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THOMAS MORE

Vida, filosofia e obras de Thomas More - IV

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Nos dezoito meses seguintes More viveu recluso, procurando evitar uma ruptura pública com o rei. Ficou ausente da coroação de Ana Bolena. Mas foi intimado a responder perante quatro membros do Conselho, que o interrogaram sobre a causa de não aprovar a posição nacional contrária ao papa.

Em 1534, com seu amigo íntimo, futuro mártir como ele, João Fisher, ele recusou a render homenagem ao Rei como Chefe da Igreja da Inglaterra e foi preso.

Em 14 abril, More foi chamado ao palácio Lambeth para ser interrogado a respeito do juramento e, se recusando fazê-lo, foi deixado sob a custódia do abade de Westminster. Quatro dias depois foi removido para a Torre. As terras que havia recebido da coroa em 1523 e em 1525 foram confiscadas.

Na prisão, apesar de ter agravados alguns problemas de saúde e do perigo em que estava, não perdeu o bom humor habitual e gracejava com os amigos e com os familiares que iam visitá-lo, aparentemente tão feliz quanto nos velhos tempos em Chelsea. Estando sozinho, entregava-se a preces, exercícios de penitência e a escrever sobre temas espirituais. De então é o seu Dialoge of confort against tribulation ("Diálogo do conforto na tribulação"), um clássico da literatura e da sabedoria cristã, além de cartas aos membros de sua família e aos amigos.

Em 1 julho, More foi condenado por alta traição por um colegiado em Westminster Hall. Entre seus juizes estavam alguns naturalmente suspeitos: o pai, o irmão e um tio de Anna Bolena.

Disse a corte que não poderia contrariar sua consciente e desejou a seus juizes que "nós todos poderemos futuramente ainda nos encontrarmos alegremente no céu, para a salvação eterna". O júri o considerou culpado e foi sentenciado à morte por traição, sentença que determinava fosse afogado, enforcado e esquartejado em Tyburn. Mas alguns dias depois a pena foi mudada por Henrique VII para decapitação e exposição de sua cabeça.

A execução ocorreu na Torre (Tower Hill) "antes do relógio marcar nove" em 6 de julho de 1535, e o corpo enterrado na igreja de São Pedro ad vincula. A cabeça, depois de escaldada, foi exposta na ponte de Londres por um mês quando sua filha Margaret Roper subornou o homem encarregado de a jogar no rio e pode leva-la para sepultá-la.

Em 1824 uma caixa de chumbo foi encontrada no jazigo da família Roper em St. Dunstan, Canterbury, a qual, ao ser aberta, continha uma cabeça que presumivelmente era de Thomas More.

Mesmo quando se tornou Lorde Chanceler do Reino More usava a camisa de pêlos como mortificação, a qual chegava a ficar suja de sangue do seu corpo. Somente no dia anterior ao de sua execução, essa camisa foi enviada a sua filha mais velha Margaret Roper junto com sua última carta. Esta relíquia é conservada pelos Agostinianos de Abbots Leigh, Devonshire. Thomas More foi canonizado em 19 de maio de 1935, pelo papa Pio XI. Em 31 de Outubro de 2000 o papa João Paulo II o proclamou patrono dos governantes e dos políticos. Sua festa é celebrada a 22 de junho.

 

PENSAMENTO:

O pensamento sócio político de Thomas More é a retomada do pensamento político de Platão. No renascimento do pensamento grego na Europa ocidental; nesta retomada está, talvez, a maior importância da sua obra.

O termo "Utopia", pela primeira vez usado por More no seu De optimo reipublicae statu deque nova insula Utopia (Louvain, 1615), foi construído do grego ou, "não" ou "nenhum", e topos "lugar", significando, portanto "lugar nenhum ou imaginário" e não "sociedade perfeita e desejável", como o termo passou a ser traduzido.

No primeiro livro More descreve os problemas sociais da Europa, dividida pelo egoísmo e ambição de poder e riqueza. No segundo livro More descreve o estado pagão comunista, governado pela razão, em notável contraste com a confusa e injusta Europa cristã.

A raiz do mal na Europa estaria na instituição da propriedade privada, sustentada pela tese de que uma nação não pode prosperar se a propriedade fosse comum, porque não haveria incentivo ao trabalho, consequentemente os homens se tornariam preguiçosos e a violência e o derramamento de sangue resultariam. É para responder esse argumento que Hythloday descreve a vida e as instituições no país dos utópicos.

O personagem. More enche o enredo com detalhes destinadas a dar a impressão de realidade a toda a história. O herói da Utopia é um viajante, Rafael Hythlodaye, que More e um amigo encontram numa praça frente à catedral, na Antuérpia. O encontro teria acontecido durante a visita de More àquela cidade, quando de sua missão a Bruges, no ano anterior (vide acima). O perfil do personagem era extremamente convincente para a época, pois corresponde ao dos portugueses de origem judaica que então viajavam a negócios, na esteira dos descobrimentos feitos por Portugal nas duas décadas anteriores. Eram homens instruídos, argutos observadores, corajosos e dispostos a auferir no seu comércio o lucro para compensar o grande risco de capital de suas operações. A maioria desses portugueses de pele morena, "queimados de sol como os marujos" havia de fato se mudado para os Países Baixos devido à perseguição religiosa em seu país, daí a grande aparência de autenticidade do encontro. Ninguém melhor talhado para espantar-se enormemente com a ilha da utopia.

A Ilha da Utopia. Em uma viagem ao Brasil, Raphael Hythlodaye, foi dar às costas do Cabo Frio, e se pôs a caminhar até que, por acaso, encontra a ilha "lugar nenhum", a "Utopia", onde vive uma sociedade comunista. Maravilhado com a paz e o progresso da ilha, Hythlodaye converte-se em ardente defensor do sistema, e ai está, talvez, o primeiro ponto fraco na tentativa de More de dar credibilidade à história. Porém no mais é tão convincente que seus leitores ficam intrigados tentando descobrir onde está a verdade e onde começa a fantasia.

Na terra encontrada pelo convertido Rafael todos trabalham igual, todos são iguais. Todos têm os mesmos direitos. Todos estão obrigados a trabalhar um mínimo de seis horas cada dia naquilo em que estiver melhor capacitado. Existem grupos compreendendo o governo, os padres, os juizes e os sábios, mas não se distinguem como classes econômicas. Independentemente de sua atividade em qualquer desses grupos, os utópicos são obrigados a passar um certo tempo trabalhando a terra, pois se trata de uma sociedade basicamente agrícola. Todos aprendem as práticas agrícolas para servir ao bem comum. Para isto a "Utopia" mantém fazendas coletivas. Se ocorrer superabundância de produtos agrícolas, são decretadas férias coletivas.

Os utópicos estavam livres da escassez de comida, de pagar contas, e de outras preocupações próprias das outras sociedades, e por isso podiam dedicar-se aos prazeres da música, da leitura, dos passeios em seus jardins, gozando a vida plenamente.

Justiça. Os culpados de crimes hediondos eram reduzidos à escravidão. Esse sistema era internacionalizado, porque os sentenciados à morte em outros países eram buscados para serem escravos na "Utopia".

As tarefas mais duras eram deixadas aos escravos. A preparação das refeições estava a cargo dos escravos. Grupos alternados de mulheres supervisionavam a cozinha comunitária.

O suicídio era permitido, desde que autorizado por um sacerdote que poderia mesmo aconselhá-lo mediante uma causa relevante. Cometido sem essa aprovação, significava um funeral desonroso para o morto.

O divórcio era permitido por causa justa, significando que, havendo um culpado, esse não poderia casar-se novamente.

Virtudes. A principal virtude utópica é a humildade, uma vez que o orgulho era considerado um vício social. As crianças aprendiam isto desde os primeiros anos. More comenta, pela boca de seu personagem, que tanto os homens quanto os animais são ávidos e egoístas, mas que apenas o homem se vangloria de superar o outro em excesso de consumo. Os utópicos estavam obrigados a vestir um uniforme, para evitar qualquer tentativa de ostentação. Igualmente e pelo mesmo motivo, deviam mudar de casa a cada dez anos e fazer suas refeições em refeitórios comuns, para que ninguém morasse ou comesse melhor que o outro.

A falta do orgulho serve para livrar "Utopia" das classes e impedir também o discórdia social. Uma comunidade sem orgulho seria como uma única família unida.

Religião. A religião é o fundamento do Estado utópico. Todos os utópicos deviam acreditas, por lei, tanto na imortalidade da alma como na recompensa ou punição em uma vida após a morte terrena. Todas as religiões são permitidas, apenas o ateísmo não é tolerado. Os sacerdotes são de extrema santidade, e existem em número apenas suficiente. Mulheres viuvas e idosas também podiam ser escolhidas para o sacerdócio, o qual era considerado grande honra.

Governo. A "Utopia" possuía cinqüenta e quatro cidades. A forma de governa é representativo. De cada cidade três homens experientes e sábios eram mandados para a capital cada ano para deliberar sobre os negócios públicos.

Para cada grupo de trinta fazenda coletivas havia um líder, o filarca. Cada grupo de dez filarcas e as famílias que representavam ficavam sob a autoridade do filarca chefe. O príncipe da ilha era escolhido para toda a vida pelos filarcas, entre quatro candidatos indicados pelo povo.

Poderia ser deposto se suspeito de tirania. Devido a rigidez da educação do povo, eram necessárias poucas leis, as quais raramente eram desobedecidas.

Moeda. Não existe moeda na "Utopia". As sobras do consumo são vendidas a troco de ouro, prata, ferro e objeto de que os utópicos necessitem. O ouro é utilizado para alugar soldados mercenários nos países vizinhos.

Propriedade. A propriedade de qualquer espécie era proibida. Para evitar quaisquer vinculações hereditárias, as crianças eram transferidas de lar em lar, dependendo da ocupação a que estavam destinadas. Rafael conclui sua narrativa atribuindo a felicidade e concórdia que reinam na "Utopia" à ausência da propriedade privada.

Repercussão. O livro de More foi um sucesso imediato, e foi traduzido na maior parte das línguas européias. Foi recebido seriamente por muitos, - um grupo chegou a propor uma cruzada em um navio fretado para converter os comunistas da "Utopia".

Se diz que More, na verdade, compôs uma obra sem outra pretensão que a de fazer uma crítica divertida à sociedade de sua época. Realmente, este é o estilo também de Desidério Erasmus, de Roterdã, - acima citado, - que foi seu grande amigo. Em seu Elogio da Loucura Erasmo faz uma sátira salientando a falta de bom senso e as contradições dos costumes da época. O modo sempre afável e a inclinação pelos epigramas (dito mordaz e picante) humorísticos de More parecem reforçar a idéia de que o Utopia é apenas uma crítica despretensiosa que More coloca na boca de seu personagem Hythloday. Mas, quando se considera sua firmeza na fé, que o levou ao martírio, tem-se a impressão contrária, de que ele realmente acreditava em uma reforma social cristã. Para muitos seu livro exprimia o desejo ingênuo de uma revolução moral, pela qual os valores institucionais fossem substituídos pela verdadeira moral cristã e pelos valores humanos autênticos.

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
17/02/99

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Thomas More. COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 1999.
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