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SPINOZA

Vida, época, filosofia e obras de Benedito Espinosa

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original:cobra.pages.nom.br
)

 FILOSOFIA

Esta página:

Teoria do conhecimento
Deus
Corpo e espírito
Vontade e liberdade
O bem, o mal e o belo
Teoria política
Religião
Educação
Principais trabalhos
Obras

....
P.M.F
(Perguntas mais frequentes)

....

Contacto: Críticas, sugestões e alertas são bem vindos. Clique em: Opinião!

 

Teoria do Conhecimento. A filosofia de Spinoza é considerada uma evidente resposta ao dualismo da filosofia de Descartes (1596-1650) a qual, na opinião dele, fazia o mundo impossível de ser entendido. Era impossível explicar a relação entre Deus e o mundo, ou entre o espírito e o corpo, ou apresentar fatos devidos a uma vontade livre.

Spinoza sustentava que existe um sentido no qual as definições podem ser corretas ou incorretas. Uma definição confiável, ele afirmava, deveria deixar clara a possibilidade ou a necessidade, conforme possa ser o caso, da existência do objeto que foi definido. Portanto, uma definição correta é sempre verdadeira e a partir dessa definição se podem deduzir outras verdades; e por via de tais deduções é possível construir um sistema metafísico isto é, uma apresentação do mundo como um todo perfeitamente inteligível. Estava convencido de que cada aspecto da realidade é necessário e que toda possibilidade logicamente coerente deve existir. Portanto é possível demonstrar a metafísica dedutivamente, através de uma série de teoremas derivados, etapa por etapa, de conseqüências necessárias a partir de premissas auto-evidentes, expressas em termos que são auto-explicativos ou definidos com uma correção inquestionável. Porém tal método garante conclusões verdadeiras somente se os axiomas são verdadeiros e as definições corretas. Com este pensamento, voltou-se para o método geométrico à maneira dos Elementos, de Euclides. Sua obra prima, a "Ética", foi escrita desse modo - "Ordine Geometrico Demonstrata". O que Spinoza quer dizer com "prova geométrica" é precisamente que, se aceitamos as definições e os axiomas dados, e desde que as deduções sejam corretamente feitas, então temos que aceitar as conclusões. Cada uma das cinco partes da "Ética", sua obra fundamental, abre com uma lista de definições e axiomas, dos quais são deduzidas várias proposições, ou teoremas. Porém, porque a Ética começa justamente com uma definição básica, a definição de "substância", que é aquilo que necessariamente existe, fica claro que, se rejeitamos sua definição de substância estamos rejeitando todas as deduções que ele faz a partir dela; rejeitando, portanto, todo o seu sistema.

Spinoza recomenda que façamos uma cuidadosa distinção entre as várias formas de conhecimento e confiemos apenas nas melhores.

Primeiro, existe o conhecimento por ouvir dizer, pelo qual, por exemplo, sei o dia de meu nascimento.

Segundo, existe a experiência vaga, o conhecimento "empírico" no sentido depreciativo, como quando um médico sabe de um tratamento, não através da formulação científica de testes experimentais, mas por uma "impressão" de que "costuma" dar certo.

Terceiro, existe a dedução imediata, ou seja, conhecimento a que se chega pelo raciocínio, como quando concluo da imensidade do sol por saber que a distancia diminui o tamanho aparente dos objetos. Este último tipo de conhecimento é superior aos outros dois, mas está ainda sujeito a uma repentina refutação pela experiência direta.

Quarto, a forma mais elevada de conhecimento, que provém da dedução imediata e da percepção direta, como quando vemos imediatamente que 6 é o número que falta na proporção, 2: 4 :: 3: x; ou quando percebemos que o todo é maior que a parte. Spinoza acredita que os homens versados em matemática conhecem Euclides principalmente por essa forma intuitiva; mas confessa tristemente que "as coisas que consegui saber através dessa forma de conhecimento têm sido muito poucas até agora".

Comentando o conhecimento empírico (Segunda forma), Spinoza sustentou que toda experiência dos sentidos e toda generalização não científica a partir dessas experiências é inadequada. Nenhum objeto pode ser isolado do resto da natureza; portanto, ninguém pode afirmar a verdade total sobre ele, uma vez que isto envolveria a natureza inteira. O conhecimento deste tipo foi chamado por Spinoza "opinião" ou "imaginação". Se, no entanto, como acontece na terceira forma, a consciência é dirigida somente para aquelas propriedades que todos os objetos tem em comum, não haverá a distorção que ocorre na experiência dos sentidos. Este tipo de conhecimento é chamado razão. Por esse caminho Spinoza dava conta da possibilidade do conhecimento a priori na geometria, física geral e psicologia geral.

A quarta forma, que é a intuição (6 é o número que falta na proporção, 2: 4 :: 3: x), parece ser adequada ao conhecimento dos objetos individuais. É possível, pela intuição afirmar de qualquer coisa que ela depende de Deus como sua causa completa, imanente. Talvez pelo termo intuição Spinoza referisse a um tipo de experiência mística, o insight acompanhado por uma forte emoção que ele chamou "o amor intelectual de Deus" na dependência de todas as coisas, incluindo o ser humano ele mesmo, no total da natureza.

Substância e Deus. Na primeira parte da "Ética", "Com respeito a Deus", Spinoza, após apresentar as definições e axiomas pertinentes, deduz 36 proposições sobre a natureza de Deus. Destas a mais importante sem dúvida é a 14, que diz: "Além de Deus, nenhuma substância pode ser dada ou concebida". Ela é a proposição panteísta de Spinoza, na qual ele faz Deus idêntico ao universo; tudo que existe, sob qualquer forma, é parte de Deus. Esta proposição conflita com a idéia mais comum de que Deus é transcendente, distinto da sua criação, separado do mundo físico e dos homens. O argumento de Spinoza a esse respeito é o seguinte: Não é possível existirem duas substancias com os mesmos atributos; ora, Deus tem todos os atributos; então não sobra qualquer atributo possível que já não esteja em Deus e portanto nenhuma outra substancia pode existir além de Deus mesmo.

Pensamento e extensão são dois atributos. Existem coisas que são pensamento e existem as coisas do mundo físico que têm a extensão. No entanto, para Spinoza, Deus já possui necessariamente esses dois atributos, pensamento e extensão, porque sua perfeição exige que tenha todos os atributos possíveis. Consequentemente esses atributos não pertencem a uma substância "pensamento" ou a uma substância "coisa física" e sim pertencem a Deus que tem todos os atributos possíveis. Logo, Deus é a única coisa que existe. Necessariamente, as outras coisas só existem em Deus mesmo, como parte d'ELe.

Spinoza chama de substancia aquilo que verdadeiramente existe, o ser interior ou a essência. Substancia então é aquilo que eterna e imutavelmente é, aquilo que pode ser pensado como tendo existência completamente independente e do qual todo o resto participa como forma ou modo transitório. Porque não pode ser explicada por nenhuma outra coisa, ela deve ser sua própria causa, ou "necessariamente existente". Como tal, pode haver apenas uma única substância, e Spinoza a identifica com Deus e ao mesmo tempo com a Natureza inteira. Spinoza assim aporta ao panteísmo.

Mas, ainda assim, Spinoza não exclui que haja um Criador e a coisa criada. Spinoza concebe a natureza, que é Deus, sob um duplo aspecto. Como um processo ativo e vital, que chama "natura naturans", natureza criadora; e como o produto passivo desse processo, "natura naturata" natureza criada, a matéria e o conteúdo da natureza, suas florestas e ventos e águas, suas colinas e campos e miríades de formas externas. E assim explica essas duas naturezas contidas na substância (que seria Deus ou uma natureza geral): Se duas coisas, dois universos, tiverem os mesmos atributos, então trata-se da mesma coisa, ou do mesmo universo, ou da mesma substância, como visto. No entanto, a substância única, que contem todos os atributos, pode mostrar diferenças, não nos atributos, porém no que Spinoza chama "modos". Um modo (ou modificação) é uma propriedade mais restrita do universo, o modo como um atributo aparece em um nível inferior. Modos variam, aparecem e desaparecem.

Um modo é uma coisa ou acontecimento individual, qualquer forma ou aspecto especial, que a realidade assume transitoriamente; você, seu corpo, seus pensamentos, seu grupo, sua espécie, seu planeta, são modos; tudo isso são formas, modos, quase que literalmente estilos, de alguma realidade eterna e invariável que está por trás e por baixo deles. Por exemplo, a forma de um objeto, se redondo, se tem superfície irregular, se quadrado, etc., é uma modificação ou "modo" do atributo "extensão". Os modos, como pensamento de Deus, são modelos que acomodam as coisas nas formas em que as conhecemos de corpos, de fatos, de acontecimentos. Por isso as coisas são transitórias, existem como movimento, enquanto a matéria, temporariamente, se integra no "modo" ou modelo de cada coisa; são a natureza naturante Natura naturans, e os corpos são a coisa formada, Natura naturata. Mas esta é somente mais uma maneira de falar porque substancia (essência) e modos (acidente), a ordem eterna (essência) e a ordem temporal (acidente), a natureza ativa ou natura naturans (essência) e a natureza passiva ou natura naturata (acidente), Deus (essência) e o mundo (acidente), todas essas classificações são, para Spinoza, coincidentes e dualidades sinônimas. Cada uma divide o universo em essência e acidente.

Corpo e Espírito. Todas as coisas, ainda que em grau diverso, são animadas. Vida ou mente é um aspecto ou fase de tudo que conhecemos, assim como a extensão material ou corpo é um outro aspecto, uma outra fase. São essas as duas fases ou atributos (como os denomina Spinoza) através dos quais percebemos a ação da substancia ou Deus. Nesse sentido, Deus, o processo universal e realidade eterna por trás do fluxo das coisas, pode ser considerado como tendo uma mente e um corpo. Nem a mente nem a matéria são isoladamente Deus; mas os processos mentais e os processos moleculares que constituem a história dupla do mundo eles sim, suas causas e leis, são Deus. A vontade de Deus é antes a soma de todas as causas e de todas as leis e o intelecto de Deus é a soma de todas as mentes. "A mente de Deus", como Spinoza a concebe, "é toda a mentalidade que está espalhada pelo espaço e pelo tempo, a consciência difusa que anima o mundo". Portanto, Deus não é transcendente ao universo, nem pode ter personalidade, providencia, livre vontade e propósitos. Então, mesmo o homem bom, apesar de que ame a Deus, não pode esperar que Deus o ame em retorno.

A substância, que é única na visão de Spinoza, tem uma infinidade de atributos. Por "atributos" entenda-se "aquilo que o intelecto pode perceber da substância, como constituinte de sua essência". Desses atributos somente o pensamento e a extensão são conhecidos do homem. Aplicando esse esquema metafísico ao ser humano, Spinoza argumenta que o corpo do homem é um modo sob a extensão, um modo complexo devido a sua unidade, que vem da manutenção de um modelo constante de relações entre partes cambiantes. O espírito humano é, similarmente, um sistema mantendo o mesmo modelo de relações enquanto mudando as partes. No homem não há senão uma entidade, que é vista interiormente como mente, e exteriormente como matéria. O que existe na realidade é a mistura inextricável, a unidade de ambas, mente e matéria. A mente e o corpo não agem um sobre o outro, porque não há outro. "O corpo não pode determinar que a mente pense; nem pode a mente determinar que o corpo fique em movimento ou em repouso, ou em qualquer outro estado", pela simples razão de que "a decisão da mente e o desejo e determinação do corpo... são uma só coisa". Pois não existem dois processos nem duas entidades. Não há senão um processo, visto interiormente como pensamento e exteriormente como movimento.

E o mundo todo é dessa forma unamente duplo; onde quer que haja um processo "material" externo, ele será apenas um lado ou aspecto do processo real, que a um exame mais amplo, mostraria incluir também um processo interno que é correlativo, em graus diferentes e variados, ao processo mental que vemos dentro de nós. Esse processo "mental" e interior corresponde em cada estágio ao processo "material" e externo; "a ordem e conexão das idéias é a mesma que a ordem e conexão das coisas." Isto quer dizer que o universo é um todo espacial que é consciente em toda sua extensão, e "Todas as coisas..., como ele diz, "são vivas"- uma posição conhecida como panpsiquismo.

Da mesma forma que a emoção é parte de um todo, - do qual as mudanças nos sistemas circulatório, respiratório e digestivo são a base -, a idéia, juntamente com as modificações "corpóreas", é parte de um processo orgânico complexo. Ate mesmo as sutilezas infinitesimais da reflexão matemática têm repercussão no corpo e, inversamente "não pode acontecer nada ao corpo que não seja percebido pela mente, e consciente ou inconscientemente por ela captado" diz Spinoza. "Substância pensante e substância extensa são uma coisa única, compreendida ora através deste, ora através daquele atributo" ou aspecto. "Certos judeus parecem ter percebido isso, ainda que confusamente, pois disseram que Deus e seu intelecto e as coisas concebidas pelo seu intelecto eram uma só coisa.

Vontade e liberdade. Depois de eliminar a distinção entre corpo e mente, Spinoza nega que haja "faculdades" na mente, ou entidades tais como intelecto ou vontade, muito menos imaginação ou memória. A mente consiste das próprias idéias em seu processo e associação. Intelecto é meramente um termo para uma série de idéias; e vontade um termo para uma série de ações ou volições. A vontade é primeiramente pensamento de um curso de ações a ser seguido e, quando não há fatores contrários, a ação em questão inevitavelmente se segue. A ilusão de uma determinada escolha surge da ignorância do indivíduo das causas precedentes do pensamento e da ação. Assim, "vontade e intelecto são uma só e a mesma coisa"; pois uma volição é apenas uma idéia que, pela riqueza de associações (ou talvez pela ausência de idéias rivais), permaneceu tempo suficiente no consciente para passar à ação. Cada idéia transforma-se em ação a menos que seja sustada na transição por uma idéia diferente; a idéia é, ela própria, o primeiro estágio de um processo orgânico unificado do qual a ação externa é o desfecho.

O que é freqüentemente chamado vontade, como força compulsiva, deveria ser chamado desejo: é um apetite ou instinto do qual temos consciência. "Os homens pensam que são livres, porque têm consciência de suas volições e desejos, mas ignoram as causas pelas quais são levados a querer ou a desejar." Cada instinto é um artifício desenvolvido pela natureza para preservar o indivíduo. Por trás dos instintos está o esforço variado e vago de auto-observação (conatus sese preservandi). Spinoza vê isso em todas as atividades humanas e mesmo infra-humanas, como sua motivação básica. "Todas as coisas, quanto delas depende, esforçam-se em persistir em suas próprias naturezas; e o esforço com o qual uma coisa procura persistir em seu próprio ser, nada mais é do que a verdadeira essência daquela coisa." O prazer e a dor são a satisfação ou a repressão de um instinto; não são as causas de nossos desejos, mas seus resultados; não desejamos as coisas porque elas nos dão prazer; mas elas nos dão prazer porque as desejamos; e nós as desejamos porque temos que desejá-las. Conseqüentemente não existe vontade livre; as necessidades da sobrevivência determinam o instinto, o instinto determina o desejo e o desejo determina o pensamento (a idéia de vontade) e a ação. "As decisões da mente são apenas desejos que variam conforme as disposições". "Na mente não existe uma vontade absoluta ou livre; a mente é levada a querer isto ou aquilo por uma causa, que por sua vez, é determinada por outra causa, e esta por outra e assim por diante, até o infinito".

O bem, o mal e o belo. A vontade de Deus e as leis da natureza sendo uma única e mesma realidade diversamente expressa, segue-se que todos os acontecimentos são a ação mecânica de leis invariáveis. É um mundo de determinismo, não de desígnio, não de vontade.

A filosofia moral de Spinoza como ele a apresenta na "Ética", define "o bom" em termos largamente subjetivos: o bom para diferentes espécies (Por exemplo, para o homem e para o cavalo) é diferente. O que nossa razão considera como mal, não é um mal em relação à ordem e às leis da natureza universal, mas somente em relação às leis de nossa própria natureza, tomada separadamente. Assim, para Deus a distinção entre bom e mau não teria sentido, uma vez que tal distinção é essencialmente relativa a finalidades das criaturas finitas. Daí nosso "problema do mal": lutamos para reconciliar os males da vida com a bondade de Deus, esquecendo de que Deus está acima do bem e do mal. Bom e mau são ligados a gostos e finalidades humanas e muitas vezes individuais e não têm validade para um universo no qual os indivíduos são coisas efêmeras. Assim, quando qualquer coisa na natureza parece-nos ridícula, absurda ou má, é porque não temos senão um conhecimento parcial das coisas e ignoramos em geral a ordem e a coerência da natureza como um todo e porque desejamos que tudo se arrume conforme os ditames de nossa própria razão.

E tal como acontece com "bom" e "mau", o mesmo se dá com "feio" e "belo"; esses termos são também subjetivos e pessoais. Também a estética de Spinoza é totalmente subjetiva, pois segundo ela a beleza não é mais que um efeito sobre o espectador.
Ele não atribui à natureza nem beleza nem deformidade, nem ordem nem confusão. Somente com relação à nossa imaginação podem as coisas ser chamadas de belas ou feias, bem ordenadas ou confusas.

Teoria Política. Os filósofos modernos formularam hipóteses sobre a vida do homem anteriormente à formação das sociedades organizadas, buscando, naqueles primórdios, os fundamentos da ordem política e social.. Também Spinoza pretendeu lançar-se sobre esse problema, porém veio a falecer antes de completar seu trabalho. Da sua teoria política ficou apenas o esquema de seu pensamento.

Spinoza formula sua hipótese partindo do homem primitivo que age sem preocupações com o certo e o errado, sem leis ou organização social, consultando apenas sua própria vantagem e decidindo o que é bom ou ruim conforme a sua força. A lei e a regra da natureza sob a qual todos os homens nascem, e na maior parte vivem, não proíbe nada a não ser o que ninguém deseja e não se opõe à contenda, ao ódio, à ira, à traição ou a qualquer outra coisa que os apetites sugiram.
Spinoza exemplifica o egoísmo do estado natural com a conduta dos Estados no seu tempo: "não há altruísmo entre as nações", diz ele. Porém, devido à necessidade de ajuda mútua, "porque na solidão ninguém é forte bastante para se defender e obter todas as coisas necessárias à vida", os homens tendem à organização social. Os homens não estão, por tanto, preparados por natureza, para a ordem social; mas o perigo pede a vida em comunidade. Uma parte do poder natural, ou soberania, do indivíduo é passada para a comunidade organizada. Como conseqüência, a lei do poder individual cede o lugar ao poder legal e moral do todo.

O Estado perfeito limitaria os poderes de seus cidadãos apenas na medida necessária à sua finalidade que não é "dominar os homens, nem coibi-los pelo medo", mas, ao contrário, libertar de tal modo o homem do medo, que ele possa "viver e agir com total segurança sem prejuízo para si nem para seus semelhantes". Estabelecidas essas premissas, a forma de governo pode ser escolhida, democrática, aristocrática ou monárquica, porque qualquer uma dessas formas políticas pode governar "de maneira que todos os homens... prefiram o direito publico à vantagem particular". Considera a Monarquia eficiente, porém opressiva e militarista, e sua preferência parece tender para a democracia, como melhor forma de governo pois nela "cada um se submete ao controle da autoridade sobre seus atos, mas não sobre seus julgamentos e raciocínio; isto é, vendo que todos não podem pensar igual, a voz da maioria tem força de lei". A força de sustentação da democracia seria o serviço militar geral, conservando os cidadãos suas armas durante a paz; e a sua base fiscal seria o imposto único.

Porém lamenta o defeito da democracia, de permitir o poder aos medíocres, e favorecer com os melhores cargos os maiores bajuladores. "O caráter inconstante da multidão quase leva ao desespero aqueles que dele têm experiência; pois é governada unicamente pelas emoções e não pela razão." Assim, o governo democrático torna-se um desfile de demagogos de vida curta e homens de valor relutarn em ver seus nomes em listas para serem julgados e catalogados por pessoas inferiores. Mais cedo ou mais tarde os homens mais competentes rebelam-se contra um tal sistema, ainda que estejam em minoria. "Por isso, acho eu, é que as democracias passam para aristocracias e estas afinal para monarquias"; o povo, enfim, prefere a tirania ao caos.

A igualdade de poder é uma condição instável; os homens são desiguais por natureza; e "aquele que pretende a igualdade entre desiguais pretende uma coisa absurda". A democracia tem ainda de resolver o problema de atrair os melhores esforços dos homens, ao mesmo tempo em que dá a todos o direito de escolha daqueles por quem desejam ser governados.

Religião. No "Tratado teológico-político" e no "Breve Tratado acerca de Deus, o homem e sua felicidade suprema" Spinoza expõe suas idéias sobre a religião. Seu modo de considerar a religião e seu papel no Estado é claramente coincidente com o daquele grupo de amigos de cujas convicções religiosas e políticas, bem definidas, ele compartilha como "colegiante". A posição que tinham em comum, de tolerância frente à rivalidade das seitas, o amor e obediência a Deus como somente o que importava, constitui também o núcleo do pensamento de Spinoza a respeito da religião. Cristo é considerado por Spinoza como a sabedoria divina que rege o mundo. Mostrando a influência do pensamento de Descartes, os colegiantes pretendem que a fé religiosa "é um conhecimento claro e distinto da verdade na mente de cada homem, pelo qual adquire uma convicção tal do ser e das qualidades das coisas que lhe resulta impossível duvidar delas".

Spinoza não aceita-a divindade de Cristo, mas dá-lhe o primeiro lugar entre os homens. "A eterna sabedoria de Deus... mostrou-se em todas as coisas, mas principalmente na mente do homem, e principalmente em Jesus Cristo." "Cristo .foi enviado para ensinar não só aos judeus mas a toda a raça humana"; daí "Ele acomodou-se à compreensão do povo... e ensinava mais freqüentemente por meio de parábolas." Considera que a ética de Jesus é quase sinônimo de sabedoria; reverenciando-O nós nos elevamos ao "amor intelectual de Deus".

Foi esperança de Spinoza que a religião judaica e a cristã, - que na verdade seriam uma só -, quando fossem afastados o ódio e as incompreensões e quando a análise filosófica encontrasse o âmago e a essência ocultos dessas crenças rivais, haveriam de unir-se. Mas, em seu tempo assim não era, e por isso diz: "Admiro-me com freqüência de que pessoas que se ufanam de professar a religião cristã, ou seja, a religião do amor, da alegria, da paz, da temperança e da caridade para com todos os homens, briguem tão rancorosamente e manifestem um ódio tão amargo uns para com os outros. Esquecem que isso, mais do que as virtudes que professam, oferece um critério decisivo para o julgamento de sua fé."

O primeiro passo para essa união, na opinião de Spinoza, seria a concordância em relação a Jesus. Uma figura tão nobre, livre do cerceamento de dogmas, que levam apenas a divisões e disputas, atrairia todos os homens; e talvez em seu nome, um mundo dilacerado por lutas suicidas de palavras e armas, pudesse afinal encontrar uma unidade de fé e uma possibilidade de fraternidade.

O pensamento de Spinoza no "Tratado teológico-político" enfoca três aspectos da religião: a Bíblia, sua própria defesa contra a acusação de ser ateu, e a separação entre Igreja e Estado. Com respeito à Bíblia, Spinoza ataca o dogma da revelação que interpreta a Bíblia como uma mensagem de Deus para os homens. Sua polêmica com o ¡judaísmo era de grande atualidade dado o valor que o calvinismo atribuía ao Antigo Testamento. Aplicando pela primeira vez na história a crítica histórica às Escrituras, busca demostrar a origens dos livros bíblicos e funda a ciência bíblica. Opõe-se à interpretação bíblica racionalista de Maimónides. É principio fundamental de Spinoza que a Bíblia só deve ser interpretada no contexto da própria Bíblia, pelas suas possíveis contradições, reafirmações, etc. e de modo algum pela verdade racional da filosofia. Neste particular, as colocações de Spinoza coincidiriam de certo modo com o pensamento ortodoxo, e contrariando o liberalismo. Mas esta interpretação pode mostrar apenas o sentido próprio da Bíblia, impedindo que se a submeta à prova da razão.

Spinoza não podia aceitar que o taxassem de ateu porque acreditava em Deus, apenas era um Deus não personificado, não humanizado, e sintético com a natureza. Spinoza quer demostrar que sua fé coincide com todas as religiões no principio do amor e da obediência a Deus. Chegou a pensar que, com a tolerância dos colegiantes e a neutralidade dos regentes, haveria a possibilidade de uma religião comum que poderia unir a todos os homens.

Busca, finalmente, na sua obra, defender a liberdade de pensamento contra os pregadores fanáticos. Talvez por influência sua Johan de Witt lutava pelo direito do Estado, tentando tirar totalmente das autoridades eclesiásticas sua jurisdição nos assuntos temporais. Em 1656 Johan de Witt havia promulgado um decreto proibindo que se confundisse teologia e filosofia.

Educação A filosofia da educação de Spinoza é determinista e estóica, compreendendo que Deus não é uma personalidade caprichosa absorvida nos assuntos particulares dos homens mas sim a ordem invariável que sustenta o universo.

Precisamente porque as ações dos homens são determinadas pelas suas lembranças, a sociedade tem de formar os cidadãos manipulando suas esperanças e receios, para alcançar uma certa dose de ordem social e cooperação. Quer nossas ações sejam livres ou não, nossas motivações ainda são a esperança e o medo. Aquele que considera todas as coisas como determinadas não se pode queixar, ainda que possa resistir; pois "percebe as coisas sob uma certa luz de eternidade" e compreende que suas desventuras não são acasos no esquema total; que elas têm alguma justificativa na eterna seqüência e estrutura do mundo. Com esse espírito, ele se ergue dos prazeres caprichosos da paixão para a elevada serenidade da contemplação, que vê todas as coisas como partes da ordem e do desenvolvimento eternos; aprende a sorrir diante do inevitável e "quer receba o que lhe é devido agora ou dentro de mil anos, permanece contente".

O determinismo conduz a uma vida moral melhor: ensina-nos a não desprezar ou ridicularizar ninguém, a não ficar zangado com ninguém; os homens "não são culpados"; e ainda que punamos os canalhas, será sem ódio; nós os perdoamos porque não sabem o que fazem. Acima de tudo, o determinismo fortalece-nos para acolher as duas faces da fortuna com igual espírito; lembramo-nos de que todas as coisas sucedem conforme as leis eternas de Deus.

Principais trabalhos.

Tractatus de Deo et Homine Ejusque Felicitate (escrito por volta de 1662, publicação póstuma em 1852);
Tractatus de Intellectus Emendatione (escrito em 1662, primeira edição em 1677);
Renati des Cartes Principiorum Philosophiae Pars I et II, More Geometrico Demonstratae, per Benedictum de Spinoza (1663);
Ethica in Ordine Geometrico Demonstrata (escrito em 1662-75, primeira edição em 1677);
Tractatus Theologico-Politicus (escrito em 1665-70, primeira edição em 1670);
Tractatus Politicus (incompleto, escrito a partir de 1665, primeira edição em 1677);

Rubem Queiroz Cobra          
Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia

Retorno a Biografia

Aberta em 26/06/98
Última revisão 26/06/98

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Spinoza. COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 1998.
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Rubem Queiroz Cobra