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Vida, época, filosofia e obras de Leibniz - VI

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br
)

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Poderes das mônadas. Em resumo, a mônada não tem extensão, não é divisível, não é material. São unidades sem partes, que formam os compostos; são os elementos das coisas. Mônada é força, é energia, vigor. As mônadas são unidades de força. Não força física mas capacidade de atuar, de agir.

Depois de definir a substância como ação, Leibniz explicou que a ação essencial da substância é a representação. A atividade contínua da mônada é o esforço de realizar-se, representar-se a si mesma como consciência, adquirir sempre mais consciência daquilo que virtualmente contem em si mesma. Apezar de sua quantidade ser infinita, cada mônada é totalmente diferente uma de outra. Elas variam também em seu poder de representação. A forma mais primitiva, a percepção, compreende uma representação confusa e obscura de si mesma. A forma mais evoluída, a apercepção, consiste na representação clara perante si mesma, ou consciência.

Porém não se esgota aí o que Leibniz diz das mônadas. A mônada encerra em si toda a realidade, e nada lhe pode vir de fora. Tudo o que acontece à mônada brota do seu próprio ser, das suas possibilidades internas, sem intervenção exterior. Portanto, tudo o que aconteça, está incluído na sua essência. Nessa atividade voltada para si mesmas as mônadas têm o poder da percepção e as mais evoluídas, o poder da apercepção. As idéias são, no primeiro caso, obscuras ou confusas, no segundo caso, claras e distintas, a mesma classificação das idéias que fez Descartes.

Leibniz define a percepção como a representação do múltiplo no simples. O Eu, a consciência, é verdadeiramente uma unidade, não importa a variedade dos objetos de percepção. Portanto, o Eu é uma mônada. Nenhum agregado de matéria pode ser considerado uma unidade, e portanto não pode ser o próprio Eu, capaz da experiência unitária da consciência. Efetivamente, qualquer porção de matéria, ainda que inconcebivelmente pequena para conhecimento científico da época de Leibniz, será sempre constituída de partes físicas interagindo mecanicamente, e não haveria qualquer uma que pudesse representar o conjunto e constituir sua percepção. A percepção é, portanto, a representação do composto ou agregado que está fora, em uma unidade, uma coisa única (o Eu) interna.

Quando as percepções têm clareza e consciência, e são acompanhadas de memória, são apercepções, e estas são próprias de almas. As mônadas que tem apercepção e memória constituem as almas.

Além da consciência como percepção ou apercepção, as mônadas têm consciência também como apetição, a fonte da vontade, do impulso ou apetite, que não são mais que a tendência de seguir de uma percepção para outra. Portanto, nas suas categorias superiores, a substância é dotada de percepção, apetição e apercepção progressivamente mais claras.

IV. Princípios ou leis universais.

1. Princípio de Continuidade. No penssamento de Leibniz o princípio de continuidade diz que não existem descontinuidades na hierarquia dos seres Na escala dos seres vivos, as plantas são animais imperfeitos, e no universo também não há vazios no espaço

2. Lei dos indicerníveis. Quanto ao princípio dos indiscerníveis, Leibniz afirma que não há no universo dois seres idênticos, e que sua diferença é intrínseca, isto é, cada ser é em si diferente de qualquer outro. Não existe duplicação na natureza. Duas coisas indiscerníveis seriam não duas, mas a mesma coisa. As mônadas estão sujeitas ao "princípio dos indiscerníveis": as coisas do mundo são indiscerníveis quando são iguais e o mesmo aconteceria às mônadas. Sào necessariamente diversas, umas das outras.

Os dois princípios acima referidos são tirados de sua matemática, do cálculo infinitesimal. Aplicando conjuntamente a Lei dos indiscerníveis e o princípio de continuidade, Leibniz conclui que as diferenças podem ser infinitamente pequenas, pois deve haver diferença sem descontinuidades. Assim, não pode haver nada que seja inteiramente e somente o oposto de outra, pois cada coisa conterá um pouco, ainda que infinitamente pequeno, da coisa que seria o seu oposto. Por exemplo, o repouso pode ser considerado como movimento infinitamente pequeno; o líquido é um sólido com um baixo grau de solidez, os animais são homens com racionalidade infinitamente pequena, etc.

3. Princípio da harmonia universal. Deus existe e toda substância ao ser criada por Deus é programada, no ato da sua criação de tal modo que todos os seus estados naturais e suas ações futuras se realizarão em harmonia universal com todos os estados naturais e ações de cada uma das outras substâncias criadas.

Nenhum estado de uma substância criada tem como causa qualquer estado de outra substância criada, ou seja, não existe causalidade inter-substancial. Ao invés de inter-substancial, a causa do estado em que se acha qualquer substância é "intra-causal", ou seja, a causa de seu estado está nela mesma. Mas, como é possível que os estados por que passa uma substância tenham causa nela própria? Leibniz diz que cada substância criada foi programada desde a sua origem para passar por certos e determinados estados, pelos quais ela realmente passa sem influência de nenhuma outra. Mas isto acontece em sincronia tão perfeita com o que também está acontecendo com outras substâncias que, devido a essa sincronização, resulta a aparência de causalidade externa, resulta a aparência de que uma substância influi sobre a outra.

Em geral, a causação deve ser entendida como um aumento na clareza da parte da substancia que é agente ativo, e um aumento no estado confuso da parte da substância afetada passivamente. E estes estados, como todos os outros por que passam as substâncias, estão programados para acontecerem de modo independente, sem que haja qualquer comunicação ou influência entre elas, de modo que a interação será apenas aparente.

As mônadas, portanto, operam sozinhas porém operam coordenadamente entre si, seu desenvolvimento corresponde, a cada instante, exatamente ao de todas as outras mônadas. Cada mônada é uma fonte independente de ação, atuando sem sofrer qualquer interferência, para sempre. Seguindo cada mônada sua própria lei interna, resulta a harmonia universal.

Aqui então cabe um reparo comumente feito ao pensamento de Leibniz. No Discours de métaphysique, Leibniz diz que temos na nossa alma as idéias de todas as coisas "mercê da ação contínua de Deus sobre nós"...São palavras que o aproximam de Malebranche, como se aqui também quisesse introduzir algo conciliador da sua doutrina com a daquele outro filósofo. Porém, se há essa ação de Deus, então, a harmonia preestabelecida não responderia sozinha pelas ações do homem e pelo movimento no universo, nem as mônadas seriam invioláveis. Se, de acordo com o próprio pensamento de Leibniz, as mônadas "não têm janelas" e têm já em si todo seu desenvolvimento, e o universo existe de acordo com uma harmonia eterna idealizada por Deus na ocasião em que o mundo foi criado, então nenhuma interferência posterior poderia ocorrer.

4. Princípio da não contradição. De acordo com Leibniz, a razão afirma que uma coisa só pode existir necessariamente se, além de (1) não ser contraditória, houver (2) uma causa, causa de origem e causa final, que a faça existir. Tira daí dois princípios inatos: o princípio da não contradição e o princípio da razão suficiente.

O primeiro "princípio inato", o da "não contradição" diz que, do que é explicado ou demonstrado, é falso o que implica contradição; a este primeiro princípio correspondem as "verdades de razão". São necessárias, têm a razão em si mesmas. O predicado está implícito na essência do sujeito (O predicado já está contido no sujeito: "A casa verde é verde"). As verdades de razão são evidentes a priori, independentes da experiência, prévias à experiência. As verdades de razão são necessárias, fundam-se no princípio da contradição, como na proposição "dois mais dois são quatro": não poderiam não ser. Não cabe contradição possível.

5. Princípio da razão suficiente. Segundo esse princípio, todas as coisas ou eventos são reais quando existe uma razão suficiente para sua existência. Portanto, qualquer estado de coisas deve ter uma razão que explica porque este e não outro estado existe. Para que uma coisa seja, é necessário que se dê uma razão porque seja assim e não de outro modo. É a "razão suficiente" da existência da coisa em questão. A este princípio correspondem as "verdades de fato". Tais verdades não se justificam a priori, elas são contingentes, a sua razão resulta de uma infinidade de atos passados e presentes que constituem a razão suficiente pela qual elas se dão agora. São atestadas pela experiência. São as verdades científicas; são de um jeito, mas poderiam ser de outro. A água ferve a 100 graus centígrados, mas poderia não ferver, e de fato não ferve, quando é mudada a pressão no seu recipiente. Essas verdades dependem de experiência que as comprove.

6. Princípio do melhor. Leibniz, como alguns outros filósofos, é considerado um otimista, tanto por considerar nosso mundo o melhor mundo possível, como por justificar a ação Deus em relação ao homem como um modo de agir compatível com sua bondade. A lei suprema dos seres finitos é, portanto, a lex melioris (lei do melhor). Além dos princípios da continuidade e dos indiscerníveis, da harmonia universal, da não-contradição e da razão suficiente, Leibniz encontra também os princípio do melhor, todos considerados por ele constitutivos da própria razão humana e, portanto, inatos, embora apenas virtualmente.

V. Que é o universo. Apesar de indivisível, individual e simples, há mudanças interiores, atividade na mônada. O universo não é senão um conjunto de substâncias simples, ativas, construídas pelas mônadas. Os corpos no mundo são simples aparências de conjuntos de mônadas. O universo, portanto, é visto por Leibniz como feito de um número infinito de monadas indivisíveis, diferenciadas em uma escala ascendente de espiritualidade desde a mais inferior partícula mineral até o mais alto intelecto criado. Essa continuidade foi a sua maneira de solucionar o problema cartesiano da alegada antítese entre espírito e matéria.

O grau de clareza de representação da mônada, ou consciência, é a principal diferença entre elas, pois varia de uma para outra. Há uma diferença de consciência entre as mônadas. Seu poder de representação é o índice de sua imaterialidade. Existem as mônadas dos corpos brutos "que só têm percepções inconscientes e apetições cegas". Conforme descemos na escala dos seres, do animal até a mais inferior substancia mineral, a região da representação clara diminui e a região da obscuridade ou inconsciência aumenta. Os animais se constituem de mônadas "sensitivas", dotados de apercepções e desejos, e o homem de mônadas "racionais", com consciência e vontade.

Todos os seres tem mentalidade. A planta, que de vários modos adapta-se ao seu ambiente, tem percepção do que está à sua volta, apesar de não ter consciência das coisas. A mentalidade do animal, pelo seu poder de sensação, está acima da mentalidade das plantas. No entanto, de acordo com o princípio de continuidade, não há quebra de continuidade no desenvolvimento do poder mental entre os animais mais superiores e mais inteligentes, e os mais selvagens, e as plantas são animais imperfeitos. A alma humana não é uma exceção, sua imaterialidade não é absoluta, mas apenas relativa, no sentido de que nela a região da representação clara, a consciência, é muito maior que a região da representação obscura, de modo que esta última é uma quantidade praticamente negligenciável. Da percepção, que é encontrada em todas as coisas, até a inteligência e vontade, que são peculiares do homem, há graus imperceptíveis de diferenciação.

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
 Lançada em
18/05/1997
Última revisão 11/09/2000

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Leibniz. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.
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