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DAVID HUME

Vida, época, filosofia e obras de David Hume - III

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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FILOSOFIA:

Teoria do conhecimento

O "Investigação concernente ao entendimento humano" é uma tentativa de definir os princípios do conhecimento humano. O livro apresenta de forma lógica as importantes questões sobre a natureza de todo raciocínio com respeito a matérias de fato e experiência, e resolve os problemas recorrendo à associação.

A base de sua exposição é uma classificação binária dos objetos da consciência: impressões e idéias.

Conhecimento divide-se em "impressões" (dados fornecidos pelos sentidos tanto internos, como a percepção de um estado de tristeza, quanto externos, como a visão de uma paisagem) e "idéias" (representações da memória das impressões).

As impressões: O que tenho de mais vívido em minha mente são as impressões dos sentidos no momento em que ocorrem, isto é, aquilo que vejo, aquilo que ouço, e tudo aquilo que os sentidos produzem em mim é o que é mais forte em minha mente. São os prazeres e as dores.

As idéias: São reproduções, são cópias das impressões. Se penso no sabor da maçã, essa idéia não é tão forte quanto saborear a maçã e ter a "impressão" viva do seu sabor. Não encontro impressões complexas, mas idéias, sim, existem simples e complexas. Minha idéia de uma maçã é uma idéia complexa cujas idéias simples são o vermelho, sua textura crespa, sabor doce, etc. A idéia do triângulo plano, por exemplo, inclui a igualdade dos seus ângulos internos a dois ângulos retos, e a ideia de movimento contem a idéias de espaço e tempo, não importando se realmente existe tais coisas como triângulos e movimentos.

Hume ressalta que cegos e surdos de nascença não possuem esses caracteres, ou seja, não têm idéias correspondentes às cores ou aos sons, e para ele um ser completamente desprovido dos sentidos jamais seria capaz de qualquer conhecimento.

As idéias podem associar-se por semelhança (entre as impressões que representam), contigüidade espacial e temporal, e causalidade.

As coisas não são como queria Aristóteles, possuidoras de uma essência, mas cada coisa é composta de outras coisas. De acordo com Hume, quando examinamos nossa idéia de uma coisa individual, tudo que encontramos são as idéias simples que se juntam para formar uma idéia complexa. Ele mudou a atenção da filosofia das "substâncias" e "propriedades" próprias, para as "relações". Tomando, por exemplo, duas maçãs, uma é mais vermelha que a outra, uma está mais próxima de mim, provando as duas uma é doce, a outra menos, maior e menor, etc.

Teoria do significado. Tudo que a mente contem são, em primeiro lugar, ou "impressões", dados finais da sensação ou da consciência interna, ou idéias, derivadas dos dados por composição, transposição, aumento ou diminuição. Isto equivale a dizer que o homem não cria qualquer idéia. Disto Hume infere uma teoria do significado: uma palavra que não corresponde diretamente a uma impressão só tem significado se ela traz à mente um objeto que pode ser apreendido de uma impressão por um dos processos mentais mencionados (processos associativos).

Note-se que Hume não distingue o sentimento como uma forma particular de conhecimento. Todos os objetos de consciência são ou "relações de idéias" ou "matérias de fato" como impressões.

Lógica

Matérias de fato, as impressões, objetos que se acredita existirem, vêm ante nós meramente como eles são, não revelando nenhuma relação lógica; suas propriedades e conexão tem que ser aceitas como elas são dadas. As impressões correspondentes aos fatos concretos não tem relações lógicas: devem ser aceitas como são dadas. Poderiam ser diferentes do que são sem que houvesse contradição.

As ideias, no entanto, podem ser retidas perante a mente simplesmente como significados, e suas relações lógicas uma com a outra podem então ser detectadas por inspeção racional. Somente neste nível de meros significados, afirma Hume, existe espaço para conhecimento demonstrativo.

A mais importante relação entre as idéias é de causa e efeito. Esta categoria de relação nos leva "além de nossos sentidos, e nos informa de existências e de objetos os quais não vemos nem sentimos". Por exemplo, a previsão do resultado da colheita nos campos neste verão está além da nossa experiência presente e no entanto, raciocinando na relação de causa e efeito, posso dizer que o sol fará a plantação crescer e produzir. O sol é a causa (tudo o mais permanecendo favorável) e a boa safra o efeito.

Efetivamente, se uma coisa ocorre, a que está necessariamente ligada a ela como um efeito deverá ocorrer também. Mas Hume nega que haja ligação necessária e afirma que não podemos estabelecer conexão necessária entre o que existe e o que não existe, pois, no caso, a boa safra ainda não existe. Portanto, causa e efeito apenas correspondem ao que é anterior e o que é posterior em uma sucessão temporal, transformados erroneamente em elos de uma vinculação necessária. A razão é que, não importando quanto constantemente os dois fatos aconteçam juntos, podemos sempre conceber a possibilidade de que o primeiro ocorra sem o segundo, a "causa" se apresente, mas o "efeito", não. A idéia de causa vem do fato de que as plantas nunca deixaram de produzir quando expostas ao sol, desde que os nutrientes, temperatura, etc., continuem adequados.

Conseqüentemente, relações de causalidade ou associação lógica que são possíveis entre as idéias, não podem ser tomadas como associações necessárias entre as impressões. A idéia de movimento conduz à idéia de espaço e tempo por associação lógica, não importando saber se existem ou não as realidades concretas correspondentes (espaço verdadeiro). Apenas nesse puro nível de significados, sem relação com a experiência sensível, é possível o conhecimento demonstrativo (certeza demonstrativa de que fala Locke), isto é, o domínio da dedução lógica.

A lógica está apenas nos domínios da matemática, cujas verdades são apodíticas (evidentes, valendo como necessárias). É neste domínio que estão as idéias de quantidade (por exemplo: cálculos de tempo e espaço que não existem como coisas concretas).

A crença

Mas há também a questão da fé. Quando alguém vê um copo cair, ele não somente pensa na sua quebra mas espera e acredita nela; ou, começando por um efeito, quando ele vê o chão molhado em geral, além de pensar em chuva, ele acredita que esteve chovendo. Acredita-se firmemente que os raios do sol aquecem a pedra. A vinculação tida como lógica e necessária decorre de um sentimento de crença, e não pode ser tomado como inferência lógica válida.

Hume reivindica ter sido o primeiro a investigar a natureza da crença. Ele usa este termo em sentido estrito de crença em matéria de fato, em qualquer coisa como sendo existente. Ele descreve a crença como um tipo de vivacidade ou clareza possuída por algum dos objetos imediatos da consciência, originalmente por impressões e as simples imagens de memória delas. Como acontece "causa" pertencer a certas idéias? Por associação. Esta é a essência da inferência causal: o observador passa de uma impressão para a ideia regularmente associada com ela.

Hume confiantemente afirma que no processo o aspecto de clareza e vivacidade próprio da impressão infecta a idéia.

Hume não reivindicou provar que sejam falsas as proposições: (1) que eventos eles mesmos são relacionados causalmente e (2) que eles serão relacionados no futuro do mesmo modo como eles eram no passado, sejam falsas. Ele firmemente acreditava em ambas essas proposições e insistia que todo o mundo acredita, vai continuar a acreditar e precisa acreditar para poder sobreviver. São crenças naturais, inextinguíveis propensões da natureza do homem. O que ele reivindica provar é que elas não são obteníveis, e não podem ser iluminadas, nem pela observação empírica nem pela razão, seja intuitiva ou inferencial. A reflexão mostra que não existe evidência para elas e mostra também que estamos inclinados a acreditar nelas e que é de bom senso e sanidade, fazer assim.

Em síntese, este é o ceticismo de Hume: é a negação não da crença mas da evidência. É a conclusão filosófica de que o homem é mais uma criatura de percepção sensível e prática, que de razão.

A ciência

O que Hume diz é que somente existe nossa experiência de que uma coisa se segue a outra, que os padrões de uma experiência passada se repetem e me dão a ilusão de causa e efeito, e simplesmente porque A sempre foi seguido de B, tomo A como causa necessária de B.

Hume não observa nenhuma relação causal entre os dados dos sentidos "externos" porque, quando o homem considera quaisquer eventos como causalmente relacionados, tudo que ele faz e pode observar é que eles freqüentemente e uniformemente andam juntos. Neste tipo de associação, é um fato que a impressão ou idéia de um evento traz com ele a idéia do outro. A associação habitual assenta-se na mente e, como em outras formas de hábito, assim nesta, o trabalho da associação é sentido como compulsão. Este sentimento, Hume conclui, é a única fonte encontrável da idéia de causalidade.

De acordo com seu pensamento, ser o chumbo pesado e o fogo queimar as coisas ou dilatar os metais são fatos, cada um fechado em si mesmo, logicamente estéreis. "A pedra esquenta porque os raios de sol incidem sobre ela" é uma frase sem sentido, porque os fatos concretos não são passíveis de conhecimento demonstrativo: não seria possível provar logicamente que uma coisa decorre necessariamente da outra. Cada um desses fatos, tanto quanto a razão está envolvida, poderia ser diferente: o contraditório de cada matéria de fato é concebível. Por isso, não importa quanto seja constante a ocorrência de uma dada causa e seu efeito, podemos sempre pensar a possibilidade de que a primeira aconteça sem a segunda. Podemos imaginar que a planta falhe em fazer a fotosíntese, mesmo que nada mais mude, e então o sol não será causa suficiente para a produção da boa safra.

O conhecimento científico é, portanto, irracional, pois a crença que está na base de todo o conhecimento natural não tem qualquer estruturação lógica pela via da dedução. Portanto, qualquer ciência demonstrativa de fatos é impossível.

O ponto de vista de Hume tem então uma grave implicação. É que, embora ele não o tenha colocado nestes termos, existe um total de causas convergentes para um dado efeito e a questão é se podemos ter o controle de todas as causas atuantes nesse conjunto, porque uma delas pode sempre falhar e criar a diferença no efeito do total de causas. Em conclusão, - embora Hume não tenha feito tal declaração -, a impossibilidade de enumerar todas as causas é, para ele, absoluta. Essa impossibilidade absoluta inviabiliza, evidentemente, o pensamento indutivo como caminho seguro para a verdade, e faz a ciência impossível.

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
14/07/1997

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - David Hume. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 1997.
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