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GIORDANO BRUNO

Vida, época, filosofia e obras de Giordano Bruno - Parte III

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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FILOSOFIA

Perfil filosófico. Em seus escritos Bruno expõe um sistema de filosofia no qual os principais elementos são neoplatonismo, monismo materialista, misticismo racional relativo ao conhecimento e à linguagem, e o conceito naturalista de unidade do universo material, com inspiração na astronomia de Copérnico. Seu sistema filosófico inclui, portanto, posições algo contraditórias. Inimigo da Escolástica, no entanto respeitava o pensamento de Santo Alberto Magno e de São Tomás de Aquino.

Como panteísta: acredita que a terra e os homens são na verdade acidentes de uma única substância universal, que Deus está em tudo e tudo está em Deus. Já como neoplatônico, distingue Deus à parte do mundo material, coloca Deus em um extremo; e uma natureza que contem espírito e matéria, e deste modo as coisas que existem variam em perfeição, descendo desde a unidade divina, que é puro espírito, até a matéria pura e as trevas do mal. O neoplatonismo distingue, pois, os extremos do bem e do mal, e isto não existe no panteísmo. É animista, por acreditar que tudo contem o espírito.

Não obstante certa falta de clareza, antecipa-se de modo óbvio a Descartes, Espinosa e Leibniz e, em certa medida, a vários outros filósofos da Época Moderna. Em "A tripla rédea e medida das três ciências especulativas e o princípio de muitas artes práticas", encontramos uma discussão sobre um tema que será retomado posteriormente por Descartes. O livro foi escrito cinco anos antes do nascimento de Descartes e diz: Quem tanto estiver sedento de Filosofia precisa por-se a trabalhar colocando todas as coisas em dúvida." E em outro local diz: "No entanto, tudo que os homens possam julgar seguro e evidente, fica provado, quando trazido a discussão, ser não menos duvidoso do que são as crenças extravagantes e absurdas."

Espinoza, desenvolveu o panteísmo de Bruno depurando-o e apresentando-o com mais clareza e detalhada argumentação. Por outro lado, ao transformar os átomos do materialismo de Demócrito, Epicuro e Lucrécio em mônadas animadas magicamente, Bruno prenunciou a monadologia de Leibniz.

A atitude de Bruno em relação à religião era a de um racionalista. Disse dele um teólogo que ele era "um homem de grande capacidade, com infinitos conhecimentos, mas sem um traço de religião". Porém Bruno não se dizia ateu mas "filoteu" como no título de uma de suas obras: Philotheus Jordanus Brunus Nolanus de compendiosa architectura et complemento artis Lullii (Paris, 1582). Cunhou a frase "Libertas philosophica", o direito de pensar, sonhar e filosofar, e foi martirizado devido ao seu excessivo entusiasmo. A idéia do universo infinito foi uma das mais estimulantes idéias do Renascimento.

No século XIX intelectuais italianos redescobriram Bruno, tomando-o como símbolo do filósofo de vanguarda, ousado e livre, e mártir da ciência e da filosofia. Para muitos, no entanto, ele não passou de um ocioso, um filósofo andarilho, um poeta vadio, e ficou longe de merecer ser chamado um cientista. Mas, sem dúvida, foi um pioneiro que acordou a Europa de um longo sono intelectual. Ao final do século XVI aparentemente não havia um único professor que ensinasse o universo segundo Copérnico, exceto ele, Giordano Bruno. Galileu apresenta suas provas somente mais tarde, no início do século XVII, e mesmo então é obrigado a abjurar a teoria. Galileu nunca encontrou Bruno e foi bastante esperto para não citar um herege condenado em suas obras.

Mais que qualquer outro, Bruno merece ser chamado pioneiro da ciência e da filosofia moderna pelo sentido profético de suas deduções em inteiro acordo com as teorias científicas e filosóficas provadas depois. Como um visionário ele é ousado e imaginativo, e menos preciso e cuidadoso, e seu fim trágico fez dele um mártir da liberdade do pensamento.

Cosmologia. Em sua cosmologia Bruno segue Lucrécio e Copérnico, mas ele deduziu implicações do sistema heliocêntrico muito além do pensamento do próprio Copérnico. O movimento dos astros não seria esférico como Copérnico havia apresentado. Bruno suprime a esfera das estrelas fixas conservada por Copérnico e alarga o universo ao infinito. Sua cosmologia está contida no seu diálogo Del infiniro universo e mondi ("Sobre o Infinito, Universo e Mundos"). Nesta obra ele desenvolveu sua teoria cosmológica criticando sistematicamente os físicos aristotélicos, refuta a cosmologia tradicional de Aristóteles e afirma que o universo físico não é finito e limitado como pretendia a concepção medieval, mas infinito e ilimitado e inclui um número não definido de mundos, cada um com o seu sol e seus planetas e que estes eram todos habitados por seres inteligentes. A terra se torna assim uma pequena estrela entre as outras em um universo infinito. Sendo Deus, criador do mundo, necessariamente um ser infinito; seria contraditório que a uma causa infinita não correspondesse um efeito infinito. O universo, pois, como efeito de uma causa infinita não pode conceber-se senão como infinito. O universo não contem apenas o nosso sistema (nosso mundo) mas um sistema de mundos infinitos que nascem e decaem movidos pela divina força universal. Existiriam possivelmente inumeráveis mundos habitados. Em sua doutrina encontramos algo do pensamento moderno como ä afirmação no seu livro De la Causa, Principio, et Uno: de que a extinção é impossível em qualquer parte da Natureza, ou a frase: "Não existe lado de cima ou lado de baixo", e não havia posição absoluta no espaço, como dissera Aristóteles, pois que a posição de um corpo "era relativa à dos outros corpos. Em toda parte ocorrem mudanças relativas incessantes de posição por todo o universo, e o observador está sempre no centro das coisas". O mundo não tem limites nem referência absoluta e, portanto, as várias imagens dele são relativas: qualquer ponto é centro - periferia. Infinidade e relatividade.

Seguindo deduções tipicamente aristotélicas, diziam os mestres escolásticos que, se a terra se movesse, as nuvens seriam deixadas para trás, as folhas mortas voariam sempre no mesmo sentido; uma pedra solta do alto de uma torre se afastaria do pé da torre. A esse pensamento juntava-se a concepção de que, excetuando-se o movimento circular uniforme, impresso por Deus aos corpos celestes, todos os demais movimentos são imperfeições, constituindo transgressões ou reparações de transgressões da ordem divina.

A refutação de Bruno a esse argumento, em O Banquete das Cinzas (1584), é que a terra e tudo que nela se encontra formam um sistema. Os objetos de um navio se movem com ele. Do mesmo modo, as nuvens, os pássaros, as pedras são levados com a terra.

No mesmo diálogo ele se antecipa ao astrônomo Galileu Galilei, sustentando que a Bíblia devia ser seguida pelos seus ensinamentos morais e não por suas implicações astronômicas. Ele também criticou fortemente os costumes da sociedade inglesa e o pedantismo dos doutores de Oxford.

São afirmações ousadas em uma época em que o pensamento teológico filosófico medieval era ainda predominante, e tinha como uma de suas peças básicas a astronomia de Ptolomeu que afirmava ser a Terra um ponto imóvel privilegiado, centro do movimento circular de todos os corpos celestes, teoria que afinava tanto com os textos bíblicos quanto com o pensamento racional aristotélico que a escolástica integrava num todo unitário.

Neoplatonismo. Os diálogos italianos escritos na Inglaterra e os poemas latinos escritos na Alemanha são importantes para sua filosofia. No De gli eroici furori, um dos diálogos italianos, Bruno segue a tradição do neoplatonismo renascentista ao louvar o amor "heróico" pelo infinito.

No livro Sigillus sigillorum, a doutrina neoplatônica torna a ser afirmada, com mais desenvoltura que na De umbris idearum. Começa a desenvolver mais a idéia da unidade universal: conclui com Parmênides que tudo é o "Uno", e por isso devemos procurar o "Uno" em cada ser múltiplo, e o idêntico em cada ser diverso: o que nos leva a amar a tudo e nos impele por todo caminho cognitivo a voltar à união com Deus.

Animismo. Bruno é animista. Em sua filosofia o universo é um sistema em permanente transformação, um todo no qual nada existe imóvel. Não apenas um movimento mecânico e passivo, segundo as leis da física, mas um movimento anímico que o faz transformar-se permanentemente. Tudo que existe estaria reduzido a uma única essência material provida de animação espiritual. Os astros giram também sobre seu próprio eixo para perpetuar em si a vida, para expor sucessivamente todas as suas partes ao sol (como seres que tem vida, aqui o seu animismo). O globo terrestre tem uma alma; na verdade, cada e toda parte dele, mineral, vegetal ou animal, é animada, toda matéria é feita dos mesmos elementos, não havendo distinção entre matéria terrestre e celeste, e todas as almas são afins. Todos os seres quaisquer que sejam são ambos corpo e alma: todos são mônadas viventes, reproduzindo, em uma forma particular, a Monada das mônadas, ou o Deus-Universo. Essa concepção vamos encontrar novamente em Leibniz

Panteísmo. O princípio do mundo infinito obriga Bruno a supor que o princípio do mundo não está fora dele, mas é força que está dentro dele. Bruno é contrário à ortodoxia cristã apoiada na metafísica aristotélico-tomista, que colocava Deus como primeira causa, motor imóvel e perfeição absoluta, que seria transcendente, ou seja, com existência plena e separada de suas criaturas.

Concebe Deus como imanente ao Universo e idêntico a Ele. Deus não é o criador nem o primeiro motor, mas a alma do mundo, não é causa transcendente e nem temporária com um momento de criação, mas, como Spinoza diria, a causa imanente, a causa interna e permanete das coisas, princípio material e formal das coisas. que as produz, organiza e governa de dentro para fora: numa palavra, sua substância eterna. O espaço, segundo ele, não tem limites ou barreiras intransponíveis separando nosso mundo de uma outra região reservada aos espíritos, anjos e Deus.

Deus está misturado nas coisas; mente ou alma do mundo, ordenadora e unificadora das próprias coisas. Em De la causa, principio e uno (também de 1584) ele elabora a teoria física na qual estava baseada sua concepção do universo: "forma" e "matéria" estão intimamente unidas e constituem o "Uno". Assim o tradicional dualismo dos físicos aristotélicos foi reduzido por ele a uma concepção monística do mundo, implicando a unidade básica de todas as substancias e a coincidência dos opostos na unidade infinita do Ser.

A individualidade de cada ente singular é forma individualizada e finita que assume a essência divina infinita. Deus, como unidade além de todos os opostos, não é cognoscível na sua profunda natureza.

Spinoza (1632-1677) tem o mesmo pensamento panteísta. Deus não seria um ser que tivesse criado o Universo, mas seria o próprio mundo. Deus imutável e infinito é atividade causadora de um efeito infinito que consiste no contínuo devir da infinidade nas coisas finitas. Deus é a mente, o artífice interno, a alma do mundo. A essência íntima do mundo é harmonia; para quem o compreende, os defeitos e as imperfeições dos pormenores concorrem para a beleza do conjunto. Este pensamento afasta-o do neoplatonismo.

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Rubem Queiroz Cobra            
 

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada
em 28/03/1997
Última revisão 01/02/2000

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Giordano Bruno. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.
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