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SPINOZA

Vida, época, filosofia e obras de Baruch Spinoza - II

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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A oposição dos dois rabinos determina conflitos dramáticos. Manasseh ben Israel busca uma sínteses do judaísmo com o humanismo e goza de mais alto conceito entre os intelectuais holandeses. Morteira, ao contrário, quer um judaísmo voluntariamente segregado, a forma religiosa estreita dos judeus orientais ou aschkenasis, dominada pela Cabala, a teologia emanatista medieval, carregada de profundo sentido místico penetrado de superstições pueris. Seu livro "Providência de Deus com Israel" (ou "Esperança de Israel"), devido à orientação fanática anticristã, não teve permissão para publicação mas cópias circularam na comunidade e, graças a ele, Morteira triunfa sobre seu adversário: o espírito do judaísmo aschkenasi domina na comunidade judaica de Amsterdã, uma fórmula religiosa do século XV em desacordo com o espírito científico do século XVII. Os judeus que, portadores da tradição humanista portuguesa, eram socialmente integrados e viviam em palácios, viram-se constrangidos por uma religião de gueto, potencialmente criadora de profundos conflitos.

O que a todos comentaristas de Spinoza parece, é que, em um mundo de tantas tendências variadas e algo contraditórias, ele teve que buscar uma solução própria. Não seguiu a Morteira, como toda a comunidade, pela senda do judaísmo aschkenasi, nem tão-pouco aceitou a linha de Manasseh.

Expulsão da Comunidade Judaica. Spinoza logo incorreu na desaprovação das autoridades da sinagoga, por suas afirmações junto aos rabinos, como a de que não havia nada na Bíblia afirmando que Deus não possuía um corpo físico, que os anjos realmente existissem como espíritos sem corpo, ou que a alma humana fosse imortal fora do corpo. Porém, depois daquelas afirmações, o acusaram de ateísmo ante a comunidade e foi instaurada a correspondente devassa. Spinoza foi convidado a comparecer ante Morteira, e frente à ameaça de excomunhão, teve uma atitude arrogante. Declarou que já havia desejado romper com a Sinagoga, mas evitara fazê-lo para não provocar um escândalo. Frente à acusação, dirigiu aos rabinos um escrito em que reafirma suas convicções. Deve ser desta ocasião, em 1655, a preparação por Spinoza do seu Tractatus de Deo et homine et jusque felicitate, em que se defende explicando seus pontos de vista. A congregação não teve alternativa senão aplicar-lhe a excomunhão. O texto da excomunhão de Spinoza, publicado o 27 de julho de 1656, diz ao final: "Ordenamos que ninguém mantenha com ele comunicação oral ou escrita, que ninguém lhe preste nenhum favor, que ninguém permaneça com ele sob o mesmo teto ou a menos de quatro jardas, que ninguém leia nada escrito ou transcrito por ele". Até que ponto havia chegado a rejeição a Spinoza pelos fanáticos da comunidade mostra o atentado que o vitimou: uma noite, alguém tentou apunhalá-lo no caminho de sua casa, quando voltava da Sinagoga. Conseguiu esquivar-se ao golpe do punhal que apenas rasgou sua casaca.

A vida de Spinoza fatalmente sofreria uma mudança quando ele se afastou do judaísmo. Estava então, juntamente com seu irmão Gabriel, à frente do negócio deixado por seu pai quando este faleceu em 1654. Tratava-se de um comercio de importação e exportação, uma tradição de negócio que vinha de Portugal, onde as transações ultramarinas estavam quase inteiramente em mãos dos marranos portugueses. Essa prática comercial envolvia vultosas operações bancárias e importantes contratos de seguros entre os judeus. Porém o negócio de Miguel d'Spinoza havia decaído muito nos últimos anos de sua vida, correspondentes ao período em que a guerra entre Inglaterra e Holanda havia prejudicado o comercio com o exterior. Esta dificuldade e principalmente o peso de sua condenação levaram Spinoza a renunciar à profissão mercantil. Seus biógrafos acreditam que se dedicou à medicina, pois em seus escritos mostra profundos conhecimentos médicos, e sua biblioteca contem todas as obras de medicina teórica e prática necessárias ao médico em aquela época. Até uma carta de Leibniz está dirigida ao "Médecin tres célebre et philosophe tres profonde". Com estes estudos médicos, estão relacionados seguramente seus conhecimentos químicos. Quando aconselha De Vries no planejamento de seus estudos de medicina, lhe recomenda que estudasse primeiro anatomia e depois química. Seus estudos químicos são os que lhe permitem manter com o grande químico Roberto Boyle uma correspondência científica, baseada em experimentos próprios, acerca da natureza do salitre.

Além do negócio, seu pai deixou um legado que foi objeto de contenda entre Spinoza e uma meia irmã. Os parentes tentaram então excluir a Spinoza da herança, pretextando, tal vez, sua apostasia, pois segundo a lei judaica é permitido deserdar ao que ha desertado do judaísmo. Para defender seus interesses frente aos credores de seu pai, se lhe designou um tutor o 23 de março de 1656. (Em Holanda a maioridade de começava então aos 25 anos). Embora tenha ganho a causa na justiça, Spinoza deixou para ela praticamente tudo. Quando teve lugar a repartição de bens, solo se ficou com uma cama e sua correspondente cortina para seu uso pessoal. Com essa injustiça, o distanciamento de sua família foi definitivo.

Os colegiantes. Depois de sua voluntária ruptura com o judaísmo, Spinoza se liga a uma irmandade ecumênica leiga, de pessoas das mais diversas comunidades religiosas que se reuniam para ler e interpretar a Bíblia. Sequer a condição de ser cristão era exigida. Conhecidas como os colegiantes, faziam da Bíblia o centro de sua vida religiosa, e certamente estimaram muito a entrada de Spinoza, por seus profundos conhecimentos bíblicos.

O primeiro de seus amigos do círculo dos colegiantes foi o rico comerciante Jarig Jelles, o qual havia abandonado seu negócio em mãos de um gerente de confiança a fim de viver em retiro silencioso para meditar. Jelles empregava fundos em mandar traduzir obras filosóficas, entre as quais as obras de Descartes, de quem era admirador. Fez traduzir o pensamento estóico de Séneca e inclusive a Homero e ao Corão. Deve ter se alegrado em receber Spinoza no grupo, pois seus pensamentos se afinavam, tanto quanto ao interesse pela filosofia de Descartes quanto por suas posições religiosas em comum. Fixou uma pensão para que Spinoza pudesse ocupar-se exclusivamente de escrever e financiou a publicação de seus livros e, após a morte do filósofo, mandou cuidadosamente, junto com outros amigos de Spinoza, editar em latim e holandês suas obras.

O outro amigo, colegiante como Jelles, foi Pedro Balling, também comerciante e cujos negócios o levavam por toda Península Ibérica, donde a possível base de sua amizade com Spinoza ser o fato de poder conversar com o filósofo na língua materna de sua família. Inteligente e conhecer do grego e do latim, foi quem traduziu para o holandês os primeiros escritos de Spinoza.

Um terceiro amigo, mais jovem e também colegiante, foi o citado Simón de Vries. Filho de um próspero comerciante pretendia ser médico contando para isto com a orientação de Spinoza. Juntamente com os demais amigos, de Vries funda, em Amsterdã, uma agremiação para estudar e discutir a filosofia de Spinoza, com a assistência do próprio filósofo. Era mais moço que Spinoza, porém falece em l 667. De Vries ofereceu a Spinoza a soma de dois mil guldens para que pudesse viver mais folgadamente, mas o filósofo recusou a oferta, alegando que em absoluto necessitava daquela quantia, que poderia inclusive levá-lo a distrair-se de seu trabalho e de suas pesquisas. De Vries, que veio a falecer solteiro, também quis fazer de Spinoza seu único herdeiro, quando o filósofo exigiu dele que deixasse sua fortuna para seu irmão Isaac de Vries, seu herdeiro legal, que vivia em Schiedam. Vries obedeceu, porém com a condição de que Isaac pagasse a Spinoza uma pensão vitalícia. Cumprindo essa condição, Isaac de Vries fixou a pensão em quinhentos guldens, porém Spinoza o fez reduzi-la a apenas trezentos.

Alguns colegiantes amigos de Spinoza foram políticos importantes. Conrado van Beuningen, foi prefeito de Amsterdã e embaixador na França e na Suécia. Mandou publicar as obras do filósofo alemão Jacobo Boehme e aceitou a concepção de Deus postulada por Spinoza. Outro foi Conrado Burgh, ministro das finanças. Um terceiro político foi Nicolás Tulp, cunhado de Burgh, médico e também prefeito de Amsterdã, famoso pelo retrato feito por Rembrandt de uma de suas aulas de anatomia; e também ainda outro prefeito de Amsterdã, conhecido por seus trabalhos de óptica, Juan Hudde, com quem Spinoza manteve correspondência filosófica sobre o problema da unidade de Deus. Por último, pertenceu ao mesmo círculo Juan Rieuwertsz, o editor da maior parte dos livres-pensadores que procuravam editores holandeses, e que editou toda a obra de Spinoza.

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
26/06/1998

 

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Spinoza. COBRA.PAGES.nom.br, Internet, Brasília, 1998.
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