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CONTOS: TRAÇO, TRAVESSÃO E OUTROS ELEMENTOS PECULIARES DO DIÁLOGO

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

Veja também:

Escrever Contos - Elementos do Diálogo - Estruturação - Mini Aportes Temáticos - Uso do "Como"

 

A distinção entre " traço" e "travessão" e entre o traço e o hífen geralmente não é feita pelos gramáticos e também não é respeitada por muitos editores. No entanto, essa distinção é de primordial importância na redação de um conto para que fique bem claro o que é parte do diálogo e o que é simplesmente a separação de frases subordinadas. O leitor experiente sabe o que é traço e o que é travessão – ainda que não seja mostrada a diferença no desenho desses sinais –, devido à posição em que eles aparecem na frase. Mas, para mim e muitos outros, o certo é que a diferença apareça no tamanho de cada um: o travessão tem o comprimento da letra "m", o traço o da letra "n", e o hífen tamanho igual ao da metade do traço.

A relação do traço com as outras formas de pontuação também é de interesse para o contista.

Parece-me que bastam os exemplos abaixo para que as diversas instâncias do emprego de um ou de outro destes dois símbolos fiquem bem claras para o leitor.

Os trechos foram reeditados por mim para  caracterização do traço, do travessão e do hifen por meio da sua diferença de comprimento, em lugar de manter sua identificação apenas pelas sua posições na frase (sem a distinção pelo tamanho).

As citações não estão entre aspas para que fiquem apenas com os sinais que constam dos originais.

O espaço para a oração subalterna fica entre dois traços ou entre um traço e a pontuação que finaliza a oração. O traço isola a frase da pontuação empregada no parágrafo. A frase contida entre dois traços ou entre o traço e o ponto final que o limita, tem sua pontuação própria, Os dois traços com o seu conteúdo são inseridos imediatamente antes da pontuação da frase a que se refere esse conteúdo.


Exercícios podem não ser muito úteis nas batalhas, mas eles formam o caráter. Do contrário, você tem... bem, gente como eu. – Olhou com súbito ódio para os sapatos: eram como a marca de um desertor. — Gente como eu – repetiu com fúria. (Greene, op. cit. p. 215).
 

GRAHAM GREENE
______

O comentário prévio a uma frase do diálogo real abre parágrafo:

Observei maliciosamente:

— Esta é a imagem dos Evangelhos. (Greene, 1960, p. 100–101).

.....

Miss Smythe respondeu depressa:

— O senhor ficaria surpreso! Há tanta gente ansiosa por uma mensagem de esperança!

.....

Disse vagarosamente:

— Não importa o que você acredite. Por mim você pode acreditar em toda engrenagem de truques. Eu a amo Sarah! (Greene, op. cit., p.149)

______

Frase do diálogo pensado não abre parágrafo:

Pensei com raiva: — "Se eu não o deixei por Maurice, por que diabo haveria de fazê-lo por você?" (Greene, op. cit., p.149)

.....

Na rua, o filho de Parkis sentiu-se mal. Enquanto ele vomitava pensei: — "Sarah o abandonara também? Não haveria um fim para tudo aquilo? Teria eu agora de descobrir um terceiro?" (Greene, op. cit., p. 100–101).

______

Descrição e reflexão (sem declarar como pensamento):

Ele contemplava suas belas mãos. Era tudo o que lhe restava. (Greene, op. cit., p.149)

______

Comentário posterior a uma frase do diálogo leva traço e continua minúsculas:

— Qual o verdadeiro motivo de sua vinda? – perguntou ele, penetrando de súbito em meus pensamentos. (Greene, op. cit., p. 97)

.....

— Fiz tudo para quebrá-la, mas não consegui – disse secamente. (Greene, op. cit., p.149)

.....

— Henry talvez se oponha – retruquei, tentando levar a proposta na brincadeira.(Greene, op. cit., p.149)

.....

— Há muita coisa que não conseguimos entender – observei. (Greene, op. cit., p. 100–101).

.....

— É a melhor biblioteca racionalista de Londres – esclareceu Miss Smythe. (Greene, op. cit., p. 100–101).

______

Comentário intercalado em uma fala tem traço no início e ponto final e travessão para a continuação:

— Esperança?

— Sim, esperança – Smythe confirmou. — O senhor não calcula a esperança que haveria, se todos no mundo soubes­sem que não há nada depois disto aqui! Nenhuma compensação futura, nenhuma recompensa, nenhum castigo. (Greene, op. cit., p. 100–101).

.....

— Meu Deus querido (por que querido? por que querido?) fazei com que eu creia! Não consigo crer.(Greene, op. cit., p. 116).

.....

— Ah! – interrompeu Smythe. – Já sabemos: a construção de uma flor, o argumento de um desenho, a história do relógio que requer um relojoeiro, tudo isto já foi supe­rado! Schwenigen rebateu isto há 25 anos atrás. Deixe-me mostrar... (Greene, op. cit., p. 100–101).

.....

— Nada de grave, apenas uma gripe forte. Ouça, Maurice – e ela espaçou bem as palavras como uma professora, deixando-me irritado – não venha por favor. Não posso vê-lo.

.....

Diálogo: a mesma voz, em dois parágrafos (penso que é raro):

— Para mim faz.

Eu tinha de lhe dizer um dia: — Creio em Deus e em todo o resto. Você me ensinou. Você e Maurice.

(Greene, op. cit., p.149)
 

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— Tonta de rapariga! – pensou Amaro – foi à fonte e esqueceu-se de fechar a porta. (Eça, 1933, p. 109)

.....

— Eu não estou doente – disse o escrevente. — São negócios com o senhor doutor.

.....

— Nada decidido... Tem havido dificuldades. – E acrescentou com um sorriso desconsolado: — Temos tido arrufos.

.....

Mas o pároco, apressado, puxou-a pelo braço:

— Não vale nada, não vale nada! (Eça, op. cit., p. 366)

.....

— E olha! – gritou-lhe ainda de cima da escada.— Dize-lhe que se fez tudo o que se pôde, mas que a dor não deu tempo para nada! (Eça, op. cit., p. 366).

.....

Está claro, está claro...– murmurou Amaro que se fizera muito branco. (Eça, op. cit., p. 219)

.....

— Deixar passar o aguaceiro – pensou.

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Reprodução de diálogo:

E, voltando a dirigir-se aos fariseus infelizes, o liberal gritava-lhes com ironia: — "Contemplai a vossa bela obra!" (Eça, op. cit., p. 190)

.....

— Ó, tio Cegonha – disse de repente. — Quanto lhe dão lá no cartório? (Eça, op. cit., p. 79)

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Realce de complemento:

Agostinho era um estilista de vilezas. Davam-lhe quinze mil reis por mês e casa de habitação na redação – um terceiro andar desmantelado n'uma viela ao pé da Praça. (Eça, op. cit., p. 181)

.....

Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensação deliciosa que lhe dava aquele amor – uns certos olhares dela, o arfar desejoso do seu peito, os contactos lascivos dos joelhos e das mãos. (Eça, op. cit., p. 170)

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Intercalação:

As amigas da S. Junqueira – as íntimas – a D. Maria da Assumpção, as Gansosos, tinham ido...

(Eça, op. cit., p. 56)

.....

— Oh, senhores! – berrou Natário furioso com a contradição – o que eu quero é que me responsam a isto.

(Eça, op. cit., p. 126).

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Diálogo imaginário:

E todos lhe respondiam: — "Na rua da Misericórdia, na rua da Misericórdia numero nove" (Eça, op. cit., p. 243)

Caminhando, vieram a encontrar uma figura branca, que tinha na mão uma palma verde. "Onde está Deus, nosso pai?" perguntou-lhe Amaro, com Amélia conchegada ao peito. (Eça, op. cit., p. 243)

 

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Palavras em maiúsculas:

A cópia que Dot entregou durante seu depoimento tinha a palavra CÓPIA carimbada três vezes... (Grischan, 1996, p. 368)

.....

A porta de Ray está fechada com um aviso de NÃO FUMAR. Ela bate... (Grischan, p. 273)

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Vozes fora do diálogo principal:

Sua expressão é complacente e tenho vontade de dizer: “Olhe bem, Drummond. Veja o que seus clientes fizeram.” Mas não é culpa dele. (Grischan, p. 315)

.....

Donny Ray responde a todas as perguntas com um cortês e fraco “ Não, senhor.” (Grischan, p. 318)

.....

Balanço a cabeça, como para dizer: “Deixe-o em paz. É inofensivo.” (Grischan, p. 317)

.....

... ontem à noite. “Foge, Prince, foge”, digo para mim mesmo. (Grischan, p. 281)

Posso ver Miss Birdie sentada entre os filhos, sorrindo estupidamente e dizendo: “ Isso é ótimo.” (Grischan, p. 334)

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Palavras em outra lingua: latim, inglês, etc., que não sejam nomes de firmas ou pessoas:

Não vai haver nenhuma voz off, e seu rosto ... (Grischan, p. 315)

.....

—Você é bartender? ... – Não é gay, é? (Grischan, p.89)

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Dupla pontuação

Ocupado, muito ocupado, sabe?, com assuntos legais. Certamente... (Grischan, p. 129)

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Intercalação sem pontuação (continua minúscula):

— Agora, deixe-me falar com Pierce – diz Kipler – e explicar as coisas para ele. (Grischan, p. 368)

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Adjetivos e expressões tomados como substantivos ficam entre aspas:

Num canto escuro e privativo, no subsolo da biblioteca, atrás de pilhas de livros de direito antigos e escondidos da vista do público, encontro meu “reservados” sosinho, à minha espra...tenho passsado horas nesta minha “toca” primitiva. (Grischan, p. 38)

.....

... com Bosco e os outros “caducos”. Ela... (Grischan, p. 345)

.....

...almoço dos “caducos” e falo de... Estamos falando do “coça e cheira a axila” da indústria. Deixe-me ver a apólice. (Grischan, p. 42)
 

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Nomes de firmas e de pessoas em outra lingua não vão para itálico:

No caso número 214668, “Black versus Great Benefit”, o autor do processo... (Grischan, p. 353)

.....

Tenho um MasterCard e um Visa, cada um de um banco diferente daqui de... (Grischan, p. 94)

.....

Conheço o gerente de uma filial do First Trust. Ele disse... (Grischan, p. 280)

.....

... cuidado. – Entrega-me uma cartela de amostra de tintas da Sherwin–Williams. – Acho melhor ficarmos... (Grischan, p. 279)

.....

... especialmente atento ao terceiro baseman do PFX, um jogador... adversários. O ining termina, e o vejo...(Grischan, p. 292)
 

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Títulos de livros, de itens, de revistas e jornais ficam em itálico.

— Continue a ler a revista – murmurou, abrindo uma National Geographic. Ela levanta a Vogue quase à altura dos olhos e... (Grischan, p. 276)

.....

...facilmente evoluir para a condição mágica de invalidez permanente. (Grischan, p. 196)

.....

... canto. Deixei meus livros espalhados na mesa e um deles, o Elton Bar Review, chamou a atenção de alguns médicos... (Grischan, p. 197).


Graham Greene – Crepúsculo de um Romance, tradução de Branca Maria de Queiroz Costa (Ed. Civilização Brasileira S. A., Rio, 1960)

Queiroz, Eça de – O Crime do Padre Amaro. 11a. Edição, Livraria Lelo, Limitada – Editora, Porto, 1933

Grishan, John – O homem que fazia chover (“The rainmaker”, trad. de Aulyde Soares Rodrigues) Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1996.

Rubem Queiroz Cobra

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
21-11-2012

 

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional. Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Q. -
Contos: traço, travessão e outros elementos peculiáres do diálogo. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2004.
(“www.geocities.com/cobra_pages” é “Mirror Site” de COBRA.PAGES)

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