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MADAME DE STAËL

Época, vida e obras de Anne-Louise-Germaine, Baronesa de Staël-Holstein - Parte IV

Página de Filosofia Contemporânea
escrita por Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)


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Madame de Satël ansiava por encontrar na Polônia, em Lanzut, o príncipe Henry Lubomirska e sua esposa, os quais ela havia hospedado em Genebra por vários prazerosos dias. No início de julho chegou ao principado. A visita seria rápida, porque Napoleão havia declarado guerra à Rússia e o avanço do seu exército poderia cortar-lhe o caminho para o Báltico. Essa visita foi traumática. Foi obrigada a admitir a companhia de um policial insolente e grosseiro, e sua irritação foi tão grande que teve um ataque de histeria, e seu filho e o preceptor Schlegel, ajudados pelos criados tiveram que tirá-la da carruagem e sentá-la à beira da estrada até recuperar-se. Seus sobressaltos não terminaram aí, porque seu amante, o oficial Roca, que viajava em separado e incógnito -já havia se antecipado a ela e, sem saber que ela estava acompanhada de um policial, veio recebê-la junto com o príncipe à entrada do castelo; poderia ter sido preso, se ela não lhe fizesse sinais para afastar-se. Quando entendeu toda a situação o príncipe não apenas aceitou à mesa o repugnante espião, como também proporcionou meios a Rocca de escapar sem ser notado.

Madame de Stael passou uma noite no castelo. O policial tinha ordens inclusive de dormir no mesmo quarto que ela, pois não devia perde-la de vista por um instante sequer. Mas renunciou a esse dever, que com certeza seria impedido por todos de cumprir. Não deu mais nenhum trabalho, depois que a secretária do príncipe fez que os criados o deixassem bêbado.

Apesar de extremamente abalada emocionalmente, Madame de Staël continuou sua viagem, passando por Leopol (Lemberg ou, em Polonês, Lwow), capital da Galicia (a Polônia ocupada pela Áustria, atual Ucrânia), onde obteve permissão para cruzar a fronteira russa (para a então Rússia kievana). Estava livre da perseguição a partir daquele dia que era exatamente 14 de julho, aniversário da Revolução Francesa.

A primeira pessoa com quem pôde conversar na Rússia foi um francês que havia sido funcionário do Banco de seu pai. Agora tratada com consideração e respeito, teve o oferecimento de um médico para ser seu intérprete. Foi informada de que a estrada para  Petersburg estava interrompida pelo avanço do exército francês em território russo e que teria que ir a Moscou para de lá seguir para aquela cidade, ponto de passagem para a Suécia.Seriam mais 200 léguas de viagem, e ela já havia percorrido 1.500. Atravessou a parte russa da Polônia. Em Kiev o grupo visitou catacumbas semelhantes às romanas. O governador da província cumulou os visitantes de gentilezas.

No restante do percurso até Moscou o seu cocheiro russo apressou os cavalos; a rapidez da viagem foi facilitada pelas planuras. Nos dias consumidos nesse trecho, anotou uma infinidade de detalhes a respeito da topografia, da agricultura, dos costumes, do comércio. Planuras de areia, florestas de bétulas, vilazinhas de casas de madeira separadas por grandes distâncias. Também cruzaram com tropas de cossacos com longas lanças nas mãos a caminho da frente de batalha. Em Orel e Toula foram tratados com grande hospitalidade. Foi recebida com apreço pelo governador da província e sua esposa. Para surpresa sua, por estar tão distante da França, pessoas de distinção vinham à estalagem em que estava para cumprimentá-la pela sua obra literária.

Encontrou Moscou em clima de preparação para a resistência às tropas invasoras de Napoleão. No início de agosto lhe foi permitido visitar o Kremlin. Conheceu o arsenal e os aposentos reais dos czares. Subiu ao topo da torre da catedral, de onde pode admirar toda a cidade. De Moscou seguiu, passando por Novogorod, para São Petersburgo, onde estava a família real.  Relata sua felicidade ao ver a bandeira inglesa em navios surtos no porto, para ela um símbolo de liberdade. Frente à sua casa havia uma estátua eqüestre de Pedro I. No dia seguinte à sua chegada recebeu o convite para jantar, de um dos mais ricos comerciantes de São Petersburgo.

Visitou a Igreja de Nossa Senhora de Casan, construída por Paulo I copiando a Igreja de São Pedro, em Roma. De lá foi ao convento de Santo Alexandre Newski. O ministro de assuntos estrangeiros da  Russia, Romanzow, dispensou-lhe muita atenção.O Conde de Orloff e esposa convidaram-na para passar um dia em sua ilha, onde estavam as residências de verão da nobreza e da própria família imperial. Foi recebida pelo Imperador e pela Imperatriz na residência imperial, e visitou a mãe do Imperador no palácio de Taurida. Em fins de agosto, no palácio do príncipe Narischkin participou de uma festa interminável, durante a qual o conde propôs um brinde aos exércitos unidos da Rússia e da Inglaterra e fez disparar canhões de sua artilharia ao momento do brinde. A primeiro de setembro E prestou homenagem a Catherine II visitando o palácio Czarskozelo, de magníficos jardins. Visitou o museu de história natural e o Instituto Santa Catarina, criado pela Imperatriz para a educação de moças, tanto da nobreza quanto do povo.

Em fins de setembro deixou Petersburg e seguiu por terra para Abo (em finlandês, Turku), antiga capital da Finlândia, antes do domínio russo (1809). Grande número de seus novos amigos vieram despedir-se dela, de Schlegel e de seus filhos.Durante o trajeto pela Finlândia dedicou-se a observar com a mesma acuidade e interesse a fisiografia - contrastando os rochedos e montanhas graníticas com as planuras e os pântanos da Rússia - o tipo físico da população e os costumes. Não havia castelos de nobres onde se hospedar: hospedava-se em casa de Pastores da Igreja, como era costume para os viajantes naquele país.

Em Abo embarcou para Stockholm. Foi-lhe de grande apoio o preceptor Schlegel, que tudo fez para dissipar seu horror de navegar entre as ondas gigantescas do Mar Báltico, em um frágil barco, em grande parte com ventos desfavoráveis que atrasaram a travessia. Passando pela ilha de Aland, chegaram a Stockholm, onde ela foi cercada de estima pela sua envergadura intelectual e de respeito por ser baronesa naquele país. Sua primeira preocupação foi utilizar as notas do seu diário de viagem e escrever grande parte do rascunho para o Dez anos de exílio, que pretendia publicar.

Passa quase um ano na capital sueca, de 24 setembro de1812 a junho de 1813. Começa a escrever a vida de seu pai, exaltando suas ações no governo, e narra os episódios dos dias negros da Revolução. Posteriormente ampliou o texto com uma síntese de suas próprias propostas de reforma, inspiradas no sistema político inglês, e alterou o título para Considérations sur les principaux Evénémens de la Revolution Française; mas não chegou a publicá-lo, tarefa de que se encarregaram seu filho e seu genro – o barão Auguste de Staël e o duque de Broglie.

Em janeiro de 1813 publica Réflexions sur le suicide, no qual ela condena algumas idéias que ela havia por muito tempo sustentado. A 18 de junho chega em Londres onde foi recebida com entusiasmo. Seu guia na Inglaterra foi Sir James Mackintosh, um editor Escocês. As observações que fez no país ela incluirá em seu livro Considerations sur Ia Révolution francaise, no qual abordará a vida e as idéias constitucionalistas de seu pai, e mostrará a Inglaterra como um modelo de sistema político para a França. Em Londres ela reencontra o futuro rei Louis XVIII em quem ela vê o homme capaz de realisar a Monarquia Constitutional na França. Porém percebe também a má influência que tem sobre o futuro monarca os arrogantes refugiados franceses que o cercam.

Pouco depois de chegar a Londres tem notícia de que o filho Albert, fora morto em um duelo, na Suécia.

O De l’Allemagne, proibido na França, é editado em francês, em Londres. Edita alguns novos trabalhos e outros mais antigos, que aguardavam publicação: Zulma e três novelas, e o seu Essai sur les fictions.

Em abril de 1814 ocorre a abdicação de Napoleão. Com a queda do Império ela pode retornar a Paris, e se instala em Clichy. Porém estava profundamente decepcionada com o fracasso da Revolução, o período napoleônico e o retorno iminente da monarquia.. Ela aceita os Bourbons a contragosto. Ela lamenta a adesão de Benjamim Constant, mas aprovará o Ato Adicional que ele redigiu é promulgado a 20 de abril. Já em maio reabre em  Paris o seu salão e volta a receber príncipes, ministros e generais. Providencia a tradução do livro Cours de littérature dramatique, do preceptor Schlegel, por Albertine Necker de Saussure, sua prima, e o publica. Porém, com o retorno imprevisto de Napoleão, durante os 100 dias em que consegue escapar aos ingleses e reassumir o governo, está obrigada a novamente deixar Paris. De 19 de julho a 30 de setembro se reinstala em Coppet onde recebe a solidariedade de inúmeros amigos, principalmente ingleses, também obrigados a fugir de Paris. Madame Récamier, hospedada em seu castelo, é cortejada apaixonadamente por Benjamim Constant.

A Restauração. Em setembro de 1815, Madame de Staël adere e apóia aos  Bourbons, após a aventura dos Cem-Dias de Napoleão e sua derrota pelos ingleses em Waterloo.

Em janeiro de 1816, está em Milão, e publica De l’esprit des traductions, e depois vai passar o resto do inverno em Pisa para cuidar de Rocca, que está muito doente. Em Piza, em fevereiro, é realizada a festa do casamento de sua filha Albertine com Achille-Léonce-Victor-Charles,  III Duque de Broglie (1785-1870), estadista liberal e diplomata, cujos pais foram prisioneiros durante o Terror. Seu pai foi guilhotinado em 1794, mas sua mãe havia conseguido escapar e fugir com os filhos para a Suíça. Para o verão daquele ano retorna  Coppet, onde Lord Byron, deixando a Inglaterra magoado com uma experiência matrimonial infeliz, foi encontrá-la. Uma sólida amizade desenvolveu-se entre a escritora e o poeta inglês.

Sua saúde estava declinando. Após a partida do amigo Bayron, ela retornou a Paris para passar o inverno onde encontrou muitos dos antigos monarquistas refugiados da Inglaterra e que não tinham simpatia por suas posições políticas. Apesar disso e da desconfiança com que foi recebida pela nobreza restaurada, ela reabriu seu salão, agora em sua nova casa à rua Royale, para encontro com intelectuais até a primavera.

Em fevereiro de 1817 ficou paralítica e presa ao leito, após um mal súbito durante um baile em casa do duque de Decazes. Em Abril sua saúde agravou-se. Faleceu em Paris na data significativa de 14 de Julho, em 1817, em uma casa onde os amigos se revezavam para assisti-la, na rua Maturins

Ao fundo de um bosque de faias ramadas, por trás do Castelo de Coppet, está o mausoléu em que repousam os restos mortais de Madame Necker, de seu marido e de sua filha Germaine. Ao tempo em que foram sepultados seus pais, eram duas cubas gêmeas de mármore cheias com aguardente de uva (espírito de vinho) em que estavam mergulhados os corpos; o mausoléu foi aberto para receber o sarcófago de sua filha, Germaine de Staël.

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Rubem Queiroz Cobra            

R.Q. Cobra
Doutor em Geologia e
bacharel em Filosofia.
Lançada em 18/12/2005

 

Direitos reservados. Para citar esse texto: Cobra, Rubem Q. - Madame de Staël - Parte II. Cobra Pages - www.cobra.pages.nom.br, Internet, 2005.
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)

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