Contos: O ROSTO TRANSGÊNICO

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O ROSTO TRANSGÊNICO

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

 

A Semana da Moda no Recife  era resultado de uma associação entre a Prefeitura e o Serviço Assistencial da Indústria. Haveria conferências, seminários e desfiles com mostras de costureiros do Rio e São Paulo. Estavam presentes também representantes de grifes europeias convidadas a participar.

Bernardinho, dono da grife Saint-Edmond de São Paulo, veio com as suas modelos, trazendo uma bagagem de exemplares da sua  marca e acompanhado de um seu amigo íntimo que, depois da Semana, seguiria para a Itália, a fim de estudar cenografia na Academia de Belas Artes de Brera.

Por estarem muito ocupados com os preparativos para o desfile, os dois amigos perderam o tour pela cidade, promovido pelos organizadores da Semana. Mas, na manhã que antecedeu a abertura do grande evento, encontraram tempo para se arriscarem em um passeio a pé pelo centro do Recife. Já ao descerem do táxi em uma praça central, tornaram-se objeto de curiosidade dos transeuntes.

Bernardino sempre recomendou ao parceiro não deixar tão obvia a opção afetiva de ambos. Mas o seu amigo, de aparência mais frágil, sofria de  um incontrolável vício de exibicionismo: usava brincos, um pouco de batom roxo, roupas multicoloridas e cabelos longos juntados na nuca por sobre um cachecol cor de rosa. Tais extravagâncias faziam da dupla alvo de chacotas e xingamentos por onde passassem.

Habituados a essa reação indignada e escarnecedora do público  – que parecia mesmo dar ao amigo um certo  prazer–, caminharam imperturbáveis, na direção indicada pelo taxista, até a ponte sobre o largo rio Capibaribe. Via-se em suas margens alguns prédios modernos inseridos no correr do casario antigo que ainda existia, as pontes e o distante outeiro de Olinda, sob um céu azul onde o sol já ia alto.

Emocionados com o cenário – a maré alta elevava o caudal do rio quase ao nível das ruas e soleiras do casario em suas margens, lembrando Veneza –, os dois amigos decidiram seguir adiante pela ampla avenida além da ponte. Os motejos cresceram. Jipes, fuscas, Fiats e Kombis diminuíam a marcha, buzinavam com estridência e de suas janelas os caronas gritavam impropérios gaiatos insultando a dupla.

Um grupinho de moleques magrinhos, sem camisa e de bermudas largas, surgiu da rua do Hospício. O exótico par de estranhas figuras saltou-lhes de pronto às retinas ávidas de novidades. “Duas bicha”, gritou um, "a macha e a fema", gritou outro, e passaram à ação. Com uma tática de guerrilha de ataca e foge, tentavam passar-lhes a mão nos traseiros. Bernardinho, revoltado, falhou em chutar um deles, e seu amigo tentou, sem êxito, afugentá-los brandindo contra eles o leque com que viera se abando pelo caminho. A cada escaramuça fugiam e logo voltavam mansamente tentando, em nova investida maliciosa, surpreender suas vítimas.

Uma preta mal vestida e descalça, que vinha em sentido contrário, avançou sobre os moleques em defesa dos dois rapazes.

—Parem com essa mangação! –gritou-lhes. —Vocês me conhecem... – bradou, a voz rouca porem enérgica. — Acabo com vocês... La vem um guarda... Sumam. “seus” moleques da gota!... Bexiguentos! Infelizes!...

Os garotos fugiram, cruzando perigosamente o trânsito para a calçada oposta, e dispararam a correr avenida abaixo.

Os amigos voltaram-se para a preta. “Uma moradora de rua, fumante e alcoólatra”, pensaram.

Desvanecidas a cólera e a palidez da sua face e acalmado o amigo, Saint-Edmond agradeceu.

—Obrigado por nos salvar – disse ele à preta.

 Houve uma pausa de silêncio, enquanto os dois amigos, recuperados, se davam conta de que a mulher não era assim tão miserável e vulgar. Os dois foram descobrindo –, seus lábios não pendiam rubros nem tinha o rosto edemaciado dos bêbados inveterados. Era magra, mas de formas arredondadas, o que Edmond julgou poderia valorizar certos estilos da sua grife. Suas unhas, nas mãos e nos pés, eram bem crescidas, e seriam belas, não fosse a pintura vermelha desgastada. Ao enxotar os garotos, seu rosto severo não perdera sua beleza. “Uma face severa que não fosse ridícula nem feia, era a ideal para uma modelo na passarela” – pensou o costureiro.

Edmond parecia examiná-la com o interesse em minúcias próprio de um comprador em um mercado de escravos. O amigo adivinhou sua intenção e permaneceu calado, esperando que o lance fosse dado.

A preta, com um meio sorriso crítico, também os avaliava, concluindo que não havia muito o que esperar daqueles tipos afeminados – mas na aparência eram ricos, e talvez a gratificassem por haver afugentado os moleques.

—Olhe...– disse Edmond, cauteloso. —É que você tem um corpo... de modelo! . —Não é fácil encontrar uma modelo negra. Precisamos de uma... Você poderá aprender em pouco tempo e... pagamos bem. Vem conosco – disse resoluto, e sem esperar por sua resposta, assumindo que pela magnanimidade da sua proposta esta só poderia ser um "sim", fez logo parar um táxi em que todos embarcaram.

Instruída pela rigorosa secretária do costureiro, e com o carinho das outras meninas, a preta surpreendeu pelo seu rápido aprendizado do caminhar, do gestual e das expressões faciais adequadas a uma modelo.

Na última apresentação do desfile, o costureiro permitiu que ela tivesse uma participação que deveria ser mínima e discreta, mas que se tornou um clamoroso sucesso. A plateia acreditou que a preta fora incluída no desfile como demonstração do costureiro contra a discriminação e o preconceito racial e por isso, após sua participação, os aplausos foram redobrados. Porém muito era devido também à sua beleza africana. Alguns representantes de grifes italianas aplaudiram de pé, fascinados pela sua elegância e competência. Ao final Bernardino de Saint Edmond agradeceu a todos, enleado, esticando docemente a pronúncia de cada “obrigado”. .

—O nome dela? – indagaram os entrevistadores ao fim do desfile. Apanhado de surpresa, Edmond não quis dizer apenas “Maria”, como a chamavam. Lembrou-se do jasmim preso aos cabelos dela durante o ensaio...

—Flor Azul – respondeu ao grupo de jornalistas.

O improviso rendeu mais louvores na Imprensa do dia seguinte. Porém um colunista do principal jornal da cidade comentou em sua coluna o cuidado do costureiro em batizar a modelo com o nome Flor Azul, quando ela era na verdade preta. Melhor que não tivesse esse escrúpulo anti-racista, pois existem a rosa negra e também a tulipa negra, flores lindas e valiosas. Cairia muito bem na modelo – que era esbelta e bonita –, que fosse conhecida nas passarelas pelo nome artístico de “Rosa Negra”.

Não foi fácil para a eficiente secretária do costureiro conseguir que a heroína da grande mostra embarcasse com o grupo, no retorno a São Paulo. Ela não possuia documentos e, não fosse um telefonema do Prefeito para a empresa aérea.,,

O amigo seguiu para Milão.

*

Após o retorno a São Paulo, Edmond viu a repercussão do seu sucesso nas páginas dos principais jornais da capital.

Poucos dias depois, apresentou-se em sua Maison um italiano de aparência elegante, certamente um homem muito rico, acompanhado de um segurança indubitavelmente armado, também usando roupas de estilo.

—Senhor Edmond, por favor, trate-me apenas por Vincenzo. – Disse dirigir no Brasil os negócios da família, e que seu tio pedira que convidasse um designer brasileiro para um encontro que iria promover em Roma. O encontro reuniria os maiores estilistas de alguns países, para discutirem um projeto de interesse da classe.

O visitante confessou-se surpreso com o progresso da alta costura brasileira. Havia assistido a Semana Internacional da Moda no Recife, a fim de ver os desfiles e escolher a quem convidar para ir a Roma. Sua atenção fora atraída para a grife Saint-Edmond. Gostaria de convidá-lo para jantar em um restaurante, para discutirem os detalhes da sua ida ao encontro.

—Quero que leve ao jantar aquela modelo negra que fez tanto sucesso na mostra. Foi muito inteligente de sua parte reservar para o último número o seu maior trunfo – arrematou.

Cauteloso, porém atraído pelo convite para reunir-se com as maiores figuras da alta costura mundial, como prometia Vincenzo, Bernardino aceitou o convite para o jantar e levou a modelo em sua companhia.

Como era usual, o lugar junto ao motorista estava ocupado por um segurança, portanto não significava deferência do patrão que ela sentasse ao seu lado no banco de trás. Pela primeira vez estava tão intimamente próxima dele. “É bonito e tão perfumado!”, pensou. Pareceu-lhe um perfume natural, tão seu quanto sua pele branca, seu queixo largo, seus olhos castanhos claros encimados por longas pestanas escuras. Mas, lamentou para si mesma,  suas colegas modelos faziam comentários de estarrecer, sobre os amigos que ele tinha. “Acho que poderia amá-lo mesmo assim... eu já vi de tudo nesse mundo!” – pensou desolada.

Enquanto o carro seguia a corrente lenta do trânsito, Flor Azul continuou a argumentar consigo mesma. "Somente sob um aspecto as mulheres lhe davam prazer", ela reconheceu.  –"Era ver seus modelos como obras de arte. Fazê-las provar cada peça do vestuário e contemplá-las, e de uma demorada contemplação tirar ideias para aperfeiçoar um corte, ou determinar como seria o penteado e a bijuteria adequados ao que vestiam, estudar os seus pés, o seu calçado, e o seu andar, buscando inflexões do pisar diferentes do cadenciado métrico costumeiro. Tudo isto, que os sôfregos do sexo ignoram, era para ele o valor de uma mulher". Ela já experimentara essa espécie de carinho da parte dele, que a deixava excitada.

Vincenzo os aguardava à mesa que reservara. Os clientes vestidos a rigor – assim como também se vestiam Edmond e seu anfitrião –, ocupavam mesas redondas forradas de linho branco. Copos de cristal e a fina porcelana dos pratos, pontuados de reflexos de luz, tinham como fundo custosos colares de brilhantes de mulheres de seios alvos semi ocultos sob as rendas e sedas de seus vestidos. Flor Azul fora vestida com um magnífico longo de renda preta sobre um forro de seda cor de rosa; o decote justo salientava seu pescoço fino e alongado, e seus ombros bem alçados. Brincos de marfim faziam contraste com a pele e os cabelos negros.

Como aperitivo lhes foi oferecido champanhe seco e petiscos. Após escolherem os pratos, Vincenzo falou o que seria o encontro em Roma. Enquanto falava, se apossou, como que apenas por simpatia, de uma das mãos de Flor Azul, e ela não quis parecer rude, desvencilhando-se dele. O patrão tinha por certo que havia um interesse comercial em relação à modelo, de mistura com o convite para ir a Roma, mas esta relação ainda lhe escapava.

O encontro em Roma não seria uma mostra, explicou Vincenzo, mas uma reunião para a discussão de um projeto que interessava a toda a alta costura. Participariam designers italianos, franceses, alemães, americanos e inglêses que aceitassem o convite. Devido aos grandes interesses comerciais envolvidos, havia a necessidade do sigilo. Mas, chegados a Roma, na sua primeira reunião, o seleto grupo seria informado do que se tratava.

—O senhor não pode faltar, senhor Edmond, e Flor Azul já me pertence: não pode deixar de levá-la consigo – disse beijando a mão da modelo.

*

No aeroporto de Fiumiccino, assim que os passageiros da primeira classe desembarcaram, um funcionário da companhia aérea acercou-se do casal e lhes disse que a empresa desejava prestar-lhes toda assistência. Pediu-lhes os passaportes e os bilhetes do vôo; dirigiu-se ao prédio do terminal e em poucos minutos retornou; entregou-lhes os documentos carimbados, e lhes desejou boa estada em Roma.

Uma limusine preta estava estacionada sob uma cobertura próxima do avião em que haviam viajado, com outro carro ao seu lado. Viram que suas malas estavam sendo colocadas nos porta-malas por seguranças de óculos escuros.

Um homem que parecia fiscalizar toda a operação, dirigiu-se a Edmond e apresentou-se:

—Giuseppe, senhor Edmond. – Apontou para Flor Azul que ainda segurava sua bagagem de mão e ordenou aos guarda-costas:

—Ela vai no carro com os rapazes. – Antes que Edmond pudesse protestar – ultimamente ele dava à modelo preta, pelo grande valor que ela tinha para a grife, status de maior proximidade e importância junto dele – Flor Azul já havia sido introduzida no veículo ao lado.

Terminada a acomodação das coisas e pessoas, Giuseppe sentou-se junto ao motorista e a limusine começou a rodar rumo à saída para os diplomatas. Havia um vidro separando o compartimento do chofer do resto da cabine.

Quando o veículo saiu da penumbra da garagem, Bernardino viu que no seu interior havia outro passageiro,que estivera silencioso, e que o fitava com um sorriso levemente divertido, de costas para Giuseppe que estava no banco da frente. Apesar da aparência distinta do estranho, o estilista sentiu-se incomodado pela falta de exclusividade.

O homem se apresentou:

—Serei seu anfitrião em Roma – disse, e estendeu a mão para lhe dar as boas vindas, ao mesmo tempo que sinalizava para que se afastasse para o outro extremo do assento, e lhe cedesse a posição privilegiada junto à janela. —Sou o Conde Ermelino Borguini, e estou promovendo o encontro entre designers, do qual o senhor foi convidado a participar... mas não sabia que o senhor traria consigo sua empregada doméstica.

Sem dar ao costureiro tempo de replicar, o Conde passou a falar do objetivo do encontro. Havia trazido a Roma, para uma reunião secreta, alguns dos principais nomes do design mundial. Tratava-se de discutir a possibilidade de um novo design para o rosto humano, por meio da engenharia genética. O projeto era super-secreto e por isso cada participante seria vigiado nas 24 horas do dia.

O Conde disse que havia hospedado seus convidados em diferentes hoteis para que o grupo não despertasse a atenção dos paparazzi de plantão, o que colocaria em risco o projeto secreto. Ele próprio, por ser Comendador da Ordem Soberana Militar de Malta, estava hospedado no Palácio da Ordem, na Via dei Condotti, a poucos passos da Praça de Espanha.

—Nenhum conforto, mas o ambiente me satisfaz muito. Sinto-me um verdadeiro cardeal do século XIV.– disse.

Filho de italianos, máfia era assunto que Bernardino conhecia muito bem. Seu pai dizia que o chefe da Máfia de Palermo era o homem mais poderoso da Itália.

—Agora, vamos falar de diversão! Ao final do encontro teremos uma festa, e ja providenciei aquilo que os designers mais gostam: rapazes bonitos e delicados... – o mafioso ria enquanto falava —Contratei rapazes marroquinos. O senhor vai gostar, Sr. Edmond. Aposto que vai.

A limusine estacionou frente a um hotel na confluência de três ruas estreitas, ao lado de uma igreja, nas proximidades da grande escavação das ruínas romanas. O Conde havia escolhido colocar Edmod naquele hotel porque dali ele poderia fazer algum turismo sem dar grande trabalho aos guarda-costas. A reserva seria refeita, para a hospedagem também de Flor Azul. Só poderiam deixar o hotel acompanhados dos guarda-costas.

Dois mafiosos da comitiva, Kico e Fratelli, incumbidos de vigiá-los, sentaram-se no lobby e abriram jornais para ler.

*

Ansioso por encontrar o amigo, Edmond utilizou o telefone do hotel, sem se importar que alguém estivesse a escutar a ligação. O amigo viera de Milão para recebê-lo no aeroporto, mas se desencontraram porque o costureiro desembarcou na área diplomática. Depois da troca de palavras carinhosas sobre o reencontro eminente, Bernardino passou-lhe o nome do hotel,

—Sabe de algum lugar aqui perto para jantarmos?

—Sim: o Angelino ai Fori. Você só terá que caminhar uns poucos metros pela ruazinha frente ao hotel e cruzar a Avenida Cavour. A noite promete ser quente e poderemos ficar na parte externa, sob o toldo. Combinado?

À noite, acompanhado de Flor Azul e seguido pelos guarda-costas, encontraram-se no restaurante.

Achou o amigo ainda mais belo e atraente, o rosto mais rosado, os olhos mais azuis, os cabelos mais negros. Usava um bem talhado blusão azul escuro com um brilho discreto de pelúcia.

—Também tenho os meus capangas, disse o amigo, e apresentou dois colegas de estudo da Academia de Brera. Foi reunida outra mesa à que ocupavam, para acomodar Edmond e a modelo. Os guarda-costas se deixaram ficar ao relento, pois poderiam ver o costureiro e seus amigos por cima da sebe baixa que circundava o toldo.

Igualmente atraentes eram os dois rapazes de Brera, acompanhantes do amigo. O mais alegre e energético deles logo deu ao encontro um clima festivo e divertido, atraindo as atenções da clientela. Logo aparelhos celulares apareceram na mão dos turistas para captar a festa como recordação de Roma. O garçom Walter – que era a atração do local por alegrar os clientes com seus gestos de opereta e cantorias humorísticas –, juntou-se ao grupo, falando português. Era casado com uma brasileira. Provavelmente por chamado dele, e não por acaso, surgiu um grupo de seresteiros com violão e pandeiro e a musica brasileira, com vários sucessos da famosa Bossa Nova, podia ser ouvida até mais tarde, quando a mal iluminada Avenida Cavour já não tinha quase nenhum transeunte em suas calçadas.

*

Na tarde do dia seguinte o encontro dos designers da moda foi iniciado com um almoço leve para o grupo de participantes. Vincenzo la estava, supervisionando o serviço, e chegou-se à mesa em que estava Edmund para cumprimenta-lo. Lamentou não ter ido encontrá-los no aeroporto, mas acabara de enviar duas cestas de flores para Flor Azul. Uma decoradora acompanharia a entrega, para decorar com elas o seu apartamento.

Flor Azul, deixada no hotel entediada e intrigada com o projeto de que falava seu patrão, almoçou com os dois guarda-costas em uma lanchonete ao lado do hotel. De volta, avisou que subiria para ver televisão em seu apartamento. Kico, que era casado, disse que ia fumar um cigarro ali por perto, mas Fratelli, que ansiava por uma oportunidade, subiu com ela para o quarto.

No local do encontro, o Conde Ermelino Borguini discursou na abertura do debate:

—Espero que compreendam a grandeza deste projeto.

Todos os modos de expressão da arte acham-se exauridos.

Estamos cansados de explorar a beleza da configuração natural do rosto humano. Chega de Cláudias Cardinales, de Marcellos Mastroianni, de tipinhos como Marilyn Monroe. A Mona Lisa já esgotou todos os seus ângulos de interesse estético. Os concursos de beleza perderam boa parte do seu glamour.

Na alta costura não foi diferente, Tivemos os ternos masculinos desestruturados, transformados em sacos de batata, sapatos femininos deformados com bico de matar barata,e outras tentativas de originalidade por falta de melhores opções criativas. Por falta de opções, a arte busca o belo na estravagância das formas.

 A engenharia genética hoje abre infinitas possibilidades para modificações em qualquer peça do corpo humano. Mudar transgenicamente o rosto humano será, sem dúvida, um bom negócio. O laboratório Constructive Incorporation aceitou iniciar as pesquisas, e necessita que lhe seja fornecido o desenho do novo rosto. Faremos um consórcio para chegarmos ao primeiro protótipo. Depois dessa máscara pioneira, então cada Maison poderá vender seu próprio modelo.Eu os reuní aqui para discutirmos um projeto que terá por objeto fazer do  rosto humano uma nova expressão de Arte.

O Conde, terminadas suas perorações a respeito do imenso lucro financeiro que o projeto traria para aqueles que havia convidado a participar, deu a palavra a um sacerdote de terno preto e colarinho branco.

O padre, bem humorado, começou por dizer que o mais perto que havia chegado da Alta Costura fora a proximidade de sua mãe, que costurava batinas para seminaristas. Estava portanto excluido daquela aventura. Apenas atendia ao pedido do seu dileto amigo o Conde Ermelino Borguini para dar, sob segredo de confissão, um parecer sobre a moralidade do projeto.

Iniciou seu discurso aludindo à figura de um filósofo italinanasso:

—Nosso compatriota, o dominicano Giordano Bruno, depois de conhecer as descobertas de Galileu e a teoria de Copérnico, ainda no século XVI, convenceu-se de que o universo era infinito e constituído de incontáveis mundos povoados por seres inteligentes. Por essa sua adesão à ciência, foi queimado vivo na Piazza Campo de' Fiori. Mas até hoje a ciência não encontrou meios de provar aquela sua hipótese, disse o Padre.

—Ao contrário de Bruno – prosseguiu o sacerdote –, eu tiro a minha crença em vários mundos da própria idéia de Deus, antes mesmo que a Astronomia nos revele que de fato existem. Deus é um Ser Infinito que deve ser reconhecido e louvado por seres inteligentes em todo o universo, e não por apenas esse punhadinho de gente do planeta Terra.

—E que feições têm esses nossos irmãos de outras galáxias, esses nossos irmãos ETs?– indagou o orador, após curta pausa. —As mais variadas, porque a evolução certamente seguiu linhas diferentes em cada mundo. O próprio homem não é um projeto acabado, nem física nem mentalmente – disse ele. —Fosse o ser humano um projeto acabado, poderíamos perder a esperança de que o mundo melhorasse, que o entendimento algum dia superasse a inclinação para a guerra e para o crime. Os seres do  universo serão sempre projetos inacabados, porque só assim poderão evoluir para melhor.

Finalizando o seu parecer o padre concluiu:

—O Senhor deixou-nos a tarefa de nos completarmos com o uso do nosso livre arbítrio e da nossa inteligência. Chegamos a uma era em que o homem, através da ciência, pode interferir em sua própria evolução física e mental. O projeto para um novo rosto é, portanto, perfeitamente lícito. Se vier a contribuir para a melhoria do homem, não encontrará empecilho na Ética.

Após as palestras, foram trocados convites para o jantar, Edmond recusou vários, incrédulo de que pudesse atrair tanta atenção. Voltou ao hotel. Não viu no lobby nenhum capanga de plantão.

*

Pela manhã, Flor Azul não se juntou a ele para o café.

O gerente informou, depois de consultar os empregados:

—Ela saiu na companhia dos dois guarda-costas que estavam ontem no hotel.

Edmond ficou um pouco alarmado, pois investira muito dinheiro na modelo e o contrato de seguro dela ainda não fora assinado.

O gerente lhe disse que em casos anteriores, sempre aconselhou os turistas a informar o desaparecimento à respectiva embaixada.

Edmond achou que era cedo para fazer isso. Preferia falar primeiro com Vincenzo, e quando a viatura chegou, seguiu diretamente para o local das reuniões.  A modelo, quando voltasse ao hotel, mandaria um recado em seu celular. Porém Vincenzo não participou do almoço nem esteve presente aos trabalhos. Em seu lugar apareceu o Giuseppe, que Edmond havia visto no aeroporto no dia da chegada.

Edmond sabia que pediriam sua opinião.

Quando foi sua vez de falar, colocou aos designers a pergunta: "Qual tipo racial escolheriam para modelo da nova face?" – ele havia anotado algumas diferenças – melhor vistas de perfil –, por julgá-las úteis na confecção das roupas femininas, e seriam sem dúvida úteis também para o projeto do novo rosto.

—Na preta predominam planos tendentes a horizontais,  – disse ele –, e na branca, tendentes a oblíquos. Nas orientais, a tendência é para a vertical. O nariz da preta horizontaliza-se, achatado, como também seus lábios se fecham com bordas em plano horizontal. O topo do seu traseiro, mesmo quando é curto, tende a horizontal.

Houve alguns risos, mas isto não abalou o estilista

—Os da branca são lábios levemente proeminentes, o perfil do nariz é menos horizontalizado e mais afilado e estreito, e o topo do seu traseiro inclinado.

Mais risos.

—Em uma japonesinha a tendência dos planos do corpo é para a vertical. Seu rosto é plano; nem os lábios nem o nariz se projetam, parecem acomodados em uma fossa óssea. Então – propôs o brasileiro –, qualquer projeto de um novo desenho do rosto humano deveria levar em conta essas três modalidades de feições."

Enquanto a maioria ria às escâncaras  da sugestão, o designer inglês – noutros tempos a rainha do seu país fora a soberana das três raças – levou a questão a sério, e falou em um sofrível italiano:

––Acho muito interessante o que disse nosso colega brasileiro. Parece-me que, para essa discussão, deveríamos ter os três tipos que ele mencionou, representados em bustos de cerâmica.

—Mandar fazer essas figuras trairia o segredo do empreendimento – lembrou alguém.

Um outro logo apoiou a ideia dos bustos, lembrando aos demais:

—Vamos precisar de materializar nossas ideias de algum modo. Os protótipos de cerâmica poderão ser os mais práticos e seguros, considerada a simplicidade de sua fabricação e o envolvimento de apenas um artesão.

—Creio conhecer uma ceramista em quem poderemos confiar – disse o designer americano. —Claudine, de Elm Grove, Wisconsin. Em uma mostra artística de moda e esculturas em Chicago, vi os bustos feitos por ela, e também algumas caveiras detalhando a ossatura do rosto. Conversamos um pouco. Ela é PhD em medicina; portanto, dificilmente encontraremos alguém que possa, melhor que ela, colaborar com nosso projeto. Encarregarei minha secretária de encontrá-la.

Encerrados os debates da tarde, teve início o Coquetel. Mas Edmond preferiu passar pelo hotel e ir jantar no Angelino ai Fori, na esperança de que alguém no restaurante tivesse notícias de Flor Azul. Pediu ao Walter que estivesse atento.

*

Seqüestrada na tarde do segundo dia em Roma, Flor Azul estava preza em uma rica mansão, encerrada em um quarto decorado em estilo moderno, com moveis baixos em madeira escura de que era parte uma cama de casal larga e macia, e um gigantesco guarda roupa com pesadas portas de correr. De início, não sabia a quem pertencia a casa nem o que queriam com ela. Não teve dificuldades para tomar um banho e escolher o que vestir para dormir. Tudo que lá estava tinha seu número de manequim. Havia um lanche servido sobre uma mesinha na saleta à entrada do quarto.

Somente na manhã seguinte, quando uma mulher com uniforme de copeira veio lhe trazer o café, ficou sabendo que o dono da casa era Vincenzo.

Um pilão de cristal de Murano, chamou a atenção de Flor Azul. Escondeu o seu socador para usa-lo como arma e abater Vincenzo, se ele tentasse forçá-la a se entregar a ele. Porém, passou-se o dia sem que ele aparecesse. Mais tarde lhe trouxeram as refeições e revistas, e a televisão foi ligada.

No terceiro dia do seu cativeiro, Vincenzo apareceu para vê-la. Surpreendeu-a com o seu ódio e ressentimento.

—Eu trouxe você a Roma para você ficar comigo. Você aceitou vir mas comportou-se como uma prostituta ordinária, esbravejou Vincenzo chutando uma mesinha laqueada com bibelôs de cristal. —A decoradora que levou as flores ao hotel pegou-a nos braços de Fratelli. Meus homens me chamarão de cornuto! Mas estou bem vingado!

Lançou sobre a mesa de centro negra,  baixa, e lustrosa – diante do sofá em que ela estava sentada –, o jornal do dia, A página da frente estampava o retrato de Fratelli sob uma grande manchete anunciando "mais um trucidamento entre os presos na penitenciaria Regina Coeli". O jornal comentava: “Com certeza é uma trama da máfia que apresenta à polícia a denúncia falsa de um crime hediondo, o que leva os outros presos a matar o acusado preso. A máfia, gratifica depois os assassinos, organizando esquemas para que fujam”.

A notícia causou horror a Flor Azul. "Fratelli era um bom homem", pensou, chorando baixinho. Fora enganada no Hotel com o recado de que Bernardino a mandara buscar. Mas era uma trama montada por Vincenzo para seqüestrá-la e matar Fratelli, que não desconfiou de nada, porque os homens que vieram buscá-los eram companheiros seus, e trocaram cigarros antes de pegarem os carros.

Flor Azul precisava de um plano. Vincenzo era perigoso. Voltou-lhe a astucia da sobrevivência nas ruas do Recife.

—Você se esqueceu de mim – queixou-se ela,  fingindo igual indignação. —Não foi me buscar no aeroporto; vim para o hotel entre dois capangas que queriam me bolinar. 

A reação da preta silenciou Vincenzo. Ele caminhou alguns passos até ela. Tomou-lhe as mãos, ergueu-a do sofá e propôs, em tom humilde e pacificador:

—Eu lhe posso dar tudo que você quiser, basta pedir. Você vai ficar comigo. e será feliz. De volta ao Brasil, com a minha influência, farei de você uma top-model...  Eu prodigalizo tudo àquela mulher que amo. Vamos recomeçar! Vamos a um bom restaurante! Vamos sair! Vamos ver um pouco da cidade! Você gostaria de conhecer alguma coisa em Roma?.

—Esta prisão me enlouquece! Quero sair – disse Flor Azul fingindo esquecer Fratelli e não se sentir culpada.  —Gostaria de conhecer o Coliseu. – Fratelli lhe havia dito que eram ruínas que todo turista visitava, e estava perto do hotel. Imaginou que lá haveria onde se esconder, se tivesse chance de fugir.

Saíram de carro para o passeio. Vindo pela via Carlo Alberto, na altura da praça por trás da Igreja de Santa Maria Maior, o motorista parou o carro devido ao grande número de turistas cruzando a faixa para pedestres, caminhando para a Basílica. A praça estava cheia de grupos de várias nacionalidades, acompanhados de guias, vindos a visitar o grande templo católico.

Flor Azul teve a intuição de que aquele era o momento. Pegou seus sapatos, destravou sua porta e saiu a correr descalça, misturando-se aos turistas. Logo Kico, o motorista e Vincenzo saíram a persegui-la. Atraídos por um grupo de africanos, supondo que ela teria ido socorrer-se da gente da sua nação, abriram caminho brutalmente entre os pretos, buscando identificá-la por suas roupas ocidentais, que se destacariam dos estampados longos das africanas. Mas ela havia corrido em outra direção, para trás de um ônibus.

Providencialmente, um taxi deixara um casal de turistas pouco atrás e ela sinalizou para o chofer. Entrou no carro, sempre curvada, disse o nome do hotel, e suplicou aflita:“Presto, presto!”. Era uma palavra que Edmond repetia quando estava nervoso e impaciente com as modelos,

Ao se aproximarem do hotel, apontou para o restaurante Angelino. No restaurante encontrou o Walter, que lhe pagou o taxi e ajudou-a a fazer a ligação para falar com Edmond. Ele ainda estava no hotel. Ela lhe disse desesperada:

—Vincenzo me sequestrou e eu consegui fugir. Estou aqui no Angelino. Vincenzo é um assassino perigoso. Quero voltar para o Brasil, por favor. Você pode ficar, mas eu quero ir embora antes de ser novamente sequestrada ou até morta.

Edmond não levou um segundo para se decidir. Deixar Flor Azul entregue à própria sorte? Não! Precisava salvá-la. Era uma modelo de muito valor e ele já havia investido muito no seu preparo.

—Não fique exposta à vista de quem passa na calçada. Vou até aí. Aguarde.

Edmond sabia que não se brinca com a máfia e que seu aparelho celular estava sendo monitorado, e foi rápido. No lobby, o novo guarda-costas tinha toda a sua atenção concentrada em uma notícia do jornal encimada por uma grande manchete. O carro que viria buscá-lo ainda não havia estacionado à porta do hotel.

Levando apenas uma bolsa com dinheiro, os seus documentos e os de Flor Azul, seu sobretudo e o delicado manteau da modelo, Edmond correu pela Via Tor de Conti, enquanto vestia o capote. Cruzou a avenida e, no restaurante, abraçou e beijou o Walter, agradecendo-lhe haver escondido a modelo. A pedido de Flor Azul indenizou-o pela despesa do taxi em que ela fugira. Arrastou Flor Azul para a calçada, como se ela fosse uma menina teimosa que tivesse acabado de estragar seu sonho de fortuna, e tomaram um táxi para o aeroporto. Olhou o relógio. A operação toda, desde que ela telefonara, não fora além de dez minutos. Haviam deixado tudo para traz. Depois Edmond recorreria ao amigo para que viesse a Roma recuperar seus pertences no hotel, e os despachasse para São Paulo.

Conseguiram vaga no próximo vôo a sair, e que seguia para Zuric. La esperava ter um curto espaço de tempo para comprar algumas roupas, e procurar um vôo para São Paulo. Teriam que esperar ainda uma hora para o embarque.

Inquietava Edmond um sujeito encostado a uma coluna que parecia estar de olho neles. “Ora, deve estar apenas atraído por Flor Azul”, pensou.
Súbito, aproxima-se o Conde Ermelino acompanhado de quatro tipos mafiosos. O costureiro assustou-se ao notar as feições transfiguradas do Conde. Traços duros vincavam seu rosto que lhe parecera imperturbável, das outras vezes.

—Sr. Edmond! O senhor roubou-me 10 mil Euros! Isto vai levá-lo a apodrecer na cadeia.

—Eu?... – gaguejou Edmond. – A voz irada do Conde fez que o costureiro quase desmaiasse,

—Meta a mão no bolso do seu casaco! – ordenou o Conde.

Edmond tirou do bolso notas dobradas de Euro. Haviam sido colocadas ali para incriminá-lo. O salão de embarque, os guichês, os passageiros que formavam fila, dançaram diante de seus olhos. Não caiu, porém perdeu momentaneamente a voz.

Um dos capangas tomou-lhe o dinheiro e passou-o ao Conde. Outro torceu um de seus braços fazendo que se ajoelhasse gemendo, e o manteve ajoelhado segurando-o pelos cabelos.
—Um ladrão! – disse o Conde para algumas pessoas que pararam para observar a cena‫. —‫Esses homens são testemunhas! – disse, indicando com um gesto os seus guarda-costas.

Porém, curvando-se para o costureiro ajoelhado, abrandou a voz e disse, quase com doçura:

—Mas, não vou mandar prendê-lo, Sr. Edmond. Ao contrário – e o mafioso esboçou um sorriso irônico –, quero recompensá-lo pelo bem que fará à minha família, levando sua preta de volta para o Brasil. O mal que o idiota do meu sobrinho pretendia fazer aos Borguini, casando-se com ela, será evitado. Somos uma família nobre. Meu avô recebeu o título de Conde dos Estados Pontifícios conferido pelo próprio papa, na Arquibasílica de San Giovanni in Laterano, a primeira igreja da cristandade. Tê-la na família desacreditaria nosso título de nobreza e prejudicaria extensamente os nossos negócios. – Então elevou a voz e disse com aspereza:

—Saiam da Itália! O camareiro do hotel arrumou suas bagagens e mandei despachá-las em seu vôo para Zuric.

O guarda-costa que o subjugara deixou-o livre. Outro mafiosos estendeu para o costureiro os tickets das malas, mas como Edmond continuasse ajoelhado, petrificado, meteu-as no bolso superior do seu casaco. O Conde arrematou:

—Preste muita atenção no que agora vou lhe dizer, senhor Edmond. O senhor está expulso do nosso projeto, e se falar dele com alguém, mando matá-lo onde quer que esteja.

Ditas essas palavras, o Conde deu as costas ao casal e se afastou seguido dos capangas.
Flor Azul ajudou o companheiro, pálido e trêmulo, a se erguer.

O susto e o medo foram tão intensos que o incidente provocou um efeito psicológico impensável na personalidade de Saint Edmond. Ele sentiu o abalo da passagem entre dois mundos, e quando se deu conta de que estava em um outro universo de valores, abraçou, chorando, Flor Azul, coração contra coração, ambos disparados. Beijou-a! O grupo de espectadores aplaudiu, depois de captarem o longo beijo em fotos e vídeos de seus celulares.

Com Edmond abraçado à modelo, o casal seguiu para o embarque. Naquele mesmo dia Edmond teve certeza de que a amava e a desejava!

Rubem Queiroz Cobra

Página lançada em 16-10-2014.

 

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional.
Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Q. - O Rosto Transgênico. COBRA PAGES: www.cobra.pages.nom.br, Internet, Brasília, 2003.
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