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Vida: Examinemos a vida e obra do Padre Antônio Vieira, figura
síntese de sua época, sob os seguintes aspectos: sua formação escolástica; sua
fidelidade ao absolutismo; seu envolvimento com o problema da perseguição aos judeus e
cristãos novos e da escravidão tanto dos africanos, na Bahia, como dos índios, no
Maranhão; sua fé romântica típica do sebastianismo; seu problema pessoal com a
Inquisição, e seu pensamento filosófico. Missionário jesuíta, orador, diplomata, mestre
da prosa portuguesa clássica, teve papel importante em ambas a história portuguesa e
brasileira; seus sermões, cartas e papeis oficiais constituem um valioso índice do clima
das opiniões no século 17 no mundo luso-brasileiro.
Primeiros anos. Vieira nasceu em
1608, em Lisboa, e faleceu em Salvador, em 1697. Era filho de Cristóvão Vieira Ravasco,
mulato, e de D. Maria de Azevedo. Estava Portugal sob domínio espanhol. Em 1578 o rei D.
Sebastião morreu em Alcácer-Quibir, na África, onde os mouros derrotaram os portugueses.
Não tendo herdeiros, o trono passou para seu tio-avô, o Cardeal D. Henrique que, já
velho, morreu em 1580. Filipe II, rei da Espanha, por ser neto de D. Manuel o Venturoso
pelo lado materno (Era filho de Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano, e de Isabel
de Portugal, filha de D. Manuel), assumiu o trono português. O Império Espanhol passou
então a incluir Portugal e as possessões portuguesas, até a revolução que restaurou o
trono português em 1640.
O pai de Antônio Vieira fora empregado em casa de D. Fernão Telles de
Menezes, conde de Unhão, o qual foi tomado para seu padrinho. Em casa dos condes de
Unhão havia trabalhado também o avó paterno de Vieira, Baltazar Vieira Ravasco. Esse avô
era branco, natural da vila de Moura, mas, quando empregado em casa dos Condes,
enamorou-se de uma serviçal mulata da mesma casa, que foi a avó paterna de Vieira. Dizem
os biógrafos que o romance motivou que ambos fossem despedidos. Perguntado na Inquisição
sobre seus antepassados, mais tarde, com 55 anos, Vieira disse nada saber dessa sua avó
paterna.
O avô pelo lado da mãe, Dona Maria de Azevedo, era pessoa influente,
Brás Fernandes de Azevedo, cristão velho. Este conseguiu para o genro nomeação para
escrivão dos agravos da Relação da Bahia, logo que esse tribunal foi instituído. Isto
motivou a vinda do pai de Vieira para o Brasil em 1609. Deixou em Portugal a mulher e o
filho, para busca-los três anos depois, em 1614, estando Vieira com seis anos.
Vieira teve um irmão e duas irmãs: Bernardo Vieira Ravasco, que ele
declarou, quando inquirido no Tribunal da Inquisição, ser alcaide-mor da cidade de Cabo
Frio do estado do Brasil, e secretário de estado e guerra do mesmo Brasil,
solteiro.Nasceu e faleceu na Bahia (1617-1697), foi Comendador da Ordem de Cristo e teve
vasta influência na Colônia; Dona Leonarda de Azevedo casada com o Doutor Simão Alves de
Lapenha desembargador dos agravos de Sua Majestade e Cavaleiro do hábito de Cristo. Essa
irmã morreu com o marido e os filhos em um naufrágio quando viajavam para Portugal -, e
Dona Maria de Azevedo que ele declarou solteira, mas que casou depois com Jerônimo Sodré
Pereira. Esses irmãos eram brasileiros, naturais e moradores da cidade da Bahia.
Teve mais as irmãs Catarina Ravasco de Azevedo, mulher do
Sargento-mor Rui Carvalho Pereira, falecida sem descendência, e Inácia de Azevedo
Ravasco que foi casada com Fernão Vaz da Costa Dória
Vieira foi educado no Colégio Jesuíta da Bahia. O ensino tradicional
jesuítico compreendia retórica, filosofia e teologia. Para aguçar em cada aluno o poder
de argumentação os jesuítas estimulavam debates sobre temas os mais extravagantes: O que
Deus fazia antes da criação do mundo, se poderia criar outros mundos mais perfeitos que
o nosso, se as almas das plantas e animais são divisíveis, qual era a estatura da Virgem
Maria, etc. Este tom argumentativo, dialético, permeia os sermões de Vieira como um
sestro que ficou dos tempos de estudante. Seu professor de filosofia foi o Padre Paulo
da Costa.
Manifestando seu desejo de entrar para a ordem jesuítica, Vieira teve
a franca oposição dos pais. Fugiu de casa à noite para o colégio, onde o reitor o
acolheu sem hesitação, por saber o que sua inteligência prometia. No dia seguinte, ano
de 1623, iniciou seu noviciado, contando então quinze anos. Levaram-no para a aldeia do
Espírito Santo onde os padres doutrinavam os indígenas, a sete léguas da cidade, para
distanciá-lo da família inconformada.
Juventude na Bahia. Vieira
ainda era um noviço quando, em 1624, ocorreu a invasão da Bahia pelos holandeses.
Em 1581 a Holanda havia proclamado sua independência, libertando-se
do domínio da Espanha. Em represália, Filipe II fechou todos os portos portugueses e
espanhóis aos navios holandeses. Essa medida constituiu um violento golpe na economia
holandesa, que controlava o transporte, o refino e a distribuição do açúcar brasileiro
na Europa. Para superarem esse obstáculo, os poderosos comerciantes holandeses criaram a
Companhia das Índias Ocidentais para a conquista dos mercados produtores, no caso o
Nordeste Brasileiro (Bahia e Pernambuco).
Quando a armada da Companhia das Índias Ocidentais chegou em maio a
Salvador o povo fugiu para os matos, grande parte dos habitantes de Salvador se
dispersou pelas aldeias dos índios, sob a direção dos padres jesuítas. O governador
geral Diogo de Mendonça Furtado foi preso e embarcado para a Holanda. Assumiu
interinamente o governo D. Marcos Teixeira, quinto bispo do Brasil, que adotou a forma
de guerrilha para combater o invasor.
Essa tática terminou por dar resultado e no ano seguinte, 1625,
chegou a esquadra espanhola e retomou a cidade. Os holandeses se renderam e quando,
pouco depois, chegou uma esquadra holandesa para reforço, nada mais pode fazer. Todas as
propriedades holandesas (navios, ouro, etc.) foram confiscadas e receberam navios e
mantimentos apenas suficiente para partirem de volta para a Holanda.
Vieira contava apenas 16 anos, e já conhecia latim tão admiravelmente
que os padres o encarregaram de relatar o acontecido na *Carta anua para o Geral da
Companhia em 1626, a primeira escrita após a interrupção de dois anos ocorrida naqueles
tempos anormais. Relembrando a noite da invasão, diz o jovem noviço: "Mas quem poderá
explicar os trabalhos e lástimas desta noite? Não se ouviam por entre as matas senão ais
sentidos e gemidos lastimosos das mulheres que iam fugindo; as crianças choravam pelas
mães, e elas pelos maridos, e todos, segundo a fortuna de cada um, lamentavam sua sorte
miserável".
Encerrados os dois anos do noviciado vividos no período da invasão,
Vieira fez os votos simples de pobreza, obediência e castidade e passou de imediato ao
treinamento pedagógico a que os candidatos às ordens sacras estavam obrigados na
Companhia de Jesus. Em 1627 está em Olinda, lecionando retórica no colégio jesuíta. Mas
logo é chamado de volta à Bahia, com certeza pela falta sentida de seus préstimos.
Somente em 1634 seria ordenado padre, e diz seu biógrafo J. Lúcio de Azevedo que nada se
sabe do período que precedeu à sua ordenação.
Ordenado padre, as ocupações Vieira são o magistério no colégio e nas
aldeias indígenas, e a pregação. Seu primeiro sermão foi pronunciado na Quaresma de
1633, antes de receber as ordens. Em 1635 escreveu o seyu livro "Curso Filosófico"
adotado no Colégio todo o século XVIII. Cedo apareceu como erudito e como orador
eloqüente. Alguns de seus sermões mais enérgicos sobre a guerra holandesa e situação dos
escravos foram feitos na Bahia. Em 1638 os holandeses, vindo de Pernambuco, tentaram
tomar Salvador pela segunda vez, mas não conseguiram. Com o invasor às portas, em número
de 3.400 soldados comandados por Maurício de Nassau, Vieira usou, para o sermão na
igreja de Santo Antônio, no dia do santo, o versículo do Livro dos Reis: "Porque eu
defenderei esta cidade, para salva-la, por mim próprio por meu servo David".
O irmão de Vieira foi ferido nas lutas pela recuperação de Itaparica.
Após um sítio de 40 dias que logrou impor à cidade, a tropa assaltante teve de
retirar-se.
Vieira trabalhou entre os escravos índios e negros até 1641, quando
foi incumbido de levar congratulações ao Rei D. João IV em sua ascensão ao trono.
Rubem Queiroz Cobra
Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia
Aberta em 28/03/97
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