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CONTOS: ESTRUTURAÇÃO

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

Veja também:

Escrever Contos - Elementos do Diálogo - Estruturação - Mini Aportes Temáticos - Uso do "Como"

 

Estruturação do conto é a organização da narrativa, em todos os gêneros de contos (policiais, de aventura, de amor, etc.) terão uma estrutura que permite a racionalidade e o melhor efeito da narrativa. Os elementos da estrutura são aqueles que contribuem para esse fim e nesse sentido tornam-se inter-dependentes. Os elementos estruturais objeto desta página são "pessoa do narrador"(oculta ou explícita), "cenário" e "divisão cenográfica" (separação em cenas).

Narrador oculto. O narrador é um "Eu" oculto, que conhece a história mas dela não participa: apenas relata ao leitor o que acontece ou aconteceu. Narra os fatos, a ação dos personagens, seus sentimentos e ardis e isto é feito de um modo impessoalÉ o que se chama também escrever na  "terceira pessoa", falar de terceiroscitando-os por seus nomes ou empregando pronomes da terceira pessoa do singular ou do plural "ele", "eles", "lhe", "lhes", etc.  O "Eu", o "me" não aparecem, salvo na fala dos personagens. O narrador não pode, no meio da história, dizer, por exemplo, "Eu Fui Testemunha desse fato".  

O narrador descreve o que uma pessoa está fazendo, o que ela tem em mente fazer, o que ela se recorda de ter feito ou sofrido, quem ela considera um amigo ou amiga, ou inimigo e inimiga, as ações que ela sofre da parte de outras pessoas, etc.

São desta categoria os monólogos como peças de teatro, a reflexão escrita, um diário íntimo, o diário de um explorador, uma carta recebida de um missivista imaginário, e inclusive uma história contada como se fosse o noticiário de um jornal. O narrador de uma história contada na terceira pessoa é onisciente, ou seja,  descreve o que o personagem pensa, sabe e diz o que ele está sentido, quais planos ele alimenta, e guarda as revelações a esse respeito para o momento oportuno na narrativa. Conhece o passado – cria flashbacks.
 

Narrador explícito. O próprio narrador é um personagem. A história é escrita na primeira pessoa, o narrador falando de si mesmo, do que viu, do que fez, onde esteve, o que pensou ou sentiu em dado momento; relata suas experiências como ponto de vista pessoal. Narra os fatos como lhe aconteceram ou como ele os conhece e interpreta. Ele pode narrar os feitos do personagem princiapal, segundo o que sabe dele. É um estilo muito comum em livros de aventuras, diários, memórias, etc.

Escrevendo na primeira pessoa, usando o pronome "eu", o narrador está contando a história como se ela estivesse acontecendo com ele. Poderá dizer: "Eu Fui Testemunha desse fato" "Eu fiquei feliz em poder ajudar aquela pessoa", etc."

Na narrativa feita na primeira pessoa, somente o narrador expressa sentimentos e pensamentos próprios, suas opiniões, etc. Ele não diz o que um personagem está pensando ou está sentindo. No entanto, ele pode deduzir dos fatos que registrou os sentimentos e o ponto de vista do personagem, envolvido:“Pareceu-me que Julio pensava ser possível um retorno, um perdão.”
 

Cenário: interior e exterior dá um sentido de atmosfera a qualquer conto. O Cenário faz a história "real". personagens fortes e uma boa trama estariam desperdiçados se flutuassem no vasio. muitas vezes o cenário vem primeiro; praia, um bairro pobre, bairro exótico. O cenário de uma cena pode ser ajudado com uma foto um desenho do local
 

Cena: O conto se divide em cenas, que são como os capítulos de um romance. A diferença é que a cena usualmente não leva um título. As cenas podem ser separadas por espaço duplo entre linhas ou por asteriscos colocados no centro de uma linha que está duas linhas abaixo da última palavra do cenario anterior, e uma linha acima da primeira palavr da nova cena. A mudança de cena não fecha nem abre página.

Uma nova cena surge quando entra um personagem, quando muda a época em que a história se desenvolve, ou quando muda o lugar.

Seguem-se abaixo exemplos de separação entre cenas:

 

Separação por linha em branco

 

"[...] - Realmente! - exclamou o barão, como se estivesse sendo lenta e deliberadamente impressionado pela verdade excitante de uma idéia que lhe havia ocorrido.

- Realmente - concordou o vassalo.

- Que coisa mais horrível - disse o jovem calma-
mente, retornando em silêncio ao Château.
 

A partir desta data, uma visível alteração ocorreu no comportamento do jovem e dissoluto barão Frederick Von Metzengerstein. Sem dúvida, seus atos desmentiram todas as expectativas e demonstraram pouco acordo com as manobras de muitas damas da nobreza rural, cujas filhas estavam na idade de casar, embora seus hábitos e conduta não fossem em absoluto semelhantes aos de seus vizinhos aristocratas, menos ainda do que tinham sido anteriormente. Ele nunca era encontrado fora dos limites de seus próprios domínios e no amplo[...]"

(Edgar Allan Poe – A Carta Roubada e outras histórias de crime
e mistério. “Metzengerstein”. Trad. de William Lagos – L&PM,
Porto Alegre, 2010, p. 45)
.

 

 

Separação por numeração romana:

 

 

"[,,,] homem capaz de forjar lindas provas escritas. "Parece-me que ainda o ouço, falando latim com os guardas ... ", pensou Driver, enter­necido.

 

III

 

Era outono em Oxford: gente tossia nas longas filas à porta das confeitarias, e a né­voa do rio infiltrava-se pelos cinemas, varan­do além dos guardas à espreita das pessoas que não traziam máscaras contra gases.[,,,]


(Grahan Greene – Contos (“Twenty one stories”), Quando
dois malandros medem forças. trad. de Tati Moraes e
Ruth Leão . Liv. Agir Ed., Rio de Janeiro, 1962, p. 296).

 

 

Separação por linha branca e numeração lateral:

 

 

"[....]

2 D. José odiava alguém?

Calúnia! Amava a mulher, os pássaros e as árvores. Ela, sim,

detestava-o, irritava-se com os animais.

Infelicidade conjugal?

Nunca! Os esposos combinavam admiravelmente bem. Mas, entre os habitantes do lugar, não havia quem acreditasse nisso:

- Ela finge amá-lo somente pelo seu dinheiro.

Estúpidos! D. José era o homem mais pobre da cidade e tinha uma úlcera no estômago.

 

3 À mais leve contestação, contrapunham-se novas acusa­ções:

- E os meninos, que choram noite adentro, famintos, es­pancados?

Falso! D. José perdera os filhos (cinco), vítimas da tubercu­lose. Agora recordava-se deles manipulando um aparelho que imitava o pranto infantil. E comovia muito mais que qualquer choro de criança.

 

4 D. José falava sempre de um livro que estava escrevendo.

Um livro sobre duendes.

Era um fabulista?

Não. Os duendes habitavam a sua própria casa, ao alcance de seus olhos.

Seria a mulher um deles?

 

5 Um dia encontraram-no enforcado. Disseram imediata-

mente:

- É só fingimento. O nó está pouco apertado.

- Vejam que cara matreira! Está zombando de nós.

Infâmia! D.José suicidara-se mesmo.

[...]

Murilo Rubião – Obra completa, “D. José não era”.
Comp. das Letras, São Paulo, 2010, p. 130.

 

 

Separação por subtítulo numerado


 


[...] Nós que aqui estamos constituímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.

2. A ADVERTÊNCIA

A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.

3. A COMISSÃO

João Gaspar era meticuloso e detestava improvisações. Antes de encher-se a primeira fôrma de concreto, instituiu uma [...]

Murilo Rubião – Obra completa, “O Edifício”.
Comp. das Letras, São Paulo, 2010, p. 61.

 


 

 

 

Rubem Queiroz Cobra

R.Q.Cobra
Doutor em Geologia
e bacharel em Filosofia.
Lançada em
21-11-2012.

 

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional.
Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Q. - Contos: estruturação. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2004.
(“www.geocities.com/cobra_pages” é “Mirror Site” de COBRA.PAGES)

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