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DESCARTES
Vida, época, filosofia e obras de René Descartes - IV|
Página de Filosofia Moderna |
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Quanto à filosofia e à ciência, Descartes viveu no início da revolução científica. Seu
importante trabalho, Meditações sobre a Filosofia Primeira, foi publicado em 1641, o ano
anterior a morte de Galileu e nascimento de Newton. Deste período é a obra de
Francis Bacon Instauratio Magna, publicada em
1623; é a "A Cidade do Sol", de Campanella, publicada em 1623, é Il Sagiatore
Celeste, de Galileu, em 1623, são as obras de Kepler e de vários outros cientistas,
filósofos e matemáticos, com suas invenções e descobertas. A grande preocupação na
virada do século XVI para o século XVII: encontrar um caminho novo. "As múltiplas
opiniões eram caminhos vários e inseguros que não levavam a qualquer meta definitiva e
estável. "Precisava-se achar o método para a ciência. Francis Bacon (156l-1626) e
Galileu haviam deixado bem claro o novo caminho do método experimental, indutivo, que
formularia suas leis, partindo da consideração dos casos particulares.. Alguns, como
eles próprios, Bacon e Galileu, enfrentam a hegemonia do pensamento lógico dedutivo dos
aristotélicos até então predominante e apoiado pelas forças do Estado e da Igreja.
Constituem com Hobbes, Locke, Berkeley e Hume a chamada corrente empirista, que, de um
golpe irá devastar o território da alquimia, da astrologia, da cabala, e constrói
pacientemente a ciência moderna. Outros reconhecem o valor do método indutivo, mas
compreendem que ele é apenas o complemento novo que possibilitou a descoberta do método
experimental e que o único instrumento com respeito às causas e aos fins últimos
inatingíveis pela experimentação, será sempre a dedução lógica, e se arrojam por essa
estrada. Formam a corrente racionalista moderna: Campanella, Descartes, Malebranche,
Spinoza, Leibniz, e Kant.
No "Princípios da Filosofia", Descartes classifica as ciências quanto à sabedoria ou
grau de clareza e nitidez de idéias que é possível atingir em cada uma. A ciência, ele
diz, pode ser comparada a uma árvore; a metafísica é a raiz, a física é o tronco, e os
três principais ramos são a mecânica, a medicina, e a moral, estes formando as três
aplicações do nosso conhecimento, que são, o mundo externo, o corpo humano, e a conduta
da vida. Mas os conhecimentos científicos não bastam a si mesmos: o tronco da física
sustenta-se em raízes metafísicas. É o Bom Deus quem garante o conhecimento científico,
porque garante as idéias claras. A física cartesiana resulta, assim, de deduções
racionais abstratas: Deus existe e serve de apoio para retirar do domínio da dúvida o
conhecimento que é claro e evidente. O mundo físico está de antemão provado por uma
idéia inata, a de extensão, que é a essência da corporeidade. Deus garante que idéias
claras da realidade têm correspondência na realidade, Deus torna os objetos inteligíveis
e os sujeitos capazes de intelecção, mas há que vencer a imperfeição do homem, cujas
impressões sensíveis vem de fora e são deformadas.
O La
Géométrie é a parte mais importante do "Discurso". Ele representa o primeiro passo para
uma teoria dos invariantes, que em estágios posteriores desrelativisa o sistema de
referencia e remove arbitrariedades; a álgebra faz possível reconhecer os problemas
típicos na geometria e trazer junto os problemas que na roupagem geométrica não
pareceriam de nenhum modo estarem relacionados. A álgebra introduz na geometria os
princípios mais naturais da divisão e a mais natural hierarquia do método. Com ela as
questões de solvabilidade e possibilidade geométricas podem ser resolvidas
elegantemente, rapidamente e inteiramente da álgebra paralela; e sem ela não podem ser
decididas de modo algum.
Realmente, o grande avanço feito por Descartes foi criar uma fórmula algébrica para representar o fato trivial e então já conhecido de que um ponto em uma folha de papel retangular está infalivelmente, como é evidente, onde as duas linhas de suas duas distancias medidas perpendicularmente a duas margens adjacentes da folha, se encontram. Em linguagem geométrica, isto quer dizer que um ponto em um plano pode ser representado pelos valores (hoje chamados "coordenadas cartesianas") das suas duas distâncias (x, y) tomadas perpendicularmente a dois eixos que se cruzam em ângulo reto nesse plano, com a convenção de lado positivo e negativo para um e outro lado do ponto de cruzamento dos eixos. Então uma equação f(x,y)=0 pode ser satisfeita por um infinito número de valores de x e y. O importante é que esses valores de x e y podem representar as coordenadas de vários pontos de uma curva, da qual a equação f(x,y)=0 expressa alguma propriedade geométrica, isto é, a propriedade verdadeira da curva em cada ponto dela. Por exemplo, o gráfico da função f(x)=x2 consiste de todos os pares (x, y) tais que y=x2, ou seja, é a coleção de todos os pares (x, x2), como (1,1), (2, 4), (-1, 1), (-3, 9), etc. A curva resulta ser uma parábola. Qualquer propriedade particular desta curva pode ser deduzida da equação, sem necessidade de se fazer o desenho da curva para encontrar os pontos graficamente, e duas ou mais curvas podem ser referidas a um e mesmo sistema de coordenadas; o ponto no qual duas curvas intersectam é determinado pela raiz comum às suas duas equações. E isto é geometria analítica, sua invenção. Um de seus críticos diz que algumas idéias no La Géométrie podem ter vindo de um trabalho anterior de Oresme mas reconhece que no trabalho de Oresme não há nenhuma evidência de ligar a álgebra e a geometria. Wallis, um contemporâneo de Descartes, argumenta em sua "Álgebra" (1685) que as idéias do La Géométrie foram copiadas do trabalho de Harriot sobre equações. Isto é considerado possível pelos historiadores da matemática, apesar de que Descartes sempre alegou que nada em sua obra era influência do trabalho de outros. . Dos dois restantes apêndices do Discours um era devotado à ótica, outro a natureza. Seu maior interesse está nas leis da refração, coincidentes no entanto com os achados de Snell, cujos experimentos originais Descartes deve ter repetido em Paris, em 1626 e 1627, e provavelmente se esqueceu de mencionar. Grande parte da ótica está dedicada a determinar a melhor forma para as lentes de um telescópio, mas as dificuldades mecânicas para polir uma superfície de vidro até uma forma requerida eram tão grandes naquela época que tornavam essas pesquisas de pouca utilidade prática. Mas revelam que Descartes estava em dúvida se os raios de luz procediam do olho e tocavam os objetos, como supunham os gregos, ou se, ao contrário, procediam do objeto e afetavam o olho. Porém, como ele considerava a velocidade da luz ser infinita, ele não considerou esse ponto particularmente importante.No Meteoros Descartes discute numerosos fenômenos atmosféricos, inclusive o arco-íris, que não explica corretamente por ignorar fatos importantes relativos ao índice de refração das substâncias para diferentes cores de luz.. Sua física do universo, de base metafísica, reunindo muito do que havia preparado para o não publicado Le Monde, encontra-se exposta no seu Principia, de 1644. Descartes não acredita em ação à distância. Conseqüentemente, não podia admitir haver vácuo em torno da terra e sim alguma matéria que seria o meio pelo qual as forças poderiam ser transferidas. A mecânica de Descartes supõe o universo cheio com a matéria que, devido a algum movimento inicial, se estabeleceu como um sistema de vórtices que carregam o sol, as estrelas, os planetas e seus satélites, e os cometas em seus trajetos. Por muitas razões a teoria de Descartes, é mais satisfatória do que o efeito misterioso da gravidade agindo a distância. Ele assume que a matéria do universo tem que estar em movimento, e que o movimento deve resultar em diversos vórtices. Sustenta que o sol está no centro de um imenso redemoinho de matéria, no qual os planetas flutuam e são arrastados em círculo como palhas em um redemoinho de água. Supõe que cada planeta está, por sua vez, no centro de um redemoinho secundário no qual os seus satélites são carregados em órbita. Estes redemoinhos secundários supostamente produzem variações de densidade no meio que os circunda e assim afetam o redemoinho primário principal, fazendo os planetas se moverem em elipses e não em círculos. De acordo com essa concepção o sol estaria no centro das elipses planetárias e não em um de seus focos, como Kepler havia demonstrado. Newton, em 1687, examinou sua teoria e verificou que não apenas estava em desacordo com as leis de Kepler mas também com as leis fundamentais da mecânica. No entanto, apesar de seus defeitos, a teoria dos vórtices marca um momento na astronomia, porque foi uma tentativa feita, antes de Newton, de explicar todo o universo por leis mecânicas conhecidas na terra e não milagres do céu. More perguntou a Descartes: "Por que os seus vórtices
não são em forma de coluna ou cilindro (como um ciclone) em vez de elipses, desde que,
tanto quanto eu entendo, qualquer ponto do eixo de um vortex é como se fosse o centro do
qual a matéria celestial se afasta com um ímpeto inteiramente constante?" Mas Descartes
não lhe deu resposta. Rubem Queiroz Cobra
R.Q.Cobra |
Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Descartes. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 1998. ("Geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)
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