Contos: Não Somos Responsáveis por Nosso Primeiro Sentimento

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NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS POR NOSSO
PRIMEIRO SENTIMENTO - III

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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 A atitude da pretinha me surpreendeu e boa parte da minha segurança e frieza desapareceu. Agora sentia certa premência em abordá-la, em explorar aquela intimidade que se estabelecera já como um compromisso. Desci quando desceu.

O ônibus, com suas janelas iluminadas, afastou-se com sua carga de pretos e mulatos, lento e pesado, em longos roncos sucessivos, e logo tudo ficou em silêncio. Ninguém passava por ali, apesar de não ser assim tão tarde.

Com sapatos baixos, ela caminhava de modo muito natural e macio, com um leve gingar inocente e lascivo, devagar, os olhos baixos como a perpetuar seu assentimento. Tomou por uma rua transversal, de casas comerciais com portas de madeira, entremeadas de pequenos chalés, e iluminada por longa carreira de postes de luz que se apequenavam com a distância. Deixei-a afastar-se um pouco, como uma estratégia para me arrefecer e refletir.

Agora não era como na noite anterior, no Campo da Pólvora: não havia medo. No entanto, meus sentimentos pareciam desajustados do meu Eu. O certo – pensei – é que eu não estivesse ali, a ponto de abordar uma “pretinha” naquela rua de um subúrbio pobre. Se houvesse aceitado o convite de Grimaldi, estaria com ele, e provavelmente com sócios seus, a jantar e discutir seu projeto em algum restaurante elegante, na Barra.

Então me contive. Mas minha desistência teve um motivo imperdoável: deveu-se puramente à soberba, à consciência da minha condição social e de quanto minha auto-estima estaria depois prejudicada, se desse aquele passo. O narcisismo, essa espécie de intimidade indecente que a alma busca consigo própria, foi o que me deteve. Como na parábola do sepulcro caiado, por orgulho evitar um pecado pode ser pecado maior que o pecado evitado – refleti depois.

O modesto chalé, onde o vulto sedutor havia entrado, tinha sobre o muro da frente um patamar elevado, em parte iluminado pela lâmpada da rua. Ela voltou a aparecer ali, acompanhada de uma menina, possivelmente uma irmã menor, e ambas se curvaram sobre a mureta buscando me ver. Olharam apenas brevemente: a garotinha puxou a irmã – como se fosse a sua consciência moral, ou porque zombasse da minha indecisão –, e ambas correram com vivacidade e se fecharam na casa. Ficou apenas a rua deserta, a luz dos postes criando sombras enigmáticas nas fachadas amareladas das casas, trancadas e silenciosas.

Restava-me fazer o caminho de volta. Retornei ao ponto do ônibus.

*

Eu não queria dar a noite por terminada. Havia bares semidesertos no centro, mas não me atraíram. Na Praça Castro Alves alguns pretos notívagos urinavam em roda, à volta do monumento ao poeta. Peguei meu carro e segui devagar pela Barra onde o movimento também era inexistente. Lembrei-me do livro que tinha comprado e senti um súbito gosto em retornar ao Retiro para lê-lo.

No conforto do apartamento, li noite adentro o romance de Jorge Amado. Sendo ele, então, um porta-voz da cultura, o que ele dizia das baianas seria para se acreditar. Cada personagem mulher do seu romance, xodó dos melancólicos coronéis do cacau que punham tocaia por conta de terras e impunham a lei da obediência nas alcovas e bordéis, me recordava a pretinha daquela noite, sua aparência ingênua, suas formas sensuais, o seu olhar ao mesmo tempo submisso, interrogativo, e imperativo.

Era com esse amor sem leis, terno e convidativo, que as pretas retinham, naquelas ladeiras de igrejas, quiosques e pardieiros, a muitos estrangeiros desavisados. Sua cor era um imã que atraía para a liberdade e fazia desaparecer o pecado. Elas não impediriam seus marinheiros brancos de se fazerem ao mar azul quando quisessem; nem eles, os coitados, acreditavam em feitiço capaz de retê-los, ou de fazê-los voltar àquele país exótico. No entanto, uniões improvisadas, de um primeiro impulso, e que deveriam ser efêmeras, duravam para sempre.

*

Grimaldi não compareceu a um encontro marcado por telefone. Sem a definição de qual o verdadeiro local de sua reserva mineral, eu nada podia fazer. Deixei no seu escritório uma mensagem informando-o de que a aprovação do seu financiamento dependeria da apresentação de provas da posse efetiva de matéria-prima, e do direito de lavra mineral concedido pelo governo.

Parti após o almoço. Quando alcancei Neópolis, era o final da tarde. Passei o rio São Francisco, e por não desejar dirigir à noite até o Recife, me detive em Penedo, cidade sempre acolhedora, fundada pelo célebre Duarte Coelho e onde os holandeses construíram um forte.

O Grande Hotel de Penedo era excepcional para aquela região, com instalações e serviços próprios dos hotéis de classe das Capitais. Seu edifício levantava-se como um prédio largo e sólido, frente de vidro e cimento, linhas modernas, numa transversal da ladeira que descia para o cais. Em toda oportunidade que se apresentava, sempre tinha muito prazer em pernoitar ali. Possuía um excelente restaurante, onde o hóspede era atendido à la carte, por um maître auxiliado por garçons corretamente vestidos e instruídos. Das amplas vidraças em cada apartamento de frente, se podia ver enorme extensão de paisagem, toda ela dominada pela vastidão do rio.

Naquela noite havia um luar claríssimo. Metido em meu pijama, permaneci por algum tempo no escuro, frente à vidraça do janelão, a contemplar aquele cenário noturno magnífico. Aos meus pés tinha os telhados do casario colonial, ladeira abaixo, até a praça do ancoradouro. Sobressaíam ao luar a cobertura e as duas torres da Igreja de Nossa Senhora da Corrente e o telhado e a fachada de sete portas térreas e sete sacadas superiores da casa dos Lemos, a montante da atracação das balsas. Essa antiga mansão era também chamada Paço Imperial, por ter, muitas décadas atrás, agasalhado a família do imperador Pedro II, em sua visita à cidade.

Contrário à correnteza, lentamente deslizando nas águas negras com cintilações do luar, passava um veleiro, com velas triangulares brancas como a lua. Distante, além da ilha fronteira, além da fímbria escura da outra margem, além do minúsculo Sergipe, estava a Bahia, que para mim eram duas, uma o avesso da outra, uma pagã outra cristã. A Bahia litorânea, das úmidas florestas de cacau, do apetite, dos sabores, das artes e das paixões, passadiço de intelectuais vadios; terra de um povo sem individualismo de raízes, com um orgulho humilde da origem comum em uma África desaparecida; terra dos Orixás... E do outro lado da longa estrada de transportar pobreza que segue para o Sul está a Bahia interna, das chapadas e das serras, da seca, do garimpo, da fome e da emigração... e da vida árdua dos padres da Missão! Essas duas partes criam no forasteiro um primeiro sentimento de luxúria que um segundo, de angustia, amarga e constrange.

Mas, tudo isto já faz muito tempo!

Rubem Queiroz Cobra
 

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Este conto está no livro de R. Q. Cobra AS FILHAS ADOTIVAS. Edições COBRA PAGES, Brasília, 2005, 136 p., ISBN 85 905519-1-1. Veja, por favor, a página Livros do Autor.

 

Página lançada em 20/11/2002

 

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional.
Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Queiroz - Não somos responsáveis por nosso primeiro sentimento.
Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2002.
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)
 

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