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Ercília: culta e destemida modernista brasileira

por Rubem Queiroz Cobra

Para obra on line Virgindade.


"Mas a mulher é um ente humano! Tem direitos naturais, sofre
e não pode continuar a servir de tapete para os pés dos homens."

Ercília N. Cobra (Virgindade..., 1924, p.51)

 


 

 


Esta página:

Introdução
Época
Ercília e o Modernismo
Obra
Nota genealógica
Um episódio a investigar
Bibliografia

Contacto: Críticas, sugestões e alertas são bem vindos. Clique em: Opinião!

 

INTRODUÇÃO

Ao escolher qual dos dos dois livros de Ercília Nogueira Cobra colocar na Internet para difundir seu pensamento, preferi o mais objetivo – que também é o mais sucinto –, intitulado Virgindade Anti-Higiênica - Preconceitos e convenções hipócritas.

A cópia que possuo da obra citada corresponde a um livro de bolso no formato A6, com cerca de 10 cm x 14 cm. É uma segunda edição, sem data, porém com o ano 1924, ano da primeira edição, acrescentado a mão no pé da folha de rosto. Seu conteúdo é de natureza filosófica, e nele a Autora expõe com maestria o seu pensamento feminista, e faz, com propriedade, inúmeras citações eruditas. Além da divulgação deste livro de Ercília, esta página pretende demonstrar a filiação do seu pensamento à corrente modernista de seu tempo, oferecer alguns elementos de genealogia, e apresentar, para ser investigado, um possível novo detalhe relativo a sua biografia.

Conta-se que Ercília chocou a sociedade brasileira com seus livros e sabe-se que o Virgindade Anti-Higiênica - Preconceitos e convenções hipócritas foi confiscado pela polícia. Mas este não parece conter nada que pudesse, a rigor, ser tido por pornografia, diferindo, portanto, do outro livro – o qual, em meu entender poderia, talvez com mais razão, ser o apreendido intitulado Virgindade Inútil – Novela de uma revoltada (Melo, 1954), mais tarde renomeado Virgindade Inútil e Anti-Higiênica Novela libelística contra a sensualidade egoísta dos homens). Neste último, escrito em torno à exploração sexual e trabalhista da mulher, e publicado também na década de vinte, suas ideias se deixam transparecer em meio a descrições de cenas eróticas.

Como, pela semelhança de seus títulos, confunde-se facilmente o Virgindade Anti-Higiênica com o Virgindade Inútil, prefiro me referir a cada um pelo seu subtítulo, Preconceitos e convenções hipócritas (ou simplesmente o "Preconceitos"), e Novela de uma revoltada.

Porém, ao transcrever Preconceitos e convenções hipócritas, não estou aprovando sem restrições as idéias de sua autora, nem pretendendo fazê-las parte do espírito de minhas páginas. Meu propósito é apenas fornecer aos pesquisadores um elemento importante para a história dos movimentos modernista e feminista no Brasil.

Quero começar por alertar o leitor para o significado de "higiene" nos títulos dos dois livros de Ercília, uma expressão atualmente de uso raro com o sentido psiquiátrico em que ela a empregou. É da sua época o início da aplicação da palavra "higiene" também a preceitos para uma condição psicológica sã, e não simplesmente ao asseio do corpo.

Ainda hoje, Higiene Mental é a ciência de manter a saúde psíquica e prevenir o desenvolvimento de psicoses, neuroses, e outras desordens mentais. Inclui todas as medidas tomadas para promover e preservar a saúde mental individual e coletiva. Aparentemente o termo surgiu quando Clifford Whittingham Beers, um psicótico norte-americano recuperado, escreveu suas memórias e iniciou um movimento em favor dos doentes mentais. Criou um "Comitê Internacional para Higiene Mental" em 1919 e promoveu o primeiro "Congresso Internacional de Higiene Mental" em 1930, em Washington. O auge da sua atividade e da sua propaganda coincidiu, portanto, com a época em que Ercília escreveu seus dois livros. Muitos entusiastas do movimento de Clifford acreditavam que a higiene mental poderia conduzir a sociedade à paz e eliminar as guerras.

Educada e culta, Ercília teria com certeza conhecimento do emprego então em moda nos meios científicos da palavra "higiene" como termo psiquiátrico para um estado saudável do espírito. Ela destaca que higiene significa "asseio, tanto physico como moral" (p. 45). Que ela segue essa linha de pensamento fica demonstrado também pela sua citação das palavras do médico Jean Marestau que diz "São as moças virgens e as viúvas que fornecem o maior contingente de histéricos", e dá as estatísticas do famoso hospital La Salpetrière onde, de 1.726 doentes mentais, 1.276 eram moças (p. 117). Porém, a maioria dos leitores de Ercília da sua época, ignorantes dessa acepção do termo "higiene" com significado de saúde mental, teriam interpretado a expressão "anti-higiênica" no título de seus livros como referindo-se ao asseio das partes íntimas da mulher. Hoje, por ter caído em certo desuso a expressão "Higiene mental", seus títulos voltam a causar espécie aos menos avisados.

Ercília dá provas de cultura e de convívio social de alto nível. Cita pensadores de vanguarda de seu tempo, como salienta sua biógrafa Maria Lúcia de Barros Mott (1986). Apesar de se fixar em São Paulo, foi com freqüência ao Rio de Janeiro, provavelmente estar com a irmã Estela (vide adiante), e lá freqüentou "as nossas celebres corridas" (p. 81) em dia de gala no Hipódromo. Afirma frequentar o teatro: "Na passada estação theatral do Rio, fui tres vezes ouvir Pierre Magnier declamar o Cyrano de Bergerac; porém confesso que sahi depois do primeiro ato do "Maître des Forges", diz ela (p.101).

Conheço apenas esta frase de Cyrano de Bergerac como a mais provável de haver tocado Ercília: «Que dites vous? C'est inutile? Je le sais!/ Mais on ne se bat pas dans l'espoir du succès / Non, non, c'est bien plus beau lorsque c'est inutile! (...) N'importe: je me bats! je me bats! je me bats!» (Que dizeis vós? É inútil? Eu sei! Mas não se luta na esperança de sucesso. Não, não, é muito mais belo quando é inútil (lutar)! (...) Não importa: eu luto! eu luto! eu luto!). Não terá sido este estimulante trecho o mesmo que emocionou Ercília? 

ÉPOCA

Na década de 20, quando Ercília escreve os seus livros, o Brasil vivia tempos de agitação e aspirações revolucionárias várias. A conseqüente repressão política é marcada pela censura da produção intelectual; é a "situação anormal que atravessamos" que ela registra à p. 9, na Nota da Segunda Edição, do polêmico Virgindade Anti-Higiênica - Preconceitos e convenções hipócritas, de 1924, do qual cito as páginas. É uma época marcada também pela lembrança de alguns recentes flagelos naturais. Em 1915 ocorreu uma forte seca no nordeste e, nos últimos meses de 1918, a mortal epidemia mundial da gripe espanhola. Em pouco mais de um mês, segundo as estatísticas, só no Distrito Federal (Rio de Janeiro) fez a epidemia dezoito mil vítimas.

Para o quadriênio de 1918-1922 foi eleito presidente do Brasil Francisco de Paula Rodrigues Alves e, com o falecimento deste, eleito Epitácio da Silva Pessoa em 1919. Em março de 1920 irrompe no Rio um movimento operário, reprimido energicamente ao cabo de dois dias. Em Janeiro de 1921 declaram-se em greve os trabalhadores marítimos e logo depois os operários da construção civil. Em novembro de 1921 surgiu o núcleo inicial do partido Comunista, que cresceu rapidamente, ensejando que, em 1922, fosse realizado em Niterói o congresso de fundação do Partido com a presença de delegados de várias cidades do país. Em julho do mesmo ano revolta-se a guarnição do forte de Copacabana, cujos participantes são lembrados como "Os 18 do Forte"; e logo a Vila Militar e a Escola de Guerra declaram-se em rebelião, esperando a adesão de forças revoltosas das guarnições de São Paulo e Mato Grosso. Decretou o governo o estado de sitio; fez efetuar muitas prisões e, agindo energicamente, conseguiu manter a ordem constitucional e com grandes festas se comemorou o centenário da Independência em 7 de setembro. Em novembro assumiu o governo Artur Bernardes que governou em regime de "estado de sítio" justificado pelas revoltas daquele ano no Rio de Janeiro, e pelas que depois ocorreram em 1923 no Rio Grande do Sul e 1924 em São Paulo. Os militares envolvidos nesses levantes formaram a Coluna Prestes que a partir do Paraná iniciou uma grande marcha pelo interior do país, pregando a luta contra as oligarquias políticas dominantes de Minas e São Paulo, detentoras do poder no país.

Depois de um período de grande agitação política transmitiu Artur Bernardes, em 1926, a presidência da República a Washington Luís Pereira de Sousa, antigo presidente do Estado de São Paulo, eleito para o período 1926-1930. Porém, a sucessão presidencial havia criado a crise fatal á primeira República. As candidaturas de Júlio Prestes de Albuquerque e Getúlio Vargas dividiram o mundo político numa maioria situacionista, maciça, e a oposição menos numerosa, porém mais aguerrida. Logo os próceres da Aliança Liberal entrariam a conspirar, preparando o movimento de outubro de 1930.
 

ERCÍLIA E O MODERNISMO

Além dos dramáticos eventos políticos, outros mais ocorreram em 1922, ano simbólico por marcar o centenário da independência da Nação brasileira. Naquele ano, o inconformismo dos militares, pelo qual falaram os seus fuzis, teve por paralelo o inconformismo intelectual, cuja arma foi a Semana de Arte Moderna realizada em São Paulo, movimento de revolta contra o atraso dos padrões culturais conservadores das elites brasileiras.

A Semana da Arte Moderna teve três dias de promoções: 13, 15 e 17 de Fevereiro de 1922, em que jovens intelectuais influenciados por Graça Aranha, apresentaram em conjunto suas idéias de vanguarda. As conferencias realizaram-se no teatro Municipal de São Paulo. Seguiram-se mostras de arte de Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Victor Brecheret. Apresentaram-se a pianista Guiomar Novaes e o compositor Heitor Villa-Lobos.

Ficaram famosos esses e os principais outros modernistas: Oswald de Andrade, romancista e ensaísta; o poeta Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, e Mário de Andrade, pesquisador da música popular brasileira e crítico social, autor de Paulicéia Desvairada (1922), Amar, verbo intransitivo (1927), - no qual critica a hipocrisia sexual paulistana, em perfeita sintonia com o pensamento de Ercília –, e Macunaíma, o Herói sem nenhum caráter (1928). Alguns intelectuais e artistas não participaram propriamente daqueles eventos, mas eram reconhecidamente da corrente – como a celebrada pintora Tarsila do Amaral –, e é entre esses contemporâneos do Modernismo, não participantes das mostras mas reconhecedores do movimento – e radical e atrevidamente combativos pela reforma cultural do país –, que penso situar Ercília Nogueira Cobra.

Ninguém que tenha entendido o espírito do movimento modernista e lido os livros de Ercília, contemporâneos da Semana de Arte Moderna, deixará de ver sua ligação óbvia. Esta relação foi salientada também pelas pesquisadoras americanas Susan C. Quinlan e Peggy Sharpe que talvez tenham sido as primeiras a trazer a público convicção igual à minha, no livro por elas publicado em 1996, edição patrocinada pela Universidade Federal de Goiás. No entanto, essa identidade de idéias e essa contemporaneidade, a própria Ercília indica à página 108 da edição do seu Preconceitos e convenções hipócritas onde diz,: "hoje, em pleno torvelinho do modernismo..." o que, – além do caráter revolucionário e estimulante de sua obra –, demonstra que estava conscientemente imbuída dos ideais e da coragem do movimento. Ela é uma modernista não apenas pelo exotismo do seu estilo literário desabusado, objetivo e direto, mas exatamente pela sua proposta de uma revolução dos costumes no sentido da modernização psicológica e cultural do país – a proposta original daquele movimento –, e que ela faz relativamente à questão sexual e à situação da mulher em sua época.

Na verdade, enquanto os notáveis do Modernismo viviam o clima de entusiasmo algo arrogante que marcou o movimento, e colhiam louros no campo da literatura e, com a sua proclamada musa, também no campo das artes – deliciando com um doce escândalo as elites de então, chocadas e ao mesmo tempo divertidas com as novidades –, era Ercília Nogueira Cobra que tomava a peito por o dedo em uma das verdadeiras chagas nacionais: o atraso do povo e a ignorância dos conservadores opulentos, do que decorria: a escravidão doméstica e sexual da mulher.

OBRA

Disse, a respeito de Ercília Nogueira Cobra, o colunista Flávio Pinto Vieira na Seção Cultura do jornal Tribuna do Rio de Janeiro, datado de 28 de outubro de 1980: "Foi através de um levantamento bibliográfico sobre a mulher brasileira, realizado pela Fundação Carlos Chagas, que se descobriu a sua obra pioneira em torno da emancipação da mulher". Aludia com certeza ao material levantado pela jornalista Lúcia Mott, que daria origem a uma biografia de Ercília, rica de interessantes detalhes, publicada pela Folha de São Paulo de 7 de julho de l984, p. 38, e nos Cadernos da Fundação Carlos Chagas, de Ribeirão Preto, SP., em 1986 (p. 89-104).

Outra fonte é o Dicionário de Autores Paulistas (Melo, 1954) que atribui duas obras a Ercília Nogueira Cobra: o livro Virgindade anti-higiênica – Preconceitos e convenções hipócritas, S. Paulo, Ed. da A., 1924, 127 p., e o livro Virgindade Inútil – Novela de uma revoltada, São Paulo, Editora Anchieta, s/data, 175 p.

Note-se que a falta de data para o Novela de uma revoltada, lançado pela Editora Anchieta, permite que se questione se a ordem da citação dos títulos no Dicionário de Autores corresponde à sucessão real em que os livros foram publicados. Minha opinião é que aquele tenha aparecido antes do "Preconceitos", por várias razões.

O Novela de uma revoltada, que narra as aventuras eróticas de Cláudia, tem seus quadros finais em um transatlântico que navega para a França, e em um teatro em Paris. Na narrativa da viagem, a autora introduz um novo personagem, Cecília, uma intelectual que conquista a admiração de Cláudia. O discurso feminista antes colocado nas palavras e pensamentos de Claudia, agora está na boca de Cecília – nome que parece escolhido para representar Ercília, a autora. Cláudia indaga por que Cecília não fizera, antes de embarcar, a pregação de suas idéias, ao que ela responde que não a fizera por não acreditar que fosse ouvida. Não seriam de esperar essas palavras, se Ercília já houvesse publicado algum livro antes deste romance.

Ercília de fato viajou a Paris, conforme ela mesma afirma, e isto em 1920, de acordo com sua biógrafa, a jornalista Lúcia Mott acima citada. Ao retornar, teria se valido de suas lembranças para fazer o Novela de uma revoltada, que inclusive parece ser a sua auto-biografia.

Outra razão diz respeito à abordagem do tema. Parece mais provável que ele fosse apresentado primeiro vazado em um romance, como o  Novela de uma revoltada, uma forma didática mais adequada a alcançar o público. Já o "Preconceitos" tem a forma de libelo documental, é mais maduro, objetivo e radical, pleno de citações eruditas, com trechos em francês, obviamente não é endereçado ao público em geral.

Quanto à primeira edição do "Preconceitos", que o Dicionário de Autores Paulistas dá como edição da Autora, Lúcia Mott diz que foi feita por Monteiro Lobato, e cita o registro bibliográfico da Revista do Brasil, de 1924 (p.244), também editada por Lobato, onde aquele editor comenta brevemente o livro e elogia a coragem da Autora.  A alusão que no "Preconceitos"  Ercília faz a duas peças encenadas no Teatro Municipal do Rio de Janeiro também corrobora essa data.

A Companhia Dramática "Théatre de la Porte de Saint Martin de Paris" apresentou Cyrano de Bergerac, com Pierre Magnier, nos dias 8, 12, 14 e 15, e Le Maitre des Forges nos dias 21 e 26 de agosto de 1923 (Brito Jr., 1971). Como, no livro "Preconceitos", a referência às apresentações diz terem elas ocorrido na temporada passada, ou seja, no máximo um ano antes, fica evidente que o livro confiscado, que teria sido editado por Monteiro Lobato, é de antes de agosto de 1924.

Ercília fez uma segunda edição do livro "Preconceitos" sem datá-lo. Nesta, a Autora inseriu notas prévias denunciando a apreensão da primeira edição do livro. Esta segunda edição é a que transcrevo neste Site.

O Novela de uma revoltada não foi publicado entre a primeira e a segunda edição do Preconceitos e convenções hipócritas porque então seriam inseridas nele os preâmbulos nos quais Ercília protesta contra apreensão da primeira edição do "Preconceitos". Resta, portanto, que o Novela de uma revoltada tenha sido o primeiro livro publicado por Ercília, e não teria sido apreendido.

Outra evidência da primazia do Novela de uma revoltada é o fato de "Preconceitos" conter, em sua última página, o convite "Leiam Virgindade Inútil", que é o Novela de uma revoltada . Como a segunda edição é praticamente a reimpressão da primeira, então esse convite já existiria na primeira edição do "Preconceitos", que foi apreendida. Disto se pode deduzir que o Novela de uma revoltada foi publicado antes das duas edições do "Preconceitos".

Portanto,a edição do Novela de uma revoltada poderia estar entre 1922 e 1923, publicado no calor da onda modernista iniciada em 1922. Sua repercussão teria provocado a intolerância que levou ao confisco do segundo livro, o Preconceitos e convenções hipócritas.

Os dois livros foram reunidos mais tarde em uma edição única, intitulada Virgindade Inútil e anti-higiênica - Novela libelística contra a sensualidade egoísta dos homens. Foi impresso pela Societé d'Éditions Oeuvres des Maitres Celèbres com endereço 75, Rue Caumartin, Paris, infelizmente sem indicar a data. No alto da capa, acima do nome da autora, consta "Colleção do Livro Raro e Exquisito" (sic) o que faz supor que o livro fazia parte de algum projeto editorial brasileiro ou português, o que é uma questão a esclarecer.

Na citada edição conjunta de seus dois livros, corroborando a minha tese, Ercília reuniu, como I Parte, o Novela de uma Revoltada , que acredito ser de 1922, renomeado como Virgindade Inútil - Novela libelística contra a sensualidade egoísta dos homens, e como II Parte, o libelo Virgindade anti-Higiênica - Preconceitos e convenções hipócritas, de 1924. Nesta edição conjunta, o português é moderno. "Optmas" substituída por ótimas, "logares" por lugares, "alli" por ali, "dellas" por delas, "sahir" por sair, etc., indicação de que os textos foram revisados e impressos após a reforma ortográfica de 1931.

As autoras americanas, Quinlan e Sharpe integraram em seu livro Visões do Passado Previsões do Futuro - Duas modernistas esquecidas (1996), a transcrição dos dois livros de Ercília Nogueira Cobra, tal como estão na citada edição conjunta. Ao final de cada obra estão 76 notas de comentários feitos ao Novela libelística, e 81 notas relativas ao Preconceitos e convenções hipócritas, nas quais dão as traduções das citações em francês, e apresentam notas biográficas e explicativas de grande interesse para a compreensão das obras..

NOTA GENEALÓGICA

Já me referi acima ao vínculo de parentesco de Ercília com a estrela maior do movimento modernista, José Oswald de Andrade (1890-1954), talvez o mais destacado dos promotores da Semana de Arte Moderna. Este parentesco é lembrado por Lúcia Mott como informação recebida de Antônio Cândido, e que posso detalhar, valendo-me da Genealogia Paulistana, de Silva Leme.

Oswald de Andrade era primo em segundo grau de Ercília. Nasceu e morreu em São Paulo. Rico, comunista, consta que perdeu a fortuna na quebra da Bolsa de 1929. Casou-se seis vezes. Criou vários movimentos e deixou uma obra extensa: ensaios de estética e política, manifestos, memórias, poemas e romances. Escrevia com humor e ironia, em linguagem telegráfica, metafórica, marcada por neologismos de sua própria lavra, e outras inovações. A estrela feminina do movimento, Tarsila do Amaral, aquela artista de vanguarda, - a "pintora louca" que desafiando o preconceito em relação à mulher liberada trocaria de marido várias vezes -, foi uma das mulheres de Oswald de Andrade, com quem ele casou em 1922, tendo vivido juntos até 1929.

Segundo o genealogista Luís Gonzaga da Silva Leme (1903, vol. VI, p. 392) e minha própria pesquisa (Távora e Cobra, 1999), o Capitão Domingos Rodrigues Cobra, - filho de Bernardo da Cunha Cobra. um português vindo de Almada -, residiu em Baependi e foi casado com Caetana Nogueira de Lemos. O Capitão e Caetana tiveram, entre outros, o filho Capitão Antônio Gomes Nogueira Cobra, nascido em Baependi em 1784, que foi casado com Maria Custódia de Meireles Freire. Esse casal teve, entre outros, os filhos Antônio Marciano, que viveu em Baependi (I), e Antônia Nogueira Cobra (II), que viveu em São Paulo.

I. Antônio Marciano Nogueira Cobra teve o filho Major Luís Joaquim Nogueira de Meireles Cobra, casado com Maria Amélia Rosa do Carmo, falecida a 19 de agosto de 1919. Maria Amélia era amiga dos livros, deixou um dito lembrado pelos familiares: "Quem quiser ter idéias novas, leia livros velhos". Tiveram entre outros, o filho Amador Nogueira Cobra.

O pai de Ercília, o citado Amador, nascido em Baependi em 1861, formou-se em Direito em São Paulo em 1888. Em uma petição sua de dezembro de 1882, conservada no Arquivo da Faculdade de Direito de São Paulo, diz que "alterou e aumentou o cognome depois de prestar em Ouro Preto o exame de Inglês". Assinava-se antes, Amador Carneiro Cobra (sua mãe Maria Amélia pertencia à família Carneiro Viriato Catão). Foi promotor em Mococa, S. Paulo, fazendeiro naquela localidade e depois em São José do Rio Pardo, e deputado ao Congresso (hoje Assembléia) paulista.

Já em 1888 Amador Cobra integrava, como orador, ao lado do Capitão Antônio Penha de Andrade, presidente, e Antero Pereira de Magalhães, vice-presidente, a Comissão Executiva do Partido Republicano do município de Baependi, do qual foram fundadores, e que teve como seu órgão oficial um pequeno jornal, A Propaganda (A. P. Magalhães, 1976, p. 199).

José Alberto Pelúcio, diz em seu livro Baependi (1942, p. 260): "Amador Cobra, a quem já nos referimos, foi outro baependiano que trabalhou esforçadamente pelo triunfo da República em terras brasileiras. Desde seus tempos acadêmicos abraçou com ardor os princípios do novo regime que seria implantado no país".

"De sua pena é o livro Esboços Democráticos. Prefaciando-o, escreveu Campos Sales: "...este trabalho revela um intuito perfeito e brilhantemente definido e visa claramente a propaganda democrática..."

Seu livro foi publicado ainda sob o Império, à época em que era acadêmico de Direito em São Paulo (H. Gravatá 1976), impresso na Tipografia Carioca, no Rio de Janeiro. Faleceu em São José do Rio Pardo em 1907; foi casado com Jesuina Ribeiro, falecida em 1935 na mesma cidade, filha de Raimundo Estelino Ribeiro da Silva e de Mariana Ribeiro. Desse consórcio nasceram cinco filhos: Estela; Ercília; Paulo Brandão Nogueira Cobra, falecido em São José do Rio Pardo em 1971, e que foi casado com Isabel Martins de Almeida; Noêmia Nogueira Cobra, casada com Antônio Corrêa Leite; Marina, falecida solteira em 1970, e Maria Amélia Nogueira Cobra, falecida em 1970, que foi casada com Manuel Ribeiro, com o qual teve, entre outros filhos, a conhecida advogada e deputada federal Zulaiê Cobra.e Nuno Cobra, autor do best-seller A semente da vitória (Editora SENAC, São Paulo).

II. Antônia Nogueira Cobra, a acima citada filha do Capitão Antônio Gomes Nogueira Cobra, foi casada com Hipólito José de Andrade, negociante em São Paulo, com quem teve o filho José Oswaldo Nogueira (Cobra) de Andrade, vereador na Câmara Municipal de São Paulo, casado com Inês Inglês de Souza, filha do desembargador Inglês de Souza. Esse casal teve o filho Oswald de Andrade.

UM EPISÓDIO A INVESTIGAR

Segundo tradição de família, Ercília revoltou-se contra o tratamento dispensado à mulher quando, ainda na juventude, teria tido a oportunidade de dar um concerto de piano no Teatro Municipal, por recomendação do seu professor, e o pai proibiu-a de fazê-lo. Mais tarde, falecido o pai e perdida a residência na Capital, recusou-se a viver na fazenda com a mãe e os irmãos. Deixou a família em companhia da irmã Estela, que era a mais velha, e ambas viveram uma vida cheia de percalços em São Paulo, inicialmente às voltas com a polícia pelo fato de serem menores.

Ercília era tão apegada a sua irmã e companheira que, em 1929, fez, em favor dela, um testamento dos bens que lhe coubessem por herança (M.L.B. Mott, op. cit., p.98). Seriam ela e sua irmã Estela as duas irmãs de sobrenome Cobra que estiveram algum tempo em Vitória, Espírito Santo, por volta de 1930. Delas me deu notícia a historiadora espírito-santense Maria Stella de Novaes, hoje já falecida. Escreveu ela: "Conheci, porém, duas jovens que, há 30 ou 40 anos, aqui estiveram: - uma alta e magra; outra gorducha e menor porte - Residiram pouco tempo aqui. A menor, muito bonita e rosada, casou-se com um rapaz de ótima família italiana, e ainda existente - Comerciantes. O casamento durou pouco, apesar da filha que nasceu aqui - O marido não suportou o gênio forte da mulher...".

Se, quanto ao gênio, poderia bem tratar-se de Ercília, e quanto ao tipo físico? Segundo seus familiares, não era alta, e se, como suspeita sua biógrafa, estaria calcada nela própria o personagem Claudia, do seu romance, então ela se auto descreve à p. 88 (Ed. parisiense) como "De pequena estatura, mas de proporções perfeitas, morena de olhas verdes, era tida como linda mulher." Claudia tem uma filha a que dá o nome Liberdade.

Segundo Lúcia Mott (1984) os moradores antigos de Caxias do Sul, onde Ercília viveu vários anos, disseram que ela não era uma prostituta, mas proprietária de um cabaré onde ela própria era a pianista: "Era uma senhora culta, elegante, temperamental, sempre vestida de preto com um chapéu de feltro. Diariamente ia à praça onde ficava lendo horas a fio."

Estela faleceu no Rio de Janeiro em 1934 e Ercília viveu no Rio Grande do Sul entre 1934 e 1938 (M.L.B. Mott, p.99)

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Para obra on line Virgindade.

Para a página de M.L.B. Mott sobre Ercília: "Uma romancista corajosa".


BIBLIOGRAFIA:

Brito Jr., Edgard de Chaves, Memórias e Glórias de um Teatro. Cia. Editora Americana, Rio de Janeiro, 1971

Cobra, Ercília Nogueira, Virgindade Anti-Higiênica - Preconceitos e convenções hipócritas. 2a. Edição. Edição da Autora, s/data.

Cobra, Ercília Nogueira, Virgindade Inútil e Anti-Higiênica - Novela libelística contra a sensualidade egoísta dos homens. "Societé d'Éditions Oeuvres des Maitres Celèbres", Paris, s/data.

Gravatá, Hélio, Contribuição Bibliográfica para a História de Minas Gerais. Rev. do Arq. Públ. Mineiro, Vol. XXVII, p. 173-375, Belo Horizonte, 1976.

Leme, Luiz Gonzaga da Silva, Genealogia Paulistana. Vol. VI, Ed. do autor, S. Paulo, 1903.

Magalhães, Antero Pereira de, Memória Histórica da Propaganda Republicana no Sul de Minas. Rev. do I. H. G. de M. Gerais, Vol. XI, p. 191-210, B. Horizonte, 1964.

Melo, Luis Correia de, Dicionário de Autores Paulistas. Comissão do IV Centenário, S. Paulo, 1954.

Mott, Maria Lúcia de Barros, Biografia de uma Revoltada: Ercília Nogueira Cobra. Fundação Carlos Chagas. Cad. Pesq., São Paulo (58): 89-104, agosto 1986.

------ Ercília Nogueira Cobra, uma revoltada.Folha de São Paulo Ilustrada, Primeira Leitura, sáb., 7 de julho de 1984, p. 38.

Pelúcio, José Alberto, Baependi. Ed. do Autor, Baependi, 1942.

Quinlan, Susan e Sharpe, Peggy, Visões do Passado Previsões do Futuro - Duas modernistas esquecidas. Univ. Federal de Goiás e Ed. Tempo Brasileiro Ltda. Goiás e Rio de Janeiro, 1996.

Távora, M.J. e Cobra, R. Q., Um Comerciante do Século XVIII. Ed. Athalaia, Brasília, 1999.

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Lançada em 11/09/2000
Revisada em 09/07/2005
Revisada em 16/05/2011

Direitos reservados com depósito do texto impresso na Biblioteca Nacional. Para citar este texto:
Cobra, Rubem Q. - Ercília: culta e destemida modernista brasileira. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.
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