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O PADRE VIEIRA

Vida, época, filosofia e obras do Padre Vieira - VII

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Finalmente, a perseguição pela Inquisição é outro elemento identificador do filósofo moderno, pois o Santo Ofício está precisamente atento e contrário à filosofia moderna quanto a seus métodos, idéias e descobertas. O desassombro de Vieira em defender a ordem prática, a liberdade de culto, o repatriamento dos judeus portugueses, tudo representa uma inimaginável revolução e um rompimento com o pensamento medieval que vai acontecer de fato somente mais de um século depois, e ainda assim apenas parcialmente, no governo de Pombal. Até lá a idéia de padroado e o absolutismo monárquico, o ensino jesuítico e a Inquisição manterão ao largo a ciência e a liberdade de pensamento, em Portugal e no Brasil. E Vieira já dizia, no Sermão da Sexta-feira da Quaresma, de 1662, em plena Capela Real:, numa velada crítica a São Tomás, o Doutor Angélico: "porque até entre os anjos pode haver variedade de opiniões, sem menoscabo de sua sabedoria, nem de sua santidade; e para que acabe de entender o mundo, que ainda que algumas opiniões sejam angélicas, nem por isso são menos angélicas as contrárias". Este Sermão é todo vazado em termos de aprovação da verdade, e contrário ao culto da autoridade, não importando quem fala, mas a verdade do que é dito. E no Sermão de São Pedro, de 1644, adverte: "Ora, desenganem-se os idólatras do tempo passado, que também no presente pode haver homens tão grandes como os que já foram, e ainda maiores".

Vieira é um dos primeiros a assinalar com entusiasmo o valor das invenções modernas. Em seu História do Futuro admira-se do poder que a pólvora trouxe para a arte da guerra, e a bússola para a arte de navegar, e louva a invenção da imprensa, pela qual "a doutrina (a religião) e a ciência particular dos homens insignes se faz comum a todos em tão distantes lugares...".

Está, sem dúvida muito a par do que escreve seu contemporâneo Descartes, um autor proibido, e com ele concorda aderindo claramente à posição dualista revolucionária daquele filósofo, inteiramente contrária à concepção tomista de unidade substancial do homem ao afirmar, no Sermão 27º. do Rosário", que o homem "é feito de duas peças, alma e corpo". Seu comentarista Ivan Lins também dá como inquestionável que Vieira tenha lido "Os Meteoros", de Descartes, o qual havia realizado experiências para reproduzir o arco-íris e descobrira que era apenas refração da luz e não milagre celeste em cada aparição nos céus. Vieira diz: "na Íris ou Arco celeste, todos os nossos olhos jurarão que estão vendo variedade de cores: e contudo ensina a verdadeira Filosofia que naquele Arco não há cores, senão luz e água".

Psicologia. A quantos ilustres filósofos e psicólogos não se antecipa Vieira ao afirmar, como faria pouco depois Pascal, que a razão tem razões que não lhe são próprias, mas que partem do coração? É o que ele diz no Sermão da Quinta Quarta-feira da Quaresma, de 1669: "E os erros dos homens não provêem apenas da ignorância, mas principalmente, da paixão. A paixão é a que erra, a paixão a que os engana, a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras. Os olhos vêm pelo coração, e assim como quem vê por vidros de diversas cores, todas as coisas lhe parecem daquela cor, assim as vistas se tingem dos mesmos humores, de que estão, bem ou mal, afetos os corações". Um século depois Pascal teria falado assim, não fosse sua irresistível fascinação, tipicamente francesa, por cunhar frases de efeito, donde seu dito: "O coração tem razões que a própria razão desconhece"..

Na psicologia de Vieira encontramos também uma teoria sobre os sonhos em que os dá como realização dos desejos do indivíduo, deixando para Freud apenas acrescentar sua teoria dos símbolos oníricos. É verdade que Vieira inicia com a teoria inventada por Aristóteles, em que este se vale de analogia tipicamente desprovida de base experimental. Mas Vieira corrige seu curso terminando por afirmar, nos Sermões de São Francisco Xavier Dormindo: "Os sonhos são uma pintura muda, em que a imaginação a portas fechadas, e às escuras, retrata a vida e a alma de cada um, com as cores das suas ações, dos seus propósitos e dos seus desejos." E prossegue com grande riqueza de exemplos.

História. Em sua História do Futuro advoga Vieira uma ciência da história, para que os historiadores se afastem os erros que cometem por culpa da paixão. "Quem quiser ver claramente a falsidade das histórias humanas, leia a mesma história por diferentes escritores, e verá como se encontram, se contradizem e se implicam no mesmo sucesso, sendo infalível que um só pode dizer a verdade e certo que nenhum a diz". No Discurso apologético - Palavra do Pregador empenhada e defendida, Vieira define a história como "aquele espelho em que olhando para o passado, se antevêem os futuros"

Raças. A tão aplaudida afirmação de Buffon, um século depois de Vieira, de que o clima influi nas raças determinando-lhes a cor da pele não representava nenhum risco para aquele cientista, ao contrário do perigo que representou para Vieira, um século antes, afirmar a mesma tese, contrária à tradição bíblica da maldição de Noé contra Cam e seus descendentes. Diz Vieira, em outro trecho do Sermão da Epifania pregado na Capela Real em 1662: "a causa da cor é o sol. As nações, umas são mais brancas, outras mais pretas, porque umas estão mais vizinhas, outras mais remotas do sol". E Vieira sabia de experiência, porque andou por onde Buffon nunca esteve.

Vieira era também um defensor dos direitos humanos e pregou contra a exploração do negro e do índio, para grande aborrecimento dos colonos brancos no Brasil. Vários de seus discursos versam sobre a situação dos escravos africanos. Não se pode, é claro, saber quais sentimentos teria Vieira, colocando-se ao lado dos judeus e cristãos novos portugueses, porque tudo que lhe era permitido alegar, e ainda assim com grande risco para si como ficou provado, era um motivo patriótico. É verdade que seu envolvimento nos negócios do Estado abriram seus olhos para o vulto dos recursos exigidos para a restauração do reino, e os judeus representavam riqueza. No entanto, ele busca favorecer os judeus além do que os interesses econômicos requeriam que fizesse. Mostra nas reivindicações pelos judeus igual pertinácia e igual risco quanto teve na defesa dos índios do Maranhão.

O sistema solar. Na ambigüidade do seu Sermão da Primeira Dominga do Advento, pregado em 1652 na Capela Real, podemos ver o Vieira dividido entre aquilo que estava obrigado a dizer e aquilo em que realmente acreditava a respeito do Universo. Primeiro, negando, ele diz: "Copérnico, insigne matemático do próximo século, inventou um novo sistema do mundo, em que demonstrou ou quis demonstrar (posto que erradamente), que não era o sol o que se movia e rodeava o mundo, senão que esta mesma terra em que vivemos, sem nós o sentirmos, é a que se move, e anda sempre à roda. De sorte que, quando a terra dá meia volta, então descobre o sol, e dizemos que nasce, e quando acaba de dar a outra meia volta, então lhe desaparece o sol, e dizemos que se põe." E continua, agora com fé: "E a maravilha deste novo invento, é que na suposição dele corre todo o governo do universo, e as proporções dos astros e medidas dos tempos, com a mesma pontualidade e certeza com que até agora se tinham observado e estabelecido na suposição contrária."

Neste campo Vieira também conhece a dúvida que surge na primeira metade da idade moderna com respeito ao que existe entre os objetos e a mente, ou o que existe no espaço entre os astros, dado que, se o vácuo existe, então seria forçoso admitir que todas as forças e impressões se dão por um poder de influência à distância, sem nada a permear entre os objetos e os sentidos. Esta questão, ainda hoje mal resolvida, tem uma alusão no Sermão da Terceira Quarta-feira da Quaresma, pregado na Capela Real em 1670, onde Vieira diz: "Admirável é a diligência e cuidado que a natureza põe em impedir o vácuo, e que em todo o universo não haja lugar vazio".

Disputatio. Ser um filósofo moderno não erradicou do vocabulário de Vieira os jargões da escolástica nem o tirou-lhe o gosto pelas disputas com que os professores jesuítas buscavam aguçar a inteligência dos jovens discípulos. No Sermão do Rosário Vieira é o velho racionalista, e se propõe um questão daquelas insolúveis, tão a propósito para os jogos dialéticos: "Perguntam os filósofos se Deus pode fazer tudo quanto pode? Uns negam, outros afirmam, e uns e outros se implicam. Porque depois de Deus fazer tudo o que pode, ou pode fazer mais alguma coisa ou não? Se não pode, deixou de ser Deus, porque não há Deus sem onipotência. E se pode, segue-se que aquilo que fez, não era tudo", não e perfeito.

Outra manifestação desse gosto pelas disputas é a citada participação sua no torneio filosófico havido nos salões do palácio da Rainha Cristina, em Roma. No desafio, o Padre Jesuíta Jerônimo Cataneo defendeu a posição de Demócrito com respeito à avaliação da vida, enquanto Vieira defendeu a posição de Heráclito. Demócrito ria sempre e Heráclito, chorava. Diz, mais ou menos, "Se no paraíso estava ociosa a potência do chorar, na miséria de hoje está ociosa a potência do rir". Considerando a maldade do homem diz que ao certo o homem deveria chorar a respeito de sua própria maldade, mas então dá-se um paradoxo: Se não chora, mostra que não é racional: e se ri da sua própria maldade, é uma fera, mostra que também os irracionais, as feras, riem. (Sermões, Porto, 1909, vol. XV, p. 399)

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
28/03/1997

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Padre Antônio Vieira. COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 1997.
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