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GIORDANO BRUNO

Vida, época, filosofia e obras de Giordano Bruno - Parte I

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br
)

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Introdução. Filósofo, astrônomo e matemático, importante pelas suas teorias sobre o universo infinito e a multiplicidade dos sistemas siderais, no que rejeitou a teoria geocêntrica tradicional e ultrapassou a teoria heliocêntrica de Copérnico que ainda mantinha o universo finito com uma esfera de estrelas fixas. Embora tais campos não existissem ainda na ciência, pode-se dizer que Bruno está interessado na natureza das idéias e do processo associativo na mente humana. Por outro lado, está fascinado em prover com um embasamento filosófico as grandes descobertas científicas de seu tempo.

Nascido em Nola (motivo de ser chamado o Nolano) lugarejo no sul da Itália, relativamente próximo ao vulcão Vesúvio. A região constituía o Reino de Nápoles e era domínio de Carlos V (Sacro Império), depois de Felipe II da Espanha, seu filho. Essa dominação vai de 1529 a 1700. Nápoles era baluarte espanhol contra os mouros. Governada por um Vice Rei (Pedro de Toledo na época de Carlos V). Época em que, devido a descoberta de novas rotas marítimas, a importância do mediterrâneo para o comércio acaba.

Bruno é um filósofo cuja personalidade muito peculiar é um fator central no exame de suas idéias e de sua atuação. Ele desejava reformar a filosofia aristotélica e ao mesmo tempo opunha-se acerbamente a seus contemporâneos Ramus ( o lógico anti-aristotélico Pierre de la Ramée, ou Petrus Ramus - 1515-1572) e Patrizzi (Francesco Patrizzi - 1529-1597), que ele cita em Della causa principio et uno" (1584), e cujos esforços eram direcionados para o mesmo objetivo. Envolvia-se em querelas violentas mesmo sobre questões triviais; inábil para agir em seu próprio interesse, afastava aqueles que poderiam protegê-lo. Sua volta à Itália em 1591, depois de longo exílio auto-imposto, talvez não fosse saudades da pátria mas sim falta de alternativas de refúgio. Era um filósofo condenado a fugir, combatido e excomungado por três Igrejas. Os exageros, as limitações e os erros de seu sistema científico, sua intolerância mesmo com aqueles que trabalhavam pelas reformas a que ele próprio estava devotado, as analogias falsas, alegorias fantásticas, argumentos sofísticos em que seu fervor emocional justificaram, aos olhos de muitos, que Bayle o comparasse a Dom Quixote, dizendo que foi o "cavaleiro-errante da filosofia".

No século XVI a filosofia se liberta da religião, e a ciência moderna nasce da filosofia. A ciência não mais será a busca da verdade na propriedade lógica de conceitos, mas através das lentes de microscópios e telescópios. Bruno é a figura principal nessa transição: torna-se um filósofo independente e pressente que a verdade está para além do autoritarismo lógico dos filósofos escolásticos. Embora não seja um cientista, pois não era nem matemático nem astrônomo, dá prontamente crédito a Copérnico, um observador do céu e do movimento dos astros. Copérnico ousa contrariar a cosmologia das esferas celestes perfeitas do sistema aristotélico-ptolomaico que tomava a terra, "logicamente", como o centro do universo.

Sua idéia de que o universo era infinito, e que muitos mundos deveriam existir além daquele então conhecido foi uma das grandes idéias estimuladoras da ciência, durante o Renascimento. O seu livro "Sobre o Universo Infinito e Mundos" em que faz sua afirmação da existência de outros mundos povoados por seres inteligentes é ainda hoje um grande apelo para a imaginação de muitos. Sua técnica de classificação sistemática de objetos da observação no preenchimento de tabelas, suas tábuas combinatórias, foram o germe os métodos empíricos que marcaram o início da ciência experimental.

Quem não compreende essa posição de Giordano Bruno vai considerá-lo apenas um vadio, um filósofo andarilho ou um poeta errante, e será incapaz de ligá-lo diretamente à linha do progresso moderno. Ele foi um pioneiro que acordou a Europa de seu sono intelectual e foi martirizado devido ao seu entusiasmo. Essa perspectiva ainda não existia à época de Bayle, que o chamou "o cavaleiro errante da Filosofia".

Primeiros anos. Bruno nasceu em Nola, lugarejo não muito distante do Vesúvio, província de Nápoles, na Campônia, Itália Meridional, em 1548, com o nome de Filippo Bruno. Era filho de João Bruno, militar, e Flaulissa Savolino. Foi para Nápoles em 1562, e teria 13 anos, estudar humanidades, lógica e dialética. no mesmo Convento de San Domenico Majore, onde São Tomás de Aquino vivera e ensinara.

Em 1565, aos 17 anos, Bruno recebe hábito de São Domingos, ocasião em que muda o nome para Giordano. Ordenado sacerdote em 1572, continuou no convento seus estudos de teologia, que concluiu em 1575.

Estudos e influências. São muitas as influências apontadas, que Giordano Bruno teria sofrido durante o período de sua formação. É especialmente atraído pelas novas correntes de pensamento, entre as quais as obras de Platão e Hermes Trismegistus, ambos muito difundidos na Itália ao início do Renascimento.

É a época dos mais acesos debates no Concílio de Trento (1545-1563), convocado por Paulo III para discutir estratégias na contra reforma protestante. Possivelmente as discussões ousadas que ocorriam em Trento, sobre temas controversos da religião e da filosofia, das quais com certeza tinha notícias no convento, influíram no espírito de Giordano Bruno. Ficou impressionado com as aulas de G. V. de Colle, filósofo de tendência averroísta (O pensamento de alguns filósofos cristãos ocidentais inspirado na interpretação de Aristóteles feita pelo filósofo muçulmano Averroes, o qual ensinava que a filosofia é uma disciplina puramente racional, independente da religião revelada) como também com o que leu sobre métodos de memorização (Mnemotécnica).

Bruno desenvolve então um interesse especial pela Arte Combinatória do místico e poeta catalão Raimundo Lúlio (1235-1316). Lúlio buscava construir um sistema de associações de idéias por meio de tábuas giratórias com as quais se poderia chegar a todas as combinações possíveis entre sujeitos e predicados, com a possibilidade de responder a todas as indagações do intelecto.

Outra influência sobre Bruno, versando o mesmo campo, supõe-se que foi a de Giovanni Battista (ou Giambattista) Della Porta, um erudito napolitano, físico e químico, cientista e teatrólogo, que publicou um livro importante sobre mágica natural, Magia Naturalis (1558). .

Nessa área, porém, talvez a influência predominante sobre Giordano Bruno tenha sido a da antiga religião egípcia do culto ao deus Toth, escriba dos deuses, inventor da escrita e patrono de todas as artes e ciências, e identificado com o deus grego Hermes Trismegisto (Três vezes grande) pelos neoplatônicos. As obras de Platão e também a Hermética, que é o conjunto dos segredos revelados por Hermes-Toth que constituem as ciências ocultas e astrologia a nível popular, e certos postulados de filosofia e teologia a nível erudito, - introduzidos em Florença por Marsilio Ficino ao final do século anterior.

Intolerante com a ignorância dos colegas de claustro; aborrecia-se com as discussões de sutilezas teológicas. Leu dois comentários proibidos de Erasmus e discutia desassombradamente a heresia de Ariano, que negava a divindade de Cristo. Suas tendências heterodoxas provocaram censuras e admoestações e por fim passou por um julgamento por heresias promovido pelo padre provincial da ordem, e então ele foi morar no Convento dominicano de Minerava, em Roma, em fevereiro 1576. La foi vítima de uma acusação improcedente de assassinato. Aparentemente não mudou suas atitudes pois, em pouco tempo, novo processo foi aberto contra ele no convento de Minerva. Deixou, então, o hábito dominicano e perambulou pelo norte da Itália por mais de um ano.

Suíça e França. Em 1578, viajou para a Suíça, onde, em Genebra, ganhava a vida fazendo revisão de textos. É tido como certo que lá ele abraçou o calvinismo, apesar de haver mais tarde negado veementemente, diante da Inquisição em Veneza, que tivesse aderido à Igreja Reformada. Talvez tenha aderido apenas por conveniência por se achar em um país calvinista, porque logo publicou um escrito em que criticava desrespeitosamente um professor calvinista. Discorda da tese calvinista da justificação por meio da fé e não das obras, o que para ele significava desvalorização e desprezo de toda caridade, misericórdia e justiça. A reação dos calvinistas foi rigorosa: foi preso e excomungado, porém retratou-se e assim lhe foi permitido deixar a cidade.

Vai para a França. Passa 2 anos (1579-1581) em Toulouse, onde consegue nomeação para uma cátedra de filosofia. Fiel as suas primeiras leituras sobre a teoria luliana, quando professor na universidade de Toulouse Bruno escreve um livro: Clavis Magna ("A grande chave") sobre o assunto. Lá tentou, sem sucesso, ser absolvido pela Igreja Católica. A esta altura é um homem sem pátria e sem Igreja. Seguiu para Lyon onde concluiu o Clavis Magn dedicado à arte da memorização, e de lá, em 1581, para Paris.

Primeiro período em Paris. Em Paris Bruno encontrou ambiente favorável para trabalhar e lecionar. Não era incomum para os eruditos vagar de lugar para lugar, buscando alunos e protetores abastados. Ele fazia contactos facilmente e podia interessar qualquer grupo que encontrasse com o fogo de suas idéias. Leciona publicamente filosofia, sob os auspícios do Colégio de Cambrai, o precursor do Colégio de França.

A reputação de Bruno chegou ao conhecimento Henrique III, que ficou curioso de conhecer essa nova atração filosófica. O rei estava curioso de descobrir se a arte de Bruno era de um mágico ou de um bruxo. Bruno gozava a reputação de um mágico que podia dotar a pessoa de uma grande retenção de memória, mas demonstrou ao rei que seu sistema era baseado em conhecimento organizado. Bruno encontrou um verdadeiro protetor em Henrique III.

A corte era dominada por uma facção de católicos tolerantes, simpatizantes do rei de Navarra, o protestante Henrique de Bourbon, sucessor presuntivo de Henrique III. A posição religiosa de Bruno afinava com esse grupo liberal, motivo de ser bem aceito na corte e receber a proteção do rei. As artes combinatória e mnemônica são os principais objetos da curiosidade real. O rei concede-lhe uma renda especial, nomeando-o um de seus "Leitores reais". Bruno logo desperta a inveja dos professores por ser popular e admirado, mas sustenta com habilidade sua posição.

Foi por essa ocasião que um dos primeiros trabalhos de Bruno foi publicado De Umbris Idearum, ("A sombra das idéias") logo seguido por Ars Memoriae ("Arte da memória"). Nestes livros ele sustentava que a idéias eram somente sombras da verdade. No mesmo ano um terceiro livro surgiu: De architetura et commento artis Lulli ("Sobre a Arte de Lúlio e comentário").

Lúlio havia tentado provar os dogmas da Igreja por meio da razão. Bruno nega o valor desse esforço mental. Ele argumenta que o Cristianismo é inteiramente irracional, que é contrário à filosofia e que contraria outras religiões. Salienta que nos o aceitamos pela fé, que a assim chamada revelação não tem base científica.

No seu quarto trabalho Bruno escolhe a feiticeira de Homero, Circi, que mudava homens em bestas e faz Circi discutir com sua criada o tipo de erro que cada besta representa. O livro Cantus Circaeus mostra Bruno trabalhando com o princípio da associação de idéias, e continuamente questionando o valor dos métodos de conhecimento tradicionais.

Em 1582, na idade de 34 anos, ele escreveu uma comédia em italiano, Il Candelajo, um fabricante de velas que sai a anunciar seus produtos com gritos e estardalhaço: "... as velas que fiz nascer, as quais iluminarão certas sombras de idéias...O tempo dá tudo e tudo toma, tudo muda mas nada morre... Com esta filosofia meu espírito cresce, minha mente se expande. Por isso, apesar de quanto obscura a noite possa ser, eu espero o nascer do dia... Alegrem-se, portanto, e mantenham união, se puderem, e retribuam o amor com amor." Nessa peça faz uma representação eloqüente da sociedade napolitana contemporânea, como um protesto contra a corrupção social e moral da época. A comédia, satiriza o amante desajeitado, o avarento sórdido e o pedante ridículo

Na primavera de 1583, não obstante a cordial acolhida que lhe fora dispensada em Paris pelo rei e pelos espíritos desvinculados do aristotelismo, Bruno resolve sair da França. Seja porque não pudesse mais sustentar sua popularidade em Paris, ou por que a cada dia se tornava mais grave a ameaça de uma renovação da guerra civil, em abril de 1583 Bruno mudou-se para Londres, com uma carta de apresentação de Henrique III para seu embaixador para as ilhas britânicas, Michel de Castelnau.

Inglaterra. É possível que o brilho do período elisabetano tenha atraído Giordano Bruno à Inglaterra. Sob a rainha Isabel I, a Inglaterra vivia um Renascimento tardio. A rainha, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, nasceu em 1533. Terceira na linha de sucessão de seu pai Henrique VIII, reinou de 1558 a 1603, depois de seu irmão doente Eduardo VI e de sua irmã mais velha Maria I, que foi casada com Felipe II de Espanha.

Oxford, como as demais universidades européias da época, cultivava a reverência escolástica pela autoridade de Aristóteles. Bruno pronunciou em Oxford uma série de conferências no verão de 1583, nas quais expunha a teoria de Copérnico mantendo a realidade do movimento da terra. Ao seu modo impetuoso, pregava que não se deveria acreditar no que Aristóteles havia afirmado, quando a simples observação da natureza demonstrasse o contrário.

Devido à recepção hostil dos professores oxfordianos, ele voltou para Londres onde passou dois anos, de 1583 a 1585, como hospede de Castelnau. Graças à proteção do embaixador ele pode freqüentar a corte e ligar-se a figuras influentes tais como o poeta Sir Philip Sidney e o duque de Leicester Robert Dudley. Em 1584 foi convidado por Fulke Greville, um membro do círculo de Sidney, para discutir sua teoria do movimento da Terra com alguns doutores de Oxford. A discussão degenerou em querela.

Apesar de tudo, o período em Londres foi muito produtivo. Começou a escrever seus diálogos italianos, que constituem a primeira exposição sistemática de sua filosofia. São seis diálogos, três cosmológicos - sobre a teoria do universo - e três sobre moral.

Na Cena de le Ceneri ("A Ceia da Quarta Feira de Cinzas"), vinga-se dos professores de Oxford, que ele diz entenderem mais de cerveja que de grego. É a história de um jantar de que participam convivas ingleses com local simulado em Paris e Veneza, escrito em 1584, ele não apenas reafirma a realidade da teoria heliocêntrica de Copérnico, - a qual ainda era objeto de riso e de descrença por não coincidir com os ensinamentos de Aristóteles -, mas ainda sugere que o universo é infinito, constituído de inumeráveis mundos substancialmente similares ao do sistema solar.

A Sir Philip Sidney Bruno dedicou "Il spaccio della bestia trionfante", seu mais ácido ataque à Igreja Católica, porém uma homenagem à altura, uma vez que os ingleses tinham os católicos por inimigos.

Enquanto na Inglaterra, Bruno teve uma audiência pessoal com Isabel I, a quem teria bajulado com superlativos, inclusive chamando-a "sagrada" e "divina", o que serviu, mais tarde, para alimentar seu processo como infiel e herege. Consta porem que a rainha não o levou em grande conta, achando-o rude, radical, subversivo e perigoso, enquanto Bruno considerava os ingleses um tanto primitivos.

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Rubem Queiroz Cobra            
 

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada
em 28/03/1997
Última revisão 01/02/2000

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Giordano Bruno. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.
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