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NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS POR NOSSO
PRIMEIRO SENTIMENTO - II

Página escrita por
Rubem Queiroz Cobra
(Site original: www.cobra.pages.nom.br)

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Não escondi do engenheiro a minha decepção. Se somos enganados, não somos totalmente culpados disso – pensei. Nosso primeiro sentimento é o de confiança em nosso semelhante, mas a relação humana é essencialmente predatória, e por isso aprendemos a ser cautelosos, e assim a confiança natural e espontânea tende a desaparecer de nossas vidas.

Embora esse pensamento me ocorresse, eu estava certo da lisura de Grimaldi, e de que o engenheiro, sim, é que provavelmente estava desinformado de gestões havidas a nível governamental. Tentei imediatamente falar por telefone com o empresário sobre aquela divergência, mas ele não estava mais no escritório. Lamentei haver recusado o seu convite para jantar, pois o encontro teria permitido esclarecermos a questão naquela noite mesma.

*

Tomei o rumo da praia. Acontecia no Rio Vermelho a festa anual de Iemanjá, a Rainha do Mar, a Mãe d'Água, a mãe dos orixás, simbolizada numa sereia, venerada pelos pescadores como sua protetora junto com Nossa Senhora de Santana. No escritório local da minha Agência, o Sérgio, um entusiasta da cultura e do artesanato da Bahia, havia me falado dessa festa. Ele também sabia onde se podia adquirir tapetes de Genaro, nos quais me achava muito interessado.

O largo da capela de Santana era o centro de grande ajuntamento de gente. Homens jovens e maduros, negros e mulatos, batiam tambores e sopravam trombones acompanhando um grupo que cantava em uníssono uma letra pornográfica (Advertência do Sérgio: – “A maioria transforma a festa sacra em carnaval profano”). Havia barracas de vendedores de flores, de artigos religiosos, de cerveja e churrasquinhos. Negras com seus turbantes, balangandãs de prata, pulseiras coloridas e largas saias brancas enfunadas com anáguas – já um tanto amarfanhadas naquele fim de tarde –, sentavam-se atrás de seus tabuleiros de quitutes servidos quentes. Das frigideiras pretas sobre fogareiros acesos no chão subia o cheiro de tempero e frituras, e muita fumaça que a brisa fazia passear, esgarçada, sobre a multidão. Na praia, um indivíduo recebia espíritos e dançava em convulsões em meio a uma roda de curiosos.

Turistas brancos caminhavam a observar e fotografar, vestidos pobremente para se confundirem com o povo local; mas não enganaram a alguns mulatos magros e ágeis, que seguiam nervosos os seus passos, à espera da oportunidade de lhes surrupiar a carteira ou de se fazerem salvadores para receberem alguma recompensa.

No mar flutuavam, na crista das ondas, ramos verdes e corbeilles de flores brancas ofertadas à deusa. A barca, que levara as autoridades e os sisudos chefes religiosos até o mar alto, podia ser vista de volta sem as coroas lançadas em águas distantes (“Há uma minoria que tem fé e faz a festa com seriedade”, outro dito do Sérgio).

Na verdade, todo aquele ruído, a multidão, a mistura de fé e paganismo, a mestiçagem promíscua de culturas e de forças religiosas antagônicas, tudo permeado de marginalidade

 

e oportunismo, era uma festa sem anfitriões, um terreiro sem dono, um caos de sensualismo. Eu me sentia uma coisa propositadamente excluída e ignorada na gigantesca manifestação.

Prossegui até o aeroporto. Na minúscula livraria junto à entrada do salão de embarque e desembarque de passageiros comprei um livro de Jorge Amado e, no bar que ficava ao fundo, fiz um lanche antes de retornar à cidade.

*

Já havia escurecido. No Centro, encerrado o comércio, as pessoas fluíam pelas ruas e travessas mal iluminadas, em busca do transporte coletivo. Era aquela variedade de tipos africanos e mestiços documentada por Pierre Berger, o fotógrafo francês que havia adotado a Bahia como pátria e vivia em Salvador, na Rua do Corrupio, na Vila América, Engenho Velho de Brotasum endereço que eu esperava ainda visitar.

As fotos de Berger me lembravam as negras de corpo esbelto, grandes traseiros e peitos nus, e os pigmeus caçadores, das fotos em brilhante papel couchê, de antigos livros franceses sobre a África. Eu os folheava de respiração suspensa, em minha adolescência, na biblioteca administrada por minha tia Alice. Talvez fosse por isso que as cenas em preto e branco de Berger me pareciam um retrato mais exato da Bahia que as fantasias banais de Jorge Amado ou os rabiscos em verde e vermelho de Carybé.

O ruído dos passos apressados dos transeuntes nas calçadas, ou sobre as pedras cinzentas e úmidas da rua, era adiante abafado pela música, pelas vozes e as gargalhadas que vinham do interior de um bar ou café, quando não era tudo superado pelo ronco selvagem de ônibus lotados, fumarentos e enegrecidos de fuligem.

Chamou minha atenção uma pretinha que seguia pelo outro lado da rua, porque cruzamos olhares casualmente. Ela caminhava com calma, em contraste com a pressa geral do povo. Usava um vestido branco com rendas e laços, farto e decotado, e cabelos presos em coque acima de uma nuca alongada. Tinha lábios finos e um nariz delicado, raros de se ver na gente de sua cor. Súbito, desapareceu pelo vão escuro da escada de um daqueles prédios velhos e pardos, que oprimiam as ruas estreitas. Aquele em que entrou tinha em baixo um amplo bar com mesinhas de tampo de mármore branco desgastado e cadeiras de metal enferrujado, e na entrada ao lado o nome quase ilegível de um sindicato em uma placa de latão acobreado.

Da calçada oposta, pude ver a pretinha ressurgir no andar de cima, um salão iluminado por muitas lâmpadas, com portas amplas escancaradas para pequenas sacadas de grades de ferro, rentes à desordenada fiação elétrica dos postes da rua. Agora a via de costas, sentada diante de um preto que lhe passava instruções. Foi uma entrevista breve. Levantou-se logo, e a perdi de vista por um instante, até reaparecer na rua.

Ao atravessar para o meu lado, a pretinha cruzou comigo um olhar discreto, agora por certo nada casual. Acompanhei-a, a certa distância, descendo a rua movimentada e barulhenta, até uma baixada escura pouco adiante, onde se viam em fila, na calçada, os vultos de pessoas que aguardavam o ônibus, imóveis e silenciosas. Não pretendia abordá-la. Mas, por ter sido objeto de seu olhar furtivo, aparentemente ingênuo e inconseqüente, sentia uma forte curiosidade e uma atração sobre a qual acreditava ter inteiro domínio.

Restou, por coincidência, um único lugar no ônibus, justamente ao seu lado. Sentar ali foi obrigatório. Porém, com certeza, todos que disfarçadamente me observavam não acreditariam em acaso, numa terra de orixás malandros e dos espíritos matreiros do candomblé. Ela não me olhou mais; porém, aconchegou-se a mim comprimindo seu braço nu contra o meu, fortemente, os seios escuros e túrgidos arfando de excitação sob o laço de fita branca do decote.

Muitos erram por pensar que têm sempre o domínio das situações e que, inclusive, podem gozar uma doce tentação, sem resvalar para o pecado. Porém, a realidade pode ter mais força que o esperado.

Rubem Queiroz Cobra

 

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Este conto está no livro de R. Q. Cobra AS FILHAS ADOTIVAS. Edições COBRA PAGES, Brasília, 2005, 136 p., ISBN 85 905519-1-1. Veja, por favor, a página Livros do Autor.

Página lançada em 20/11/2002

Direitos reservados. Texto impresso original depositado na Biblioteca Nacional.
Para citar este texto da Internet:
Cobra, Rubem Queiroz - Não somos responsáveis por nosso primeiro sentimento.
Site www.cobra.pages.nom.br, INTERNET, Brasília, 2002.
("www.geocities.com/cobra_pages" é "Mirror Site" de COBRA.PAGES)
 

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