética”, redução à idéia (do grego eidos, que significa idéia ou essência) ). Consiste na sua análise para encontrar o seu verdadeiro significado. Isto porque não podemos nos livrar da subjetividade e ver as coisas "como são" – o que é o real, uma vez que em toda experiência de consciência está envolvido o que é informado pelos sentidos e também o modo como a mente enfoca, trata, aquilo que é informado.  Portanto, dar-se conta dos objetos ideais, uma realidade criada na consciência, não é suficiente - ao contrário: os varios atos da consciência  precisam ser conhecidos nas suas essências, aquelas essências que a experiência de consciência de um indivíduo deverá ter em comum com experiências semelhantes nos outros.  

Por exemplo, "um triângulo". Posso observar um triângulo maior, outro menor, outro de lados iguais, ou desiguais. Esses detalhes da observação - elementos empíricos - precisam ser deixados de lado a fim de encontrar a essência da idéia de triângulo - do objeto ideal que é o triângulo -, que é tratar-se de uma figura de três lados no mesmo plano. Essa redução à essência, ao triângulo como um objeto ideal, é a redução eidética

A redução eidética é necessária para que a filosofia preencha os requisitos de uma ciência genuinamente rigorosa,  requisitos já antes mencionadas por Descartes, de claridade  apodítica, a certeza absolutamente transparente, e de distinção unívoca, que quer dizer sem ambigüidade. Os objetos da ciência rigorosa têm que ser essências atemporais, cuja atemporalidade é garantida por sua idealidade, fora do mundo cambiável e transiente da ciência empírica.

A Intuição do Invariante.  Não importa para a Fenomenologia como o mundo real afeta os sentidos. Husserl distingue entre percepção e intuição. Alguém pode perceber e estar consciente de algo, porem sem intuir o seu significado. A intuição eidética é essencial para a redução eidética. Ela é o dar-se conta da essência, do significado do que foi percebido.O modo de apreender a essência é, no jargão dos fenomenólogos, o Wesensschau, a intuição das essências e das estruturas essenciais. De comum, o homem forma uma multiplicidade de variações do que é dado. Porém, enquanto mantendo a multiplicidade, o homem pode focalizar sua atenção naquilo que permanece imutável  na multiplicidade, isto é, a essência, esse algo idêntico que continuamente se mantém durante o processo de variação, e que Husserl chamou "o Invariante".

No exemplo dado do triângulo, o "Invariante" do triângulo é aquilo que estará em todos os triângulos, e não vai variar de um triângulo para outro. A figura que tiver unicamente três lados em um mesmo plano, não será outra coisa, será um triângulo.

Não podemos acreditar cegamente naquilo que o mundo nos oferece. No mundo, as essências estão acrescidas de acidentes enganosos. Por isso, é preciso fazer variar imaginariamente os pontos de vista sobre a essência para fazer aparecer o invariante.

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Rubem Queiroz Cobra            

Doutor em Geologia e
bacharel em Filosofia
Lançada em 4/03/2001,
 revisada em 20-04-2005. 

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Direitos reservados. Para citar esse texto: Cobra, Rubem Q. - Fenomenologia. Temas de Filosofia, Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2001, rev. 2005.
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de www.cobra.pages.nom.br)

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