Contos: Não Somos Responsáveis por nosso Primeiro Sentimento

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NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS POR NOSSO
PRIMEIRO SENTIMENTO - I

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Retiro de São Francisco, circa 1970
 

Depois de me hospedar uma vez no então célebre Hotel Bahia, nas vezes seguintes me achei tão bem, ou melhor, hospedado na Casa de Retiro São Francisco, em Brotas(*), principalmente por uma particularidade: diferentemente do que acontece nos hotéis de maior rotatividade, na Casa os hóspedes se faziam amigos. Vindo da cidade baixa, subi a Avenida Dom João VI até a Rua Valdemar Falcão, pouco adiante do Hospital. - Dobrada a esquina, cheguei ao meu destino.As freiras eram poucas; usavam hábito de saias brancas, longas e amplas, com um lenço branco que cobria os cabelos e caía sobre as costas.

Um pequeno incidente, ao chegar naquele escurecer da tarde, gravou em minha memória o reencontro com irmã Ana Maria do Menino Jesus, a diretora, uma freira branca, magra e alta, e a irmã Corina, morena, baixa e forte, a tesoureira da casa: as luzes subitamente se apagaram. No escuro da pequena sala da portaria, não pude pegar a chave que a irmã Corina me estendia.

Naquele momento, dois bem-humorados hóspedes que entravam no grande hall às escuras, desinibidos com a escuridão, fizeram ressoar pela casa um canto litúrgico gregoriano de rara beleza.

Suas vozes autenticamente masculinas, graves e potentes, contagiaram as duas freiras e também elas, por um instante, se libertaram de sua própria inibição, para expressarem com risos e chistes femininos o seu excitamento. Mas, em poucos minutos, os cantos e os risos foram cortados de um golpe, pelo retorno da luz.

Os dois cantores eram o bispo auxiliar americano e o seu secretário, que residiam na Casa de Retiro, informou a irmã Ana Maria no seu tom recomposto de irmã superiora, voltando a folhear alguns papéis sobre a escrivaninha. A irmã Corina, com um restinho de sorriso e claramente embaraçada, revolvia os escaninhos a procurar inconscientemente a chave que já estava em sua mão. É curioso – pensei – como um instante entre cortinas de escuridão pode fazer vibrar em nós um sentimento virgem, como expectativa de uma surpresa que não se realiza. Ora, uma vez que nosso coração dispara por si mesmo, ninguém tem culpa de seu primeiro sentimento! – peguei a chave e segui para o meu quarto. – A verdadeira questão moral está em como reagimos a esse primeiro impacto em nossa alma – concluí para mim mesmo.

*

A empresa telefônica ocupava um pequeno edifício moderno e recém inaugurado – um ambiente agressivamente iluminado por luzes fluorescentes –, naquela noite, cheio, quente e abafado. Cruzava o ar todo tipo de conversa, algumas quase gritadas. Turistas brancos falavam nas cabines, mantendo as estreitas portinholas abertas por causa do calor, a maioria dando conta a parentes no Rio ou em São Paulo de como iam passando suas férias na Bahia. Uma mulher preta, miúda, mas bem vestida, suplicava notícias ao namorado em dificultosa ligação para um navio sueco nas trevas do Atlântico.

Depois do telefonema, foi um alívio caminhar para o carro pela calçada do jardim do Campo da Pólvora, rumo à Faculdade de Direito, respirando o ar fresco da noite.

Pouco adiante, uma mulata dormia em um banco, sob a luz de um poste. Deitada de lado, abraçava contra o peito, como somente uma mãe abraçaria, um menino que também dormia na mesma posição que ela. A brisa que espalhava o perfume de flores noturnas havia soprado a pequena e leve saia branca da mulher, descobrindo-lhe as nádegas escuras. Ela não tinha o corpo esquálido de uma mendiga e certamente também não era uma prostituta nem uma alcoólatra.

A plácida nudez da mulher era um apelo quase irresistível aos sentidos. No entanto, me afastei, irresoluto, confuso; era a nudez obviamente involuntária e não consentida de uma mãe que protegia o filho em seu regaço, o que feria à consciência contemplar. Ou seria, na verdade, não a minha consciência, mas a fuga covarde das minhas pernas, pelo temor de ser flagrado naquela contemplação? Qualquer passante, por menos respeitável que fosse, teria autoridade moral para condenar e castigar minha curiosidade. Quando o temor existe, ele é um triste sinal de que não teríamos, por dignidade pessoal, contenção igual à que o medo nos despertou.

*

Na manhã seguinte, conforme combinado de véspera em seu escritório, Grimaldi estacionou sua limusine preta no jardim da Casa de Retiro. Minha ida a Salvador relacionava-se à aprovação de um empréstimo para a cerâmica que ele desejava montar no Centro Industrial de Aratu.

Alguns detalhes daquela manhã ainda são nítidos em minha memória. Seguimos em seu enorme carro com ar condicionado (ainda uma raridade naqueles anos). Havia canaviais de um e outro lado da estrada. A certa altura, Grimaldi deteve o veículo. Olhando na mesma direção que ele, vi um grupo de negros reunidos em uma clareira frente a um homem que discursava. Os homens vestiam trajes escuros formais, e as negras usavam chapéus e vestidos elegantes. Várias limusines pretas, iguais à de Grimaldi, brilhavam ao sol, estacionadas a esmo no canavial, em volta da clareira.

― É o governador – disse Grimaldi com certo brilho nos olhos e um acento de alegre confiança na voz. E acrescentou lacônico, com uma ponta de orgulho: – A pedra fundamental de uma nova fábrica!

O governo revolucionário estimulava fortemente o desenvolvimento industrial e havia determinado a instalação de distritos industriais junto a todas as cidades mais populosas do país, principalmente às capitais.

Poucos quilômetros adiante, chegamos ao seu lote. Havia sinais de uma excelente matéria-prima.

― É o mesmo material que usa o Cícero Simões – disse Grimaldi. – Sabe quem é? Está no ramo há muito tempo e também é o dono do jornal A Tarde.

Realmente a Cerâmica Senhor do Bonfim, do bom e simpático professor Cícero Simões de Freitas, utilizava uma ótima argila, de boa plasticidade e pequena retração no cozimento, na aparência a mesma do terreno em que pisávamos agora. Várias outras fábricas usavam a mesma argila, como a Cerâmica Esmeralda e a Poty, que eu havia visitado em outras ocasiões. O terreno que Grimaldi me mostrava era deveras valioso.

Muito branco, de provável ascendência italiana, Grimaldi era uma pessoa objetiva e dinâmica, como muitos novos empreendedores que surgiam então, bafejados pelo pródigo positivismo do governo militar. Sua objetividade, ao expor seus planos, conquistou minha confiança. No caminho de volta convidou-me para ficar até o fim da semana na cidade; gostaria de me levar em sua lancha para um passeio a ver as ilhas da baía. Convidou-me também para jantar aquela noite em um restaurante na praia. Realmente, parecia que ele tinha como óbvio contando ele com o apoio do governo para o seu projeto e com o melhor barro da região que eu não devia me preocupar mais com o meu relatório e sim aproveitar a viagem para usufruir as belezas de Salvador. Porém, declinei do convite, com certo orgulho em manter meu profissionalismo e poder agir com independência de qualquer obséquio ou favor.

Após o almoço na Casa de Retiro, rumei em meu carro para o escritório técnico do Centro Industrial, na Avenida Centenário. No mapa que o engenheiro Antônio Muniz abriu sobre a mesa, o lote doado a Grimaldi não era aquele que ele havia me mostrado e, confrontado com o mapa geológico do distrito, não teria a matéria-prima indispensável ao projeto.

Rubem Queiroz Cobra

(*) À época destas lembranças, a Casa de Retiro tinha dois prédios com térreo e primeiro andar, um frente ao outro, e entre eles um espaçoso jardim em suave declive. No prédio principal, na parte mais alta do terreno, as religiosas hospedavam pessoas recomendadas que visitassem Salvador. No outro prédio eram recebidos hóspedes para repouso e recuperação de saúde. Esse segundo edifício tinha um belo salão de jogos como anexo no seu extremo esquerdo, e no extremo direito, próximo do portão de entrada do jardim, uma casa que era um pequeno ambulatório. À esquerda do portão, alongava-se um telheiro sustentado por arcos em alvenaria com incrustações de pedras, que abrigava os carros dos hóspedes e visitantes.
 

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Este conto está no livro de R. Q. Cobra AS FILHAS ADOTIVAS. Edições COBRA PAGES, Brasília, 2005, 136 p., ISBN 85 905519-1-1. Veja, por favor, a página Livros do Autor.

 

Página lançada em 20/11/2002

 

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional.
Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Queiroz - Não somos responsáveis por nosso primeiro sentimento.
Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2002.
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)
 

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