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Vida, época, filosofia e obras de Francis Bacon - III

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Os procedimentos experimentais de Bacon compreendiam: de variação, de prolongação, de transferência, de inversão, de compulsão, mudança de condições.

Variação. Consistia em fazer variar alguma das variáveis possíveis na experiência. Ex.: aumentar o peso do objeto que cai para verificar se influi na velocidade da queda.

Prolongação. O ímã atrai o ferro: pequenas partículas de ferro em mistura aquosa também seriam atraídas?

Transferência. A chuva faz as plantas crescerem: que influência teria o ato de regar que imitasse a chuva?

Inversão. Comprovando-se que o calor propaga-se por movimento ascendente, o frio propaga-se por movimento descendente?

Compulsão. Aumentando-se ou diminuindo-se as causas, os efeitos cessarão?

União. O gelo e o salitre, separadamente, resfriam os líquidos: que acontecerá se forem unidos? Mudança de condições. Uma combustão que ocorre em ambiente fechado, repetir-se-á da mesma forma se ocorrer ao ar livre?

Além dessas técnicas principais, Bacon mostra técnicas auxiliares na distinção de fenômenos ou prerrogativas:

Solitárias: prerrogativas em corpos iguais em tudo, diferindo com relação a somente uma característica.
Migrantes: casos em que uma qualidade manifesta-se repentinamente e desaparece: brancura da água espumosa, por exemplo.

Ostensivas: quando uma certa característica é particularmente evidente, como o peso do mercúrio. Analógicas. Um fenômeno pode esclarecer outro.

Cruciais. Casos decisivos que obrigam o investigador a optar entre duas explicações diametralmente opostas, referentes ao mesmo fenômeno.

As fontes de erro. Ainda quanto ao "Método", Bacon discute, no Livro I do Novo Organum, as causas do erro na busca do conhecimento. Ele aborda as falácias lógicas no raciocínio humano, de que fala Aristóteles, porém pelo aspecto psicológico de suas causas. Para se conseguir o conhecimento correto da natureza e descobrir os meios de torna-lo eficaz seria necessário ao investigador libertar-se daquilo que Bacon chama "Ídolos" ou engodos que levam a noções falsas:

1. Ídolos da Tribo. São vícios inerentes à própria natureza humana, tal como o hábito de acreditar cegamente nos sentidos. As percepções obtidas mediante os sentidos são parciais. Elas levariam à percepção do universo de modo mais simples do que ele é na verdade. Também o vício de reduzir o complexo ao mais simples segundo uma visão que se restringe àquilo que é favorável, que é conveniente. Na Astrologia, por exemplo, ignora-se o que falha para ficar com as predições que resultaram conforme o esperado. Outro vício é a transposição. Na alquimia os alquimistas "humanizam" a atividade da natureza atribuindo-lhe antipatias e simpatias.

2. Ídolos da Caverna. São erros devidos à pessoa, não à natureza humana; trata-se de diferenças individuais de habilidade, capacidade. Alguns espíritos tem condições para assinalar as diferenças, outros, as semelhanças: outros indivíduos se detêm em detalhes, outros olham mais o conjunto, a totalidade; ambos tendem ao erro, embora de maneiras opostos .

3. Ídolos do Foro (ou do mercado). São erros implicados na ambigüidade das palavras; a linguagem é responsável. Uma mesma palavra tem sentidos diferentes para os interlocutores e isso pode levar a uma aparente concordância entre as pessoas . Esse pensamento de Bacon evoluiu até a filosofia da linguagem ou positivismo lógico do século XX.

4. Ídolos do Teatro. Tem suas causas nos sistemas filosóficos e em regras falseadas de demonstração. Esses sistemas são puras invenções, como peças de teatro. Ele fala, por exemplo, da vã afetação de certos filósofos.

O preceito da observância contra os ídolos é o início ou introdução ao método. É seu instrumento demolidor. Seu instrumento construtivo é a Indução: partindo-se dos fatos concretos, tais como se dão na experiência, ascende-se até as formas gerais, que constituem suas leis e causas.

Para evitar proposições fantásticas, principalmente de parte dos ocultistas, Bacon adverte que os relatórios individuais são insuficientes. As observações e experiências merecedoras de crédito são apenas aquelas que podem ser repetidas. Ele fala a favor de procedimentos cooperativas e procedimentos metódicos e contra o individualismo e a intuição. A concepção de um laboratório de pesquisa científica, que Bacon desenvolve na utopia The New Atlantis, é a idéia de ciência como um empreendimento cooperativo, conduzido impessoal e metodicamente e animado pela intenção de trazer benefício material para a humanidade.

Crítica ao método. Depois que a astronomia de Copérnico e Galileu foi aceita, a firme associação entre a religião, os princípios morais e o esquema descritivo da natureza até então prevalecente foi abalada. A nova filosofia põe tudo em dúvida, o mundo, Deus, o homem.

Decartes e Bacon, contemporâneos, propõem dois caminhos diversos para a busca do conhecimento, o dedutivo e o indutivo e representam os dois pólos do esforço pelo conhecimento na idade moderna, o racional e o empírico.

A partir da dúvida mais radical Descartes propunha a construção do conhecimento por via da matemática, a qual permitira uma ciência geral que tudo explicaria em termos de quantidade, independentemente de qualquer aplicação a objetos particulares. Seu método, que expôs no seu "Discurso sobre o método" (1637) era de dúvida: tudo era incerto até que fosse confirmado pelo raciocínio lógico a partir de proposições auto-evidentes, ao modo da geometria.

Bacon, cuja influência muitos julgam tão grande e importante quanto a de Descartes, propunha a construção do conhecimento por outro caminho. Reivindicava uma nova ciência, que seria baseada em experimentos organizados e cooperativos, com o registro sistemático dos resultados. Leis gerais poderiam ser estabelecidas somente quando os experimentos tivessem produzido dados suficientes e então, por raciocínio indutivo, - o qual, como descrito no seu Novum Organum, parte dos particulares, subindo gradualmente e sem lacuna, - se chegaria aos axiomas mais gerais de todos. Estes terão também que ser postos à prova por novas experiências.

A indução não era desconhecida dos antigos, porém se restringia a aspectos puramente formais. Para Aristóteles, a indução consistia em, dada uma coleção de fenômenos, ou coisas particulares, extrair o que existe de geral em cada um deles. É tautologia . Para Bacon, a indução torna-se amplificadora, isto é, parte-se de uma coleção limitada de fatos e o que se descobre como valido para esses fatos é estendido a todos os análogos, ainda que não tenham sido pesquisados um por um. Isto faz avançar o saber. Bacon chama "Formas" ao ponto final ou resultado da indução no sentido platônico de universais"", de validade ampla, o que corresponde à descoberta de leis, que ele diz serem "leis de realidade absoluta que governam e constituem qualquer natureza simples".

Bacon cria um novo naturalismo, ou seja, a idéia de que as qualidades naturais são estabelecidas pela via empírica e experimental e não por via especulativa, com os pressupostos da metafísica tradicional . Nisto difere de Hobbes, para quem, - impressionado com a nova mecânica celeste demonstrada por Galileu -, todos os fenômenos, inclusive os sentidos, podiam ser explicados racionalmente, matematicamente, em termos de movimento de corpos. Esta fé que Descartes e Hobbes têm na aproximação matemática a priori da filosofia natural, espécie de metafísica mecanicista, era contrária ao pensamento de Bacon, que advogava o método experimental-indutivo.

É uma fraqueza de Bacon, sua preocupação com o estático. A ciência que despontava no seu século preocupava-se com o movimento, o que implicava a revogação de velhos sistemas, como acontece com Galileu, Kepler e outros pioneiros. É por esse aspecto do mundo natural, que Bacon não aprecia, que a matemática ganha evidência e desenvolvimento como o instrumento importante da física, da astronomia e da química. Bacon vê a matemática como auxiliar das ciências naturais, mas não é muito claro quanto ao seu papel. Apesar de que uma de suas tabelas diz respeito a proporções (enquanto as outras duas dizem respeito a semelhanças e diferenças) ele no entanto não tem uma concepção do papel, que àquela época já fora estabelecida pela ciência, das medições numéricas.

A razão é que Bacon esqueceu-se de enfatizar o papel da hipótese científica, que depende da matemática porque é fruto de deduções cartesianas sobre o resultado dos experimentos. Assim, enquanto Descartes não iria muito longe além de suas idéias claras e distintas, caso não se valesse absolutamente dos conhecimentos empíricos que ele colocava na categoria do complexo e inseguro, também Bacon não avançaria sem a matemática. O desenvolvimento posterior da ciência provou que os dois caminhos se complementam quando o cientista experimental formula suas hipóteses com o auxílio da matemática, mas ainda não se havia chegado a esse estágio, no início da época Moderna.

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
 01/03/1997
Última revisão 12/04/1999

Direitos reservados. Para citar este texto: Cobra, Rubem Q. - Francis Bacon. Site www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 1999.
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