COBRA PAGES
e seus
objetivos
--
Quem somos

reg.

COBRA PAGES: páginas em Educação e Cultura
Filosofia Moderna -  Filosofia Contemporânea - Filosofia no Brasil - Temas de Filosofia - Psicologia e Educação - Teatro Pedagógico - Higiene - Boas Maneiras e Etiqueta - Contos - Restauro - Genealogia - Geologia - Livros do Autor - CONTACTO

 

PMF-perguntas
mais freqüentes

ÍNDICE & BUSCA

 
 
 

NOVIDADES DO SITE

GIORDANO BRUNO

Vida, época, filosofia e obras de Giordano Bruno - I I

Página de Filosofia Moderna
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

anterior << Páginas 1 2 3 4  >>  próxima                   

Segundo Período em Paris. Sem ambiente na Inglaterra, Bruno se vê obrigado a acompanhar Castelnau quando este é chamado pelo Rei de volta à França em 1585. No caminho ambos são roubados de tudo que possuíam.

Em Paris encontrou uma atmosfera política mudada. Henrique III havia revogado o edito de pacificação com os protestantes e o Rei de Navarra havia sido excomungado. Longe de adotar uma linha de comportamento cauteloso, Bruno entrou em polêmica com um protegido do partido católico, o matemático Fabrizio Mordente, a quem ridicularizou em quatro Dialogi,

Bruno tentou, sem êxito, voltar ao catolicismo sem retomar o hábito dominicano, condição que lhe era imposta pela Igreja. Publica então "Árvore dos Filósofos", obra hoje perdida, e em maio de 1586 ousou atacar Aristóteles publicamente em seu Cento e vinti articuli de natura et mundo adversos Peripatetiso ("120 artigos sobre a natureza e o mundo contra os peripatéticos") proclamadas em junho por seu discípulo João Hennequin em desafio aos doutores da Universidade de Paris. O desafio audaz provoca um tumulto grande e violento. Os católicos moderados que o apoiavam contra a extremada Santa Liga Católica então o desautorizaram. Em conseqüência Bruno se acha ameaçado de perigos tão graves que se vê obrigado a sair logo da França.

Hungria. Bruno muda-se para Praga (Reino da Boêmia, hoje Checoslováquia), onde freqüenta a corte do rei Rodolfo II, Imperador do Sacro Império de 1576 a 1612, reconhecido pelo brilho intelectual de sua corte, em que pese seus reveses políticos. Em Praga, Bruno escreve uma crítica contra a intolerância e sectarismo religioso, que diz contrariar a lei divina do amor, doutrina certamente do agrado de Rudolf II que pouco fez para reprimir os protestantes.

Mas Praga não lhe convém muito. De lá Bruno vai para a Alemanha, onde perambulando de uma cidade universitária para outra, consegue ser professor em Wittenberg, Alemanha oriental (1588). Ensinou e publicou uma variedade de trabalhos menores, incluindo o Articuli centum et sexatinta ("160 Artigos") contra os filósofos e matemáticos contemporâneos, no qual ele expõe sua concepção de religião - uma teoria da coexistência pacífica de todas as religiões baseada no conhecimento mútuo e liberdade recíproca de discussão e faz uma reivindicação da dignidade própria da liberdade espiritual humana (sem liberdade não haveria essa dignidade).

Alemanha. Em 1587 Bruno muda-se para Helmstadt, Alemanha ocidental, onde o Duque Henrique Júlio dispensa-lhe acolhida favorável e cordial. Escreve a que considera sua maior obra: De imaginum signorum et idearum compositione ("Sobre a Associação de imagens, os signos e as idéias") sobre mnemônica. Mas os calvinistas não toleram sua doutrina. Em Helmstadt, em Janeiro de 1589, ele foi excomungado pela Igreja Luterana local. Permaneceu em Helmstadt até a primavera, completando trabalhos em mágica natural e matemática (publicado postumamente) e trabalhou em três poemas latinos - De minimo, De monade, e De innumerabilibus sive de immenso - os quais relembrava as teorias expostas nos diálogos italianos e desenvolvia o conceito de uma base atômica da matéria e do ser.

Para publicar ests obras, ele foi em 1590 a Frankfurt sobre o Maine, onde o Senado rejeitou sua solicitação de permanencia. Não obstante, ele conseguiu residente no convento Carmelita, lecionando para doutores protestantes e adquirindo uma reputação de ser um "homem universal" mas que, na opinião do Prior, "não possuía um traço de religião" e que "estava ocupado principalmente em escrever e na quimérica e vã imaginação de novidades".

Inquisição de Veneza. Em Frankfurt um editor veneziano que o encontra traz-lhe os chamados insistentes de um patrício João Mocenigo, que desejava aprender suas técnicas mnemônicas.

Bruno talvez estivesse saudoso da Itália, ou talvez não tivesse mais qualquer outra opção melhor. Não tinha tranqüilidade em Frankfurt e não podia voltar a Paris. Aceita o convite acreditando na independência da República Veneziana. O risco não pareceu muito grande: Veneza era de longe a mais liberal dos estados italianos; a tensão européia tinha afrouxado temporariamente após a morte do intransigente papa Sixtus V em 1590. Além do mais, Bruno ainda estava procurando por um estrado acadêmico da qual pudesse expor suas teorias, e ele deve ter sabido que a cadeira de matemática da Universidade de Pádua estava então vaga.

Regressou à Itália em agosto de 1591. Ele foi imediatamente para Pádua e durante o verão de 1591 iniciou uma série de cursos privados para estudantes alemães e escreveu o Praelectiones geometricae e Ars deformationum. Em Pádua, dita a um discípulo uma obra: "Sobre as forças atrativas em geral" que é um estudo sobre a fascinação, suas causas e formas".

No início do inverno, quando parecia que ele não iria receber a cátedra (ela foi oferecida a Galileu em 1592) ele seguiu para Veneza, como hóspede de Mocenigo, e tomou parte nas discussões dos aristocratas venezianos progressistas que, como ele, favoreciam a investigação filosófica independentemente de suas implicações teológicas.

Em maio de 1592, Bruno havia terminado um outro trabalho e preparava-se para viajar a Frankfurt para publica-lo, quando se viu trancado por Mocenigo em suas acomodações no sótão da casa. Desapontado com as lições privadas de Bruno sobre as técnicas mnemônicas que em nada ajudaram sua precária memória, além de considerar-se atraiçoado por não conseguir o milagre esperado, Mocenigo também ficou ressentido com a intenção de Bruno de voltar para Frankfurt para publicar seu novo trabalho. Depois de prendê-lo, Mocenigo denunciou-o à Inquisição Veneziana por suas teorias heréticas.

Levado pelo Santo Ofício com todos os seus papeis, Bruno defendeu-se admitindo alguns erros teológicos menores, insistindo, no entanto, nos seus postulados básicos. Pretende a dupla verdade (razão e filosofia separada da verdade revelada). Consegue esclarecer à Inquisição a sua posição e chega-se a um acordo, prometendo ele fazer a reforma de sua vida, arrependido de todos os erros em que houvesse incorrido provocando escândalo.

O palco do julgamento veneziano parecia proceder de modo favorável a Bruno, quando então a Inquisição Romana pediu sua extradição. Por solicitação insistente do Papa, curioso sobre a personalidade de Bruno e o conteúdo do processo com respeito a suas idéias, o tribunal de Veneza encaminha o prisioneiro para Roma, e no início de 1593 Bruno entrou na cadeia do palácio romano do Santo Ofício.

Inquisição de Roma. Em Roma, um frade, Celestino de Verona, junta novos testemunhos acusadores. Inicia-se um novo processo em 1593, este mais sério, acompanhado de torturas, e que haveria de prolongar-se por sete anos.

O papa Clemente VIII (1592-1605) viria a ter papel decisivo no julgamento de Bruno. O papa encarregou o cardeal Bellarmino de analisar e acompanhar o processo de Giordano Bruno.

Não se sabe com precisão os detalhes do processo, e exatamente quais as acusações lhe foram feitas porque o seu processo tem paradeiro desconhecido. Sabe-se porém que o cardeal Bellarmino extraiu das obras de Bruno 8 heresias, as quatro mais graves são duas teológicas e duas filosóficas:

Teológicas:

a) negaria a transubstanciação;

b) prioridade ideal e real do Pai e da subordinação do Filho, este originado de um ato da vontade do Pai, que lhe é preexistente.

Filosóficas:

a) pluralidade dos mundos (os atos divinos devem corresponder à potência infinita de Deus) implicaria também várias incarnações de Cristo um número infinito de vezes...(raciocínio tipicamente escolástico)

b) alma presente no corpo como o piloto no barco.

Não figura entre essas acusações alguma relativa à teoria heliocêntrica de Copérnico e portanto Bruno foi acusado puramente no campo teológico, não no campo científico. O tema do seu "Sobre o Universo Infinito e Mundos" não é um livro de astronomia mas de panteísmo, e é o mesmo tema do seu "Sobre a sombra das Idéias". Seu panteísmo foi interpretado como puro materialismo constituindo um ataque frontal ao ensino espiritual da Igreja quanto à natureza do homem e primazia da alma. A Igreja deve tê-lo condenado por esta sua tese panteísta central, entendendo que a teoria heliocêntrica de Copérnico que ele difundia era apenas material de apoio para sua revolução. Antes de Galileu o heliocentrismo de Copérnico tinha rara aceitação e a própria Igreja havia permitido a impressão de seu livro De Revolutionibus na Itália com as alterações prescritas, ao que parece esclarecendo que se tratava de hipótese e não de verdade definitiva da teoria. A condenação formal da teoria, segundo revela R. W. Pogge, viria somente em 1664 quando o Papa Alexandre VII lançou uma bula banindo "todos os livros que afirmam o movimento da terra".

Durante os sete anos do julgamento romano, Bruno a princípio desenvolveu sua linha defensiva previa, negando qualquer interesse particular em questões teológicas e reafirmando o caráter filosófico de suas especulações. Essa distinção não satisfez os inquisidores, que pediram uma retratação incondicional de suas teorias.

Em certa época lhe foram dados quarenta dias para reconsiderar sua posição; ele prometia retratar-se mas renovava suas "tolices". Bruno então fez uma tentativa desesperada de demonstrar que seus pontos de vista não eram incompatíveis com a concepção cristã de Deus. Então conseguiu mais quarenta dias para deliberar mas não fez mais que confundir o papa e a inquisição.

Bruno faz sua defesa sempre tentando convencer os inquisidores,

1.) da legitimidade das suas idéias filosóficas e da possibilidade de concilia-las com a revelação religiosa, e

2.) alegando que a acusação toma peças isoladas do contexto de seu trabalho, e

3.) que não sabe sobre o que se emendar. Bruno finalmente declarou que não tinha nada de que retratar-se e que ele nem sabia de que se esperava que retratasse.

Os inquisidores rejeitaram seus argumentos e o pressionaram para uma retratação formal. A esta altura o Papa Clemente VIII ordenou que ele deveria ser sentenciado como um impenitente e herege pertinaz.

Condenação. Na primavera de 1599 teve início seu julgamento por uma comissão da Inquisição Romana. Foi condenado devido a sua doutrina teológica de que Cristo não era Deus mas sim um mágico de habilidade incomum, que o Espírito Santo era a alma do mundo, que o demônio seria salvo um dia, etc. A 20 de janeiro de 1600 Bruno é condenado. Ao final foi levado, a oito de fevereiro, ao palácio do Grande Inquisidor para ouvir sua sentença de joelhos, diante dos acólitos assistentes e do governador da cidade. Quando a sentença de morte foi lida para ele, ele dirigiu-se aos juizes dizendo: "Talvez vocês, meus juizes, pronunciem esta sentença contra mim com maior medo que o meu em recebe-la." Foram-lhe dados mais oito dias para ver se ele se arrependia. Não adiantou. Em 17 de fevereiro ele foi trazido ao Campo di Fiori, sua boca com uma mordaça, para ser queimado vivo. Foi levado ao poste e quando estava morrendo um crucifixo lhe foi apresentado, mas ele empurrou-o para longe com marcado desdém.

Seus trabalhos foram colocados no Índex em agosto de 1603 e seus livros tornaram-se raros.
 

anterior << Páginas 1 2 3 4 >> próxima

Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em 28/03/97
Última revisão 01/02/2000

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Giordano Bruno. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2000.
("Geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)

 Utilize a barra de rolagem desta janela de texto para ver as NOVIDADES DO SITE
 
Obrigado por visitar COBRA PAGES