COBRA PAGES
e seus
objetivos
--
Quem somos

reg.

COBRA PAGES: páginas em Educação e Cultura
Filosofia Moderna -  Filosofia Contemporânea - Filosofia no Brasil - Temas de Filosofia - Psicologia e Educação - Teatro Pedagógico - Higiene - Boas Maneiras e Etiqueta - Contos - Restauro - Genealogia - Geologia - Livros do Autor - CONTACTO

 

PMF-perguntas
mais freqüentes

ÍNDICE & BUSCA

 
 
 

NOVIDADES DO SITE

LEIBNIZ

Vida, época, filosofia e obras de Leibniz - VIII

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br
)

 anterior << Páginas 1 2 3 4 5 6 7 8                     

IX. Relação Corpo-espírito. Outra questão para mim sedutora no pensamento de Leibniz é sua concepção da relação corpo espírito no homem. No continente europeu, os chamados racionalistas buscavam resolver o que eles chamavam de "problema corpo-espírito", que se originou como um dualismo estrito no sistema do filósofo francês Renê Descartes (1596-1650).

No seu Système nouveau de la nature (1695) e no Eclaircissement du nouveau sisteme (1696), Leibniz apresenta sua concepção filosófica das relações mente corpo por via de uma harmonia preestabelecida. Leibniz argumenta que, além da sua, há somente outras tres possíveis fontes para um acordo a esse respeito: a que Descartes havia proposto, a que Malebranche havia proposto, e a idéia de Spinoza.

A relação corpo-espírito poderia assim ocorrer por mútua influência (interacionismo), como pensava Descartes. A interação da mente e do corpo ocorria na glândula pineal; o sistema nervoso eram cordéis que puxavam a glândula pineal; as vibrações desta eram percebidas pela alma.

Para Malebranche. Somente Deus pode ser causa de qualquer efeito no universo. Não há nenhuma influência da mente sobre o corpo ou do corpo sobre a mente, não existe operação causal senão que Deus é a única causa, intervém para produzir as regularidades que ocorrem na experiência. A harmonia que Leibniz coloca na ação das mônadas, Malebranche já havia colocado para toda causa e efeito no Universo. Assim, quando, por exemplo, uma pessoa deseja mover um dedo, isto serve como ocasião para Deus mover-lhe o dedo, quando um objeto aparece subitamente no campo de visão da pessoa, isto serve de ocasião para Deus produzir uma percepção visual na mente da pessoa. Deus estaria atento a cada minúcia, e aquilo que chamamos causas na física são ocasiões em que Deus tem que intervir para harmonia de todo o universo.

Para Spinoza, o espiritual e o físico, ou seja, a extensão cartesiana e o pensamento cartesiano, são simplesmente dois aspectos diferentes da mesma substância única que é Deus. Deus e Natureza são a mesma coisa. Há apenas uma substância que é Deus. Essa substância tem duas faces, dois atributos: (Porem Leibniz rejeita o panteísmo de Spinoza)

Leibniz, aplica sua tese do paralelismo das açoes, a noção de que corpo e espírito existem em perfeita harmonia preestabelecida por Deus desde o momento da criação. Os corpos agem como se não houvesse almas, e as almas agem como se não houvesse corpos, e no entanto, ambos corpo e alma agem como se um estivesse influenciando e dirigindo o outro. Não parece haver, no entanto, importante diferença entre a interferência de Deus em cada ocasião (Ocasionalismo de Malebranche) e a sua única intervenção na criação do mundo quando estabelecia previamente o mesmo paralelismo harmônico entre a vontade do espírito e a ac'~ao mecânica do corpo (Harmonia pré-estabelecida de Leibniz).

Em Descartes, é como se dois relógios andassem iguais por estarem conectados; em Malebranche, marcariam a mesma hora por esforço de um hábil relojoeiro que regula os relógios e os mantém de acordo (ocasionalismo); em Spinoza, porque fossem dois mostradores com um só mecanismo (teoria do duplo aspecto), ou em virtude do fato de que eles foram construídos com o propósito de que sua futura harmonia ficasse garantida (paralelismo), que era a proposta de Leibniz.

X. O conhecimento. Como mostrei, Leibniz negava o efeito causal entre substâncias, e isto porque todas as coisas são constituídas de mônadas e estas eram incomunicáveis. Não admite comunicação ou ligação entre as mônadas. Uma vez que as mônadas constituem todas as coisas e são impermeáveis, não têm janelas para o seu exterior, o que percebem e quem as percebe? Percebem elas a si mesmas quando constituem a consciência. São parcialmente materiais e parcialmente espirituais ou imateriais. A atividade contínua da mônada é o esforço de exprimir-se a si mesma, isto é, de adquirir sempre mais consciência daquilo que virtualmente contem em si mesma. Trazem dentro de si mesmas a experiência de conhecer seu próprio estoque de coisas a serem conhecidas, conforme o programa original da harmonia preestabelecida dispôs que conheceriam desde seu início e por toda a eternidade.

As coisas não são conhecidas por intervenção divina, como postulou Nicolas Malebranche, mas por uma analogia existente, um paralelismo, entre as idéias de Deus e as idéias do homem, uma identidade entre a lógica de Deus e a lógica dos homens. Segundo Leibniz, Deus assegurou, desde sempre, a correspondência das minhas idéias com a realidade das coisas, ao fazer coincidir o desenvolvimento da minha mônada pensante com todo o universo.

O que vamos conhecer na vida já está dado e contido em nossa própria alma, ou seja, na "mônada espiritual" responsável pela nossa consciência. Significa também que todas as mônadas têm percepção e que os cartesianos erraram em supor que só o espírito tem percepção e os animais são máquinas. Eles também têm algum grau de percepção, porque também são constituídos de mônadas e todas as mônadas têm um maior ou menor grau de percepção.

Nos "Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano" rejeita a teoria empirista de Locke (1632-1704) segundo a qual a origem das idéias encontra-se exclusivamente na experiência e que a alma seria uma tabula rasa.

Estruturas inatas. Como as mônadas trazem dentro de si todas as coisas a serem conhecidas, então todas as idéias são inatas. Porém Leibniz, no prefácio de "Novos Ensaios sobre o Entendimento Humano" Leibniz admitiu o inatismo não de idéias, mas de certas estruturas geradoras de idéias. Ele diz: "Por isso emprego de preferência a comparação com um bloco de mármore que tem veios... se há veios na pedra que desenham a figura de Hércules em lugar de qualquer outra, este bloco lhe estaria já disposto, e Hércules lhe seria de algum modo como inato, ainda que fosse sempre necessário certo trabalho para descobrir estes veios e destacá-los pelo polimento, eliminando o que impede sua aparição. Do mesmo modo as idéias e a verdade nos são inatas como inclinações, disposições, capacidades e faculdades naturais, e não como ações ou funções se bem que estas faculdades vão sempre acompanhadas de algumas ações correspondentes imperceptíveis". As idéias são, pois, inatas num certo sentido. Elas existem em potência, e é através da reflexão que se atualizam e a alma adquire consciência.

Apesar de propor para a gênese do pensamento lógico a existência de certas estruturas inatas da mente e compará-las aos veios em um bloco de mármore que guiam e inspiram o escultor a talhar uma certa figura, Leibniz não podia em seu tempo pensar em uma estrutura física de neurônios. Com certeza pensa em algo contido no espírito, "faculdades naturais", como ele diz, algo pertinente às mônadas espirituais de que fala em sua Monadologia. A noção do trabalho associativo da mente é, porém, ainda mais antiga, pois, como é sabido, já está em Aristóteles

Inconsciente. O saber de perceber é a apercepção, que é também a reflexão ou esforço de ter sempre percepções mais distintas. É verificável que temos em cada momento impressões das quais nós não nos advertimos, mas que permitem o automatismo de nosso comportamento. Temos assim uma infinidade de percepções que não são acompanhadas de apercepção e reflexão. As percepções das quais não se tem consciência são chamadas por Leibniz percepções insensíveis. Nossas as ações, que à primeira vista parecem a nós mesmos sem motivo, são respostas às percepções insensíveis, que explicam também as diferenças de caráter e de temperamento.

XI. Felicidade e Liberdade. A questão da liberdade é o mais difícil de se compreender em Leibniz porque as mônadas encerram em si tudo o que lhes há de acontecer e hão de fazer. Todas as mônadas são espontâneas, porque nada que é externo pode exercer coação sobre elas, nem obriga-las a coisa alguma. Como é possível a liberdade? Segundo ele, Deus cria os homens, e os cria livres. Deus conhece os "faturíveis", isto é, os fatos futuros condicionados pelo presente, as coisas que serão ou acontecerão se for posta uma certa condição que ainda não existe. Deus conhece o que faria a vontade livre, sem que esteja determinado que isto ou aquilo tenha de ser assim, não se tratando, portanto, de predeterminação. Uma segunda harmonia está entre o domínio físico natural e o reino moral da graça. As mônadas enquanto progridem ao longo de linhas naturais no sentido da perfeição, estão ao mesmo tempo progredindo ao longo da linha moral no sentido da felicidade.

Deus quer que os homens sejam livres e permite que possam pecar, porque é melhor essa liberdade que a falta dela. A Teodicéia de Leibniz leva como subtítulo "Ensaios sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal". Neste Leibniz chama a Vontade de uma "faculdade caracterizada pelo apetite pelo bem": a liberdade é um bem. O homem, porém, não sabe usar a liberdade. O pecado aparece, pois, como um mal possível que condiciona, que restringe um bem superior que é a liberdade humana.

XII. Uma só religião. Quando Leibniz se tornou bibliotecário e arquivista da casa de Brunswick em 1676, o Duque de Brunswick era Johann Friedrich, que havia recentemente se convertido ao Catolicismo. A boa aceitação dessa conversão entre uma maioria protestante tornou a questão das divergências religiosas um assunto importante e Leibniz quase imediatamente começou a trabalhar pela causa da reconciliação entre Católicos e Protestantes.

Porém, em meu entender, é falso que Leibniz visse apenas como politicamente importante para os Estados Alemães a união religiosa e o espírito de tolerância, e que por isso sua atuação fosse somente diplomática, sem uma verdadeira preocupação teológica. Parece claro que, do mesmo modo como ele buscava fórmulas conciliadoras na filosofia, ele tentou encontrá-las também na teologia, por acreditar que as verdades fundamentais estavam contidas em cada corrente contrária, filosófica ou teológica, bastando mostrar as coincidências para se chegar à conciliação.

O projeto não foi adiante por razões políticas e pela desunião entre os próprios protestantes. Luís XIV, que, através de Bossuet expressara sua aprovação às conclusões de :Leibniz, na verdade não apoiou o projeto. O próprio Leibniz tinha inclinação pelo catolicismo e adotou para si próprio uma espécie de credo cristão racionalista e eclético, e deixou de assistir os serviços religiosos protestantes em 1696.

anterior << Páginas 1 2 3 4 5 6 7 8

Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
 Doutor em Geologia
 e bacharel em Filosofia.
 Lançada em
18/05/1997
Última revisão 11/09/2000

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Leibniz. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.
("Geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)

 Utilize a barra de rolagem desta janela de texto para ver as NOVIDADES DO SITE
 
Obrigado por visitar COBRA PAGES