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CAMPANELLA

Vida, época, filosofia e obras de Tommaso Campanella - Parte I

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br
)

parte I
 parte II

VIDA. Nascido em Stilo, na Calábria, em 05/09/1568 (faleceu maio 1639), Campanella foi batizado Giovano Domenico Campanella, e depois tomou o nome de Frei Tommaso Campanella, ao receber o hábito dominicano, aos 15 anos (1583). Se diz que foi uma criança de inteligência precoce. Seu treinamento formal em filosofia e teologia foi no convento dominicano. Cedo em sua carreira se desencantou com a filosofia Aristotélica. A principal influência intelectual que teve foi da doutrina de Bernardino Telésio (1509-1588), um antiaristotélico de Cosenza, reino de Nápoles, cuja principal obra, De Rerum Natura o impressionou muito. Convém examinar em que consistiu essa influência.

O principal discurso de Telésio era que todo conhecimento é sensação e que a inteligência é, portanto, uma coleção de dados isolados proporcionados pelos sentidos. A natureza devia ser explicada "com seus próprios princípios e não através dos conceitos Aristotélicos ou da magia; conhecer a natureza com a própria natureza; ao homem que souber observá-la a natureza se revelará por si mesma (Obra: "Sobre a Natureza de Acordo com seus Próprios Princípios", pb. 1565 colocada no Index após sua morte, em 1596). Para ele, Telésio, conhecer é sentir; a consciência não é senão sensação. Atividade física e atividade espiritual não diferem: o intelecto é um dos sentidos, apenas mais sutil. A alma é material: sua dilatarão é o prazer; sua contração, a dor. Não nega a realidade que ultrapassa a natureza, que é Deus. Além da alma material o homem tem uma alma espiritual, que lhe permite intuir (não se trata mais de sentir) o além-sensível e o eterno. Nesta alma está o fundamento do mundo moral, porque nela está a liberdade que eleva o homem acima do jogo mecânico das forças físicas. A filosofia de Telésio, muito influente no sul da Itália, apontava o caminho para o empirismo. Repele o método dedutivo que faz mover as razões de pressupostos apriorísticos e fundamenta a validade da razão sobre a experiência. O seu sensismo lança as bases do método experimental.

Campanella foi a Nápoles em 1589, sem permissão da sua congregação, publicar Philosophia Sensibus Demonstrata ("Filosofia Demonstrada pelos Sentidos", saiu em 1591), em defesa de Telésio. Neste seu trabalho, Campanella reflete a preocupação de Telésio de uma aproximação empírica dos problemas filosóficos. Atitude semelhante Campanella terá mais tarde para com Galileu.

A partir de então os escritos de Campanella salientam a necessidade da experiência humana como uma base para a filosofia. O sujeito sensciente (consciência pela via do sentir) sente primeiro a si mesmo e depois o calor, isto é, sente o calor através de si mesmo mudado pelo calor.

Sua obra é mesclada de vários elementos (neoplatônicos, materialismo de Demócrito, magia, astrologia, medicina, poesia. Sugere também a utilização da teoria de Demócrito (autor da teoria atômica - 520-440 AC) quanto às qualidades sensíveis primárias ou comuns (figura, grandeza, peso, movimento ou repouso) e as qualidades secundárias ou próprias (cor, som).

Em Nápoles, em 1589, entrou em contacto com Giambattista della Porta, um erudito que reunia em torno de si diversos grupos de pensadores e interessados em experiências, magia branca, e astrologia. Campanella aqui participa de experimentas primitivos, e de estudos de astrologia.

O livro motivou sua prisão e julgamento por heresia. A audácia de suas idéias e expressões provoca suspeitas e acusações contra ele. Seus pensamentos haviam se afastado tanto da ortodoxia Dominicana que ele foi denunciado à inquisição. Primeiro processo em 1591 e em 1592. É preso sob suspeita de obter conhecimentos de fonte diabólica (pontificado de Gregório XIV (1590-1591) e de Inocêncio IX (1591)).

Foi libertado meses depois com a condição de retornar ao convento na Calábria, mas em vez disso, viajou para Florença: o Grão Duque promete-lhe uma cátedra em Pisa, mas não consegue que seja aceito na universidade devido ao seu anti-aristotelismo.

Dirige-se para Pádua. A meio caminho, em Bolonha, foi abordado pela justiça eclesiástica e teve confiscados os manuscritos que levava e que, mais tarde, em 1594, serão apresentados contra ele no tribunal do Santo Ofício em Roma.

Chegado em Pádua, encontra-se com Galileu. Mas é novamente preso e se acha logo implicado em quatro processos. Um deles sob acusação de sodomia, de que é; em outro, é acusado de ter discutido com um judeu questões da fé católica. Foi de lá enviado preso a Roma, para julgamento, 1594 (Bruno lá está preso desde o ano anterior).

Enquanto preso, Campanella escreveu obras teocráticas que o absolveram: De Monarchia Christianorum, De regimine Ecclesiae, Discorsi universali del governo ecclesiastico, Dialogo politico contro Luterani (1595). Em 1596 renunciou à heresia de que era acusado, conseguindo absolvição.

Em Stilo, para onde retorna em 1598, a miséria do povo o comove, pensa fundar um novo governo na Calábria em 1599.

Começa a pregar a idéia da teocracia universal sob a religião e a lei da natureza. O sol representava Deus. O movimento toma forma de conjuração para expulsar os espanhóis de Nápoles e da Sicília. O golpe é descoberto. O vice-rei de Nápoles dá ordem para a repressão e ele é levado a ferros para Nápoles com outros presos, para ser julgado por heresia e sedição.

Em 29 de setembro de 1599 dois dos detidos foram condenados "à roda e despedaçados no meio da praça pública", outros dependurados por um pé e vinte e quatro horas após esquartejados e exposta sua cabeça em uma jaula; os outros (e Campanella entre eles) foram transportados por mar a Nápoles em quatro galeras, e ao entrar no porto, a 8 de novembro de 1599, viam-se em cada nave um dependurado e dois esquartejados para escarmento do povo.

Torturado, confessa o que querem e, sabendo que seria morto, finge loucura: a lei não permite executar uma sentença de morte contra um louco, que não podia salvar a sua alma da condenação eterna mediante o arrependimento. Para tirar a prova da loucura é submetido à tortura da vigília, prolongada por 36 horas. Com as carnes em pedaços e sangrando, mas salvo; deveria ser mantido em prisão perpétua.

Escreveu no cárcere várias obras, entre elas Metafísica, Monarchia di Spagna (1599-1601) e a famosa "Cidade do Sol". A Metafísica pretendia ser um sistema filosófico e teológico completo.

Dirige cartas ao Papa e aos cardeais (1606-1607) procurando justificar-se e obter o perdão. Passa a gozar certa liberdade, podendo inclusive dar aulas, pois o vice-rei tinha interesse em seus conhecimentos de magia e astrologia.

Entre seus interesses, como de resto acontecia aos eruditos na idade moderna, principalmente no início, misturam-se política, filosofia, medicina, magia e astronomia. Entusiasmou-se com o Nuncius Sidereus de Galileu, pois causou-lhe (por motivos de sua teologia) grande alvoroço as provas de que o Sol era o centro do nosso sistema (ele queria que fosse o centro do universo). Sem pensar no perigo que enfrenta, escreve a favor de Galileu contra a inquisição em 1616 Apologia pro Galileu defendendo os direitos da ciência frente à religião.

Põe-se contra o decreto proferido pelo tribunal eclesiástico em 1616, que considerava a doutrina heliocêntrica nociva para a fé. Repete, como Giordano Bruno e os outros sustentadores da doutrina da dupla verdade, que a verdade religiosa e a filosófica não podem entrar em conflito, porque têm campo diferente: uma a da conduta moral e da vida futura; a outra, o do conhecimento deste mundo.

Campanella escreve: "No Evangelho não se lê que Cristo tratasse jamais de assuntos físicos ou astronômicos, mas de coisas morais e das promessa da vida eterna" As idéias de Campanella nessa ocasião eram consideradas heterodoxas e heréticas pela autoridade eclesiástica romana, e por isso a Apologia pro Galileu era um ato de ousadia.

Na prisão escreveu também poemas líricos ("Seleções", 1622) considerada a poesia mais original (italiana) da época.

Sua obra mais importante para muitos é a sua Metafísica, escrita entre 1602 e 1603, publicada na França em 1638. Nela expõe sua teoria da metafísica baseada numa estrutura trinitária de poder, saber e amor.

Nos 30 livros da Teologia ele revisa as doutrinas católicas à luz da sua teoria metafísica.

Em 1626, no pontificado liberal de Urbano VIII, (1623-1644) por influência de alguém, possivelmente do próprio vice-rei, Campanella é libertado, após 27 anos de prisão.

Após sua libertação em 1626 Campanella tentou em vão que suas idéias fossem aceitas pela Igreja. Deu oportunidade a que o Santo Ofício logo o prendesse novamente (com certeza desconsiderando o poder por cuja influência, pouco antes, o libertara). É enviado a Roma, onde somente em 1628, pelo interesse despertado no Papa por seu folheto astrológico De fato siderali viatando, consegue ser chamado ao palácio pontifical a fim de realizar práticas mágicas e astrológicas.

Aproveita para tentar convencer a Igreja a buscar um regime de unificação política de todo o mundo sob sua égide. O resultado foi sua libertação definitiva em 1629. Ficara 30 anos na prisão.

Em 1632, quando Galileu é condenado devido ao Dialogo dei massimi sistemi, Campanella se oferece como defensor no processo, e com isso atrai as atenções da inquisição que faz o seqüestro dos exemplares da Monarchia Messiae.

Para não ser ligado por suspeita a uma sedição em Nápoles, em 1634, fugiu para a França, que via ser o país que mais prometia facilitar a unificação política do mundo. Foi bem recebido por Luís XIII e por Richelieu.

Publicou várias obras na França até sua morte em 26 de março de 1639.

  Rubem Queiroz Cobra                   
Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia

Aberta em 28/03/97

parte I -  parte II
 

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Campanella. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, 1997.
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Rubem Queiroz Cobra