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VIVES

Vida, pensamento e obras de JUAN LUIS VIVES - IV

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Métodos Pedagógicos. Como pedagogo, Vives reagiu contra os métodos escolásticos de ensino e a dialética especulativa dos professores da Sorbone, onde havia estudado de 1509 a 1512. Ele insistiu em que o ensino deve realizar-se de acordo com a personalidade e natureza do aluno. Em sua obra composta em latim, Vives critica os métodos de ensino escolásticos (Adversus pseudodialecticos, 1519, "Contra os pseudo-dialéticos"). Ele propôs uma revisão geral das fontes e dos procedimentos pedagógicos (De ratione studii puerilis, 1523; De causis corruptarum artium, 1531; dirigido contra os aristotélicos; De disciplinis, 1531).

Porem, seu interesse pela pedagogia ultrapassava o campo acadêmico; Vives aborda a educação do ponto de vista da eficácia da instrução e para essa eficácia específica considerava a psicologia fundamental, tanto para a adequação do ensino ao sujeito, quanto para a eficácia do método educativo. Vives estabelece algumas regras pedagógicas inovadoras e mesmo revolucionárias para a sua época, e que depois aparecerão como fundamento da Pedagogia de Jean-Jacques Rousseau. Seguem-se as principais:

2) Localização das escolas. Vives defendeu que os edifícios para escolas devem ser construídos em um lugar saneado e agradável, não no centro das povoações onde o ruído impeça o sossego necessário para o estudo, mas em local não tão isolado que o transporte se torne prejudicial aos alunos. O interior deve ser bem iluminado, limpo e adornada de pinturas por todas partes. O exterior, deve ter um grande pátio para recreio e jogos; também um grande jardim que agrade a vista com árvores, flores e ervas.

3) Método. Preconiza o ensino paulatino, partindo do conhecido para o desconhecido, do fácil ao difícil; 4) Experimentação. A experiência do aluno deve ser direta, já que toda ciência deve fundar-se na experiência. Deve refletir sobre os dados obtidos por ele mesmo. Seu ideal pedagógico era: Considera a natureza como o melhor livro de ensino acudindo no possível à observação direta da mesma. Proclama o principio da indução e recomenda a experiência como fonte de conhecimento

5) Atividade escolar. O aluno deve dar pequenas conferencias sobre o aprendido, para dar causa à iniciativa infantil em todas as disciplinas Juan Luís Vives considera a conversação como um arte e uma forma de ensinar. Levará um caderno de notas, onde reunirá por si mesmo suas experiências de aprendizagem, formando ao final seu próprio livro de texto.

6) Psico-pedagogia. A pesar de que todos os homens têm a capacidade para aprender, Vives não desconsidera as diferencias que há entre eles: o mestre deve ter em conta as características individuais do aluno, seu desenvolvimento natural. O aluno precisa ser avaliado em sua capacidade para aprender, Tampouco é igual a quantidade de esforço sustentado do que cada um é capaz: O aluno estudado em seus aspectos genéricos o evolutivos, se deve ter em conta seu cultura, ou sua maneira de aprender. A avaliação pode ser feita tanto mediante consulta a uma pessoa amiga que o conheça ou mediante a observação dos indícios que o próprio aluno ofereça diariamente no tocante a seus dotes individuais.

O ensino para as crianças deve acompanhar a capacidade infantil, que não alcança de pronto as coisas abstratas. Quando o jovem amadurece em idade e inteligência, no conhecimento das coisas e em experiência, pode examinar com maior atenção a vida, as artes e inventos humanos.

7) Planejamento escolar. Durante um ou dois meses o jovem permanecerá na escola para serem examinados seus dotes mentais; e os mestres se reunirão aparte quatro vezes cada ano para falar e consultar-se mutuamente sobre a capacidade de seus alunos e para designar qual seja a ocupação que segundo as disposições individuais convém a cada um deles. Essas medidas de planejamento das atividades didáticas constituíam uma proposta nova e original.

8) Avaliação. Vives opina que os exames não devem consistir em provas de comparação entre os discípulos de uma classe, mas sim em exercícios que se comparam com outros anteriormente realizados pelo aluno. Cada aluno seguirá sua trajetória própria uma vez que a comparação do aproveitamento escolar será feita com ele próprio, nas diversas etapas da programação escolar.

9) Lazer. A fatiga e decidia são remediados respectivamente por descansos periódicos, lúdica, recreio, narrações.

10) Disciplina. Ataque ao mestre. Alunos indisciplinados celebram com grande alegria, felicitações e aplausos entre si quando logram afastar um preceptor e a partir daí seguem ao encontro de todos os prazeres, como barcos sem leme e sem piloto.

12) Adolescência. O jovem adolescente é inseguro, está numa idade em que ele é propenso à crueldade, a viciar-se, a seguir facilmente o incentivo de companheiros e amigos que não prestam, ou sua própria índole libidinosa, e levam de roldão tudo o que se lhes opõe sem se incomodar com repreensões e castigos, servindo-lhes de estímulo seus companheiros e o atrativo do prazer".

Vives não aplica o castigo ao aluno como penalidade mas como estimulação. Ele assinala dois fatores que dificulta o estudo: a fatiga e a decidia. Para combater a primeira recomenda o descanso adequado; contra a decidia propõe que se estimule a vontade do bem, com argumentos baseados no respeito aos pais e mestres, ou no gosto pelo estudo e sua utilidade, ou em meditações piedosas; outros meios de mover a vontade são a aprovação e o castigo, verbal e corporal,i se bem que este se ha de restringir o mais possível.

Psicologia. Vai além de indicar que entre os homens existem diferenças de aptidões, e descreve também a variedade de gênios: Há os sóbrios e equilibrados, e também existem insanos, furiosos a intervalos ou permanentemente; ha os duros, os veementes, outros mostram índole débil; motivam-se alguns por causas grandes e justas, têm almas viris, enquanto outros, ao contrario, por coisas insignificantes o nulas e mudam com um sopro ligeiro".

Educação Moral. A formação na virtude não é necessária unicamente para que os homens possam lograr seu fim último na gloria e beatitude da união com Deus . A virtude se requer também por razões de conveniência pública, pois ela se traduz em costumes honestas e é do maior interesse para toda a sociedade que os jovens se preparem como membros úteis dela. Então a educação não é simples mas fundamentalmente formação. Aquele que de todo carece de conhecimentos, mas é em troca capaz em coisas de virtude merece os maiores louvores, sendo, pelo contrario, ignominioso e desprezível aquele instruído e educado nas artes humanas que se acha carente de virtude.

Feminismo. Antes de Vives o feminismo cristão pautava-se principalmente pela obra de Tertuliano, um dos primeiros escritores cristãos, nascido em Cartago, colônia Romana no Norte da África, por volta de 155-160 DC. Tertuliano em suas obras faz o exame dos valores da cultura greco-romana de seu tempo separando o que se podia aceitar e o que se devia rejeitar à luz dos preceitos cristãos. Segundo essa diretriz escreveu De cultu feminarum em que trata do comportamento da mulher cristã quanto ao vestir-se apropriadamente e ao uso de cosméticos. Sua visão da mulher como esposa e mãe virtuosa destinada ao lar e à obediência ao esposo, porém com a dignidade de única esposa e guardiã da virtude, é a posição cristã que irá prevalecer por toda a Idade Média.

Juan Luís Vives devotou um trabalho especial à instrução das mulheres, o De institutione feminae Christianae (1523), do qual foram feitas dezenas de edições. Embora siga o pensamento de Tertuliano, que balizou o feminismo medieval subordinando a mulher ao homem, Vives não obstante exige que a mulher não seja deixada na ignorância. Vives acreditava que as mulheres poderiam aprender Latim e Grego e alcançar um nível no qual pudessem ajudar seus filhos na sua preparação. Essa posição será um século e meio depois enfatizada pelo bispo francês Fénelon, em seu pioneiro e famoso livro Education des filles (1687). Assim, apesar de reter a posição medieval radicada no aforismo "A mulher pertence ao lar" Vives ultrapassa essa posição explicitando que a influência feminina deve estender-se ao Estado e à Igreja.

História. Em seus trabalhos retóricos e literários, especialmente no De disciplinis (1531), Vives formulou regras do estilo, insistindo especialmente na filosofia e na historia. Argumentou que a historia deve abarcar a atividade humana em sua totalidade e não se confinar aos relatos das guerras. Estava convencido de que a experiência ganha com o estudo da história pode contribuir para o desenvolvimento da prudência naquele que a estuda. Thucidides, Plutarco, and Livio foram selecionados como objeto de estudos e Vives acreditava que os estudantes por seu turno seriam esclarecidos e dedicados servidores do Estado.

Psicologia. A psicologia de Vives parte do conceito aristotélico da vida, segundo o qual nos vegetais a vida é puramente vegetativa; nos animais é vegetativa e sensível, e no homem, vegetativa, sensitiva e racional. Tampouco falta o alma a qual para Vives é um principio ativo essencial que habita em um corpo apto para a vida. Criado o homem para a felicidade eterna se lhe ha concedido a faculdade de aspirar ao bem para que deseje unir-se a ele.

No De anima et vita libri três, de 1538, ele não se preocupa com a essência da alma ou da mente mas limita-se à observação baseada na experiência sensível. Uma obra que de certo modo antecipa as idéias dos grandes pensadores do século seguinte à sua morte, com ênfase na indução como método psicológico e instrumento para as descobertas científicas. Ele discute a associação de idéias, a natureza da memória, e até psicologia animal. Sua idéia central é que o conhecimento tem valor somente quando é posto em uso. Mas estas posições têm que ser escrutinadas em suas obras, devido a não terem sido apresentadas de modo sistemático, o que explica a injusta obscuridade de seu nome.

Um comentador moderno, assinala que as obras de Juan Luís Vives (1492-1540) tem por linha mestra desenvolvimento, virtude que significa comedimento associado à dignidade, presentes nas admoestações que faz no De Tradendis Disciplinis acima citado e nas suas demais obras que tratam da educação nas quais enfatiza a necessidade do controle das paixões.

O terceiro livro do De Anima et vita(1538) é dedicado às paixões, e por ele Vives tem sido considerado o pai da psicologia moderna.

Filosofia Política. Finalmente, em vários tratados e em especial no De subventione pauperum (em 1526) Vives mostra-se um planejador do bem estar público. Nessa obra, proíbe a mendicância, expulsa da cidade os forasteiros pobres, advoga asilos para os insanos, escolas para albergar crianças. Vives é, porém, favorável a que os pobres recebam do governo um salário, em troca de alguma forma de trabalho, recomenda o treinamento para aqueles que não têm nenhum mister, e mesmo os mais deficientes, inclusive os cegos, seriam treinados para prestar algum serviço a fim de receber seu pagamento. Com certeza Vives discutiu essa questão com Thomas More, uma vez que este defende um rendimento incondicional para os pobres no seu Utopia, de 1516. More considerava que era mais barato para o estado evitar o roubo proporcionando uma renda mínima aos pobres, que cuidar de muitos ladrões e assaltantes a serem mantidos nas cadeias. A idéia de Vives é, ao contrário, a de um salário mínimo garantido pelo Estado ao trabalhador, para os que não tivessem oportunidade e preparo para trabalhos de maior valor.

Vives não tem, no seu De communione rerum (1535), uma posição definitiva a respeito da legitimidade da propriedade. Porém Vives diz que as coisas de que temos necessidade, a natureza nos as mostra, e ensina, que são muito poucas e estão bem à mão e são facilmente alcançáveis. O homem inventa coisas dispensáveis e supérfluas em número infinito e que lhe custam muito trabalho. Seu apetite desordenado é resultado de pouco saber e de falsas opiniões. O pensamento de Vives pode ter sido apossado por Rousseau, no que diz respeito à sua fé na sabedoria da natureza em prover as necessidades humanas.
 

(1) A peça teatral Vives & March, de autoria de Josep Sanz, levada a público em leitura dramatizada em Valência, a 29 de janeiro de 2001, na sede valenciana da Sociedade General de Autores e Editores (SGAE), dentro do III Ciclo de Leituras Dramatizadas daquela sociedade, é uma comédia dramática em oito atos que faz a reconstrução imaginária da maquinação cruel montada no Tribunal do Santo Oficio de Valência contra a família de Vives. O pai, a sua aia, a sua cunhada, a sua prima e mais oito membros da família serão queimados em praça pública. E sua mãe, Blanquina March, já falecida, é julgada por haver, aos 14 anos de idade, "judaizado por indução familiar" e, vinte anos passados de sua morte, será desenterrada para cremação de seus restos em praça pública. Se diz que Vives, que viria a casar-se com uma judia conversa, nunca mencionou em seus escritos esse drama familiar.

(2) Nossos comentários relativos à "Educação" e à "Pedagogia" nas obras de Vives baseiam-se principalmente na página Juan Luís Vives, do "Departamento de Pedagogia, Andragogia, Comunicacion y Multimedios" da Universidade Francisco de Paula Santander, no endereço: http://bari.ufps.edu.co/dptos/dppedand/index.htm.

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Rubem Queiroz Cobra           

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
13/01/2002.

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Juan Luís Vives. COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 2002.
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de www.cobra.pages.nom.br)

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